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Posts de fevereiro 2009

Gris

27 de fevereiro de 2009 3


 

Estou reconciliada com meus cabelos. Os anos de litígio encerraram-se com um acordo diplomático. Não bastasse a cor original, um castanho sem graça e os fios grossos e indomáveis, ainda os brancos tomaram conta da cabeça aos trinta. Durante as décadas de discórdia, as batalhas incluíram todos os tons de vermelhos, cobres e mechas possíveis e imagináveis. Cansada das labaredas vermelhas dessa guerra de tintas, decidi parar de pintar faz uns quatro anos. Foi extremamente difícil achar um profissional que comprasse essa idéia, hoje é charmoso, moda em Nova York, mas na época, em Porto Alegre, era esdrúxulo. Deixando a cor natural e cuidando da saúde dos fios, resultou um cinza prateado e macio que me agrada demais. O cabelo deixou de ser um problema, mas surgiram outros.

Jamais fui uma beldade de parar o trânsito, mas de garota tive direito aos olhares que toda mocinha bem proporcionada tem. Com o passar dos anos, aquilo que é moeda corrente para qualquer adolescente, torna-se ouro para uma mulher adulta: ser capaz de despertar algum olhar de desejo, dispensado por um desconhecido na rua, nos corredores do supermercado, na fila do cinema.

Estão equivocadas aquelas que esperam que disso nasça uma história de amor, é um mero exercício de fantasia. Nós sabemos por que também o praticamos. Quando vemos alguém interessante, criamos uma novelinha que inclui a inserção do sujeito numa escala classificatória. Esse é do tipo Clooney, coroa mulherengo; esse é chamativo, mas é do tipo que aprecia os próprios peitos no espelho; esse é um Brad Pitt, lindo e bacana, pena que nunca serei uma Angelina; esse é um cara charmoso, mas sério, tipo bom marido fiel; esse é bonito, mas é gay; esse é, humm, atraente, mas tem jeito de maluco…

Em geral, nós mulheres olhamos discretamente e apreciamos criticamente. O que mais nos interessa é participar da fantasia de um desses, na verdade serve qualquer, porém, quanto mais valioso o produto, maior é a cotação de ser notada por ele. Assim como nós, os homens olham por curiosidade e para afirmar sua identidade. Eles tendem a ser mais explícitos, faz parte de seu papel imaginar-se caçadores, fantasiar conquistas que nem sempre são acompanhadas de vontade, tempo ou energia para efetivar.

Quanto mais inseguros formos, mais tendemos a gostar do óbvio, como homens grandes e amplos, mulheres com peitos sempre alertas e longos cabelos lisos. Se somos vistos em companhia de um macho ou de uma fêmea explícitos, no vigor da idade, logo ficamos confirmados em nosso valor social. É uma questão apenas de imagem, mas o que não é? Lá onde parecia tratar-se apenas de desejo, é de auto-imagem que estamos falando!

 Esse é, então, o único problema dos cabelos grisalhos. O que ajuda é que aquele que mais me interessa acha lindo, mas é uma escolha difícil essa de gostar-se na contramão do senso comum. É uma outra forma de sentir-se interessante, embora não seja jogar para a torcida. Não serve para levantar o entusiasmo do pessoal das obras, mas mesmo assim recomendo.

Postado por diana corso, para revista TPM fevereiro

Benjamin Button

25 de fevereiro de 2009 3


As fases da vida podem ser vistas como um círculo: no princípio, o desafio passa por aprender a não urinar e defecar nas calças; a missão seguinte, quando já se é um pouco maior, seria conseguir amigos; passada essa fase, o maior objetivo passa a ser fazer sexo; resolvido isso, a tarefa seguinte é conseguir dinheiro. Já na meia idade, a conquista, novamente, é fazer sexo; depois vem a fase de fazer amigos e o derradeiro desafio da vida de um homem consistiria em não fazer as necessidades nas calças.

Como se vê, as duas pontas da vida são iguais. Nascemos fracos e despreparados, e na melhor sorte, morremos frágeis e desamparados. Por isso tentamos ao máximo aproveitar e prolongar o meio, os anos de juventude, nos quais o corpo não é nosso maior inimigo e a morte paira a uma distância suportável. 

