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Posts de janeiro 2009

Sorte no jogo

20 de janeiro de 2009 1



 
Sabe aquela piada do judeu que pede a Deus que o ajude a ganhar na loteria, pois passa fome, tem muitos filhos, pais doentes e outras desgraças. Ao que o Senhor lhe responde: – Mas Isaac, pelo menos compra um bilhete! Não é por economia que não compro bilhete de loteria: é por total descrença de que a providência tenha alguma boa surpresa guardada para mim. Quanto às ruins, tenho absoluta certeza que me espreitam, e se atirarão sobre mim como um felino de tocaia.
            Meu avô comprou o mesmo número de loteria até morrer. Foi substituído na tarefa por um sobrinho, também até a morte. Apesar de que supúnhamos que o número sairia no mesmo instante em que parássemos de comprá-lo, minha mãe teve a coragem de interromper essa sina. Prefiro nem saber qual era o número, já deve ter saído mesmo… 
            Tenho, sim, duas superstições: a primeira é de que a gente ganha um único sorteio na vida, gastei o meu numa raspadinha do Inter, o prêmio era um faqueiro. O brinde vinha bem e fui até o centro retira-lo, só para descobrir que o que eles entendiam por “faqueiro” era um conjunto de facas de serrinha com cabo de madeira.
            Ganhar na loteria é diferente de ficar rico por ser ousado, trabalhador ou brilhante. Estas possibilidades incluem atitudes, méritos, confiança em si mesmo. Já a sorte, tem que provir de alguma providência divina, na qual não tenhamos investido mais do que a esperança de ser escolhidos. No máximo, uma “fezinha”. Quanto aos azarados que afundaram com a Bolsa, que pode se transformar uma espécie de jogatina, pertencem a outro tipo: tampouco querem ganhar trabalhando, mas confiam que seu conhecimento e esperteza serão premiados. Nem sempre, como se vê.
Ter nascido já foi um golpe de sorte: somos fruto de uma fecundação específica, qualquer variação teria redundado em alguém completamente diferente de nós mesmos. O mundo que nos recebeu também estava ali à revelia de nossa escolha, demos sorte ou azar de cair onde e quando nos tocou. Só ao longo da vida é que ganhamos alguma autoria dos nossos passos. Por que, então, não continuaríamos esperando reviravoltas do destino? A esperança que anima esses jogos é a de que a passividade seja compatível com a sorte. Algo ou alguém olha por nós. Eis algo que duvido.
            Bem, minha segunda superstição é de que sorte no jogo dá azar no amor, e vice versa. Como acredito que ganhei na loteria amorosa, provavelmente tenho medo de ganhar no jogo e virar a gangorra. Prefiro não comprar bilhetes, no creo en brujas pero que las hay, las hay…

