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Posts de setembro 2008

Não mais que de repente

27 de setembro de 2008 4

a idade depende do ponto de vista...

 

            De repente, sem querer, eu me disse: agora é pra valer. Estava me referindo à vida, à vida adulta, aquela para a qual tenho passado os últimos 47 anos me preparando. Mesmo com duas filhas, um livro escrito e uma árvore plantada (não me lembro bem, devo ter plantado alguma…), parecia que nem tinha começado ainda. Sempre pensei que chegaria o dia em que deixaria de sentir-me intimidada frente àqueles que admiro, em que me consideraria uma mãe suficientemente boa e uma mulher de verdade, em que saberia administrar o dinheiro que ganho como se fosse meu. Isso ainda não aconteceu, mas sim outra coisa: comecei a olhar para o taxímetro e ver o quanto de vida já gastei.

            Desculpem o aparente negativismo, é só pra comentar que a gente passa a vida se preparando para a próxima etapa, para a qual só estamos prontos depois que ela já acabou. Por exemplo, agora estou aprendendo como é que é ser mãe de gente grande, trabalhar ficando mais cansada do que antes, e a dedicar tempo para escrever. A vida é espiralada, quando um circuito termina, já estamos empreendendo a íngreme escalada do próximo. Portanto, quando digo que agora é pra valer, não é porque ache que estou pronta para alguma coisa. Apenas sinto que é hora de renegociar com os ideais.

            Cada vez que começo a lamúria do “estou ficando velha”, uma das minhas filhas tem o hábito de cortar a cantilena com um sarcástico: “então deita e morre”. Tá, é cruel, mas efetivo. Na mesma hora eu paro e percebo que se começar com isso antes dos 50, aos 60 vou estar distribuindo os livros entre os herdeiros (já que os CDs não vão servir pra mais nada). Nesse ritmo, aos 70, talvez esteja escolhendo a casa geriátrica, e aos 80 já possa iniciar meu próprio velório.

            Essa sensação de que o período de estagiária estava no fim deveu-se a algo diferente: admiti que ainda serei muitas, mas nunca serei todas e, principalmente, jamais serei outra que não eu. É difícil andar pela vida preso dentro dessa criatura complicada, insuficiente e imatura que eu sou, mas é isso… Os psicanalistas chamam a essa experiência de “castração” e já tiveram que ouvir poucas e boas das feministas por usar essa metáfora peniana para designar a assumida insuficiência. Ser “castrado”, nesse sentido, seria equivalente a admitir-se irremediavelmente incompleto.

            Em defesa do Dr. Freud (que admitia não entender bem as mulheres), devo dizer que compreender a própria castração é um dilema tanto para os homens, quanto para as mulheres e é uma das conquistas de uma boa análise. Trata-se de uma conformidade consigo mesma mas que não equivale a resignar-se à mediocridade ou à tristeza. Pelo contrário, há o ganho da conquista de uma certa leveza. Quando a gente descobre que é pra valer é porque já é capaz de perdoar-se pelos ideais inatingíveis… e já não se corta os pulsos com os cacos dos sonhos partidos.

Postado por Diana Corso, publicado na revista TPM, setembro

O gato e a Montanha

25 de setembro de 2008 4

 

            Quando vejo essas entrevistas que são feitas a personalidades importantes, fico fantasiando que aconteceria se algum dia eu fosse suficientemente importante para que me perguntassem qual meu livro preferido, filme, prato, palavra, lugar. Respondendo mentalmente à entrevista que nunca me fizeram, o que me ocorre é que nessas horas não lembro de nada que li, de nenhum filme que vi, de nada relevante, pânico de opinar. Mas esses dias respondi a uma dessas perguntas, numa mesa com amigos, sobre o livro que levaria a uma ilha deserta, e ocorreu-me de dizer: “A Montanha Mágica”. Quando fui justificar o proquê da escolha, não tinha nada para dizer sobre o conteúdo da obra, mas sim sobre a quantidade astronômica de tempo que levei para lê-la. Sou uma leitora lerda, dispersiva, o que acaba tornando-me alguém com muito menos leitura do que gostaria. Sorte que estou ficando um pouco mais velha, então acumulo mais algumas horas lidas em função do maior número de horas vividas.

            Na época da leitura da “Montanha” eu tinha um gato, o Koshka, que como bom felino, era extremamente ciumento de tudo o que subtraísse dele minha atenção, e  o livro de Thomas Mann era um rival e tanto. Não porque eu o lesse muito (ele era mesmo um rival volumoso), mas porque  passava longos periodos com ele no regaço divagando, e na opinião do gato meu colo era possessão sua.

            Iletrado, Koshka não sabia que, na realidade, eu não estava lendo todo aquele tempo, só sonhando, e resolveu eliminar o suposto inimigo: urinou nele. Quando peguei o livro para mais uma sessão de devaneios senti o cheiro horroroso de xixi de gato macho e passei um bom tempo procurando o local do crime. Acabei descobrindo que era o próprio livro, que foi para o lixo, tendo eu que terminar minha leitura num exemplar emprestado.

