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Posts de abril 2009

Uma cidade de leitores

28 de abril de 2009 1



 

 

Porto Alegre, 12 de fevereiro, entardecer, sensação térmica 40 graus. Fui ao encontro achando que seria a única maluca interessada em debater “História sem Fim” numa livraria do Bom Fim (Letras & Cia). Não era o caso. O bando de doidos que se encontrou naquele dia chama-se Confraria Reinações e completaram dois anos disso: reunir-se mensalmente na livraria para trocar idéias sobre literatura infanto-juvenil. A cada encontro decide-se qual será o próximo livro a ser compartilhado. Lemos clássicos ou qualquer outro que se mostrar marcante para esse público. Entre os presentes há escritores, professores, editores, artistas, alguns têm seus livros publicados, mas todos estão lá na condição de leitores. A discussão pode atingir todos os níveis, há liberdade para dizer: “gostei”, ou “detestei”, “me irritou e parei de ler”, “pulei partes chatas”, e assim por diante. É isso que faz o encanto dessa reunião, a leveza que permitiu que se continuasse trabalhando até no nosso fevereiro.

Porto Alegre, 23 de abril, Dia Internacional do Livro, outro bando se reúne para atravessar a noite lendo o mesmo calhamaço – no caso “Cem anos de Solidão” – as vozes se alternam, alguns passam, outros ficam até o fim da noite e da obra.

Porto Alegre, primavera de todos os anos, há mais de meio século. Nossa Feira do Livro transforma-se no lugar onde nos encontramos, nos divertimos, discutimos assuntos aleatórios, borboleteamos. Somos uma cidade de leitores. Não sei dizer números, comparar com outras capitais do país e do mundo, é só uma boa impressão.

Somos também uma cidade de autores, mas creio que a condição de leitores é decisiva. A experiência da Reinações, na qual adultos lêem livros de criança, especialistas dão-se ao luxo de opinar como amadores, autores posicionam-se como meros leitores, é exemplar disso. A cultura adquirida por cada um de nós consiste na transmissão do acervo de narrativas, sons e imagens da humanidade, que, já disse o psicanalista inglês Winnicott: todos podemos usar se tivermos algum lugar onde colocar o que encontremos. Somos como uma obra aberta, na qual vão se acumulando elementos provenientes do acervo da humanidade. Ser leitores é mostrar que se tem lugar para colocar o que se absorve, para processar a experiência cultural, e isso faz de cada leitor um autor de sua própria história. Nossa cidade cria espaços para que cada vida seja uma leitura dramática dos tantos textos a que tivemos acesso, com os quais vamos proseando pelo tempo que nos toca.

Postado por Diana Corso

Problema Salomônico

18 de abril de 2009 3

ele já teria decidido...

Problema salomônico

 

Curiosamente, o caso de Sean foi perdendo espaço nos noticiários brasileiros, enquanto nos Estados Unidos ganha feições duma novela midiática, tal qual a do garoto Cubano Elian Gonzáles em 2000. Para quem ainda não acompanha o caso: Sean é filho do americano David Goldman com a brasileira Bruna Bianchi. Em 2004, Bruna veio, supostamente a passeio, com o seu filho de quatro anos ao Brasil e nunca mais retornou aos Estados Unidos. Durante esses anos David não conseguiu contato com o filho, sempre obstaculizado pela mãe do menino, que já estava num novo casamento. Recentemente Bruna morreu de parto, complicando o que já não era simples. O padrasto continuou a missão de sua finada esposa: empenhado em afastar David do filho, pleiteia na justiça a guarda da criança.

Neste caso, além do drama humano há uma camada política. O padrasto pertence a uma família tradicional no campo do direito, são proprietários de um dos grandes escritórios do país. Graças à influência dessa família, o pedido do pai americano ganhou contornos kafkianos na justiça fluminense e ele perdia sistematicamente suas demandas, sendo que até pouco tempo atrás nem ao menos conseguia ver o filho. Hoje o caso tramita numa vara federal.

Quando a história ganhou visibilidade nos EUA, David amealhou simpatizantes importantes, entre eles Hillary Clinton, e isso foi decisivo para o litígio ser levado de outra maneira pela nossa justiça. Inclusive essa questão já gerou um leve atrito diplomático entre Brasil e EUA.

