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Posts de agosto 2008

momento colorado

30 de agosto de 2008 0

A JANELA É UMA PORTA ESCANCARADA
por Fabrício Carpinejar e Mário Corso

           
O estádio Beira-Rio é um aeroporto. Ou um terminal rodoviário, como a Editoria de Esportes avisou. O placar deveria informar os horários das conexões.  Ou, quem sabe, um SPA para recuperar a forma física na entressafra dos campeonatos estrangeiros.
            São cantadas as promessas do presidente, do diretor de futebol, dos próprios jogadores de que sequer um titular será vendido. Não têm firma reconhecida. Fernandão confessou que não sairia, e voou logo depois de suas palavras. O mesmo acontecerá com Nilmar, Alex e todos os que empregam a equipe como plataforma de embarque.
            Com o peso argentino baixo, servimos de entreporto dos hermanos para destinos mais distantes. Mal um jogador se destaca e é cogitado para seleção brasileira dos imigrantes. Nem precisa de uma temporada inteira para mostrar seu rendimento. Bastam noventa minutos e, no próximo jogo, será atordoado por interesses de clubes, especulações de seus passes, cocheira com empresários e distrações alheias ao lugar na tabela. Nossos filhos recém começaram a colecionar o álbum de figurinhas do Campeonato Brasileiro, e o plantel está antigo e defasado, com cinco jogadores negociados.
            A janela de contratações das equipes do exterior é uma porta escancarada. Uma verdadeira janela do desgosto. A fugacidade dos relacionamentos entrou de salto alto no gramado. Mudou a relação do torcedor com seu time de coração. Está difícil de namorar, muito menos casar. São os “ficantes” da bola. Um dia com um, outro dia com outro, descartada a relação estável. Falcão ou Pelé ou Sócrates ou Zico que passaram praticamente a vida inteira num único time são recordações dos bisavôs. Não existe mais alma monogâmica no futebol.
            Nossas sugestões para o novo momento:
            Torcedor colorado, não se apaixone, não se apegue a teu ídolo. Futebol hoje é coisa muito séria para se deixar levar pelas emoções. Não insista, são as realidades do mercado. Sonhe por jogadores esforçados, mas medianos, que ninguém deseja comprar. Melhor uma equipe de pernas-de-pau que fique do que uma de craques que passam. O que adianta casar com a Gisele Bündchen se ela vai embora durante a lua de mel.
            Dirigentes, troquem na sigla o C por A, ficaria Internacional S.A. Fica mais direto, mais verdadeiro. E abram o capital para sócios investidores, queremos ações ao portador para acompanhar seu ritmo na bolsa, já que no campo…

Postado por Mário Corso

Sem medo das fraldas

27 de agosto de 2008 2

mead e os arapesh

  1.  Passando por Guarulhos me deparei com um trocador de fraldas no banheiro masculino. Estava alí, fechado contra a parede, e mesmo assim, recolhido, destoava de tudo e de todos. Cheguei a pensar que errara de banheiro.
     Duvido que esteja sendo muito usado, mas sua presença já é um fato. Hoje é possível encontrar um homem viajando com um bebê. Nas gerações anteriores, todas e desde sempre, bebês sempre foram escoltados por algum ser feminino. Tanto fazia, mãe, babá, vó, mas nunca era deixado só, abandonado aos cuidados dum homem. É como se não houvesse preparo no homem para o desafio extraordinário de cuidar dum bebê.
     Tenho a honra de pertencer à primeira geração (digamos de uma forma mais massiva, afinal, sempre houveram precursores) dos homens que não se assustam com fraldas e bebês. Confesso que nunca fui um voluntário das funções típicas da maternagem, digamos que sempre fui um bom escudeiro, porém nunca recuei quando as circunstâncias me solicitavam, e acredito que meu desempenho em nada deixava a desejar ao que teria sido feito por uma “expert” do sexo feminino.
     Margareth Mead estudando um povo da Nova Guiné, os Arapesh, verificou que entre eles os homens cuidavam das crianças. Perguntou por que e recebeu a resposta óbvia, ora, disseram eles, todos sabem que os homnes são melhores para cuidar das crianças…Como se vê, hábitos culturais, como gostos, cada um cada um.
     Mas foi um encontro grato, um bom sinal antropológico dos novos tempos. Sempre achei que ganhamos todos com essa mudança, os homens se aproximam de seus filhos, e principalmente, conseguem ter a idéia do que é ser mãe e o peso que isso pode ser.