            Dias atrás eu buscava uma referência literária sobre o tema da beleza e lembrei-me de uma passagem em que Hans Castorp senta atrás da mulher amada durante uma conferência e fica admirando-lhe um dos  antebraços que mal se enxerga entre as mangas, repousado na cadeira da frente. Se de braços admiráveis se tratasse eu teria muito mais com “Os braços” de Machado, e quando a localizei o trecho vi que a referência era mais bela ma minha memória do que na prática. Além disso, folheando a obra vários anos depois, senti um tédio a respeito das longas discussões filosóficas das personagens, que também me ocorria na época.

            Era o sem sentido da vida daqueles enfermos confinados num sanatório nas montanhas, as minúcias, o cotidiano reduzido às rotinas do corpo, a vida mínima sobre a qual pensavam tanto,discutiam tanto, o que me engatava. Eu era como Castorp: ele divagando sobre um braço repousado na cadeira da frente, fazendo em seu pensamento uma miscelânea entre o que escutava do conferencista e as idéias suscitadas pela pele alva daquele braço; eu perdida nos sonhos provocados pela leitura, misturados às minhas fantasias. Lembrava com carinho daquela  passagem,  porque ela era a figuração não da Montanha Mágica,o livro em si, mas da minha experiência de lê-lo. Hans Castorp exilou-se da sua vida sem graça num cotidiano ainda mais medíocre, mas rico de pensamentos. O livro, esse e todos os outros, são minhas montanhas mágicas. Foi graças ao Koshka que isso se revelou, o gato que tentou despertar-me dos sonhos urinando neles. Não funcionou.

Postado por Diana Corso

Efeito Borboleta

21 de setembro de 2008 1

espero, al que yo mas quiero...

            Dois primeiros encontros na minha vida, com a ópera ao vivo e com Madame Butterfly. A obra estreou ontem no Teatro Solis, em Montevidéu, e eu confesso que mal lhe conhecia a trama. Da história eu só tinha uma breve notícia sobre desengano amoroso e final trágico. Mas ambas foram muito impressionantes.

            Em primeiro lugar, a experiência da ópera, que julguei que me seria longa e custosa, revelou-se arrebatadora. A ópera é a trilha sonora acompanhada do filme e não vice versa, a ópera é o cantor-personagem juntando o calor da sua presença dramática com a igualmente dramática performance da voz. E que instrumento que é a voz! Tudo isso para contar uma história para um público cujos ânimos devem acompanhar os altibaixo das vozes.

            Madame Butterfly, uma japonesa que fez o que as mulheres fazem de melhor, escolher entre a identidade e o amor, preferindo o segundo, foi também, para mim, uma estréia perfeita. A personagem Cio Cio San abre mão de sua tradição e adere ao catolicismo para melhor adequar-se ao casamento que havia sido arranjado para ela, por isso acaba sendo renegada por seus parentes. Porém, para Pinkerton, o oficial da marinha norte-americana que a toma por esposa, o casamento tratava-se de uma experiência passageira de amor e sexo com uma jovem de outra cultura. Ele foi leviano, irresponsável e até cruel com ela, usou-a como objeto, enquanto Butterfly mais do que ser enganada por ele, sucumbiu às suas próprias mentiras. Não havia evidências que a convencessem que seu amor não retornaria para seus braços. Esperou qual Penélope, consagrou-se a seu amado ingrato, e tanto esperou que no final desesperou.

            A entrega absoluta, que é própria da paixão, por vezes torna-se modo de vida, principalmente para algumas mulheres. Para estas, que se auto-exilam de si mesmas para viver um grande amor, não há retorno. Por isso o fim do amor coincide com seu próprio fim. Amar é sempre assim, deixar para trás o que se é para incorporar um pouco do outro em si mesmo, fundir-se parcialmente. Ser mulher sempre foi assim, abandonar a cultura paterna em troca da marital, por isso costumava-se dizer que ter filhas mulheres é regar a horta do vizinho…

            Tudo mudou: tanto sabemos que a paixão é passageira que hoje a tomamos como um parque de diversões, nossos contemporâneos brincam com ela como quem entra sucessivas vezes na montanha russa; as mulheres, por nossa vez, não estamos mais tão dispostas ao apagamento de nossa identidade e desejos para amar e ser amadas, nossa existência não depende mais de ser a sra. Fulano. Mas certos dramas permanecem como mitos fundadores do amor e da identidade feminina porque ainda contem dentro de si muitas verdades, e deve ser por isso que essa trama, coletada do teatro por Puccini em 1900, ainda emociona públicos. O amor e a entrega das mulheres são farto motivo de tragédias, na arte como na vida. 

Postado por Diana Corso

Viver sem listas

17 de setembro de 2008 1

  

Um homem da minha idade, 47 anos, Dave Freeman, autor do livro 100 Coisas a Fazer Antes de Morrer bateu a cabeça em casa e morreu. Não li seu livro, não lhe conheço a sabedoria, ou a ingenuidade, de acreditar que se pode ir embora com a sensação de estar quites com a vida. Meu pai morreu com 87 anos, correu o mundo, sobreviveu à guerra, e não achava que tinha feito o suficiente para abrir mão da vida. Morreu inconformado, sem saber a que endereço encaminhar a solicitação de prorrogação de seu prazo, ele que amava tanto resolver tudo com cartas.

