Pular a barra do clicRBS e ir direto para o cabeçalho.
clicRBS
Nova busca - outros

Posts do dia 2 outubro 2010

Ganância é bom?

02 de outubro de 2010 0

Distrito financeiro: Extremo Sul de Manhattan antes dos atentados ao World Trade Center

Quando o filme Wall Street _ O Dinheiro Nunca Dorme enfim entrou em cartaz, depois de tanta badalação, fiquei na expectativa. Motivada pelo marcante Wall Street _ Poder e Cobiça, clássico dos anos 80, essa era a minha opção de cinema para o final de semana.

Minha _ e de milhares de portoalegrenses _ que, assim como eu, aguardavam pelo retorno de Michael Douglas às telas no papel do ambicioso Gordon Gekko. Personagem responsável pela conquista do Oscar de Melhor Ator em 1987.

Na verdade, minha ida ao cinema foi muito mais do que esse simples reencontro. Foi uma sessão, digamos assim, nostálgica, para não dizer impactante. Após 23 anos, a continuação do filme bateu diferente. Num misto de ficção e realidade, a realidade ecoou mais forte para quem viveu e acompanhou de perto, no furor da redação, o recente caos da crise econômica norte-americana _ e mundial _ em 2008.

Com certeza, muitas das cenas mostradas pelo diretor Oliver Stone _ como as reuniões dos banqueiros e o FED _ já entraram para a história.

Agora, é claro, quero rever o primeiro Wall Street. Para minha sorte, meu colega Marçal saiu na frente e comprou o DVD que, obrigatoriamente, terá de ser repassado a muitos dos colegas da editoria de Economia. Já estou na fila.

Mas, nas entrelinhas do mercado econômico, seus jogos, poderes e riscos, deixo para o Marçal analisar com a devida propriedade de quem conhece bem o assunto.

Adriana Langon, editora de Campo & Lavoura do jornal Zero Hora

Nova York: cenas deslumbrantes da mertrópole na atual versão encantam público do começo ao fim

Durante os anos 70 e 80 em que trabalhei na filial brasileira da Eastman Kodak Company, uma das 30 empresas industriais do Dow Jones, o principal índice da Bolsa de Nova York (Nyse), ouvi reiteradas vezes que deveria ter ambição. Somente com ambição, muita ambição, repetiam até gerentes que nem inglês falavam e tampouco conheciam os EUA, poderia almejar mudança de Porto Alegre para São Paulo ou cobiçar transferência para Rochester, na matriz no estado norte-americano de Nova York.

Bem informado, sugeriam, também teria chance de chegar ao Kodak Theatre, em Los Angeles, no qual ocorre a premiação do Oscar. Em certa ocasião, todos chefes hierárquicos se juntaram na sala do diretor para me exigir ganância dentro da empresa. Resisti bem, mas, minutos depois, durante festa de Natal dos funcionários, informalmente, o gerente geral confessou que, na verdade, embora fossem meus superiores, considerava meus chefes diretos menos capazes técnica e profissionalmente do que eu. Respondi não entender tal situação, pois eles ocupavam posições relevantes e ganhavam muito mais.

Acabei ficando nove anos na Kodak até 1985, quando saí através de um inédito (10 anos antes do promovido pelo governo Brito no Estado) programa de demissão voluntária. Apenas três anos depois, ao assistir Wall Street – Poder e Cobiça, porém, entendi o verdadeiro sentido da ambição no modo de vida norte-americano. Responsável pela conferência dos estoques físico e contábel nos balanços semestrais da companhia, os quais acessava com exclusividade custos de produção e preços de venda, havia constatado, entretanto, que o percentual de lucro por unidade crescia aceleradamente de um período para outro apesar de a Kodak perder mercado, como para a japonesa Fuji, no segmento de filmes e revelações para amadores, mantendo intacto o monopólio em filmes, equipamentos e produtos gráficos e radiográficos para fotógrafos profissionais, cinema, televisão, jornais e hospitais.