Postado por mario corso

Diane, por Diana

25 de agosto de 2008 0

o olhar de uma eterna estranha

           

Belas e Feras

           

 

           

            Tenho uma cabeleireira muito especial, Paula Ferrary. Foi ela que me apresentou a Diane Arbus, cujas fotografias misturam-se às Vogues em seu estúdio no Bom fim.

            Diane Arbus foi uma fotógrafa norte-americana, representante da geração das filhas das baby-boomers. Nascida em 1923 e morta em 1971, tendo sua vida adulta transcorrido nos anos 50, através de seu olhar compreendemos muito da inquietação que toma as mulheres desgarradas dos papéis tradicionais. Sua vida é narrada com grandes liberdades ficcionais em “A Pele”, belo filme ao qual me dediquei neste fim de semana. Lá está a mesma Nicole Kidman, que quatro anos antes já havia desempenhado o mesmo papel de mulher açoitada pelos fantasmas de sua própria criatividade, interpretando Virgínia Wolf, em “As Horas”.

            No filme, a personagem por quem ela se apaixona, um homem peludo, extremamente evocativo da Fera dos contos de fada, revela à Bela Diane que ela é que é verdadeiramente estranha, freak, como seus retratados. Talvez seja como sente-se toda mulher marginal ao seu script materno-matrimonial. A Bela dos contos vai ao castelo do monstro para descobrir-se capaz de amar além das aparências, mas as aparências que devem ser superadas, em verdade, não são as do amado, são as próprias, ela é que precisa transformar-se para viver um grande amor.

O caso das mulheres como Diane e Virgínia, unidas na ficção pela mesma atriz, leva-nos a um novo território, onde descobrimos que o amor de desafia as mulheres é o de deixar-se criar para além da procriação. Em primeiro lugar isso faz de cada mulher um ser estranho e sinistro como os retratados por essa fotógrafa. Em segundo lugar, parece ser um fardo tão difícil de carregar que levou ambas a desistir do esforço de viver. Espero que esteja ficando mais fácil, chego a acreditar que sim…

           

Postado por diana corso

JOGOS MORTAIS

20 de agosto de 2008 0

a morte sempre nos acha, não precisamos procurá-la

 

            Estreado em 2004, o filme de terror, suspense, mal estar, estranhamento e inquietação chamado no Brasil de Jogos Mortais (Saw, direção James Wan), deu origem a várias seqüências. Já são cinco, uma por ano, estreando sempre no Halloween e angariando uma legião de jovens fãs. É uma trama aberta, um esquema que pode ser repetido com várias personagens, é um jogo.

            Jigsaw, o vilão-jogador, usa sua inteligência para criar armadilhas macabras, máquinas de tortura física e psicológica, que só soltarão seus prisioneiros caso eles façam o que se lhes pede num prazo exíguo. As vítimas são gente que de alguma forma tratou a vida com leviandade e agora está sendo testada para acordar para o valor que ela tem. Para escapar será necessária uma atitude extrema, como mutilar-se ou matar alguém.

            Esse justiceiro psicológico tem seus dias contados em função de um tumor e por isso não admite que se subestime a morte. Cria situações similares a um campo de batalha: onde cabe aos soldados matar ou morrer e eles precisam mostrar o sangue frio resultante do risco e do sofrimento. Jogos Mortais é uma guerra compacta e particular.

            Algumas pessoas são tão ingratas por estarem vivas, mas não você… não mais! Essa é a mensagem de Jigsaw às suas vítimas. Mas, como não fomos pegos por ele, ainda, nós esquecemos continuamente disso. Uma forma de lembrar é assistir a filmes como esse, ou de guerra, dramas sobre doentes terminais, histórias de crimes e aventuras radicais. São tramas para lembrar da finitude, do sofrimento, contrastando com nossa vida pacata. Facilmente nos anestesiamos frente à morte, fazemos isso quando somos jovens e acreditamos que a vida é um dom infinito, enquanto fumamos, quando dirigimos bêbados.