Situações como esta já são previstas na justiça internacional, existem leis que balizam os juízes locais. O Brasil assinou um tratado internacional sobre esse tema e a resolução, nesses casos, tende à devolução do filho a seu pai. No entendimento do direito internacional, o que Bianca fez foi um seqüestro.

A família vive um momento diferente, nunca tantos casamentos foram desfeitos e refeitos. Nosso desafio é aprender a conviver com isso. Filhos vivendo longe dos pais, tendo um cotidiano com padrastos; finais de semanas alternados; férias negociadas; dramas para saber com quem passarão o natal; uma intrincada contabilidade de gastos discutidos a cada mês; mal entendidos freqüentes sobre tudo, enfim, a harmonia familiar nunca foi simples e agora ganhamos um adicional de confusão.  

Mas o problema mesmo começa quando um dos cônjuges quer negar que houve um passado, quer apagar um antigo amor de sua vida e, consequentemente, da vida de seus filhos. Poucas coisas podem ser tão devastadoras para um pai, ou uma mãe, como a desconsideração da sua condição; isso para não falar dos filhos, sem preparo para tal dilaceramento emocional, não sabem a quem dar razão, e vivem esticados entre os lados do conflito.

Quando um amor acaba podemos elaborar ou esquecer. Já quando esse amor gerou filhos não podemos nos dar ao luxo de queimar as fotos. È preciso enfrentar as mágoas, os sonhos partidos, os ressentimentos e aprender a conviver regularmente com um ser humano que representa um fracasso do amor, de nós mesmos, da esperança. O “ex” hoje pode ser, ou não, um desafeto, mas nunca será indiferente. Não existe outra saída viável. Não sabemos o que levou Bruna a tal gesto de apagamento de David, deveria ter suas razões, mas nada justifica privar alguém de seu filho, nem um filho de conviver com seu pai.

Nesses casos os EUA estão com o moral alto. Quando um fato semelhante lhes tocou, Elian Gonzáles, que perdeu a mãe na travessia do Golfo do México e ficou um tempo com a família materna, a justiça americana evitou uma patriotada e devolveu o menino para seu pai cubano. Vamos ver como os tribunais brasileiros vão se sair. Até este momento o fator local alijou o pai biológico de qualquer direito. Corroborou o voto da mãe e o borrou da vida de seu filho.

O afeto do padrasto é visto como muito benéfico e, para alguns, razão suficiente para que seja decretado que deve ocupar o lugar do pai. Escutei argumentos que dizem que o garoto está bem, então deixa assim. Para essa linha de pensamento, não interessa se isso é certo ou errado perante o direito internacional, ou mesmo que considere errado, conclui que seria mais importante saber se o menino estaria sendo amado. Ou ainda que o padrasto seria melhor que o pai, portanto, junto dele teria um futuro melhor. Como se a vida fosse pautada pelo melhor negócio.

Não duvido que esse menino seja amado no Brasil, mas, somente a título de conjectura, fico com uma pulga atrás da orelha se esse apego ao menino não seria também índice dum luto não resolvido pela sua mãe. Mas a questão não é essa. O fato é que quando nos deixamos levar por critérios subjetivos, e os laços afetivos sempre são nebulosos e ambivalentes, acaba vencendo o mais poderoso. A família Lins e Silva é certamente mais influente que a de David e fez valer seu lado enquanto esse não conseguiu melhores padrinhos para sua causa.

Não se pode escolher pai, nem filho, há de se aceitar os desígnios do destino. Nas famílias reconstituídas atuais, os amores dos pais trazem para os filhos novas figuras parentais, que também não são escolha deles. Isso tem um lado positivo, pois se multiplicam as oportunidades de identificações e afetos, e um negativo, onde a variedade de conflitos também aumentou. É claro que se aprende com a complexidade dos afetos, cresce-se com isso, mas que dá um trabalho danado negociar tantos vínculos diferentes, isso dá.

Eliminar um pai é mais do que forçar uma escolha, é negar o próprio papel de um pai, que é de incluir o filho nas leis e regras da vida, que costumam sobrepor-se aos afetos. Aqui a família sócio afetiva de Sean está falhando.

Em resumo, esse caso está fazendo barulho por duas razões: em primeiro lugar, torna pública uma querela familiar típica das novas famílias, e mexe com emoções que nos são caras, afinal, escolher um pai é escolher um destino; mas também pelo embate entre uma maneira brasileira de entender e levar as coisas contra o pragmatismo legalista americano. Façam suas apostas.

