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Posts de agosto 2009

Despedida da TPM

29 de agosto de 2009 0


 

Durante quase três anos fui colunista da Revista TPM. Ao longo desse período fui dialogando a meu modo com o público, que imaginava ser de mulheres jovens, principalmente do centro do país. Além da eterna luta pela leveza, que no meu caso é uma dura batalha, fui me acostumado a escrever tendo em mente um público feminino. Com palavras muito gentis, as gurias me avisaram que minha colaboração se encerrou. Foi muito legal, pra mim pelo menos. Mas acabei gostando e acho que não vou encerrar esse diálogo imaginário, não necessariamente só com as mulheres, mas sobre as mulheres. E acho que este blog será minha próxima vítima…

Aqui vai a última coluna, publicada na edição de agosto da revista:

 

 

O cômodo vazio

 

            “Vocês ganharam seu próprio espaço na casa até agora possuída exclusivamente por homens. [...] mas esta liberdade é apenas um começo; o cômodo é de vocês, mas ainda está vazio. Ele tem que ser mobiliado; tem que ser decorado; tem que ser repartido. Pela primeira vez vocês são capazes de decidir por si mesmas quais poderiam ser as respostas. Eu poderia ficar e discutir essas questões e respostas de bom grado – mas não esta noite. Meu tempo acabou e devo terminar.” Era 1931 e Virginia Woolf dirigiu-se com essas palavras para um público de mulheres trabalhadoras, ela ainda empenhou-se por mais dez anos na busca da voz feminina na ficção antes de resolver de fato terminar. Não gosto de pensar que ela desistiu, prefiro acreditar que a literatura lhe prolongou uma vida de muito sofrimento psíquico.

Temos trabalhado nesse desafio que ela nos deixou, mas nada para nós é certeza, pelo jeito, mais que novos papéis, a liberdade conquistada nos legou a dúvida. Cabem filhos em nosso cômodo? Queremos um amor ou sucessivas paixões? O que mexe com nossa libido? Trabalharemos para viver ou viveremos para trabalhar? Virginia conviveu com a primeira geração de mulheres numericamente significativas que tinham questões a colocar-se, mas elas não tinham precedentes. As mães delas sabiam o que seriam: esposa, mãe, solteirona, freira. Escritoras como ela amadrinharam as gerações seguintes, de mulheres em busca de uma voz própria. 

A busca da voz é tema recorrente para todos aqueles que escrevem: como preencher um papel, uma tela em branco, que parecem zombar do pobre escritor? Ao referir-se ao vazio do recém adquirido cômodo, Virginia inseriu a própria condição feminina nesse impasse criativo. Porém, acredito que esse problema autoral coloca-se agora para ambos os sexos, já que a identidade masculina tornou-se inquieta.

 Outra matriarca, cuja obra sexagenária, O Segundo Sexo, foi finalmente reeditada em nosso país, tem uma explicação para isso: Simone de Beauvoir acreditava que a mulher fazia-se “Outro” para que o homem pudesse ser “Um”, fazia-se de fundo para que ele pudesse ser a figura. Eram papéis complementares, de tal modo que quando se rompe um lado desse enlace soltam-se os dois.

Não há porque pensar que as mudanças de comportamento provêm somente das mulheres, e que os homens apenas as teriam tolerado mal, já que foi para ambos que o elo dos lugares fixos se dissolveu. Houve homens que se apaixonaram por mulheres livres, elas por sua vez, abriram mão do abrigo do patriarca: assim foi o amor de Simone e Sartre, o de William Godwin pela feminista Mary Woolstonecraft, o de Virginia e Leonard.

Homens e mulheres saíram do piloto automático, sentem-se frágeis, mas não cessam na busca do tom, de uma voz autêntica e compartilham uma dúvida interior: o que me torna uma mulher, o que me faz um homem? Por isso esperamos tanto do amor e do desejo, que parecem confirmar alguma coisa, qualquer coisa. Virginia, Simone e outras tantas nos deixaram com essas idéias, com elas pelo menos não ficamos tão órfãs.

Postado por Diana Corso

Plágio do bem

24 de agosto de 2009 1

 

Tenho duas filhas, garotas de 20 e 16 anos, muito mais lindas do que jamais fui, palavra de mãe. Apesar das idades e estilos muito diversos, o conteúdo dos armários aqui em casa é bastante instável: principalmente entre elas, as roupas voam de um corpo a outro. Devo dizer que estou mais para fornecedora do que usuária, mesmo porque meu corpo não é o mesmo dos vinte anos. Por vezes, porém, posso aproveitar alguma peça delas, e é uma sensação de andar acompanhada o dia inteiro.

Muitas roupas são adquiridas para uso coletivo, mas caem nas graças de uma ou de outra e acabam sendo consideradas de sua propriedade, outras mudam de dona, algumas poucas são motivo de discórdia, em geral o trânsito é pacífico. Conhecemos o gosto umas das outras, mesmo quando uma roupa ainda está na vitrine, sabemos se ela é do feitio de uma de nós, o que não a impede de ser surrupiada e corrompida em combinações que jamais seriam propostas pela sua dona. Numericamente, há o suficiente para que sejamos autônomas, podemos vestir-nos bem sem pedir auxílio ao armário alheio, mas que graça teria?

