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Posts de maio 2009

Não podemo se entregá pro rio!

27 de maio de 2009 4



           

O plebiscito sobre o pontal do estaleiro está se aproximando e já é hora dos porto-alegrenses sérios tomarem as rédeas de seu destino. Não é apenas um plebiscito sobre o que fazer com aquela área restrita, vai ser uma votação sobre o caráter a implementar na cidade. Meu temor é nos tornarmos demasiado cariocas. Já explico, Porto Alegre são duas: a zona sul que interage com o rio e o resto que mantêm uma distância segura do mesmo. Ou seja, há uma crescente população carioca dividindo a cidadania com a parte genuinamente gaúcha.

Na parte séria da nossa metrópole há um muro de contenção ao Guaíba. Serve para conter nossa cepa gaudéria, para que as águas e suas influências malsãs não nos afrouxem. Já esse pessoal da zona sul freqüenta as praias do estuário sem cerimônia, quer seja para correr, caminhar, tomar chimarrão ou olhar o pôr do sol.

Em breve serão construídas diversas obras à beira do rio, todo cuidado é pouco para que nossa regra número um não seja rompida: não devemos sob hipótese alguma aproximar-nos das águas do Guaíba. Se isso ocorrer ficaremos preguiçosos, sem palavra e promíscuos como os cariocas. Pouco mais e nossas prendas vão querer ficar andando de shortinho ou coisa pior em plena cidade! Não demorara muito por trocar o mate por uma cervejinha. Poderemos nos tornar uma cidade de Zecas Pagodinhos! Onde vamos parar.

Quem não ouviu falar que água mole em pedra dura tanto bate até que fura? Nossa fibra, que nos torna cobiçados em qualquer outro estado como trabalhadores capazes, acima do padrão indolente do brasileiro provém da distância das águas! Graças a ela podemos ter o orgulho de ser gaúchos! Ficar perto delas deixa-nos moles, sem valores.

Portanto, minhas recomendações são as seguintes: todo cuidado é pouco e peço que se tomem nessas novas obras os cuidados tão bem providenciados no museu Iberê Camargo. O rio só deve ser visto à distância, com parcimônia, de passagem e todo contato direto deve ser evitado. Para tanto, seria uma boa idéia expandir o muro da Mauá a uma distância necessária para que não se tenha contato visual com o rio até o acesso aos novos bairros privados na beira do Guaíba. Ao passar por eles, veremos somente guaritas. Serão permitidas visitas guiadas de colégios aos locais, assim como são realizados passeios de barco instrutivos. Pode-se vê-lo também em visitas ao gasômetro, bienal ou feira do livro, sem problemas: é turismo. Quanto à Zona Sul, nada que uma municipalização não resolva, poderia ser chamada de Rio de Janeiro do Sul.

P.S.: após sem número de mails recebidos de indignação sobre este texto que se pretendia humorístico, devo solenemente comunicar que minha carreira como humorista encontra-se encerrada, tentarei da mesma forma evitar duplo sentidos, poesia e outras formas de expressão que possam induzir ao equívoco. 

Postado por Diana Corso

O Homem Invisível

13 de maio de 2009 3



 

O homem visível está no cartaz, ele é bidimensional. Dias atrás, passando por uma vitrine de perfumes, vi o cartaz de um homem visível: lindo, másculo, jovem, enigmático. Perguntei às pessoas que estavam comigo de qual filme era aquele ator, ninguém lembrou. Quando estávamos nos afastando, uma voz forte respondeu: – “É do Homem Aranha”. Levamos um pequeno susto, não tínhamos notado mais ninguém. Foi então que vimos um segurança parado ao lado da vitrine. Ele ria para nós e de nós, notou que nos assustamos. Era o Homem Invisível, um herói anônimo, fortemente paramentado para nos proteger caso necessário. É pena, mas o Homem Aranha está tão ocupado com sua carreira artística que já não aparece para nos salvar, nem ao menos nos leva para voar no seu cipó aracnídeo.

Naquele instante o rapaz da segurança não se resignou ao papel de estátua e se tornou mais visível que o ator do cartaz. Quantas vezes apostamos no herói bidimensional, enquanto estamos completamente cegos para a criatura real, tridimensional que está ali, invisível. Isso é o que chamamos de “ideal”: o real maquiado, aquilo que é tudo que não somos. O ideal tem retoques de fotoshop, efeitos especiais. Na vida do homem ideal existem mutações que fortalecem, transformam-se em poderes. Já na vida real as mutações atendem pelo nome de câncer. Nosso Homem Invisível pega ônibus sem colete à prova de balas, e provavelmente pouco consome no shopping cuja segurança garante. O real é sempre mais encolhido, triste, por isso tendemos a achar o ideal mais visível que o real.

