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Posts de novembro 2008

O primeiro beijo da dentuça

30 de novembro de 2008 2

a gente nunca esquece...

  

Um leitor do blog provocou um assunto e aceito o motivo da trova: o beijo da Mônica e do Cebolinha ocorrido no novo gibi da turma, agora crescida e adolescente.Pois vamos a ele. Em primeiro lugar, vale lembrar que parte do encanto das personagens do bairro do Limoeiro é que elas não cresciam, representando nossa infância, inacessível, mitificada, estereotipada como as lembranças daquela época são. Isso para os adultos. Para os pequenos, como o são os consumidores dessas histórias, cada personagem vale pela sua imutabilidade: o Cascão não deve tomar banho, a Magali não deve fazer dieta, o Cebolinha não deve falar direito e a Mônica não tem porque ser diplomática, porque é aprazível encontrar em cada um essa identidade consigo mesma. São representações estanques, que por sua vez canalizam lados dos leitores que se identificam com esses aspectos de si mesmos. Entre as histórias havia algumas que eram projeções de futuro onde eles cresciam, que eram muito interessantes. Em geral associadas a uma certa representação de futuro meio estilo Jetsons, onde apareciam os casais, Mônica e Cebolinha e Magali e Cascão com seus filhinhos que misturavam as características deles. Era como, quando crianças, imaginávamos como seríamos no futuro, num futuro muito distante, hipotético e lúdico. Não é ao serviço desse tipo de imaginação que responde a nova invenção de Maurício de Sousa.

Trata-se de um quadrinho, desenhado vagamente no estilo mangá (embora seja de frente para trás, mas os grandes olhos arredondados e o estilo de corpo das personagens pertence a essa estética), onde a turma da Mônica vira adolescente, chegando inclusive ás raias do primeiro beijo, que estará nas bancas, ou já está, por estes dias.

Essas histórias correspondem á continuidade do que Maurício tentou com a personagem Tina e sua turma, adolescentes, mas que não conseguiram a força da baixinha dentuça para capitanear seu próprio gibi. Agora é a turma do Limoeiro que cresceu, e isso responde a uma expectativa das crianças de pensar algo que está previsto de acontecer antes de serem gente grande: a adolescência, a juventude. Pensar que um dia seremos grandes para beijar, andar por aí desacompanhados, olhar nossos pais na altura dos olhos deles, ficar mais tempo com nossos amigos do que com eles, que a escola será território livre de adultos familiares, e que nossos pequenos grandes dramas serão um segredo para eles é um sonho de consumo para as crianças. Antes de projetar-se adultos como papai e mamãe, elas pensam-se jovens livres de papai e mamãe. Isso já faz parte da cultura infantil há algumas décadas e não se estranha que se incorpore também nesse universo de histórias. Afinal, a juventude é uma época idealizada da vida desde a década de 50, para os adultos e para as crianças por conseqüência. Isso tudo em hipótese. O que mesmo, de verdade elas vão achar, veremos, afinal elas é que são o público alvo desse gibi! A expectativa do primeiro beijo só é problema para os virgens de boca, os quais costumam ter menos de quinze anos…

Já nossas expectativas quanto ao gibi são reservadas, pois as personagens, que eram tão fortes ficaram pasteurizadas. Somos tão interessantes quanto aquilo que conseguirmos fazer a partir dos nossos defeitos e a turma da Mônica adolescente perdeu suas melhores imperfeições, transformadas em sutilezas de caráter. Espera-se que quando ficamos grandes nos tornemos mais ricos, mas neste caso parece que eles ficaram mais pobres…

Postado por Diana Corso

Mickey Mouse octogenário

26 de novembro de 2008 2

           

    Conheci um senhor velho com olhar de guri. Visto com zoom, seu rosto apresenta manchas, saliências, uma cara com sinais de uso, mas os olhos, ignorando o peso das pálpebras, fitam com picardia. Na maturidade, as cartilagens continuam crescendo, tornando-nos caricaturas de nós mesmos. Viramos duendes, bruxas, narigudos e orelhudos. Apesar disso, fui fisgada pela vivacidade daqueles olhos, tão diferentes daqueles, arregalados através de cirurgias plásticas, ou apagados pela vida bovina que lhes desenvolve catarata na alma.
    Mas quero falar de outro velho orelhudo, 80 anos completados há uma semana: Mickey Mouse. Na essência ele pouco mudou, foi o mundo em volta que foi mostrando outra cara. Mickey continuou na ativa, é o membro mais popular da família Disney, mas foi ficando menos sapeca. Com o passar dos anos, seu bom mocismo foi se acirrando, enquanto sua imagem ia desenhando-se mais redondinha. Seu lugar na trama era o de ser uma referência em torno da qual iam articulando-se personagens mais interessantes, como Pateta, o gauche, Donald, o descontrolado. Particularmente nunca gostei dele, mas devemos-lhe o respeito de um patriarca
    Hoje exigimos mais complexidade das personagens, elas são ambíguas, conflitivas. Até mesmo nos desenhos dirigidos ás crianças pequenas os bichinhos vivem sentimentos fortes, medos, ciúme, egoismo, covardia, inquietações. O octogenário Mickey, assim como seu precursor o Gato Félix, nasceram num tempo de animais que estavam para mais palhaços. Eles constituíram a linguagem corporal própria do desenho animado: eram contorcionistas, mistura de Chaplin com o Gordo e o Magro, numa estética de pastelão. Depois de algumas décadas de trabalho como detetive, o ratinho que consagrou Walt Disney, sobrevive mais enquanto ícone.
    Histórias e personagens são como retratos de época: Shrek, uma personagem que hoje nos traduz, é um monstro bonachão, com problemas de sociabilidade e dificuldades para amadurecer, sarcástico e cético. As crianças e seus desenhos animados mudaram muito, novas fantasias para novos tempos. Como eles, alguns entre nós conseguem continuar evoluindo junto com seus narizes e orelhas. Nesse sentido, a passagem do tempo pode significar crescimento ao longo de toda a vida, espero conseguir essa proeza. Outros, apenas controlam as transformações físicas, vão cortando as arestas, ficando cada vez mais redondinhos. Estes, como Mickey, ficam datados, sobrevivem como estátuas, sem aquele olhar maroto do velho que me cativou. 