Postado por Mário Corso

Os ovos

15 de abril de 2009 3



 
         Quando a conheci ela tinha 77 anos e problemas de 47, já vão uns dez anos. Dilemas de amor e conflitos com a mãe envelhecida. Vou chamá-la de dona Irma. Semana passada encontrei sua neta e soube que continua lúcida, curiosa, conectada. Senti saudades, foi minha paciente, mas me ensinou muita coisa.
         Certo evento da sua vida, entre o cômico e o trágico, transformou-se para nós duas em ensinamento: dona Irma resolveu fazer um doce, daqueles que levam dúzias de ovos. Foi ao armazém comprá-los e na volta levou um tombo daqueles. O que causou graça foi o fato de que, embora ela tenha ficado toda lanhada, nada quebrou, os ovos ficaram intactos. Resmunguei que isso fora uma temeridade, que ela deveria ter cuidado seu corpo, e não com os ovos, mais fáceis de substituir. Inútil, dona Irma tinha outras prioridades.
         Ao contrário do que se diz, vão-se os anéis, ficam os dedos, neste caso foi-se o corpo, ficaram os ovos. Esses ovos representavam algo que ela queria muito fazer, tanto que se esquecera do corpo. Sei que para uma pessoa idosa cair é muito arriscado, algumas coisas quebram e não colam. Na velhice, quando o corpo se torna nosso inimigo, fica difícil manter o pique. Dona Irma conseguiu, porque a prioridade eram os ovos.
         Esses moços, que passam na academia horas e dias a fio, esquecidos dos ovos, vivem como velhos, reduzidos aos cuidados com a saúde, no culto de um corpo inutilmente forte. Correm na esteira, sem ir a lugar algum, fazem uma força danada, que não constrói nem transporta nada. Pobres moços, ah se soubessem o que dona Irma sabe, não malhariam tanto e fariam mais doces que levam dúzias de ovos.
          Os bebês muito pequenos não compreendem os limites entre seu corpo e o mundo externo: quando assolados por uma dor reagem com a fúria de um país em guerra. Já os velhos, assombrados pelas crescentes limitações, vêem suas possibilidades de circulação reduzidas a cada ano. Observamos então, que libertar-se das exigencias do corpo é uma das benesses da juventude, período que dura pouco, aliás.  Por que então passar esses poucos anos, os únicos de liberdade, dedicados à tirania da carne?
         Dizem que depois de certa idade, de uns quarenta em diante, quando acordamos e não sentimos nada doendo é bom conferir o obituário do jornal: pode ser que estejamos mortos. Resta-nos a lição de dona Irma: preocupem-se com os ovos. A força de viver reside na vontade de desejar coisas para além de nós.

Postado por Diana Corso

Reflexões eqüinas

05 de abril de 2009 2



 

Embora no resto do Brasil se acredite que toda gaúcha é uma amazona, raras vezes montei a cavalo. Acho a idéia mais fascinante do que a prática. Sinto-me sobre um cachorro gigante onde não consigo olhar na cara para saber se está disposto a me levar ou derrubar. Geralmente eles são dóceis e nos levam a bons passeios, mas eles têm lá suas idéias e uma delas é “voltar para casa”.

Aprendi isso num período em que me hospedei numa fazenda. Lá fui informada que se me perdesse no campo bastava soltar a rédea que o bicho acharia sozinho o caminho de volta. Foi o que aconteceu. Só tem um detalhe: livre das rédeas, o cavalo passa a ignorar nossa presença lá em cima e começa a passar por lugares em que ele cabe, mas não quem o está montando. Cheguei a meu destino deitada sobre a sela, toda arranhada dos matos nos qual minha montaria, quer seja por descaso ou por sadismo, se meteu.

Valeu a aventura, e como metáfora é melhor do que como diversão. No amor como no hipismo, deixar-se levar, decretando-se “perdido” pode ser uma bela forma de sair lanhado. Muitas vezes queremos que nossa cara metade seja outra coisa que um companheiro, um sócio, um co-autor, um amante, queremos que essa pessoa seja um líder carismático, autoritário, envolvente a ponto de fazer-nos esquecer de escolher o caminho. Deixar-se levar, soltar as rédeas, pode ser bom enquanto fantasia sexual, porém na escolha dos caminhos de vida equivale a ficar à mercê dos sintomas do outro.