O problema é que cada um de nós parece-se mais com o Herói Invisível do que com o Homem Aranha. O Homem Aranha é uma versão fantasiosa do que gostaríamos que o segurança do shopping fosse, mas não é. Da mesma forma, cada um de nós é uma pálida versão do seu ideal.  Somos invisíveis relativo àquilo que consideramos que deveríamos dar a ver: muito mais força, invencibilidade, poder, beleza, independência do que, na prática, somos capazes.

Groucho Marx brincava que ele jamais entraria para um clube que o aceitasse como sócio, nem nós. Por isso, paradoxalmente, costumamos amar os que nos desprezam e desprezar àqueles que nos amam. Como só temos olhos para nosso ideal, não supomos que alguém vá se engraçar pela nossa condição real. Vale lembrar que na verdade, nosso ego é sempre meio remediado: pega trem, mora na periferia, mas por sorte, acha jeito de se divertir mesmo quando está trabalhando de estátua. Isso é o que nos salva!

Postado por Diana Corso

Mãe Aranha

07 de maio de 2009 1

de volta para as entranhas...

 

Costumo dizer a meus pacientes: – mãe só tem uma, graças a deus… As mães são, somos, muito chatas, muito mesmo, grudamos nos filhos com uma solicitude viscosa. Quando presentes, somos ostensivas, grandiloqüentes, mas, apesar disso, todo filho se queixa de algum tipo de descuido.  

Coraline é personagem de um filme de animação (“Coraline”, direção Henry Selick, história de Neil Gaiman). Ela só tinha uma mãe, aliás, bem parecida comigo: do tipo que dividia os olhos entre a filha e o teclado do computador e a deixava livre para brincar, mas de tal maneira que a menina sentia-se abandonada. Os pais dela escreviam sobre plantas, mas não cuidavam do próprio jardim. Sua casa era árida, a comida ruim, feita pelo pai. Também me identifiquei com eles, por tantas vezes ter ficado escrevendo sobre crianças em vez de me dedicar à verdadeira infância das minhas filhas em tempo integral. Sempre resta uma culpa.

 Coraline sonhava com outra família: uma casa cálida, cheirando a comida fresca e gostosa feita por uma mãe prendada. Quanto aos pais, não deviam ter vontade de fazer mais nada além de brincar com ela. Já o jardim de seus anseios era uma floresta viva de espécimes mágicos e impressionantes. Ela encontra tudo isso num mundo paralelo, ao qual tem acesso através de um buraco na parede, com um único agravante sinistro: nele seus “outros pais” são iguais aos dela, mas eles têm botões no lugar dos olhos…

Esse mundo paralelo existe para todos nós, Freud o chamava de Romance familiar do neurótico, no qual imaginamos que até poderíamos ser adotivos, filhos de uma família mais nobre. Curiosamente, essa fantasia clássica encontrou uma nova fórmula, sobre a qual tenho escutado em meu consultório, a da filha que sonha com uma mãe ao modo antigo, do tipo que alimenta, agasalha e não tem vida própria.

Porém, Coraline caiu numa armadilha: aquela mãe tão atenciosa era na verdade uma bruxa de aparência aracnídea; o ninho agradável não passava de uma ilusão, uma teia destinada a prender a menina para roubar-lhe os olhos. A bruxa nutria-se de olhos infantis, com os quais aumentava seu poder maligno.

Essa “outra mãe” em cujo mundo Coraline ingressa por um túnel, numa espécie de parto ao contrário, ainda vive oculta dentro das mães ocupadas, trabalhadoras, como eu. É aquela que possui um calor que atrai, mas é como uma cobra que hipnotiza para melhor devorar sua cria. Se essa personagem materna assusta tanto, é por que a desejamos em fantasia como a que este filme capta: essa é a mãe da primeira infância.

Mamãe pode até ser a presidente da república, médica, motorista, mas para nós será sempre uma dragoa de quem queremos ser o maior tesouro, sobre o qual ela passe a vida sentada em cima defendendo-nos. Hoje, a vida real de mães e filhos passa longe da caverna da dragoa, mas no ofício da maternidade sempre oscilaremos entre dois opostos que se complementam: a mãe boa, que nutre e aquece, e a mãe-aranha que aprisiona na sua teia para melhor devorar. A vida pode ser arrojada, mas as fantasias são conservadoras.

 

Postado por Diana, para TPM maio