Postado por Diana Corso

que falta nos faz a filosofia

12 de novembro de 2008 3

 

 

            A minha geração (dos que hoje beiram os cinqüenta) pegou o desmonte do ensino no Brasil ou, a “Reforma”. Basicamente, retiraram do currículo as humanas, ou as reduziram ao mínimo, e intensificaram as exatas. Precisávamos de engenheiros e técnicos para construir o “Brasil Gigante”.

            Na minha escola, olhava com curiosidade os quadros com latim, francês e filosofia que os mais velhos estudavam, mas nunca cheguei lá. Quando chegou a minha vez, não tinha mais. Já os períodos de química e física e matemática aumentaram. Não me fiz de rogado, aprendi direitinho e fui fazer engenharia.

            Chegando à faculdade, a encontrei depenada. Os professores que acreditavam que a universidade é antes de tudo um lugar para pensar, já tinham sido banidos. Na academia pairava um ambiente de ginásio e eu esperava muito mais. Também não foi ali que encontrei alguém disposto a me ensinar a pensar. Idéias inteligentes só estavam disponíveis entre os colegas, talvez por isso a força do movimento estudantil da época. Os estudantes eram a reserva da inteligência universitária.

            Como tantos, a minha formação humanista foi feita fora da universidade. Líamos o que se encontrava e o menos caolho puxava os cegos. Era uma época de grandes transformações, a geração precedente arrombou a porta da revolução dos costumes, e a nossa aproveitou. Tínhamos a mesma sede e muito para entender. Éramos uma multidão sem guias. Sempre uma formação é uma colcha de retalhos, mas a nossa era uma colcha esburacada, aliás, como ainda sinto a minha.

            Hoje leio um livro que gostaria de ter encontrado naquela época: Filosofia em Comum de Marcia Tiburi (Record, 2008). É um livro sobre filosofia atípico, ele é uma mão estendida que nos puxa para dentro do campo da filosofia e tenta nos ensinar a pensar. Um livro que fala com o leitor. Embora o encontro seja anacrônico, como eu tenho uns atrasados, uns quebra cabeças velhos dos quais nunca encontrei as peças, me serve e recomendo.

            Hoje o ensino de filosofia está sendo retomado, espero que no espírito do livro de Tiburi. O livro é desmistificador da filosofia, facilita o acesso e nos faz reconhecer os movimentos do nosso pensamento, as ferramentas que usamos. Não se perde na história da filosofia, vai direto aos temas filosóficos clássicos.

            Hannah Arendt estudando o nazismo encontrou, no que chamou a ausência de pensamento, as suas respostas para a origem do mal. O grande malfeitor do século XX foi o homem comum que dizia apenas cumprir ordens. Um homem incapaz de pensar por si próprio pode emprestar sua alma a qualquer projeto cretino. Pense nisso.

Postado por mario corso

Comendo livros

12 de novembro de 2008 1

Ainda guardo em mim alguns raciocínios infantis que me induzem a equívocos. Um deles é ler as coisas no seu sentido literal. É esse tipo de pensamento que pode levar uma criança a pensar que todas receitas contém chá e sopa entre seus ingredientes, já que colheres disso são sempre mencionadas, e que sapatos de salto são para saltar. Foi por isso que li enviesado uma manchete da capa da revista Claudia que dizia: “A dieta dos Best-sellers”.

 Imaginei um grupo de pessoas gordas reunidas discutindo sobre livros ao invés de terem que comunicar umas às outras o que comeram e quantos quilos perderam. Entre as histórias escolhidas, haveria também relatos de grandes comilanças, como A festa de Babette, de Karen Blixen, mas esse é alimento que não engorda. Minha fantasia foi longe: cada um poderia ser Sherazade por uma temporada, narrando seus livros de escolha alternadamente; ou talvez a cada semana um contasse aos outros partes do seu livro, assim todos acompanhariam vários livros ao mesmo tempo.