            A lei de tolerância zero ao consumo de álcool na direção não tirou de ninguém o direito de embriagar-se, somente limitou a possibilidade de transformar o carro em uma arma. Depois disso, a cada dia 50 pessoas deixam de morrer e evita-se que 120 fiquem com alguma seqüela, conforme o presidente da Associação Brasileira de Medicina de Tráfego. São números impressionantes, que no mínimo nos deixam pensando que o valor da vida é algo do qual nunca estamos totalmente convencidos. Infelizmente, a morte não cessa de fazer conosco os jogos mórbidos de Jigsaw, já que a doença e a fatalidade não cessam de nos surpreender. A lei minimizou um dos fatores que torna o trânsito uma guerra, o que será que vamos inventar agora para reafirmar nossa leviandade?

 

 

Postado por Diana Corso

Nós que amavamos tanto a revolução

16 de agosto de 2008 4

É possível gostar de um filme antes de ver?
É arriscado, mas um comentário de uma de uma jovem amiga sobre sua identificação com o filme é tão divertido que ganhou minha simpatia antecipada.
O Filme é: A Culpa é Do Fidel. Narra sob a ótica duma menina as peripécias dos seus pais politizados. Embora eu estaja mais a beira da geração satirizada, provavelmente minhas filhas vão fazer comentários semelhantes. E o melhor é que ela faz uma costura com outros filmes para refletir sobre  o uso e a presença de crianças no cinema.
Mas vamos ao comentários de Luana Chneiderman de Almeida: (mais no  http://opensadorselvagem.org/blog/diariodalulu/)

Tudo isso porque fui ver o filme A culpa é do Fidel.
O trailer é sensacional ( ok… eu continuo acreditando em trailers…) e a idéia, ótima:

Uma garotinha francesa, feliz e burguesa, vê sua vida progressivamente ser arruinada à medida que os pais se politizam, viram comunistas e envolvem-se com as políticas da década de sesseta, setenta. Logo ela passa a ganhar de presente roupas estranhas e coloridas, bordados de flores, gorros peruanos. Logo ela perde sua babá querida, exilada cubana, e passa a ser cuidada por babás esquisitas, exiladas de países como o Vietnam, China ou Grécia, que lhe servem comidas estranhas com ingredientes exóticos e ignoram o bom e velho pain au chocolat. Pior: ela muda-se para uma casa menor que logo é invadida por homens barbudos que não param de fumar cigarros esquisitos, é tirada da aula de catecismo, e logo passa a ter vergonha de levar suas amiguinhas para dormir em casa.

Fui ver, porque afinal tem a ver também com a história da minha vida. Estudei numa escola alternativa onde as meninas chamavam-se Inaê, Erecê, Ialê… ( sempre confundia as três) , e os meninos: Caê, Cauã, Tom e Gil. Havia até uma Luz Morena. Juro. Chamar Luana era tipo normal.

Fui a comícios quando pequena, fiz muita boca de urna quando criancinha, lembro com emoção do povo reunido na minha casa, se preparando para ir ao comício das diretas já, tinha – e tenho – medo de polícia. Lembro, também com emoção, quando minha mãe foi votar pela primeira vez e me levou junto, e me mostrou o que era o voto e a democracia. Meus pais tinham amigos torturados, exilados, desaparecidos. Tenho um primo querido que nasceu no Chile e cresceu no exílio, um tio que foi procurado vivo ou morto. Meu avô, que ensinava russo na Universidade, foi preso várias vezes. Cresci em meio a discussões políticas, cantei muita música revolucinária, aprendia lições de marxismo e socialismo, noções de igualdade e luta, usava sainhas indianas desde pequena, e burguês para mim era uma espécie de xingamento bem sujo. Todos, a minha volta, eram barbudos, e minha mãe usava umas jóias de prata africanas que acho lindas até hoje.
Enquanto meus amiguinhos iam para a Disney, passava as férias no Peru, na Bolívia, na praia de pescadores de não sei aonde, nos confins do Piauí.

Ganhei e usava gorros peruanos e sainhas indianas desde criança, tinha amigos que levavam tofu e bardana de lanche para a escola e morria de vergonha de ver minha mãe dançando Gal, descalça na sala, como se não houvesse amanhã. Minhas músicas de infãncia são Tom Zé, Caetano, Novos Baianos, Gil e assim por diante. Só ouvi falar de deus pelas empregadas, bastante preocupadas com meu destino pós mortem.

Aprendi desde pequena a valorizar a política, a liberdade, o pensamento, a luta por um mundo justo, as artes, as vanguardas artísticas, o amor, a paz, essas coisas.

Fui conhecer meu primeiro malufista só aos quinze anos de idade.

Juro.

Quando criança, brincava de fazer greve. Uma vez fiz até uma passeata com uma amiguinha: “edo, edo , edo, não queremos dormir cedo!”