Deixada à própria sorte, nossa cara metade sempre dá um jeito de voltar para seu território seguro e relacionar-se, pelo contrário, é tentar viver longe de casa, em terras a serem colonizadas. “Casa” é mais do que um espaço físico, é aquele lugar previsível onde não é preciso levar em conta tantas variáveis. Em casa escolherei a melhor forma de organizar meu espaço, tempo e tarefas. 

A rotina é herdeira dos cuidados maternos primários, nela cultivamos certos horários, seqüências de gestos, sabores, cheiros. Aplicamos esses rituais em nosso cotidiano como forma de reproduzir a forma como zelavam por nós quando éramos pequenos. Já o amor é uma experiência de viver com outros hábitos, falar uma língua diferente (cada casal cria um vocabulário próprio). Amar é… como viver no estrangeiro. Porém, se um dos dois se apaga, o outro toma o caminho de casa.

 Quando arriscamos escolher o caminho, muitas vezes ele nos afasta do lugar seguro, caseiro, mas tem um lado bom, que faz valer o frio na barriga: o tempo todo estamos presentes, sendo lembrados, considerados. Por vezes lamentamos a liberação feminina que nos deixou à mercê de homens que não são mais tão protetores nem provedores. Acredito, porém, que se bem perdemos algumas seguranças, corremos muito menos riscos de terminar machucadas, conduzidas como um saco de batatas. E os caminhos mais interessantes não levam para o curral.

 

Postado por diana corso, para revista tpm, edição de abril

BRUXAS

01 de abril de 2009 0



 

Numa mesma penitenciária, Anna Carolina Jatobá, Suzane Richthofen e Valdecina Alves de Almeida pagam seus pecados. Todas são responsáveis por crimes que impactaram a opinião pública: o assassinato de uma enteada, dos pais e o selvagem espancamento de um bebê, respectivamente.

            Antes de chegar à penitenciária de Tremembé, Valdecina foi corrida de dois outros presídios femininos. As detentas de Itupeva fizeram um motim, queimaram colchões e estavam decididas a linchar a torturadora de crianças. Em Campinas, a mesma situação começou a se armar.

A Loira, como era chamada em Jundiaí, mantinha uma conterrânea baiana trabalhando em sua casa como babá de sua filha. Essa jovem era mãe de Riquelme, um bebê chorão. Valdecina, uma prostituta de 33 anos, não conseguia suportar o barulho da criança e diz que deu nela: “um negócio ruim, eu comecei a bater, bater, bater, eu queria matar, queria devorar, quando eu parei pra pensar já tinha feito a merda”. É um acesso de loucura onde ela ficou identificada com o desamparo do bebê inconsolável, a ponto de querer eliminá-lo pra calá-lo. Isso é insuportável mesmo para mulheres criminosas, que não queriam ver seus delitos misturados com o dela. Mas o que é tão insuportável até para essas mulheres?

            A vontade de devorar uma criança é brincadeira afetiva com os bebês: – vou comer esse pezinho, vou morder essa barriguinha! Não temos vergonha de dizer a um bebê fofo. São versões lúdicas da relação mãe-bebê, nas quais se relembra que ambos já fizeram parte do mesmo corpo. Nascemos tão pequenos e insignificantes que no princípio continuamos contidos numa personagem materna, dependemos de seus peitos, de seu olhar, de sua voz para ir nascendo a cada dia.

O parto subjetivo acontece ao longo de muito tempo, no qual vamos aprendendo a ver com nossos olhos, a falar em vez escutar e chorar. Muito do que somos devemos à mãe, por isso a maternidade é uma entidade sagrada até na cadeia. Se não há como ignorar que o mundo é perigoso, podemos ser mortos, roubados, enganados, nada é mais assustador do que ver alguém corromper esse vínculo, usar seu poder supremo às avessas. Mãe é pra criar, não para matar, mãe é para parir, não para devorar. O trio calafrio de Tremembé representa a face negra da maternidade e da filiação, a mãe-bruxa-primordial. O conto de João e Maria é a mais conhecida metáfora desses perigos, nele aprendemos desde pequeninos que mães e filhos podem se destruir em vez de se construir. Como se vê, há pecados que não encontram guarida nem no inferno.

 

Postado por DIANA CORSO