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Posts de julho 2009

Kutasi

12 de julho de 2009 0

 

Devo confessar que sou uma blogueira traída: meu parceiro nesta empreitada prefere outro, ELE TEM OUTRO BLOG, COM OUTRO HOMEM! Sim, o Mário tem um blog sobre futebol com o Fabrício Carpinejar. Lá eles praticam o que os homens adoram fazer: usar o futebol como desculpa para passar bons momentos em companhia uns dos outros. Neste caso, eles escrevem juntos e posso assegurar que se divertem de montão, mesmo quando o time lhes traz dissabores, eles se consolam fazendo do futebol literatura. O endereço do blog DELES é – www.rolocompressor.zip.net - mas resolvi me vingar postando aqui um texto usurpado de lá e ainda antecipando um texto roubado direto do computador do Mário que ainda nem foi colocado lá e ele não considera pronto, mas como é sobre um parente meu que foi jogador, achei-me no direito de fazê-lo.

 

Kutasi

 

Quem teve um tio meio biruta sabe seu valor. Quem não tem, nem faz idéia do que já perdeu. A minha sogra teve um de dar inveja. Chamava-se Henry Kupferstein e nasceu com o século em Budapest. Boníssima pessoa, mas, ou por isso mesmo, boêmio, gazeteiro, vivia de encrenca em encrenca, branqueando os cabelos de seu pai. Entre seus inúmeros vícios havia um que era secreto. Para não desgostar ainda mais seus amados pais arranjou um apelido: Kutasi.

Com esse nome era conhecido em Budapest. Seu nome saía nos jornais, era ouvido nas rádios, mas ninguém ligava Henry a Kutasi. Quem sabia, por ser cúmplice, era seu primo Bandi Kerekes. Ele o acobertava, nos fins de semana em que sumia todos pensavam que estava com o primo. Com o passar do tempo outros parentes souberam do segredo, mas pouparam seus pais. Os dois falecerem sem conhecer a ignonímia de ter um filho jogador de futebol. Ele sabia que seus pais já tinham perdoado tanta coisa, não o perdoariam por ser ponta esquerda. Outros tempos, outros pais.

Futebol naquela época era coisa de periferia, de ralé. Na Hungria o futebol começava a encantar, a tornar-se massivo e paixão nacional, mas jogadores não ganhavam bem e eram mal vistos. Henry sofria com a descriminação e com o segredo familiar e, pior, a paixão pelo futebol só crescia, cada dia era mais Kutasi e menos Henry.

Quando a situação ficou difícil para os judeus na Hungria seu irmão Luis e o primo Bandi vieram para a América. Ele não quis, já tinha driblado tanta coisa na vida, achava que livrava mais essa. Mal sabia ele que o nazismo era um zagueiro maldoso, desleal, quebrador de perna. Esse drible ele não deu. Kutasi e Henry morreram juntos em Auschwitz em 1944. Já não usava a camisa11, era um número mais longo tatuado no braço.

Postado por Mário Corso

Um time muito doido ou doping ao avesso

12 de julho de 2009 0

 

UM TIME MUITO DOIDO OU DOPING AO AVESSO

Mário Corso

Eu uso óculos. Não tenho graves deficiências, a dificuldade vem da combinação de 2,5 graus de miopia com 1,5 de astigmatismo.

Nenhum rancor, já estou acostumado, mas quando criança não dava para jogar futebol.

Até dois metros, visão perfeita; três metros, as coisas começam a se confundir; cinco metros, é um nevoeiro pior do que partida no Alfredo Jaconi durante o inverno.

Como passava a bola errado ninguém me queria no time. Tentei ficar quieto debaixo das traves, o lugar em que a molecada aceita os pernas de pau – no meu caso olho de pau. Agravei o estigma: segurava os arremessos de perto, mas certas bolas vinham do além e eu só enxergava dentro da rede. Assistia aos gols de uma posição privilegiada.

Se eu nascesse de novo iria fazer a única coisa que penso que a vida me deve: jogar futebol com os amigos da rua.

Anos mais tarde tive minha experiência como treinador. Pensei em vingar a performance nos gramados, agarrei a chance com as duas pernas. Farejei um plantel diferente. Explico. Houve um campeonato interno no hospital psiquiátrico São Pedro: eu não estava internado, atuava como estagiário de psicologia. Coube-me treinar a divisão Melanie Klein onde passava a maior parte do tempo.

Conversava com os pacientes, identificava talentos e montei um time. Campanha vitoriosa, atropelamos os times das eliminatórias (Freud, Lacan, Jung) e nos classificamos para a final contra o pessoal da divisão de Tóxicos (na verdade, álcool e drogas).

Encontramos nosso limite. Perdemos e perdemos feio, mas saímos de cabeça erguida. O adversário era terrivelmente superior, ou ao menos parecia.

No outro dia, meu time estava desconsolado. Vazou uma informação pela enfermagem: o time dos tóxicos jogou dopado.

A mutreta foi assim: todos os pacientes recebiam medicação psiquiátrica e naquela época o Haldol (Halopiridol), um neuroléptico, representava o feijão-com-arroz das receitas, geralmente Haldol combinado a outro remédio. Pois bem, o adversário pediu aos médicos para dispensar a medicação na decisão. Todos sabem que o Haldol produzia como efeito colateral certa rigidez muscular, o corpo fica pesado e lento. Os supervisores aceitaram  a folga e o time jogou “dopado” por não tomar remédio.
 
Na época não encaminhei o caso a CBF, mas hoje me arrependo. Perdi a credibilidade com minha turma.

Meus pacientes estavam lá adoecidos, entre outras coisas, por não enxergar uma esperança nesse mundo, e acabaram ludibriados dentro do hospital que dizia cuidá-los.