Tinha que ver aquele filme.

Fui.

Há cenas boas, identifiquei-me com várias situações, ri um pouco e tal. Mas…

Alguma coisa me incomodava, e conversando com a Ana Paula, uma das amigas brilhantes que tenho, percebi o que era:
esses filmes com crianças acabam, ao final, se eximindo da crítica, e mesmo da política.

Vejamos, por exemplo, O Labirinto do Fauno, o melhor filme dentro desse gênero, dentro dessa última leva:

há duas histórias paralelas que correm no filme:
a história dos adultos, sob o fascismo e a brutalidade franquistas, representada pelo espaço da casa e pela figura do Capitão, atento ao seu relógio quebrado, às regras, à procriação, à manutençao do regime. Dentro desse espaço, há aqueles que buscam caminhos de luta dentro da própria casa (o caso de Mercedes, a governanta, dona das chaves da despensa, que quer cantar uma cantiga de ninar para a menina mas esqueceu-se da letra; ou do médico, que envolve-se mesmo que tardiamente, pois não há neutralidade possível dentro de um regime de exceção) e há aqueles que lutam na floresta, organizados em grupos políticos subversivos. Esse é o plano da História, aquela política e social, feita pelos homens e mulheres.
Há, também, a história da criança. A menina desde o início carrega consigo um livro de contos de fadas e logo na primeira cena vê, na floresta, indícios de um mundo mágico e encantado. O plano da história, sob olhar da criança, mescla-se com o plano da fantasia, do mito, da narrativa mágica.

Logo aparece a figura do fauno, e à narrativa histórica, que ocorre no plano da casa e se estabelece sob o conflito do filho do Capitão que está para nascer e a busca pelos subversivos escondidos na floresta, mescla-se a narrativa mágica, que se estabelece sob as tarefas que a menina princesa deve cumprir para restituir seu lugar de princesa e reestabelecer a ordem a e harmonia no plano mágico. São duas espécies de luta que correm em paralelo. Em jogo: a liberdade e a vida.

O labirinto do fauno é o labirinto da história, e nele se enlaçam os fios da narrativa dos homens e mulheres e os fios da narrativa mágica.

Não interessa, é claro, se o plano mágico é somente fruto do delírio da menina imaginativa ou se acontece “de verdade”. No cinema é tudo “representação”, mesmo os filmes baseados em fatos reais são de mentirinha, e isso – a suposta veracidade do mundo narrado – não é critério para analisar obra de arte alguma.

Ao final, a luta política é massacrada, morre o Capitão e morrem também os Revolucinários. Esses são os nossos tempos, a gente fica se perguntando se a luta política morreu, e eu fico achando isso perigoso, muito perigoso. A saída que o filme apresenta, e o filme apresenta uma saída, é no plano mágico, onde a menina ainda vive, restitui seu lugar de princesa e tudo. No plano da história o bebê é o único sobrevivente e será criado por Mercedes, que não lhe contará sua verdadeira história e poderá criar outra, quiçá mais feliz. O filme não abdica da complexidade e aí está um dos seus gandes méritos. Mas o final da história está no plano mágico, da criança, único lugar possível de harmonia, onde cada personagem pode ter seu lugar na História. Do labirinto da história, aquela real, não há saídas, apenas massacre e violência. Um bom filme, que faz pensar e não abdica da complexidade. Um filme também desencantado com os rumos da história e da política, como tantos filmes nossos contemporâneos, um pouco como nós.

Parece que as atuações políticas possíveis e que fazem sentido no mundo de hoje estão no campo da ecologia, da ação individual, da formação de pequenos grupos que vão lutar por seus direitos específicos. É claro que ficamos descrentes na política, nos políticos, nos partidos, nas revoluções e etc. Isso pode ser um sinal de crescimento, mas parece-me um pouco perigoso. Triste, e perigoso, pois as grandes estruturas que oprimem sim e transformam todos os aspectos da vida e a própria vida em mercadoria, objeto vendável, permanecem as mesmas, não importa quão ecológicos ou politicamente corretos sejamos. Sim, meus amigos: a lulu acha que o velho Marx estava certo . Não nos prognósticos, mas no diagnótico o cara acertou bem. Além de lutar pelo nosso jardim, nossa liberdade de amar e ser e nossas galinhas felizes, há que se manter em vista as grandes estruturas. Elas não são naturais, são opressoras e podem, talvez, ser mudadas.