Postado por Diana Corso

O Menino do Pijama Listrado

10 de janeiro de 2009 4


 
            Geralmente questionamos as indicações dos críticos de cinema, sobretudo quando se trata de filmes infantis. Essa nossa desconfiança básica ganhou um reforço quando a cotação de “O  Menino do Pijama Listrado” na Folha de São Paulo saiu como péssimo.
            Fomos no cinema igual, e para variar constatamos o de sempre, a crítica não percebe a diferença entre linguagem infantil e adulta. O filme é a trajetória trágica duma ingenuidade infantil, contada desde essa lógica. É um filme para jovens, mas é um bom filme. Retoma velhos clichês sobre os campos, mas o argumento central é absolutamente inovador. O filho do diretor dum campo faz uma amizade com um menino detento e por descaminhos da trama os garotos terminam compartilhando o mesmo destino funesto.
            O filme é mais que uma denúncia, como tantas, dos campos de extermínio, ele é uma fábula sobre os filhos da Alemanha que morreram. O preço da insanidade do nazismo corroeu a própria Alemanha, e é ela a vítima aqui representada pelo garoto Bruno. Ele é a geração posterior, a que olha para seus pais e não acredita no que ocorreu. Que se pergunta como eles foram capazes.
            A linguagem do livro, que fica parcialmente preservada no filme, é a do pensamento infantil. Há uma natural crueza nesse garoto alemão, o filho do oficial nazista que está longe de ser uma Pollyanna de Auschwitz. No livro, além da lentidão do menino, que nunca termina de perceber definitivamente do que se trata o campo, apenas não consegue ocupar-se de outra coisa do que explora-lo. Ele percebe que ali está o segredo do que orgulha seu pai e faz sua mãe chorar, que orgulha seu avô e horroriza a avó materna, uma artista sensível que havia iniciado o neto na fantasia, na criatividade. Rapidamente, aquilo que era originalmente percebido como uma fazendo onde todo mundo usava pijamas, torna-se o centro de suas explorações. Quando Bruno conhece Shmuel, o menino judeu de pijama listrado, situado no outro lado da cerca, careca, arredio e faminto, ambos olham-se como num espelho que reflete duas faces da infância destruídas pela ditadura, pela cegueira dos homens.  
            O pai de Bruno, no livro, fala com orgulho de sua educação de obediência que o tornou um oficial tão eficiente, enquanto a própria mãe o chama de fantoche e marionete de Hitler. Bruno, que vai sendo cerceado em sua criatividade pelo empobrecimento doutrinário da educação que recebe, vai usando seus instrumentos para interpretar o que vê, e seu novo amigo é peça chave. Eles chegam à conclusão que nasceram no mesmo dia, partilham então a mesma trajetória de vida, do início ao fim. A morte que os encontra juntos simboliza não somente a dos judeus, que foram eliminados tanto fisicamente quanto foram destruídos seus projetos na Alemanha, na Polônia, na Hungria, países nos qual sentiam-se cidadãos. Mas também do lado dos alemães houve um genocídio de futuro, os dois meninos simbolizando as novas gerações que cresceram num ambiente emocional de vergonha e aridez. As novas gerações de filhos da Europa derrotada tiveram seu futuro abalado pelos seus pais, que assassinaram sua criatividade durante aquele período histórico, banindo seus livros, pensadores, artistas e políticos, restando o reino dos delirantes, medíocres e dos puxa-sacos, a escória que sustenta todo tipo de ditador.
No clímax da história, os garotos saem em busca do pai desaparecido de Shmuel, e nada encontram. Bruno queria ser explorador, morreu com ele a curiosidade infantil, essa mesma que mantém viva a democracia, a arte e todo tipo de pequenas e grandes revoluções. Vai levar muito tempo para que essa parte da Europa termine de reconstruir a sua inteligência expurgada e devassada, muitas gerações continuam em busca desse pai, que simboliza aquela cultura tão rica, que foi sufocada nos campos, no autoritarismo, na mediocridade militante da obediência devida.

Postado por Mário e Diana Corso

Vida Besta

06 de janeiro de 2009 2


 
O título do último filme dirigido por Joel e Ethan Coen, “Queime depois de ler”, é uma expressão que pode estar no fim de uma importante mensagem secreta, mas também significa que não vale a pena guardar. Opto pela primeira.
            Embora as personagens pareçam gente importante, a locação deste filme lembra a América profunda de “Fargo”. São pessoas medíocres, fracassadas, falsas ou irrelevantes, que confundem suas pequenas prioridades e impressões com grandes coisas. Obcecados por sexo, poder, dinheiro e beleza, elas se afogam numa comédia de erros. As personagens não somente deste, mas da maior parte dos filmes dos irmãos Coen, são de um universo de toupeiras, que medem a realidade pelo diâmetro de seus túneis escuros. Parte da brincadeira dos diretores foi colocar dois galãs, Pitt e Clooney, no papel de abobados e torna-los convincentes. Como se vê, o charme depende do papel que se desempenhe.
A mesma vontade que temos de sacudir as personagens, para que acordem do pesadelo de non-sense e burrice para o qual nos arrastam, serve para nós mesmos. Vivemos quase sempre cegos para o que ocorre ao redor: aquele que nos ama está mais perto do que pensamos, assim como aquele que pensamos que nos é dedicado sonha longe de nós; a grande conspiração que imaginamos existir é falsa e a que realmente existe nos é desconhecida; não somos tão feios como nos parece, mas somos menos espertos do que acreditamos; o sexo não significa encontro; e assim por diante. Não adianta sair do cinema pensando que somos inteligentes e as personagens imbecis. Depois de rir, é difícil queimar em nossa memória um resto amargo que nos identifica com aqueles idiotas.
Desde o começo, a obra dos irmãos Coen é dedicada a revelar nosso imensurável potencial de imbecilidade, por vezes com crueldade, em “Onde os fracos não tem vez”, outras com certa doçura, como em “O Grande Lebowski”. Boa parte das guerras, assim como os piores feitos da humanidade tem sido obra de idiotas achando-se grande coisa, seguida por outros medíocres que alegavam obediência devida aos primeiros, acompanhados de um bando de espertos com mentes estreitas. E assim seguimos vivendo sem pensar.
 Acabamos de ganhar um ano novinho em folha, ano novo é como caderno novo, parece uma chance de melhorar. Só o tempo dirá o que conseguimos fazer com isso, provavelmente nada que importe. Mas estes filmes ajudam a lembrar que alienação não é um termo filosófico vago, é uma forma de vida ao alcance de todos nós.

Postado por Diana Corso