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Posts de dezembro 2008

O que você ganhou de Natal?

26 de dezembro de 2008 4


Menina judia, não costumava ter meu próprio Natal. Mas ajudava a arrumar a árvore na casa da vizinha. Minha recompensa vinha: sob a árvore de dona Chichi amanhecia um Papai Noel de plástico recheado de balas. Posteriormente, casei com um católico (ateu) e tive duas filhas, o que foi uma boa desculpa para comprar uma árvore plus-extra-large. Durante os anos da infância delas entreguei-me prazerosamente à sua decoração. Meu marido diz que casei com ele só para poder montar minha árvore de Natal. Calúnia!
Minha relação estrangeira com essa festa católica talvez diminua a validade do que vou dizer: é falso que se trate de uma festa meramente consumista, capitalista e vazia. Momentos de encontro familiar, de dar e receber presentes nunca são vazios.
Um presente muito caro, pode ser uma demonstração de poder econômico por parte do presenteador, ou mesmo de sacrifício, pois alguém se endividou para fazer o outro feliz. Um presente baratinho pode ser uma brincadeira criativa, um achado perfeito, ou um ato de desprezo. Se dermos a alguém um presente que não lhe agrada, podemos estar atestando quão pouco nos importa quem é e do que gosta, ou mesmo com seu descontentamento essa pessoa pode estar demonstrando que não há o que possamos fazer para agradá-la. Há os que fazem questão de desfazer-se de todos os presentes, trocando-os na loja, ou somente os recebidos de determinada pessoa. Em contrapartida, uma escolha feliz é ocasião de uma revelação de afeto. Nos amigos secretos paira a questão de se o nome no papel é sorte ou azar, e os presentes dirão a verdade. A maior parte desses diálogos através de objetos se dá de forma silenciosa, muitas vezes inconsciente, o certo é que não há ponto neutro.
Escolher algo para alguém é um exercício de tentar decifra-lo. Porém, somos auto-centrados, achamos que os outros são o que queremos que eles sejam. Frequentemente o Natal acaba revelando o quanto desconhecemos os seres mais próximos. Mesmo que se compre algo convencional, um brinquedo de moda, uma roupa de marca, estaremos falando coisas como: “tenho medo de errar”, ou mesmo, “quero te ver como o feliz possuidor disso que todos cobiçam”, “quero que meu filho tenha acesso ao que eu não tive”, “sou um amante abastado”.
Duas décadas de clínica escutando pessoas preparando-se para esta festa e fazendo o balanço do que ocorreu nela, me ensinaram alguma coisa sobre o Natal. Na noite de hoje, muitas coisas estão sendo comunicadas através de presentes. E você, o que disse e escutou através desses objetos?

Postado por dianacorso

Memórias Felinas

10 de dezembro de 2008 5


Meus gatos sempre abusaram de mim. Faziam gato e sapato, para ser redundante. Koshka, minha segunda cria felina, parecia dar discursos. Mesmo sem entender o gatês, eu sabia que ele estava reclamando do meu tempo de ausência, embora os dele pudessem durar dias. Ele era louco por briga e rabo de saia, suas temporadas mais caseiras coincidiam com olho purulento, orelha rasgada ou pata inchada. Entre minhas atribuições de escrava humana estavam, obviamente, os curativos. Já minha primogênita, a Fera, era confinada num apartamento, o que só aumentava seu poder sobre mim: ela decidia em que posição eu iria dormir, sentar e comer, além de que sua farra noturna me exauria. Felinos passam o dia dormindo, assim ficam prontos para as noitadas. No caso da Fera isso incluía uma bolita de gude, que ela mantinha escondida, sendo resgatada para fazer rolar pelo parquê e bater nos cantinhos nas altas horas da madrugada. Nunca consegui tirar a bolita dela, sumia providencialmente assim que eu me levantava, acho que ela guardava na boca…
Sempre supus que Jim Davis, o cartunista que criou de Garfield, tinha uma verdadeira experiência com gatos. A gestualidade da personagem, sua relação tirânica com o dono, o inabalável narcisismo felino, eram traduzidos à perfeição através de seu traço e das situações hilárias que ele cria. Soube, por entrevista na Folha, concedida por ocasião dos trinta anos da criação da tira, que ele cresceu numa casa com 25 gatos, devia ser um caos.
Nessa entrevista, Davis declara que ele se identifica particularmente com Jon, o fracassado e melancólico dono do Garfield, particularmente nas memórias de sua adolescência de garoto pouco popular com o sexo oposto. Com o gato gorducho, sarcástico e exigente, identificamo-nos todos nós, nas lembranças da infância. A memória dessa época, na qual vivíamos a comer (bem) e dormir (muito) é preciosa. Crianças e gatos vêem os adultos como fontes de satisfação potencial e de exigências que não estão muito dispostos a atender.
Quando éramos crianças, os humanos grandes nos enxergavam como Odie, o cão idiota e brincalhão dessas tiras, ou como Nermal, um gatinho terrivelmente fofo, de quem Garfield morre de ciúme. Na verdade, embora parecêssemos uns bobinhos, faceiros e fofinhos por fora, éramos críticos e meio azedos por dentro, como Garfield. Por isso rimos tanto, porque embora pareçamos pessoas ocupadas e ponderadas por fora, ainda somos um gato gorducho, preguiçoso e egoísta por dentro. Pelo menos às segundas feiras.

