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Posts de março 2009

Sempre teremos Paris

21 de março de 2009 0

  1.  

    April e Frank Wheeler consideravam-se especiais, eram irreverentes, ele lutou no front da segunda guerra, ela queria ser atriz. A primeira pergunta que ela dirige a ele quando se conhecem: – o que você faz? Ele responde de forma literal, dizendo no que trabalha. Ela o corrige, não está interessada na realidade, mas no sonho: o que ele quer ser? Frank diz que está confuso, procurando se encontrar. Embora reclamando, ele acaba achando algum sentido na vida suburbana que o casal vai montando sem pensar. Trabalha numa firma onde pode crescer, pega o trem todo dia, reencontra a família e a casa arrumadas ao voltar. April não sente o mesmo: sua carreira dramática não vinga e a rotina doméstica a enlouquece.

    A história do casal Wheeler está num livro chamado Revolutionary Road (Richard Yates, 1961) que alude ao nome da rua em que eles moram. O endereço não podia ser mais paradoxal, pois é para acomodar-se e não para mudar o mundo que eles aderiram à típica casinha branca de família americana. Mas dentro de April a revolução borbulha e é isso que assistimos do começo ao fim do livro e filme (Apenas um sonho, Sam Mendes). Seu amor por Frank só reacende quando eles voltam a partilhar um sonho: mudar-se para Paris. Ela planeja trabalhar e ele ficaria um tempo estudando e tentando ser outra coisa, talvez escritor. April não quer dele o que os homens estavam acostumados a dar às mulheres: casa, sustento, filhos.

    Não conto mais para não estragar o prazer de ver esse filme, na magistral interpretação do casal de atores protagonistas de Titanic. Digamos que eles encenam o que poderia ter acontecido se a tragédia não tivesse transformado aquele amor em apenas um sonho.

    Entramos num tema que já foi maravilhosamente tratado em As Horas: aquilo que Betty Friedan na década de 50 chamou de “A Mística Feminina”, a insatisfação das mulheres com seu destino doméstico. Trata-se da onda de depressão que abateu as americanas do pós-guerra, que murchavam em plena época de prosperidade. Não estaria velha essa questão, como idosas estão as que foram suas protagonistas?

    Provavelmente não, embora a vida das mulheres tenda a ficar cada dia mais próxima dos anseios de April. Hoje podemos viver destinos diversos, mas continuamos perdidas em devaneios, usufruindo do legado de insatisfação que nossas ancestrais nos deixaram. Para as acompanhadas fica a dúvida do que seriam se fossem livres, enquanto as solitárias sentem-se em dívida com o destino amoroso. Filhos estorvam quando existem e deixam um buraco quando faltam. Estamos sempre inquietas.

    O filme nos lembra que os homens também estão mais interessados no que podem tornar-se do que no que são. Frank amava em April essa angústia, essa dedicação ao sonho, April amava em Frank aquilo que ele não realizou. Como na história de outro casal antológico do cinema, os apaixonados de Casablanca: no fim nós sempre teremos Paris.

     