Isso porque o que me incomodou no filme A culpa é do fidel é justamente uma espécie de descompromentimento com a política e o mundo dos adultos que esses filmes atuais narrados sob a perspectiva de olhos infantis acabam por criar.

A criança não pode fazer nada para mudar o mundo. à criança são dadas explicações simplistas, a criança não tem escolha, não vota porque simplesmente ainda não tem condições de decidir-se por determinadas políticas ou candidatos. A criança percebe um monte de coisas legais sobre o mundo e o ilumina mas é criança, não pode se comprometer nem fazer escolhas.

Quando eu brincava de polícia e ladrão, sempre brigava com meus amiguinhos e amiguinhas sobre quem seria o ladrão. Ninguém queria ser polícia.

Ok,
é uma cena fofa.

Vamos combinar: nada complexa.

Agora, com o tropa de elite, meus alunos brincam de ser polícia. Normal, crianças. E os adultos?
Com o tropa de elite, brincam de ser polícia também. Cansei já de ver professor imitando o Capitão Nascimento.

(…)O problema de filmes de crianças é quando eles abdicam da complexidade e da crítica. Quando tudo torna-se uma melodia pop e fácil, boa para se ouvir no carro em meio ao trânsito. Quando as questões de adulto parecem que podem ser resumidas nas respostas das crianças. Quando a estrutura do mundo, por um ato de vontade, parece que pode ser reduzida à perspectiva do olhar infantil.

é fofo.

mas não é assim.

Postado por Mário Corso

Homenagem aos pais, meu, teu, nossos

10 de agosto de 2008 4

filhos, melhor descobri-los...

Da natureza do pai

 Conheci meu pai quando eu tinha seis anos,quando minha mãe, viúva, casou-se com ele.Quando eu tinha 8 meses perdi meu primeiro pai, fulminado por um precoce ataque cardíaco. Quando aquele que seria meu segundo pai começou a cortejar minha mãe, fui-lhe indiferente, tentei seduzi-lo como fazia com todo mundo, mas não de modo especial. Nada parecia abalar minha rotina de órfã paparicada por um bando de mulheres, todas muito ocupadas, mas maternais.Meu avô materno morreu logo em seguida a meu pai,o paterno morava em outro país e provavelmente achou que desapareci com seu filho. A idéia de um pai parecia-me atraente, queria um como quem quer um brinquedo, não fazia idéia do que seria ter um.
 Quando eles casaram, perdi a casa das muitas mulheres-mães em que vivia, no Uruguay, e mudamo-nos para São Paulo, onde meu futuro pai(ele nunca foi pardasto) trabalhava como engenheiro químico.Foi aí que descobri que ter um pai é bom, mas é dureza. De uma hora para outra meus caprichos e necessidades cederam espaço para outra realeza: ele. Foi aos poucos questionando minhas urgências e carências e, graças aos seus desafios, fui dolorosamente fortalecendo-me. Posso compreender cada linha da dor do menino retratado por Proust no seu Tempo Perdido: à espera da mãe, de qualquer mãe que fosse, para lhe aplacar a solidão noturna e de sua certeza de que ela não atenderia às suas chantagens amorosas por uma proibição DELE.
 Sua presença me magnetizava,ele era grande, porque não estava acostumada com homens na minha vida,e trazia consigo um acervo de coisas e eventos que me revolucionaram. Um novo país, uma nova língua, uma mãe envolvida com ele, ao invés dos negócios da família que anteriormente polarizavam a atenção dela. O sumiço das velhas que me mimavam, que ficaram na minha casa de infância. Em torno dele, sempre havia uma música clássica tocando e eu devia fazer pouco ruido. Ele falava comigo como se eu fosse gente grande, não tinha o hábito de conviver com crianças. Ele me fez crescer, em todos os sentidos.
 Sei que a minha é uma história pouco típica, que em geral costuma-se ganhar um pai quando se nasce, sua instalação na vida da criança está desde sempre. Porém creio que apenas acontece de forma, digamos, lenta e gradual, o que me ocorreu de forma compacta. Um pai é aquele que vai puxando aos poucos e sistematicamente o filho de dentro do corpo e do coração da mãe, ele o leva para terras novas, onde o filho precisa superar-se, mostrar a que veio, descobrir culturas diferentes. A voz materna embala, hipnotiza, encolhe, a paterna é como uma corneta que chama para a batalha, saia, lute! Os psicanalistas falam em “funçaõ materna” e “funçaõ paterna”, e hoje fica bem claro que estas tarefas não estão encarnadas num homem e numa mulher específicos. Hoje, muitos pais são doces e organizados, dando às crianças um aconchego que suas mães, enlouquecidas pelo trabalho, estudo e outros desafios, por vezes não conseguem prover. Elas, por sua vez, desafiam seus filhos a vencer no mundo real, já não lhes basta que eles limpem o prato para estar satisfeitas…
 No documentário de Eduardo Coutino, “Jogo de Cena”, alternam-se mulheres reais, contando sua própria história, com atrizes, para confundir-nos ou mesmo para revelar que é sempre de uma história ficcional que se trata, mesmo que seja a própria. Os pais fazem isso: alternam-se, complementam-se e substituem-se para fazer o jogo de cena de ser pais e mães. No fim tudo costuma dar certo na maior parte das histórias, independente das correrias, dos tiroteios verbais, das intrigas, dos desencontros, na vida como nos filmes.Quando não dá, bem, a loucura nos espera para mostrar que viver é mesmo muito perigoso…
 Portanto, neste meu primeiro dia dos pais sem o meu, que demonstrou que não há dia nem lugar para tornar-se um, queria deixar aqui minha homenagem a todos esses bravos homens que ousaram cometer um filho ou mesmo tornar-se pais de um já nascido, como fez Juan, meu segundo pai. Fiz o possível para demonstrar a ele que valeu a pena o esforço, a incomodação, que todos os filhos demandamos. Todos os filhos fazem isso, mesmo que seja de um jeito torto, indireto, dando preocupação. Mas uma certeza vale a pena: a funçaõ paterna é o exercício de uma tarefa na qual voce será marcante, será o sábio conselheiro a ser ouvido e o bobo da corte de quem se ri, será o gênio da lampada a quem se fazem os desejos e o ogro malvado que guarda as riquezas e come criancinas, será o Golias a ser abatido e o rei Arthur em nome de quem fazer-se cavalheiro.Vale a pena? Talvez não, mas que é um desafio gostoso…