Postado por Diana Corso

Ciúmes

06 de dezembro de 2008 2

 

Catherine Millet gostava de entregar-se aos homens. Teve muitos, principalmente em grupos, com a conivência de seu marido. Ela publicou sua experiência num best seller chamado: A vida sexual de Catherine M., em 2001. Já o esperado sucessor desse relato picante foi surpreendente: chama-se Dia de sofrimento (no Brasil só em 2009) e narra as dores que sentia, consumida pela angústia da descoberta dos encontros do marido com suas sucessivas amantes. Não se trata de hipocrisia da parte dela, nem de cegueira relativa a seus próprios atos, acredita que assumir uma sexualidade muito livre não nos impede de cair na armadilha assustadora do ciúme e não nos protege de antemão contra a dor que a acompanha.

O ciúme, como bem o prova Catherine, não tem nada a ver com atos nem fatos, faz parte do amor, é fruto das nossas inseguranças mais triviais. Num ataque de ciúme, ficamos obcecados, privados do controle, porque quem dirige a cena é o desespero. A vida perde completamente o sentido, só nos interessa saber se aquilo aconteceu, com quem, quantas vezes, onde. Quanto mais nos aproximamos da mórbida descrição da cena trágica, mais nos movemos em sua direção.

O amor que nos é dedicado faz parte das nossas posses e cuidamos dele como da própria pele! Por isso, se o perdermos, só nos ocorre que ele esteja nas mãos de outra pessoa, não pode simplesmente desaparecer. Na imagem daquela pessoa que seria o novo alvo desse amor, que antes era nosso, buscaremos nos mirar, o que ela tem que eu não tenho?

Mas não é só disso que se nutre essa possessão: a fidelidade não é isenta de tentações, essas se traduzem em fantasias, sonhos eróticos, não necessariamente em atos. Freud explicava que a falta de intimidade com essas tentações, quando não estamos dispostos a admiti-las, produz o aspecto projetivo do ciúme. São esses pensamentos que se amontoam na porta, quando não é admitida sua entrada, que produzem o ciúme projetado, onde os próprios desejos são atribuídos, quer como feitos ou fantasias, ao companheiro. É ele que leva as culpas dos desejos que não admitimos sentir. Desconfie do ciumento: é ele quem está de olho na cerca!

Há ainda outro elemento que compõe o estado de espírito que nos leva a vasculhar bolsos, celulares, emails, orkuts, a travar diálogos detetivescos com amigos. É uma parte mais difícil de explicar: o aspecto homossexual do ciúme entre os heterossexuais. As insistentes indagações na verdade são em torno da pessoa com quem estaríamos sendo traídos, pois ela nos fascina, ela é o objeto de desejo. É como ela que quero ser quando crescer! Sempre brinco com aquele a quem amo a respeito disso, pois nunca coincidimos em nossos interesses: as mulheres de quem eu fico ciumenta nunca são aquelas a quem ele acha atraentes, são as que interessam a mim! É nelas que vejo a mulher de verdade que nunca saberei ser e é nele que projeto minha admiração e meu desejo por elas. Como se vê, há muito mais entre o amor e os ciúmes do que uma simples traição…

 

Postado por Diana Corso