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Posts de outubro 2009

Entrevista para IHU-online sobre juventude e morte

31 de outubro de 2009 1


 

UNISINOS- Como entender o fascínio que alguns jovens têm pela morte? Que aspecto da morte pode fascinar um ser no auge da vida? É possível falar em um “flerte” entre suicídio e adolescência?

Mário Corso – Eu não acredito que o fascínio pela morte seja maior na adolescência, apenas este encontro é mais perigoso. Uma psicanalista francesa, F. Dolto, usa uma imagem para falar da adolescência que me parece muito precisa, ela fala de “complexo de lagosta”. As lagostas, por possuírem um exoesqueleto, têm a necessidade de trocá-lo para poder seguir crescendo, e então durante um tempo em que abandonam a carapaça a até que a nova endureça estão desprotegidas de ataques de certos predadores, estão mais vulneráveis. A imagem é perfeita para descrever a adolescência, são eles que estão mais frágeis e então são presas mais fáceis de tudo, logo, também da morte.

            Um dos mecanismos mais comuns usados quando estamos fracos é a soberba, a arrogância e um pouco de violência, isso denota não uma força, mas uma fragilidade, os adolescentes usam isso para compensar seu momento frágil e nos parecerem mais fortes. Nos enganam direitinho. Dentro desse quadro está também a onipotência, a “certeza” (quase delirante, é claro) de que nada vai me acontecer, que tenho sorte ou o “corpo fechado”, esse comportamento aumenta as chances de risco nessa idade da vida.

Se você observar crianças brincando, jogando videogame, verá que a questão da morte também está colocada. È possível morrer muitas vezes num jogo. Esse jeito de brincar é uma forma rebaixada de filosofar sobre a vida e a morte, a criança usa os mecanismos básicos do qual dispõe, mas a questão sobre o que é a vida e a morte já está sendo colocada, basta saber ouvir. Na idade adulta, alguns neuróticos obsessivos vivem para evitar a morte, enquanto para os hipocondríacos atrás de suas questões com o corpo e a doença está a morte. Não há idade privilegiada para ocupar-se dela. Acredito que o suposto flerte adolescente não é exatamente com a morte, mas com o sentido da vida. È isso que ele quer saber: colocar-se a questão do suicídio é apenas a versão terrorista para perguntar aos seus adultos sobre uma boa razão para viver.

            Ocorre que na adolescência muitas questões sobre a vida, seu valor e para o quê mesmo vale a pena viver, são colocadas de maneira dura e não encontram nem respostas, nem sequer adultos querendo falar disso.

Mas quando vocês na pergunta colocam que a adolescência é o auge da vida estão falando de que? Será que não existe um equívoco entre o auge físico e outras coisas? Certamente de sabedoria podemos dizer que não é o auge, eles podem ter boas perguntas, o que não é pouco, mas só engatinham em respondê-las.

 

UNISINOS- Como o tema da morte aparece nas discussões virtuais, nas redes sociais da internet entre os jovens?

Mário Corso – Aparece justamente da pior forma por que não existe outro espaço para falar disso. A escola não é um lugar de reflexão (ou pelo menos raramente) é apenas um lugar de transmissão de um saber pré-determinado pelo que vai cair num vestibular ou num enem futuro. Quando falam da volta da filosofia nas escolas espero que seja algo mais que uma cadeira de história do pensamento filosófico, mas dum espaço em que adultos topem filosofar sobre questões que os jovens queiram falar. Não adianta reclamar que eles vão ficar falando sobre suicídio na internet se nós não falamos com eles sobre a morte e o sentido da vida. Além disso, falar sobre suicídio não necessariamente é falar sobre a morte, mas pode ser uma maneira indireta e rebaixada de falar do valor da vida. Falta alguém com mais experiência e sabedoria que conduza as questões. A morbidez é só aparência, ou algum que outro adolescente que queira aparecer para dizer que não tem medo de nada, afinal, fica caminhando na borda do precipício. Essa “coragem” também faz parte desse drama, na verdade, coragem mesmo precisamos é para viver, não para ir embora, isso é fácil.

            As famílias também não estão num momento que consigam falar com os jovens, justamente por idealizarmos essa idade da vida como “auge”, temos dificuldade de falar com eles. O homem atual é meio perdido de valores e de certezas, por isso se encolhe nas discussões. Precisamos incentivá-los, afinal, a transmissão da dúvida eu já acho grande coisa, as pessoas que duvidam geralmente são mais sábias e fazem menos bobagens que as que têm certezas.

