
O plebiscito sobre o pontal do estaleiro está se aproximando e já é hora dos porto-alegrenses sérios tomarem as rédeas de seu destino. Não é apenas um plebiscito sobre o que fazer com aquela área restrita, vai ser uma votação sobre o caráter a implementar na cidade. Meu temor é nos tornarmos demasiado cariocas. Já explico, Porto Alegre são duas: a zona sul que interage com o rio e o resto que mantêm uma distância segura do mesmo. Ou seja, há uma crescente população carioca dividindo a cidadania com a parte genuinamente gaúcha.
Na parte séria da nossa metrópole há um muro de contenção ao Guaíba. Serve para conter nossa cepa gaudéria, para que as águas e suas influências malsãs não nos afrouxem. Já esse pessoal da zona sul freqüenta as praias do estuário sem cerimônia, quer seja para correr, caminhar, tomar chimarrão ou olhar o pôr do sol.
Em breve serão construídas diversas obras à beira do rio, todo cuidado é pouco para que nossa regra número um não seja rompida: não devemos sob hipótese alguma aproximar-nos das águas do Guaíba. Se isso ocorrer ficaremos preguiçosos, sem palavra e promíscuos como os cariocas. Pouco mais e nossas prendas vão querer ficar andando de shortinho ou coisa pior em plena cidade! Não demorara muito por trocar o mate por uma cervejinha. Poderemos nos tornar uma cidade de Zecas Pagodinhos! Onde vamos parar.
Quem não ouviu falar que água mole em pedra dura tanto bate até que fura? Nossa fibra, que nos torna cobiçados em qualquer outro estado como trabalhadores capazes, acima do padrão indolente do brasileiro provém da distância das águas! Graças a ela podemos ter o orgulho de ser gaúchos! Ficar perto delas deixa-nos moles, sem valores.
Portanto, minhas recomendações são as seguintes: todo cuidado é pouco e peço que se tomem nessas novas obras os cuidados tão bem providenciados no museu Iberê Camargo. O rio só deve ser visto à distância, com parcimônia, de passagem e todo contato direto deve ser evitado. Para tanto, seria uma boa idéia expandir o muro da Mauá a uma distância necessária para que não se tenha contato visual com o rio até o acesso aos novos bairros privados na beira do Guaíba. Ao passar por eles, veremos somente guaritas. Serão permitidas visitas guiadas de colégios aos locais, assim como são realizados passeios de barco instrutivos. Pode-se vê-lo também em visitas ao gasômetro, bienal ou feira do livro, sem problemas: é turismo. Quanto à Zona Sul, nada que uma municipalização não resolva, poderia ser chamada de Rio de Janeiro do Sul.
Postado por Diana Corso