P.S.: ao Mário,Super-Mário, sempre soube que a paternidade era um dos teus poderes!
 

Postado por diana corso em 10/08/08

A Charada do Coringa

06 de agosto de 2008 3

Por que tão sério?

 

            O demoníaco Coringa da derradeira atuação de Heath Ledger (em Batman – O Cavaleiro das Trevas, de Christopher Nolan) roubou a cena. O jovem ator australiano construiu um vilão cheio de tiques e olhares alucinados, representando uma encarnação do mal digna da linhagem do Hannibal de Hopkins e do Iluminado de Nicholson.

            Complementar a essa performance, está a brincadeira que o Coringa faz com a psicogênese do mal: cada vez que ameaça cortar ou matar uma de suas vítimas, compraz-se em narrar um trauma de infância, que teria dado origem às suas cicatrizes e à sua crueldade. Porém, ele mente ou distorce, pois ele sempre conta um episódio diferente. As versões giram em torno duma história familiar trágica e triste, conseqüência da qual teria ficado em seu rosto um corte em ambas comissuras labiais que lhe impõe um “sorriso” sinistro. Um trauma que justificaria o fato de que ele se divirta com o sofrimento alheio.

            A maldade gratuita do palhaço demoníaco de Ledger ridiculariza nosso desejo de controlá-la, como se ao lhe saber a origem pudéssemos também prevenir e, principalmente, garantir que ela não se expresse. Enigmaticamente, ninguém é alheio ao mal: todos nós retiramos algum prazer da evocação da violência e do assassinato em nossos sonhos e devaneios, na ficção, nos jogos.

            É no bordão usado pelo Coringa quando está subjugando suas vítimas, que talvez possamos encontrar um esboço de resposta sobre a origem da maldade. Ele lhes pergunta: “por que tão sério?”, enquanto tenta matá-las. A seriedade a que se refere é a de não estar rindo, como ele próprio, cuja cicatriz o força a uma boca sempre sorridente, tão artificial como a das mulheres excessivamente plastificadas. O patético riso do Coringa parodia a felicidade compulsiva e aparente, exibida nos comerciais e nas revistas de celebridades.   O Coringa é o monstro do império do gozo. Todos devemos ser ricos, ociosos, que alguém nos sirva e divirta o tempo todo, ter orgasmos múltiplos, não suportar contrariedades nem enfados. O problema é que na vida a chatice é regra e a felicidade exceção. Nesse simulacro de alegria, é preciso viver sempre como se estivéssemos a bordo de um iate, rodeados de amantes, lindos e jovens. Frente a isso, como suportar os enfados dos vínculos amorosos, familiares, do trabalho? O Coringa não tem essas mágoas, ele é louco de rasgar dinheiro, seu gozo desmedido não tem preço, está sempre a seu dispor. Esse vilão na sua plenitude é sob medida para nosso mundo imediatista: ele não quer, ele pega.