 

UNISINOS – O medo da morte aumenta nos jovens da sociedade atual, marcada pela violência e pela insegurança?

Mário Corso – Vou dar uma resposta que serve menos para o Brasil, mas que de alguma forma nos alcança. Ser jovem num país sem guerra é mais fácil. Na Europa da virada do XIX e depois nas duas guerras mundiais, os adolescentes era a massa dos soldados e morriam aos milhares. Especialmente a primeira guerra mundial matou uma parcela enorme da sua juventude, uma geração foi mutilada. Será mesmo que a nossa época é difícil para os jovens? Aqueles sim que tinham pavor de morrer a toa, boa parte da contracultura começou num protesto para não ir à guerra do Vietnam, quem ia às passeatas eram os jovens que não queriam ir morrer lá por uma causa bem abstrata. As civilizações sempre usaram os jovens para soldados por não terem laços para frente, não são pais ainda, temem menos a morte por isso, se arriscam mais, sabem que não deixam ninguém dependendo deles. De certa forma isso vale também para a situação civil, os jovens tem menos laços de compromissos e podem arriscar mais.

 

UNISINOS – Como o jovem reage diante da morte de outro jovem?

Mário Corso – Não existe uma resposta padrão pelo adolescente. Cada uma faz como pode, desde o desencadeamento de síndrome do pânico até uma indiferença, que na verdade é uma impossibilidade de elaborar, e que joga para frente, para quando conseguir. O que parece frieza é na verdade uma impossibilidade de digerir, é como se não houvesse um software que decodificasse a situação. Vejo adultos em análise finalmente conseguindo chorar a perda de amigos da adolescência que se foram. De qualquer forma, para os que cercam o falecido, sempre é um balde de água fria na onipotência, a idéia de que as coisas acontecem para todos.

 

UNISINOS- Por que ainda é tão difícil falar sobre o fim da vida?

Mário Corso – Vocês são otimistas com o “ainda”, quer dizer que um dia vai ser mais fácil? Creio que quanto menos transcendência, mais difícil de falar. Se o que temos é essa vida, e vivemos para nossas pequenezas, como que iria ser fácil falar? Acho que falar com tranqüilidade é necessário ter uma vida mais ampla, com algumas realizações maiores do que o horizonte do consumismo que vivemos.

 

UNISINOS – O que a concepção da morte pelos jovens fala sobre a forma como eles vivem a vida na sociedade atual?

Mário Corso – Pessoalmente eu acho que é o contrário. Acho que é a vida que levamos que nos faz ter uma concepção da morte. A vida é uma experiência, e com ela podemos aprender, a morte é uma abstração que aos poucos tentamos circunscrever. Vivemos uma época diferente, a pós-modernidade, tal como a entendo, significa a queda das grandes referências (incluindo as religiões), dos grandes discursos dominantes, o que faz com que cada um de nós tenha que montar a sua síntese particular. Acho isso um desafio, é algo que dá uma liberdade, mas pede muito. Logo, não existe um grande sentido da vida a priori, e é relativo a esse sentido que uma vida vai ter valor, é sobre esse valor que uma morte terá sentido.

            Exemplo prático: as estatísticas de suicídio nos mostram que elas são maiores onde o valor da vida é maior, afinal ali esse ato tem um grande sentido. Onde a vida humana não vale grande coisa, os índices são baixíssimos, afinal, lá esse ato não vai comover ninguém. Por isso é mais fácil um suicídio numa família pequena, ao estilo filho único, do que numa grande, onde há muitos irmãos.

 

 

 

 