Postado por diana corso, na revista TPM edição de março

Cadáveres de Plástico não Morrem

19 de março de 2009 0



 
            Nós enterramos nossos mortos. A cremação, que é a minha opção, está ganhando adeptos todos os dias. Mas esses não são os únicos destinos possíveis dos cadáveres: os egípcios e os incas mumificavam seus entes queridos, houve povos que os expunham aos animais para serem comidos, e inclusive ainda existe o canibalismo ritual dos mortos. De qualquer forma, o cadáver sempre foi objeto de reverência, o que fazer com ele nunca foi banal nem dum descarte fácil.
A exposição que está na cidade rompe com toda a tradição, talvez por isso choque algumas pessoas sensíveis, ela é uma das pontas onde se pode ler a dessacralização do corpo dos mortos que estamos vivendo. O trabalho da mostra “Corpo Humano: real e fascinante” fez uma espécie de empalhação high tech com cadáveres de pessoas que doaram seus restos para tal fim. Isso numa época que a taxidermia vem sendo substituída por maquetes ou versões digitais, pois criou-se certo pudor em expor os corpos dos animais empalhados.  
Não creio que a exposição fizesse sucesso se apresentasse apenas réplicas perfeitas, o valor do ingresso é pago também pela morbidez. Há um elemento de sinistro que nos move: aquilo foi gente um dia, e hoje, o que é? Não são múmias, pois essas tinham a esperança de voltar. Esses corpos organizam-se como um Atlas médico em três dimensões e não aspiram outra transcendência.
Nas faculdades de medicina os estudantes têm acesso aos cadáveres de indigentes, cujos restos não eram motivo de cerimônia para ninguém, e se transformam em peças anatômicas. Para os estrangeiros ao estudo da anatomia, a visão das entranhas de que somos feitos não é tarefa fácil. Ver é compreender que, por mais que se cuide dessa máquina complexa que nos constitui, um dia ela parará de pulsar. 
A exposição visa uma reflexão sobre os mecanismos que movem a vida, uma lição de saúde. Um encontro que em vez de sinistro pretende-se racional, mas não deixa de ser uma experiência de contato com a morte. Dar conselhos de saúde através de cadáveres, parte da certeza de no fim da história sempre morremos. Apertem os cintos, protejam-se do fim. Esses corpos são nosso memento uomo, a lembrança que somos um pó animado a caminho do pó final. Não consigo deixar de pensar naquela gente que está lá empalhada. Teriam eles vergonha ou orgulho da cena que se armou com suas carnes? Temos ido menos aos cemitérios, talvez exposições como essa, verdadeiras procissões de curiosos, sejam um renovado lembrete da nossa condição passageira.

Postado por diana corso

Fogo Amigo

04 de março de 2009 3


Uma jovem advogada pernambucana foi agredida por skinheads na Suíça e sofreu um aborto. Ficamos indignados como todos os cucarachos latino americanos sempre mal vistos no primeiro mundo. Porém, como todos já sabem, ficou provado que ela não podia perder a gestação gemelar, por não estar grávida. Pior, os cortes com a inscrição da sigla de um partido neonazista em seu ventre e pernas foram auto-infringidos. Ficamos confusos.
 Em qualquer circunstância, minha filha é vítima, afirmou o pai da moça, quer seja da agressão ou de distúrbios psicológicos. A verdadeira vítima dessa farsa é a credibilidade daqueles que foram realmente agredidos, em genuínos episódios de intolerância. A indignação desta vez é pela mentira, pelo constrangimento diplomático, afinal ela envolveu gente geralmente ocupada com assuntos mais importantes.
Paula Oliveira bancou uma gestação falsa. Grandiloqüente em suas fantasias, fez crer que esperava mais de um bebê. Para livrar-se dessa mentira, inventou uma maior, a agressão. O papelão dessa moça certamente não foi planejado. Pode ter sido um apelo delirante para que todo mundo perceba a mutilação representada pela gestação ausente. OK, são suposições, pois dessa moça pouco sei. Mas sei da vida das mulheres: aquela que deseja muito a maternidade e não é agraciada sente-se perseguida, discriminada, julga ter um direito que lhe é negado e um corpo que não está lhe permitindo isso, muitas talvez quisessem chamar seu próprio corpo improdutivo de nazista.
Essa hipótese só serve para lembrar que nossa vida psíquica trava seus combates internos, possui seus inimigos na trincheira. São nossos próprios desejos que muitas vezes nos vitimam com um “fogo amigo”, expressão utilizada nas guerras, quando um exército atrapalhado abate alguém dos seus. A solução para isso não é a vitimização, como sugere o pai, acusando algo externo, quer seja uma doença ou um perseguidor. A cura nesses casos passa por aceitar que se foi protagonista dessa cena e entender por que se fez isso. Como psicanalista, só posso lhe desejar um bom tratamento.
Para não abrir fogo amigo é preciso reconhecer as aparências que enganam, pois há partes de nós mesmos que parecem ser inimigas: quando nos boicotamos, nos inibimos, ou não sentimos o que deveríamos. Por estranho que pareça, sempre carregamos conosco algum tipo de estilete, destinado a nos ferir ou a servir de álibi para nossas pequenas e grandes mentiras. O drama de Paula é ter feito de forma global o que se encena na neurose cotidiana de todos nós.

Postado por diana corso