            Usar uma roupa alheia, para uma mulher, é ser um pouco ela, ou ele, se por acaso for uma peça do namorado ou pai. Mas é bom lembrar que os homens entre si não costumam emprestar-se roupa com a mesma freqüência nem carga de sentimentos. A transmissão e estabelecimento da condição feminina têm poucos templos de celebração, nada da magnitude de um estádio, por exemplo. Seria triste dizer que nossa Meca é um Shopping Center, que é lá que as mulheres se encontram, mas talvez o seja.

Acabamos compreendendo que ser mulher é uma questão de parecê-lo: mesmo no mais despojado dos visuais, nossa aparência é estudada, não nos vestimos, nos montamos. Definir um estilo, então, é similar a tornar-se mulher, e mais que isso uma mulher específica. Tomar uma roupa emprestada é fazer parte de um coletivo de mulheres, as quais se conhecem e reconhecem enquanto similares e específicas.

            Somos bastante gregárias: confessionais umas com as outras, vamos juntas ao banheiro para trocar impressões durante um jantar, uma festa, uma palestra. Costumamos ficar irritadas quando os homens se reúnem para beber, conversar, assistir a um jogo, praticar algum esporte, mas esquecemos que nós sempre andamos em bando, muitas vezes mimetizadas umas com as outras.

            Na produção intelectual, os autores são ciosos de receber os devidos créditos por cada palavra, assim como têm pânico de serem plagiados. Isso ocorre quando alguém se apropria das palavras alheias e usa como se fosse sua, sem citar a fonte. Já em psicanálise acreditamos que a identificação é feita de pedaços dos outros que usurpamos e incorporamos em nossa personalidade, como se fosse nosso, como se fosse nós. Quando usamos alguma coisa de outra mulher fantasiamo-nos dela mas queremos ser convincentes. Somos plagiarias por fora, mas por dentro é como dizer: farei meu o que é dela porque a admiro, a amo. Vestir-nos umas das outras é uma das coisas boas da confraria das mulheres, há o lado negro de tudo isso, mas não pretendo lembrar-me dele hoje…

Postado por Diana Corso

Torcida na platéia

22 de agosto de 2009 0


Nada vai nos separar
 
Ontem, sexta-feira, dia 21 de agosto estreou o filme: Nada vai nos separar – Os cem anos do S. C. Internacional. Tive a sorte e o prazer de ver na pré-estréia (mais sorte ainda de sentar atrás do Valdomiro).
Fui bem recomendado para levar lenços para as lágrimas. Não levei e nem foi necessário, eu me seguro (mas se você é do tipo que chora em casamentos, filme de animais e propaganda de margarina leve, uma toalha de banho), porém meu coração parecia num eletrocardiograma de esforço. Colorados cardíacos devem evitar o filme.
            Basicamente temos a história sucinta do time, na boca de historiadores e depois de torcedores e jogadores que marcaram época. Entremeado, é claro, nos gols e momentos decisivos. Simples, mas a genialidade foi em como juntar tudo isso. A quantidade de informação é extraordinária, é um primor de montagem. São inúmeros planos e o espectador não se perde, o filme vai deixando esperas para reatá-as logo em seguida. O acerto está no equilíbrio, na concepção de clube que a equipe que fez o filme tem, ou seja, mostrou a história da interação do clube e do time com a sua torcida. É a história de uma paixão centenária, o resto é decorrência.
Você já tentou escutar um desses discos que são um apanhado dos clássicos mais famosos, uma espécie de pizza 24 sabores de música só com o recorte dos allegros de cada peça. É um saco! A música sem os andantes e os adágios não funciona. O Fischer, o roteirista, sabe que nada seria mais enjoado e raso do que uma coleção ufanista de gols, por isso as conquistas e os gols estão no contexto do momento. Eles não nos pouparam dos momentos duros do time, da década perdida (anos 90), das grandes derrotas, mas só nos recordam para preparar o clima, para revivermos os últimos títulos praticamente com a emoção engasgada que estávamos naquele momento.
Mas a comparação do filme com uma sinfonia não é por acaso, as músicas escolhidas, o hino tocado em vários arranjos, de diversas formas, ajuda na construção do clima. Dois dias depois e a trilha sonora não me sai da cabeça.
Vá com a bandeira, a emoção é de fim de campeonato.

