
Não acreditamos que se exerçam modos de escrita diferentes, por isso devem ser escutadas com atençaõ as palavras da escritora Clarah Averbuck no Donna deste domingo, quando ela insiste que não é “blogueira”, é escritora. Tampouco a dita “escrita feminina” nos convence. Assim como não há uma escrita negra, latina, oriental. Há culturas diferentes, épocas diversas, mas o que vemos são invenções artísticas, que são feitas por mulheres, chineses, noruegeses, peruanos, gays, adolescentes, enfim, tipos tão variadas como o são os homens. Depois de que um achado artístico, um novo modo de escrever, de narrar, de filmar, ocorre, ele se derramará entre as outras culturas, ele se estenderá por outras épocas, ele será canibalisticamente devorado por muitos outros e de muitos lugares. Oswald teria gostado disso, Borges nunca duvidou.
A cada vez, escreve-se como se pode, como se consegue e conforme o tema nos toca. A idéia de que um blog nos exporia é falsa. Nem no divã, onde todos vão dispostos a desnudar-se, pois estão pagando para isso, as pessoas conseguem fazê-lo a a seu próprio contento! No máximo conseguimos um strip-tease, um desnudar-se estudado, rebolando entre cada peço, deixando-as cair estudadamente.
Expõe-se o que se consegue, o que se precisa, todo texto é um exercício de ficção, mesmo uma mensagem instantânea, contando que se está indo ao super-mercado, à cama ou ao banheiro, contém alguma literatura em seu interior a lhe maquiar as verdades. Não precisa ser alta literatura, mas sempre será um texto, não uma verdade.
Existe hoje uma paixão pela veracidade, pelo “reality”, na direta proporção de que sabemos como é fácil fingir, escamotear. Não sabemos nem se os corpos são de verdade, pois é impossivel desnudar-se das plásticas: o fingimento se interiorizou, por isso falamos tanto em realidade, porque estamos encharcados de ilusão.
Nossa estréia no modo “blog” que aqui se realiza é na prática uma pesquisa. Não pretendemos escrever textos diferentes, porque como dissemos, não acreditamos ser capazes disso, mas talvez o meio mude nossa mensagem, veremos...
Entre as suposições com as quais inauguramos este espaço e esta prática, aí vai uma hipótese: o Blog é um tipo de escrita que é em geral servida crua ou mal passada. É o exercício de uma angústia, de uma compulsão a comunicar-se, de uma brevidade. É a publicação de tudo o que teria ficado bem melhor se repousado em gavetas de carvalho, ou o que em vez de “send”, deveria ter recebido um “delete”. Eis-nos, no entanto, aqui. Não resistimos à tentação de sentir também esta forma de escrita, de conjugar-nos deste modo virtual e ver no que dá...
Para começar, devido à inexperiência, porque não recorrer a um amigo mais sábio no assunto? Mais sábio porque é um escritor de verdade (somos amadores, ensaistas, brincando com as letras sempre que a clínica nos permite), mais sábio porque é mais jovem e portanto nada estrangeiro ao meio. Com a palavra Fabricio Carpinejar:
“Blog traduz uma prova de resistência. Um big brother ao avesso dos gêneros literários. Ao invés de ser conhecido, corresponde a um mergulho adoidado no anonimato. Distinto da noção do senso comum de que se trata de um lugar para aparecer. O resultado final (a possível badalação de um endereço virtual) não expõe a realidade. Os exibidos foram antes tímidos, os extrovertidos foram antes introvertidos. É a mais dolorida experiência editorial. O mais severo teste vocacional. Uma ferramenta do diabo, capaz de sugar sua vida ou sua aspiração. (...)
Você pensou que aquilo seria a glória instantânea. Caprichou na redação, no humor e nas perspectivas singulares de captura do cotidiano. Mas o único que entra no site é você. Trinta vezes ao dia. Chega a esbarrar consigo entre tantos acessos e atualizações. Uma miragem. Cada texto é um quarto vago. O demo do reconhecimento insiste em tomar seu lugar. Procura contornar o drama. Manda um aviso de postagens para os amigos. Prepara uma festa-surpresa de aniversário, com o atrativo de que é o aniversariante quem a organiza. Continua sendo surpresa; nenhuma alma comparece. Daí manda um aviso de postagens para os desconhecidos, catando endereços aleatórios. Nada mais o separa de um SPAM. Recebe avisos ásperos: "não o conheço" ou "favor me excluir da lista". A humilhação não começou. O desespero o obriga a fazer atos impensáveis: entrar de computadores diversos para fazer com que o contador se mexa de alguma forma. Assim como um atacante chuta a bola para as redes alheio á marcação do impedimento. Para se livrar do azar. Ainda que esteja quebrando uma das regras básicas do jogo e leve um cartão amarelo. Não há nem juiz para lhe dar cartão amarelo.
Percebe que lançou um texto com um erro gravíssimo de português. Estava na rua quando lembrou a indecisão ortográfica, longe de qualquer terminal. Foi observando um outdoor. Corre para uma lan house, consome seu suspiro sem sentir o gosto, arruma e conclui que tampouco alguém reparou.
Decide escrever qualquer coisa que continuará sendo qualquer coisa. O isolamento do blog produz alucinações. O contador de visitas parece uma bomba-relógio: anda para trás.
Mas tortura é quando finalmente recebe um comentário. Alegria aflita para abrir a janela, quem será? quem será?, descobre que partiu do pai ou da mãe, solidário com sua desgraça. Não pode comemorar, agora intui que seu pai ou sua mãe conhecem o fracasso de sua rotina.
Sua personalidade passará a se dividir, e não multiplicar como desejava. Sede de laranjas. Laranjas! Sem pudor, cria pseudônimos para deixar comentários (o blog, pelo menos, obriga que seja seu próprio leitor). Diverte-se no sofrimento ao inventar formas de agradecimento pelos textos. Não economiza elogios ao estilo. Estará perto da internação quando se convence de que aqueles comentários não são seus e ainda responde aos e-mails falsos. Hora do soro! “
(excertos retirados de EPÍSTOLA AOS BLOGUEIROS)
Postado por Diana e Mário