Postado por Mário Corso

O terceiro incluído

28 de outubro de 2009 0


 
            O que leva um garoto de 11 anos a esgueirar-se para dentro da carroceria de um ônibus, viajar nove horas clandestino sobre o pára-lama, 600 quilômetros rumo a Aparecida, para pagar uma promessa? Ele não foi em busca de arrancar da morte um ser querido, nem de dinheiro para driblar a miséria, nem sequer uma bicicleta ou namorada. Ele queria que os pais parassem de brigar. Esse excêntrico peregrino fez sua façanha semana passada em São Paulo.
            Briga de casal faz parte da vida a dois, em geral passa. Já algumas crises conjugais são guerras abertas, incluem inocentes entre os mortos e feridos. Antes do armistício há um longo percurso de ódio onde os envolvidos não querem solução, precisam destilar sua fúria. Esse é um momento do casal próximo da paixão: apaga-se o mundo em volta, sobram só os dois, agora rivais, concentrados um no outro. Aos filhos resta sobreviver e jamais saem intactos.
            Não sou contra separações, muitos casais sobrevivem à dor, inevitável, do rompimento rumo a uma vida certamente melhor. Mas nem sempre é assim: muita gente desiste por perfumaria, promessas ridículas de felicidade e gozo que nunca alcançarão. Esse menino, cuja fé motivou o feito, é o testemunho do terceiro incluído nesse conflito. Quando há filhos é evidente que sofrerão também com a separação.
            A concepção é uma síntese não apenas biológica. Um filho sente-se eternamente representante de um instante a dois, de sexo e ou amor. A dissolução do laço que o originou sempre questiona sua origem: cheguei aqui em nome de algo que não existe mais, ou que faz sofrer aos meus pais? Por isso o filho se envolve, culpa-se, responsabiliza-se pelo destino do conflito, como fez esse garoto.
            O pequeno fiel deu visibilidade ao lado frágil do conflito conjugal. Nem sempre os filhos perdem com a separação: um cotidiano miserável, de gritarias, violência ou ódio silencioso, é certamente pior do que a paz da derrota. Tampouco serve manterem-se juntos, prolongando uniões que na prática já acabaram, em nome dos filhos, tornando-os responsáveis pela miséria do casal. Isso em geral é mentira: ninguém permanece casado ou se separa por causa dos filhos. Não pensam realmente nos filhos quando o assunto é amor ou o fracasso do amor. Quando o casal goza, não pode nem deve incluí-los, quando se odeiam ou rompem, tampouco o fazem. Mas o envolvimento é inevitável, eles pegam carona na crise, como o garoto fez no ônibus. Haja Santa para proteger tantas almas sofridas.

Postado por Diana Corso

Depressão: a face contemporânea do mal estar.