            Por outro lado, comprei e ainda não li outro livro: Como Falar de Livros que Ainda não Lemos?, que, coerente com o título e com um de seus capítulos: “Os livros que folheamos”, vou comentar. Nas entrevistas dele que sim li, o autor defende um estilo de abordagem criativa, na qual o leitor participa da obra antes, durante e depois da leitura efetuada, contribuindo com opiniões levianas, pois ainda desconhece a  bibliografia completa do autor e até mesmo o fim do livro em curso. Por esse critério, até leitores de orelhas tem direito a uma opinião digna de ser escutada.

            O que me interessa neste caso é a postura, que vale para o livro e para a vida: Freeman, pelo que deduzo, parece ter encarado a vida como uma obra que poderia ser completada, que deveríamos tentar fruir em todos seus volumes, enquanto Pierre Bayard, o segundo autor, nos instiga a ler cada pedaço de muitos livros de forma irreverente, seguindo o curso de nossa curiosidade e preconceitos e aproveitando de cada um o pouco que conseguimos obter. A partir desses pedaços que vamos colhendo vai se constituindo uma opinião sempre parcial, temporária, talvez um pouco irresponsável, mas certamente interessante. O jeito é ir misturando tudo, fazendo novas receitas com velhas matérias primas e vice versa.

            Na sugestão de leitura de Bayard, encontro um conselho de vida: desista de listar o que fazer antes de morrer. Fixar metas, olhos postos numa possível completude, é um bom método para descobrir, tarde demais, que a gente era feliz e não sabia. Da mesma forma, ler uma obra impedindo-se de formar uma opinião antes de concluir um estudo completo é sufocar nossa inteligência. Talvez o livro de Freeman, cujo conteúdo ignoro, contenha o sábio conselho de aproveitar cada uma dessas 100 coisas sem pensar nas outras 99 que ainda não fizemos, mas uma lista sempre é uma coleção de dívidas e deveres.  De qualquer maneira, é pena que ele tenha tido tão pouco tempo, logo ele…

Postado por Diana Corso

Esses tempos loucos...

03 de setembro de 2008 4

cuidado: depressão!

Os sem-estação

 

            Início de setembro, a primavera mal se anuncia, mas as árvores, ignorantes do calendário, explodem em flores há quase um mês, antecipando seu carnaval. O outono passou pela avenida desfalcado de suas melhores passistas e com a bateria a meio pau, nem deu para apreciar o espetáculo. A beleza das estações deve ser aproveitada quando dá, sem maiores previsibilidades, nem de intensidade, nem de hora de chegada ou de partida. Sentimos que as estações estão misturadas, voltando quando já deveriam andar longe, partindo cedo demais, intrometendo-se umas nas outras.

            Entre os humanos ocorre uma confusão parecida: cada vez mais gente é diagnosticada de depressiva, portanto supõe-se que fica triste quando não deveria; há os que são considerados excessivamente ativos, portanto, ficam agitados quando tinham que estar tranqüilos; os ditos maníacos são acusados de ter arroubos de  entusiasmo em horas e por causas impróprias; sem falar nos que têm o humor oscilante e assim por diante. Se nós fossemos o clima, a culpa desses despropósitos seria atribuída ao aquecimento global, mas a quem acusar pela impropriedade dos sentimentos e estados de espírito que nos assaltam?

            Talvez hoje não haja nenhuma hora ou época aceitável para deprimir-se, para distrair-se, para agitar-se. Esses descontroles deveriam ser suprimidos com remédios psiquiátricos, enquanto a euforia, a motivação e os momentos meditativos ficam melhor quando produzidos sob encomenda, através das drogas ilegais. Nossos estados de espírito só parecem assim inadequados porque não suportamos senti-los, precisamos mantê-los no cabresto. A tristeza e o devaneio são coisas que não servem para trabalhar, estudar, fazer amigos, influenciar pessoas e arranjar namorado. Mas insistem em existir.

            É como se suprimíssemos o inverno e o verão porque são demasiado radicais, incomodam. Quanto à primavera, ela que discipline suas flores e o outono que recolha suas folhas, afinal ninguém deve incumbir-se da bagunça dos outros! Olhados de perto,

nossos humores têm sua lógica. Se analisarmos suas causas, nossos sentimentos são de origem compreensível, de certo modo previsíveis, como as estações são, ou eram. Se o planeta anda pregando-nos peças, vingativo dos estragos que lhe impusemos, provavelmente nossa cabeça também está a nos avisar: aceite meus ritmos, meus altos e baixos. Não somos autômatos, é impossível deixar de sentir o que não é útil ou admirável. Dessa maneira, ficaremos ainda mais maluquinhos, nós e o clima.

Postado por Diana, publicado no Segundo Caderno ZH