Devo confessar que sou uma blogueira traída: meu parceiro nesta empreitada prefere outro, ELE TEM OUTRO BLOG, COM OUTRO HOMEM! Sim, o Mário tem um blog sobre futebol com o Fabrício Carpinejar. Lá eles praticam o que os homens adoram fazer: usar o futebol como desculpa para passar bons momentos em companhia uns dos outros. Neste caso, eles escrevem juntos e posso assegurar que se divertem de montão, mesmo quando o time lhes traz dissabores, eles se consolam fazendo do futebol literatura. O endereço do blog DELES é - www.rolocompressor.zip.net - mas resolvi me vingar postando aqui um texto usurpado de lá e ainda antecipando um texto roubado direto do computador do Mário que ainda nem foi colocado lá e ele não considera pronto, mas como é sobre um parente meu que foi jogador, achei-me no direito de fazê-lo.
Kutasi
Quem teve um tio meio biruta sabe seu valor. Quem não tem, nem faz idéia do que já perdeu. A minha sogra teve um de dar inveja. Chamava-se Henry Kupferstein e nasceu com o século em Budapest. Boníssima pessoa, mas, ou por isso mesmo, boêmio, gazeteiro, vivia de encrenca em encrenca, branqueando os cabelos de seu pai. Entre seus inúmeros vícios havia um que era secreto. Para não desgostar ainda mais seus amados pais arranjou um apelido: Kutasi.
Com esse nome era conhecido em Budapest. Seu nome saía nos jornais, era ouvido nas rádios, mas ninguém ligava Henry a Kutasi. Quem sabia, por ser cúmplice, era seu primo Bandi Kerekes. Ele o acobertava, nos fins de semana em que sumia todos pensavam que estava com o primo. Com o passar do tempo outros parentes souberam do segredo, mas pouparam seus pais. Os dois falecerem sem conhecer a ignonímia de ter um filho jogador de futebol. Ele sabia que seus pais já tinham perdoado tanta coisa, não o perdoariam por ser ponta esquerda. Outros tempos, outros pais.
Futebol naquela época era coisa de periferia, de ralé. Na Hungria o futebol começava a encantar, a tornar-se massivo e paixão nacional, mas jogadores não ganhavam bem e eram mal vistos. Henry sofria com a descriminação e com o segredo familiar e, pior, a paixão pelo futebol só crescia, cada dia era mais Kutasi e menos Henry.
Quando a situação ficou difícil para os judeus na Hungria seu irmão Luis e o primo Bandi vieram para a América. Ele não quis, já tinha driblado tanta coisa na vida, achava que livrava mais essa. Mal sabia ele que o nazismo era um zagueiro maldoso, desleal, quebrador de perna. Esse drible ele não deu. Kutasi e Henry morreram juntos em Auschwitz em 1944. Já não usava a camisa11, era um número mais longo tatuado no braço.
Postado por Mário Corso