24 de outubro de 2009 1



 
Com esse título, na próxima segunda-feira, a psicanalista Maria Rita Kehl estará na cidade para falar no Fronteiras do Pensamento. Maria Rita é autora de muitos títulos, que se ocupam de conjugar a psicanálise com nosso tempo, desde a feminilidade, o laço fraterno, assim como arte, juventude e muito mais. Desta vez ela irá ao cerne de um de nossos grandes temas, centro de temores, preocupações: a depressão. Seu novo livro, O Tempo e o Cão – a atualidade das depressões é uma oportunidade de aprofundar-se no tema. A autora depreende do tema importantes considerações sobre a modalidade do mal-estar contemporâneo. Desta forma, ela compreende, mas também transcende o problema das depressões como um quadro psicopatológico.
            Maria Rita examina a crescente ocorrência dos pedidos de ajuda psicológica que tem como queixa as depressões que, desde a década de 70, tornou-se praticamente uma epidemia. Num primeiro momento, acreditou-se que estávamos diante de um aperfeiçoamento diagnóstico, separar as depressões de outros quadros, parecia uma reclassificação dos dramas humanos com um viés mais apurado. Mas não foi bem isso o que ocorreu: houve mesmo uma intensificação de quadros depressivos e é muito provável que eles estejam conectados com as exigências do mundo atual.
            O que a autora defende é que estamos frente a um sintoma social contemporâneo, pois o depressivo faz uma recusa passiva ao establishment. O mundo hoje pede alegria, confiança, euforia, velocidade. Precisamos demonstrar de que vamos conseguir nossos objetivos e que tudo vale a pena. Este seria “o segredo” do sucesso e da felicidade. Partimos da premissa de que viveríamos, se não no melhor dos mundos, num mundo em que seria possível ser feliz. Portanto, o gozo pleno e o bem estar estariam ao alcance de todos que souberem se organizar para bem produzir e consumir.
O depressivo navega na contra corrente, atrapalhando o trânsito: ele está sempre triste, produz pouco ou nada, não acha graça em coisa alguma, e o pouco que faz é de uma lentidão exasperante. Enfim, a chatice do depressivo desafina o coro dos contentes. Isso não dá um caráter político ao ato (passivo) do depressivo. Seu protesto nem um protesto quer ser, não passa de pura negatividade. De fato, ele só consegue ser um peso para si mesmo e para os outros, não há ganho secundário que valha a pena tanta tristeza, como em outros quadros clínicos. Tampouco a autora acredita que a atitude depressiva traga uma mensagem e uma esperança, embora porte uma verdade: seu sintoma denuncia o sem sentido de certas crenças que ordenam nossa vida social.
            Menos exigentes, nossos antepassados estariam bem simplesmente por não estarem se sentindo infelizes o tempo todo. Já nós somos infelizes por não sermos felizes o tempo todo, ou seja, há uma injunção à felicidade, um dever ao gozo pleno da vida. O que era uma possibilidade tornou-se obrigação. O prestígio social já não está tanto em conseguir riquezas – cercar-se dos objetos corretos – mas é preciso saber gastá-las, mostrar-se como quem está aproveitando muito. Feliz é aquele que consegue fazer da vida uma festa, pode até ser uma festa rústica, privada, coisa calma, num paraíso natural, mas deve ser uma inequívoca fonte de prazer para o felizardo. A dor de existir está em desuso. As dificuldades inerentes à condição humana estão esquecidas, desconversamos sobre nossa finitude e nossos limites.
O depressivo recusa essa festa, mas a vive como se não tivesse sido convidado, ele rejeita, mas se sente rejeitado. Ele sofre duas vezes: primeiro com seus problemas, que o levaram ao buraco em que está, e depois com a desvalorização absoluta do seu ponto de vista. Vive seu sofrimento como uma deformidade, uma falta moral. Resta-lhe seu discurso queixoso, sua voz dissonante. Isso é tudo que ele tem e constitui o ponto de onde pode partir. Por isso, calá-lo com medicação, confrontá-lo com pensamento positivo, ou um chamado à razão dominante de voltar a gozar só o joga mais fundo na imobilidade.
Uma questão, que certamente não cabe a todos os depressivos, mas a parte deles: é possível pensar num sentimento de não estar a vontade nesse mundo como uma patologia? E outra: sendo a felicidade intransitiva, um subproduto de um outro afazer, mas nos iludindo de que a felicidade é um objeto possível de se adquirir de forma direta, qual é o papel disso na outra epidemia contemporânea que se agrava em paralelo: a drogadição? Se acreditamos que existiria um atalho químico para o bem estar, e que a resolução dos problemas não seriam um necessário ajuste com a vida, com nossos desejos e com nossos semelhantes, por que então só usar as drogas lícitas?
Os avanços das medicações causaram uma revolução na clínica das depressões, mas de viés contraditório. Por um lado, possibilitam aos depressivos graves uma saída. Nesses casos o remédio oportuniza o arranque para uma mudança de vida, podendo inclusive ter acesso a um tratamento psicoterápico. Por outro, em casos menos graves podem perpetuar uma situação, pois anestesiam um sofrimento que apenas permanece inalterado no porão. O problema é que o preço pelo congelamento do conflito é alto, produz um esvaziamento da vida subjetiva, um embotamento da criatividade. Joga-se fora o bebê com a água do banho, pois ao ignorar o conflito, vai para o lixo, ainda que temporariamente, uma parte de si mesmo. E, convenhamos, não somos tão ricos como para dar-nos ao luxo de viver alienados de parte da nossa condição humana.