 

Postado por Diana, no Segundo Caderno de hoje

Da natureza do blog

05 de agosto de 2008 1

Fabricio, poeta, não blogueiro
Não acreditamos que se exerçam modos de escrita diferentes, por isso devem ser escutadas com atençaõ as palavras da escritora Clarah Averbuck no Donna deste domingo, quando ela insiste que não é “blogueira”, é escritora. Tampouco a dita “escrita feminina” nos convence. Assim como não há uma escrita negra, latina, oriental. Há culturas diferentes, épocas diversas, mas o que vemos são invenções artísticas, que são feitas por mulheres, chineses, noruegeses, peruanos, gays, adolescentes, enfim, tipos tão variadas como o são os homens. Depois de que um achado artístico, um novo modo de escrever, de narrar, de filmar, ocorre, ele se derramará entre as outras culturas, ele se estenderá por outras épocas, ele será canibalisticamente devorado por muitos outros e de muitos lugares. Oswald teria gostado disso, Borges nunca duvidou.

 A cada vez, escreve-se como se pode, como se consegue e conforme o tema nos toca. A idéia de que um blog nos exporia é falsa. Nem no divã, onde todos vão dispostos a desnudar-se, pois estão pagando para isso, as pessoas conseguem fazê-lo a a seu próprio contento! No máximo conseguimos um strip-tease, um desnudar-se estudado, rebolando entre cada peço, deixando-as cair estudadamente.

 Expõe-se o que se consegue, o que se precisa, todo texto é um exercício de ficção, mesmo uma mensagem instantânea, contando que se está indo ao super-mercado, à cama ou ao banheiro, contém alguma literatura em seu interior a lhe maquiar as verdades. Não precisa ser alta literatura, mas sempre será um texto, não uma verdade.

 Existe hoje uma paixão pela veracidade, pelo “reality”, na direta proporção de que sabemos como é fácil fingir, escamotear. Não sabemos nem se os corpos são de verdade, pois é impossivel desnudar-se das plásticas: o fingimento se interiorizou, por isso falamos tanto em realidade, porque estamos encharcados de ilusão.

 Nossa estréia no modo “blog” que aqui se realiza é na prática uma pesquisa. Não pretendemos escrever textos diferentes, porque como dissemos, não acreditamos ser capazes disso, mas talvez o meio mude nossa mensagem, veremos…

 Entre as suposições com as quais inauguramos este espaço e esta prática, aí vai uma hipótese: o Blog é um tipo de escrita que é em geral servida crua ou mal passada. É o exercício de uma angústia, de uma compulsão a comunicar-se, de uma brevidade. É a publicação de tudo o que teria ficado bem melhor se repousado em gavetas de carvalho, ou o que em vez de “send”, deveria ter recebido um “delete”. Eis-nos, no entanto, aqui. Não resistimos à tentação de sentir também esta forma de escrita, de conjugar-nos deste modo virtual e ver no que dá…

 Para começar, devido à inexperiência, porque não recorrer a um amigo mais sábio no assunto? Mais sábio porque é um escritor de verdade (somos amadores, ensaistas, brincando com as letras sempre que a clínica nos permite), mais sábio porque é mais jovem e portanto nada estrangeiro ao meio. Com a palavra Fabricio Carpinejar:

 “Blog traduz uma prova de resistência. Um big brother ao avesso dos gêneros literários. Ao invés de ser conhecido, corresponde a um mergulho adoidado no anonimato. Distinto da noção do senso comum de que se trata de um lugar para aparecer. O resultado final (a possível badalação de um endereço virtual) não expõe a realidade. Os exibidos foram antes tímidos, os extrovertidos foram antes introvertidos. É a mais dolorida experiência editorial. O mais severo teste vocacional. Uma ferramenta do diabo, capaz de sugar sua vida ou sua aspiração. (…)