Através dos personagens Gordon Gekko (Michael Douglas), um dos mais agressivos especuladores na busca do controle acionário de empresas, e Buddy Fox (Charlie Sheen), um corretor novato atrás do sucesso rápido, o diretor Oliver Stone monta extraordinário filme sobre um momento de apogeu em Wall Street. Como as ações estavam muito valorizadas, os investidores desencadearam um movimento de venda com objetivo de realizar lucro, o que gerou colapso no mercado, no qual havia mais interessados na venda do que na compra.

Sob alegação de que a “ganância é boa”, expressão usada e abusada pelo personagem no roteiro do filme, o diretor vai tramando o ambiente da época, que acabou se constituindo no princípio de grandes escândalos financeiros. Outras frases no discurso do especulador Gekko, no entanto, reforça o seu caráter manipulador: Eu não sou devastador de empresas. Sou um libertador. A ganância é benéfica. A ganância é certa, dá certo. A ganância enclarece, corta ao meio e captura a essência do espírito evolucionário. E as bobagens seguem: A ganância pela vida, pelo dinheiro, pelo amor, pelo saber. A ganância tem marcado a evolução ascendente da humanidade. Ou você faz um bom trabalho ou será eliminado.

É importante distinguir os termos especulação e manipulação. A especulação é saudável para o mercado, porque dá liquidez aos negócios. O especulador corre um risco enorme, enquanto todos acabam se favorecendo. Manipulação é outra coisa. É nociva, porque favorece apenas um ou poucos, enquanto a maior parte dos investidores vai na contramão. Nesse contexto, Gekko enfatiza a necessidade e o poder da informação, repetindo que, quem não está informado perde, que informação é liquidez. É o produto mais valioso do mercado, que ele não joga no escuro, joga para ganhar, e que só aventureiros profissionais sobrevivem, enquanto os demais são abatidos.

Acima de tudo, o personagem representado com maestria por Michael Douglas afirma que não se pode emocionar com as ações, porque elas prejudicam o raciocínio. Quem procede com emoção, não resiste à maré baixa do mercado. Para ele, o dinheiro não é ganho, apenas é transferido de um para outro, ressaltando que ter dinheiro e perder é pior do que nunca ter tido. Passados 23 anos do primeiro filme, Wall Street – O Dinheiro Nunca Dorme repete Nova York como cenário e David Byrne na trilha sonora, mas encontra uma cidade sem as torres gêmeas. Derrubados por atentados terroristas em 2001, os dois maiores prédios dos sete do World Trade Center (WTC) eram um marco no distrito financeiro de Manhattan.

Com imagens impressionantes de Nova York, a nova versão de Wall Street revela a globalização ou banalização de práticas de especulação e manipulação. Assim como produtos ou subprodutos ganham novas caras e novas denominações, os valores virtuais andam mais rápido de um lugar a outro no mundo, facilitando a ação de indivíduos que, em vez de ganhar a vida produzindo coisas, sobrevivem graças ao trabalho e ao capital alheios. Não à toa, proíbido legalmente de repatriar o dinheiro depositado em contas na Suíça, Gekko transfere os recursos para o Reino Unido, onde recomeça sua atuação financeira na City de Londres, da qual rapidamente vai estender tentâculos por todo o planeta e, num trajeto indireto e nem tão devagar, acaba voltando aos EUA.

Marçal Alves Leite, responsável pela coluna Mercado em Dia no jornal Zero Hora

Ficha técnica (resumida) dos dois filmes:

Wall Street – Poder e Cobiça, drama de Oliver Stone (EUA), de 1987 e 126 minutos, com Michael Douglas, Charlie Sheen, Daryl Hannah, Martin Sheen e Hal Holbrook

Wall Street – O Dinheiro Nunca Dorme, drama de Oliver Stone (EUA), de 2010 e 138 minutos, com Michael Douglas, Shia LaBeouf, Carey Mulligan, Frank Langella, Josh Brolin, Susan Sarandon e Charlie Sheen