Eu me sinto perseguido. Minha paranóia futebolística superou as falhas visuais da infância. Pelo menos, quem é paranóico não pode ser criticado pelo problema de visão. 

Postado por Mário Corso

Livros Adotivos

07 de julho de 2009 0


 

Raras coisas acontecem na educação deste país das quais possamos nos orgulhar. Porém, ocorreu algo interessante: a aquisição pelo governo, entre outros, de uma obra de Will Eisner, chamada Um contrato com Deus. Os exemplares estão sendo distribuídos às escolas, para acervo em suas bibliotecas ou uso pelos professores.

Eisner é responsável por consagrar a fusão dos quadrinhos com a literatura, empresta seu nome ao maior prêmio desse gênero no mundo. Quadrinhos são a prova de que a imagem não mata o texto, pode casar-se com ele. O livro em questão ilustra poeticamente trechos da vida de gente sofrida, assim como seu  Pequenos Milagres, outra obra prima. Acredito que ele representa o que Charles Dickens foi para seu tempo. Seus heróis podem ser pobres, miseráveis, mas é nos impasses éticos que muitas vezes se traduzem nas pequenas escolhas, assim como nas diferentes formas de sobreviver às adversidades que ele enfocava suas histórias. Mas, como todos já sabem, alguns políticos e pedagogos resolveram condenar a divulgação dessas obras junto às escolas.

 Tenho um amigo, professor de literatura em cursinho há décadas, que costuma, ano após ano, reler as obras que caem no vestibular. Por que, se ele pode dar essa aula com o pé nas costas? Para reencontrar-se com a experiência dessa leitura! Somente assim ele torna-se capaz de falar com a paixão do leitor, a única que se transmite aos alunos quando se ensina literatura.

Livros adotados devem ser como filhos adotivos: um encontro, tal qual um nascimento, que seja significativo, que funde algo. Entre pais e filhos esse evento sempre terá que ser renovado, reeditado a cada etapa da vida em que ambos mudam, crescem, envelhecem. Adotar um livro é algo que deve ser decidido pelos professores a partir dos encontros que tiveram com determinadas obras. Essas em algum momento provavelmente funcionaram como sua melhor tradução, o que ocorre freqüentemente com a poesia, ou lhes capturaram a existência, como com uma boa obra de aventuras ou drama. Antes de adotar um livro, tivemos que ser abduzidos por ele. Com os livros infantis, embora crescidos, tem de ocorrer-nos o mesmo, pois ainda resta uma conexão inconsciente com a criança que fomos.

Por tudo isso, peço aos mestres que se imponham sobre os burocratas e os políticos, ousem, leiam e defendam aquelas obras pelas quais se sentem tocados, tal como fazem, em tempos de guerra, aqueles cidadãos corajosos que escondem obras de arte para que elas não sucumbam à barbárie dos bombardeios.

 

Postado por Diana Corso

os portadores do anel

05 de julho de 2009 0



 

Começou timidamente entre os jovens religiosos americanos na década de 90, o movimento chamava-se “True Love Waits” (o amor verdadeiro espera), ou simplesmente TLW. Trocando em miúdos, significa não somente permanecer virgem até o casamento, como ainda proclamar isso aos quatro ventos utilizando um “anel da pureza” com essa inscrição. Hoje, o acessório é popular entre meninas e rapazes graças a ser capitaneado por ídolos infanto-juvenis como Hanna Montana e os Jonas Brothers, que fizeram furor em recente passagem pelo Brasil. Na minha época de estudante secundarista, virgindade era um desafio, um fardo, para muitas uma vergonha. Já a geração da minha mãe vivia sob o jugo da hipocrisia: era uma época de falsos prematuros, pois a moça casava grávida e não admitia isso publicamente. Pareceria que a virgindade enquanto valor estava enterrada.

            O que esses jovens dizem com seu gesto é que estariam sentindo que a iniciação sexual tornou-se compulsiva. As meninas querem achar o príncipe, casar-se com ele para depois manter relações. Diga-se de passagem, muito poucas das portadoras do anel chegam de fato até o altar sem ter experimentado alguns ou todos os fogos do sexo. Quanto aos moços, não serão arrastados ao bordel pelo pai ou titio para livrá-los da vergonhosa virgindade. A inexperiência é ponto negativo para ambos: qual é a vantagem de fazer uma escolha amorosa sem conhecer um ao outro e, principalmente, sem conhecer-se? Na prática, os tais anéis podem ser vistos até como sinal de uma certa rebeldia, pois os adolescentes querem decidir sem as patrulhas pró nem contra sua “pureza”. Mas que pureza é essa? Na verdade trata-se da glamourização de uma inibição sexual.

            No início do movimento, os adeptos da TLW também utilizavam anéis com a inscrição “a ti Senhor” Os jovens fãs desses ídolos não dedicam seu celibato a Deus, eles apenas usam esse símbolo como forma de tornar pública sua sexualidade, às avessas. A sexualidade é assunto público desde sempre, sua visibilidade envolve temas candentes como a autenticidade biológica da filiação; os dilemas de ser masculino ou feminino, desejar e ser desejado; memórias infantis, e incestuosas, de amores e sexo; a passividade e a atividade, alternativas que não se colocam apenas para os homossexuais; e a lista poderia seguir, muito, adiante. O anel de pureza é também uma forma de tentar simplificar essa questão: sexo equivaleria a amor, vice versa, e não se fala mais nisso. Santa ingenuidade!

Dedicar ao senhor uma abstinência é hábito que faz os monges e monjas, seu celibato é sagrado. Para estes moços, o mais próximo da divindade são os ídolos populares, eles habitam lugares venerados: Disney, Hollywood e… o castelo de Caras.

Postado por Diana – Revista TPM julho