O filme O curioso caso de Benjamin Button, baseado num conto de Scott Fitzgerald, brinca com isso. O protagonista vive ao avesso, nasce velho e morre bebê. Sua vida ocorre na ordem inversa, mas é só para ressaltar que o período idílico é apenas uma parte da história, linda e passageira. O caso de Button é uma tocante história de amor, mas seu grande tema é a velhice. A infância também é uma experiência de amor entre pais e filhos e, principalmente, de muita esperança. Porém, no caso de Benjamin, foi velho nas duas pontas.

O recurso fantástico da vida inversa dessa narrativa poderia deixar em nós a idéia de que só o miolo valeria a pena. Cabelos brancos incomodam, mas idéias amadurecidas ajudam, não é à toa que se diz que gostaríamos de viver com o corpinho dos vinte e a sabedoria dos quarenta.

A infância é um presente impregnado de futuro, enquanto na velhice somos encharcados de passado. O acúmulo de experiências, o cheiro ranço das memórias que torna os idosos ao mesmo tempo interessantes e difíceis de suportar, está ausente em Button: quando nasce como um bebê enrugado e encarquilhado assemelha-se a um inválido e a infância que lhe chega posteriormente traz junto uma demência senil. Do filme pode restar a dura conclusão de que a velhice é simplesmente a falência do corpo. É isso, mas muito mais, é o processo de balanço de uma vida e a existência entre nós daqueles que têm a inevitável consciência da morte. O convívio com os velhos torna os jovens menos onipotentes. Benjamin Button tinha como lar um asilo, nessa casa aprendeu que os laços afetivos são a grande herança, eis algo que os idosos têm para ensinar.

Postado por diana corso

Canhotos

04 de fevereiro de 2009 0

vida difícil

Quem me conhece sabe que possuo duas mãos esquerdas. Apenas a minha melhor esquerda fica do lado direito, o que sempre me fez passar por destra.

Canhotos são como os muito altos, muito baixos, gordos e outros tipos de pessoas fora de padrão. O drama dos baixinhos também não me é estranho. Para os que são fora das medidas e funcionamento padronizados o mundo precisa de adaptações. Além dos problemas para caber ou alcançar sofridos pelos fora de talhe, estão os de uso dos objetos, que associa os canhotos aos portadores de deficiências motoras. Cadeiras de braço, tesouras, abridor de lata, o mouse deste computador em que escrevo, enfim, todos objetos são pensados para servir à mão dominante. Os que precisam vencer essa inadequação dos objetos ao seu uso dificilmente tenderão à onipotência, à soberba. Os canhotos já receberam uma primeira mão de cartas pouco propícia, terão que ser bons jogadores. Portanto, não somente por ser afro-descendente Obama tem credenciais para o que o mundo espera de sua gestão, mas também por ser canhoto.

Dizem que os canhotos teriam mais condições de ter uma visão abrangente das coisas por serem obrigados à constante experiência da bi-lateralidade e da inversão espacial. Não sei se isso é neurologicamente procedente, mas acredito que esse esforço de adaptação pode produzir um efeito psicológico interessante: quando se enfrenta algum obstáculo, todo gesto deixa de ser automático, é preciso criar uma solução, analisar o problema, as condições.

Drummond escreveu, para si mesmo, “vai Carlos, ser gauche na vida”, por isso diziam que ele era um “destro com alma canhota”. Gauche, em francês, é esquerdo, mas também desajeitado, malfeito. É pejorativo, mas é do lado esquerdo lado da tribuna que tem se sentado todos aqueles que tentam ver as coisas desde outra perspectiva. Suponho que, para Drummond, gauche era a condição de todos aqueles que se sabiam fracos, que se sentiam tontos frente a um mundo maior que sua Itabira natal. Infelizmente não sou poeta, nem Obama, mas sou mulher, estrangeira, judia e para complicar as coisas, psicanalista. Por todas essas coisas me considero um tipo de canhota, compartilho o ponto de vista dos que sentem a diferença e vivem com certo esforço de adequação.

Sempre acreditei que são os canhotos que vão endireitar este vasto mundo sem solução. Por isso espero algo da era Obama. Veremos.

 

Postado por diana corso