Postado por Mário Corso

Um filme Up sobre uma época Down

14 de outubro de 2009 0

  1. Para os velhos o rugido da vida cotidiana diminuiu, talvez estejam mais surdos para ele por ficarem mais atentos aos ruídos internos. O corpo fica barulhento, como uma máquina antiga. Mas há também o barulho das lembranças, que chamam alto: eles vivem como se cada objeto fosse dar um discurso, cada lugar contasse a história de tantos outros onde já se esteve. Velhos ouvem vozes, no bom sentido. Muitas vezes os velhos distraem-se do que acontece fora porque tem muito para ouvir por dentro.
     Up, o filme de animação, é uma história de amor e de balanço da vida, o fim da jornada de um casal que sonhou com aventuras que não viveu. Carl Fredricksen, 78 anos, encerrava uma inglória carreira de vendedor de balões e amargava as saudades da esposa perdida. Sentia-se em dívida com a amada, por isso transformou a velha casa em um dirigível, amarrando nela milhares de balões, e rumou voando nesse improvável veículo para o lugar com o qual o casal sonhara: um paraíso natural na América do Sul, onde um explorador que eles admiravam fizera descobertas.
    Por engano foi junto um escoteiro gordinho, que o importunava tentando fazer-lhe favores. É partir daí que aquele senhor ranzinza começa a incorporar a figura do avô. Em espanhol existe uma palavra que nos faz falta em português: abuelidad, similar ao paternidad. Trata-se de tornar-se avô, que é uma forma leve de conviver com os descendentes, na qual só se fica com a parte boa. Afinal, algo tem que ser bom na velhice, a melhor idade para sentir dores e tomar remédios.
    No seu destino, Carl encontra o tal explorador no fim da vida, ainda obcecado pelo sucesso e pela carreira. Ambos velhos perseguiam uma pendência, mas ele levava outra bagagem, simbolizada pela casa cheia de lembranças da esposa e o escoteiro. Ele descobriu que sequer o grande explorador sentia-se em paz com as suas realizações, que dirá ele, vendedor de balões. Mas Carl possuía melhor acervo: uma história de amor para lembrar e uma criança chata para aprender a se vincular. Essa história de idosos não parece assunto para crianças, mas convém lembrar que a vida dos pequenos muitas vezes é mais próxima dos velhos do que a dos adultos. 
    Os pais estão tontos da correria da vida, aparando golpes de todos os lados, e não têm tempo de escutar seu ruído interno, nem a voz baixa das crianças, estão exaustos. Estes vêem no velho um espantalho assustador do que lhes espera na próxima estação, pena. É um filme para todas as idades, mas são os mais crescidos que vão aprender mais.

Postado por Diana Corso

Pornografia dos abismos da alma

10 de outubro de 2009 0


Nessa última quinta-feira esse texto saiu no Segundo Caderno da Zero Hora. A questão é sobre a polêmica ao redor do Anticristo de Lars von Trier:
 
 
A impressão de Anticristo de Lars von Trier é que os demônios foram conjurados à toa. Eles comparecem, assombram, mas dizem pouco. As cenas são magníficas, e algumas inesquecíveis, a questão é que o enredo não convence. O filme produz mal estar, mas realmente não nos faz pensar numa direção diferente, é um sofrimento gratuito, uma pornografia dos abismos da alma para render pouco.
No filme um casal perde seu único filho, ainda pequeno, que morre ao cair duma janela enquanto os dois faziam sexo. A mãe se deprime profundamente, se afunda no luto, e o pai, um psicoterapeuta, recupera-se precocemente da perda. Na tentativa encurtar o caminho do luto, ele quebra a regra básica de qualquer tratamento, conduzir a cura de alguém com quem se está emocionalmente envolvido. Depois duma mancada dessas, o que costuma vir é o pior, e vem. Ele resolve tirar os medicamentos dela e a faz enfrentar a dor de peito aberto, disse que estaria ao seu lado.
Ora, se ele fica como terapeuta, ela perde um pouco o marido, e para quem vem duma perda… O tratamento é conduzido da forma mais senso comum impossível, não guarda qualquer verossimilhança com o que costuma ser feito nesses casos. Com tal tratamento o desamparo da mãe só piora e abre-se a porta do inferno da loucura.
Como não sabemos o que é delírio e o que é realidade, vale dizer que ela se sentia de culpada pela morte do filho. Ela havia visto a criança, e poderia ter impedido a catástrofe, mas não parou seu gozo para impedir a queda.
De qualquer forma aqui chegamos ao ponto da suposta complexidade psicológica: como uma mãe coloca o gozo antes dos seus deveres maternos? Depois descobrimos que a sua vocação materna era no mínimo perversa, ou seja, “durmam tranqüilos, ela não era boa mãe mesmo, talvez por isso gostava tanto de sexo”. Ou seja, a culpa fica colocada na estirpe ancestral da culpa feminina pela queda do homem. Resumo: as mulheres são moralmente mais frágeis, mais lascivas, mais loucas e o mal reside e tem seu começo no pecado da mulher. Enfim, misoginia básica que qualquer religioso tradicionalista aplaudiria.
Lars von Trier vive cercado de polêmicas para fazer render uma filmografia de densidade duvidosa, ou realmente tem algo a dizer? Com esse filme me inclino pela primeira opção.
 

Postado por Mário Corso