  Você pensou que aquilo seria a glória instantânea. Caprichou na redação, no humor e nas perspectivas singulares de captura do cotidiano. Mas o único que entra no site é você. Trinta vezes ao dia. Chega a esbarrar consigo entre tantos acessos e atualizações. Uma miragem. Cada texto é um quarto vago. O demo do reconhecimento insiste em tomar seu lugar. Procura contornar o drama. Manda um aviso de postagens para os amigos. Prepara uma festa-surpresa de aniversário, com o atrativo de que é o aniversariante quem a organiza. Continua sendo surpresa; nenhuma alma comparece. Daí manda um aviso de postagens para os desconhecidos, catando endereços aleatórios. Nada mais o separa de um SPAM. Recebe avisos ásperos: “não o conheço” ou “favor me excluir da lista”. A humilhação não começou. O desespero o obriga a fazer atos impensáveis: entrar de computadores diversos para fazer com que o contador se mexa de alguma forma. Assim como um atacante chuta a bola para as redes alheio á marcação do impedimento. Para se livrar do azar. Ainda que esteja quebrando uma das regras básicas do jogo e leve um cartão amarelo. Não há nem juiz para lhe dar cartão amarelo.

 Percebe que lançou um texto com um erro gravíssimo de português. Estava na rua quando lembrou a indecisão ortográfica, longe de qualquer terminal. Foi observando um outdoor. Corre para uma lan house, consome seu suspiro sem sentir o gosto, arruma e conclui que tampouco alguém reparou.

 Decide escrever qualquer coisa que continuará sendo qualquer coisa. O isolamento do blog produz alucinações. O contador de visitas parece uma bomba-relógio: anda para trás.

 Mas tortura é quando finalmente recebe um comentário. Alegria aflita para abrir a janela, quem será? quem será?, descobre que partiu do pai ou da mãe, solidário com sua desgraça. Não pode comemorar, agora intui que seu pai ou sua mãe conhecem o fracasso de sua rotina.

 Sua personalidade passará a se dividir, e não multiplicar como desejava. Sede de laranjas. Laranjas! Sem pudor, cria pseudônimos para deixar comentários (o blog, pelo menos, obriga que seja seu próprio leitor). Diverte-se no sofrimento ao inventar formas de agradecimento pelos textos. Não economiza elogios ao estilo. Estará perto da internação quando se convence de que aqueles comentários não são seus e ainda responde aos e-mails falsos. Hora do soro! “

(excertos retirados de EPÍSTOLA AOS BLOGUEIROS)

Postado por Diana e Mário

A cadela e os tigrinhos

02 de agosto de 2008 1

AP


   

            A foto que apareceu nos jornais é dessas que nos dão descanso em meio ao angustiante chamado das linhas escritas e ao desagradável tom das outras imagens, não todas, mas muitas. No retrato, via-se uma cadela da raça labrador que adotou três tigrinhos órfãos e lhes dava de mamar com essa resignação alienada, própria das fêmeas animais, que entregam seus peitos sem a troca de olhares, que as mães humanas incluem na amamentação. O prazer e odescanso que a imagem nos provoca vem da evocação da única casa que tivemos que não cobrava taxas, não tinha infiltração, nem precisava de faxina, lá não havia que trabalhar, nem estudar, somente existir: a barriga da mamãe.      Toda evocação ao amor materno nos remete a esse paraiso idealizado a posteriori, que fica como as viagens e o amor: perfeito depois que acabou. (É claro que a mãe acaba guardando as contas numa pasta para enviar para o filho depois, nada nessa vida é grátis.)  Mas parecidos mesmos são os filhos com os trigrinhos. Nossos filhos, assim como nós mesmos, acabam revelando-se um dia grandes demais, meio assustadoramente diferentes das criaturinhas macias e graciosas que um dia aconchegamos, como se tivessem se tornado de outra espécie. Pensando bem, os filhos são sempre como os tigrinhos amamentados pela mãe canina da foto…

            De qualquer maneira, vale remeter-se à pesquisa, traçando o perfil dos jovens brasileiros de 16 a 21 anos, publicada pela Folha de São Paulo (27/07/2008), onde constata-se que os adolescentes são bastante conservadores e seus sonhos aproximam-se muito mais dos burgueses estáveis do que da imagem do jovem irreverente, tão celebrado nas comemorações do aniversário do maio de 68. Portanto, cada vez menos tigres

Postado por Diana