Postado por Mário Corso

Eu voltei (de viagem) e vim para ficar

19 de agosto de 2009 3

Portugal é verde, pois sim

 Devido à sua prolongada inatividade, este blog que aqui vos fala quase sofreu extinção compulsória. Quando minhas filhas eram pequenas, numa época em que todas as crianças andavam brincando com Tamagotchis ocorreu-me fenômento similar: perdi algumas criaturas virtuais por falta de alimentação igualmente virtual. Era como um pequeno radinho colorido, com uma telinha na qual se movimentava um bichinho, em geral um dinossauro parcamente estilizado, cuja única função era dar trabalho, como costuma ocorrer com as crianças em geral. A criatura precisava ser alimentada, limpada e atendida também em aspectos mais subjetivos, havia que se brincar com ele e dedicar-lhe algum carinho, senão ficava triste e morria igual, também exatamente como as crianças. Sendo assim, aquelas que já haviam crescido e iam pela tarde cuidar da vida pessoal na escola, deixavam com a mãe um “irmãozinho menor” ou um “netinho virtual”, como o chamei na época, para ser cuidado. Era como nas famílias tradicionais, nas quais as mulheres ficavam em casa com os pequenos, e, como se procriava com mais entusiasmo naquele então, sempre havia os pequenos. Pois bem, os Tamagotchis foram a prova de fogo que tive durante bom tempo, um teste no qual não passei com boa nota, de se eu serviria de mãe num tempo mítico em que viviam os Waltons e a mãe nunca baixava a guarda. Matei vários, por vezes passavam-se dias nos quais ao entardecer, orgulhosa de mim eu devolvia um dinossauro vivo para minhas filhas, porém, muitas vezes fracassei e o jogo tinha que recomeçar, até que me rebelei, cansada de compartilhar meus minúsculos intervalos para ir ao banheiro no consultório com um ridículo dinossauro virtual.

Um blog é muito melhor que o Tamagotchi,  tem mais recursos, mas raramente dá sinais de satisfação, como ele quando era alimentado e limpado. É uma escrita cotidiana, mas pressupõe um enorme dum ego por parte do escritor, para supor que se tem interessados com uma certa regularidade no que se tem a dizer. Meus netinhos virtuais sempre aprovavam o que se lhes oferecia, mas admito que admiro a sofisticação de recursos e a leitura crítica dos eventuais leitores deste blog. Como com os Tamagotchis, prometo que tentarei ser melhor mãe virtual deste espaço, além disso estive viajando e nos hotéis chiquésimos em que me hospedei, não tinha internet, aliás nem telefone no quarto tinha, mas pago a dívida da ausência com um pequeno comentário sobre a viagem. Fomos, a família toda, para Portugal e Espanha (Lisboa, Madrid, Barcelona). Portugal era para ser um aperitivo antes da Espanha, mas foi uma surpresa maravilhosa, e é sobre ela que aqui vos escrevo: 

Existem várias maneiras de conhecer o Brasil. Nessas férias escolhi a mais enviesada: fiz as malas e fui para Portugal. Já suspeitava que somos mais portugueses do que gostamos de admitir. Confirmou-se. Talvez o brasileiro seja apenas um português com açúcar. Como eles, negociamos pouco, só fazemos o que queremos e do jeito que achamos certo, só que eles fecham a cara enquanto nós enrolamos.

  Portugal é caseiro, é antigo sem a opulência de outras capitais européias; é verde e o clima é ameno; a comida é simples e gostosa. Os portugueses provenientes das ex-colônias fazem de Lisboa uma capital colorida, ruidosa e muito “brasileira”. Os locais históricos, múltiplos e lindos, não são muito bem organizados e conservados. Falta a eficiência do primeiro mundo, mas isso faz que a gente não se sinta recebendo tudo pronto. Lisboa tem inúmeros pontos turísticos, mas não tem caminhos óbvios, podemos percorrê-la ao nosso modo, e rapidamente nos familiarizamos com ela.

 O inverso nem sempre acontece: compreendem mal nosso português e nosso país. Nem lhes ocorre como uma família de branquelas, poderia provir do país do samba e do futebol, acreditavam mais nos olhos do que nos ouvidos e não concebiam que falássemos sua língua.

 Os lisboetas por vezes podem parecer casmurros, mas creio que eles são é demasiado convictos: há pouco lugar para a dubiedade de expressão e interpretação, para o sub-texto. Ao perguntar, é preciso entrar em seu modo de raciocínio para que nos respondam. Por sorte, isso não impediu Camões, não inviabilizou Fernando Pessoa, nem os impossibilitou de ser suficientemente espertos para no passado controlar parte do planeta. Duvido que mesmo com tanta sutileza nós sejamos tão marcantes para o mundo como eles um dia foram. Já não é época de colonialismo, ainda bem, mas naquele então souberam navegar e espalhar sua língua, sua tradição, e seus defeitos. E nós, libertos desse pai escravocrata e burocrático, aonde vamos com tanto requebro?

Quanto às tolices de que eles são sempre acusados, sim as encontrei, mas quiçá a diferença seja que eles são meio tolos nos detalhes da vida, numa maneira torta de fazer o simples, enquanto nossa tolice seja no atacado, nas grandes empreitadas. Quando der, junte as moedas do cofrinho e vá conhecer nossas origens lusitanas. Vale e pena e não existe a barreira do idioma, afinal, muitos falam um bom inglês.

 

Postado por Diana