Mas no que isso as emagreceria? Provavelmente, em nada… Foi apenas um devaneio sobre uma sociedade mais sonhadora e menos voraz. Comendo mais literatura talvez não ficássemos entregues a prazeres de tiro tão curto e, conseqüências nefastas, como os excessos de comida e álcool. Isso nos livraria principalmente do consumo de drogas, que prometem um sonho protético para os carentes de imaginação, ao preço de virar pesadelo.

Impossível não evocar aqui o saudoso Bode Orelhana, personagem dos quadrinhos de Henfil que, em plena ditadura devorava tudo, inclusive livros e jornais. Esse regime lhe proporcionava momentos de sábia eloqüência, mas também grandes indigestões. Era uma época de dieta forçada de idéias, onde precisávamos catar o que ler como famintos na caatinga. Sugiro que aproveitemos a fartura.

Falando em dieta e livros, é fato que grandes contos podem vir em poucas palavras, numa quase poesia, como este magnífico exemplo escrito por Sergio Napp: Estava abatida por todos os dias passados naquela cama de hospital. Ele apanhou o potinho com gelatina e a colher. Nunca se imaginara em tal situação: alimentando a morte da própria mãe. É um dos minicontos do último lançamento da Série Lilliput da Editora Casa Verde. O livro é Contos Comprimidos (org. Fernando Neubarth).

Deixo os livros dessa série na sala de espera do meu consultório, lá ninguém espera muito, mas sempre dá tempo de meus pacientes iniciarem a consulta com um trecho de ficção, que em certas ocasiões alimenta nosso trabalho.

 

Postado por diana corso

a promessa das máquinas

12 de novembro de 2008 0

 

    Eu tinha duas famílias prediletas, ambas do futuro: Os Jetsons, um desenho animado, e os Robinsons, do seriado Perdidos no espaço. Achava-se que acabaríamos usando macacões prateados colados ao corpo e botinhas que finalizavam essa espécie de malha unissex. Era década de 60 e na televisão o porvir era representado igual ao presente, mudando só o figurino. Os homens ainda trabalhariam fora, enquanto as mulheres cuidariam do lar, mas haveria um atenuante: os robôs. Os Robinsons tinham um exemplar macho e os Jetsons tinham Rosie, uma eficiente empregada automática.

            Todos conhecemos a imagem clássica da dona de casa da época: cabelo duro de laquê, vestido acinturado, seios espetados e um sorriso no rosto enquanto segura, sem esforço nenhum, seu aspirador de pó. Representante de um novo tipo de nobreza ao alcance da classe média, ela tem suas máquinas. Não lida mais com trapos e vassouras, a sujeira é aspirada, ela não cozinha mais, aciona mixers, fritadeiras, grills, suores e outros detritos são problema de sua máquina de lavar e os calos no joelhos ficarão por conta da enceradeira.

             O cotidiano doméstico lembra o trabalho do pobre Sísifo, empurrando a pedra montanha acima para em seguida vê-la despencar, retomando a tarefa infinitas vezes. Lava-se e arruma-se o que, na seqüência, será sujo e esparramado, cozinha-se o que será imediatamente devorado. O sorriso na cara das senhoras das propagandas e dos meus seriados favoritos, seu inalterável humor de Noviças Rebeldes ficava por conta de um engano, seriam liberadas do trabalho doméstico. Lamento dizer: a promessa de Rosie não se cumpriu.

            Fornos não são verdadeiramente auto-limpantes, louça e roupas não são auto-guardantes, o ferro elétrico continua exigindo manobras humanas e, principalmente, filhos não são auto-criantes. Nem o produto químico mais incrível vai ajudar a sorridente moça do comercial a abstrair que ela está limpando uma patente. A formação de uma família inclui um sem número de atividades que tem que ser executadas pessoalmente, as quais sabemos que se não as desempenharmos pagaremos caro por isso, pelo menos com a culpa. A tarefa de convencer as mulheres dos encantos do lar incluiu um grande engano: vocês nunca mais se sujarão para limpar, nunca mais se cansarão. Balela, a fome e o caos não cansam de retornar.

            Não me venham exigir esse sorriso congelado de miss, de atleta de nado sincronizado enquanto corto cebola. Ser mulher continua dando um trabalho cotidiano sem glória nem memória, do qual saímos com a sensação de não ter feito mais que a obrigação. No dia seguinte, a sujeira, a bagunça e as incessantes necessidades dos filhos levarão tudo à estaca zero. Sísifo.

            Por isso, aos ainda poucos e maravilhosos homens que começaram a dividir conosco esse campo de trabalhos forçados a que chamamos lar, as boas vindas. A dois fica um pouco menos penoso. Pensando bem, isso é ainda melhor do que a Rosie.

Postado por diana corso, publicado na tpm de outubro