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Posts de novembro 2009

Em nome do filho

25 de novembro de 2009 2


Passei por um homem jovem e vi em seu braço forte, como o dos marinheiros de cartoon, uma tatuagem: era um nome de mulher, mas no outro braço havia um nome de homem. Não era um bissexual proclamando sua condição na pele, era um pai. Hoje em dia, numa celebração ao único amor certamente eterno, muitos tatuam o nome de seus filhos.
            Tatuados ou não, filhos são indeléveis, seu nascimento é uma marca inesquecível. Mesmo que um pai ou uma mãe acabem não criando seus filhos, afastando-se deles, sentirão para sempre sua existência, da mesma forma como se sente um membro fantasma, um membro amputado que ainda dói. Por vezes até os não nascidos, gestações perdidas ou interrompidas, também deixam marcas e fazem aniversários.
Apesar disso, é difícil acreditar que os filhos recém nascidos são uma realidade. Podemos ficar horas olhando a criatura adormecida, como se ela fosse um sonho do qual vamos acordar. Quando crescem, ainda parece incrível que “mamãe” e “papai” sejamos nós. Em certos momentos da infância das minhas filhas esperava que um adulto de verdade aparecesse para assumir a função. Ocorre que as tarefas maternas e paternas sempre transcendem os que se ocupam delas, pois, mais do que práticos, são atos simbólicos, que assumem contornos míticos, ninguém está à altura.
            Os pais que tatuam o nome dos seus filhos talvez saibam disso e querem a garantia da perenidade do vínculo no seu corpo. Tatuar-se o nome da pessoa amada é como impor uma certeza de fora para dentro, pode também ser uma declaração pública de pertença, como uma aliança que não sai do dedo. Os filhos sempre nos tatuam, nos possuem, queiramos ou não.
            Dizer que os filhos são um amor que se impõe de fora para dentro não significa que falte em nós o júbilo de esperá-los, a felicidade de tê-los, apenas, inicialmente, o que amamos é a idéia de um filho que é sonhado. Já aquele nasce, é alguém que ainda teremos que trabalhar muito para conhecer e aprender a amar. Seu modo de ser, de se parecer e os desafios que seu crescimento nos impõe, nos transformarão pelo resto da nossa parca existência: de fora para dentro. Nunca estamos realmente preparados para os choros, as doenças, os conflitos com amigos, os namoros, as dificuldades na escola, os dilemas vocacionais, as separações das viagens, a saída de casa.
Vamos tocando e improvisando. Frente a tanta incerteza, não se estranha que se recorra à tatuagem para firmar um vínculo mutante, denso, pleno de ambivalências e mal-entendidos.

Postado por Diana Corso

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14 de novembro de 2009 1

Faz tempo que Mário Quintana não nos visita. Jamais me ocorreu que o
faria “twittando”. O twitter é uma rede de pessoas, ligadas pelos seus
celulares e ou computadores que trocam mensagens de até 140
caracteres. Para tornar-se “seguidores” uns dos outros, os usuários do
twitter se inscrevem uns com os outros, se “seguem”, para usar a
terminologia deles. A pergunta que aparece antes do campo onde
escrevemos a mensagem que será enviada a nossos seguidores é: o que
você está fazendo agora? No começo e ainda em grande número, as
respostas foram literalmente banais: “estou curtindo uma gripe”,
“cheio de trabalho” ou “indo encontrar minha linda namorada”, isso
entre recomendações ou críticas de eventos culturais, locais de lazer,
restaurantes e produtos variados.
Óbvio que o twitter virou o fofocódromo prioritário, nunca a
divulgação de algo se espalhou tão rápido. Fora isso, em momentos
políticos graves, é uma forma incontrolável de divulgação do que quer
ser ocultar. Os recentes protestos no Irã foram organizados por
twitter.
Fabrício Carpinejar tomou a chatice do dispositivo do twitter de
assalto combatendo-a com poesia, humor e irreverência. Para provar que
em comunicação nada se perde, tudo se compartilha, as mensagens que
ele foi divulgando ao longo de alguns meses estão compiladas em forma
de livro: www.twitter.com/carpinejar, Ed. Bertrand Brasil. Acessível
para estrangeiros digitais ou, como eu, amantes do papel.
Embora também escreva crônicas, Carpinejar, como Quintana, sempre foi
poeta, e ambos grandes frasistas. Conhecendo-o pessoalmente sei que
ele é essas duas coisas, pois não existe banalidade da qual ele não
extraia uma tirada e compartilhe com os próximos. Para nossa sorte
Fabrício vaza poesia: “Eu me inundo por bem pouco.”; “Mexa as chaves
no bolso para despertar uma porta.”; “Não quero alma gêmea, isso é
incesto.”; “Quando morto, não venha cobrir minha cabeça com lençol.
Desejo jornal sobre o rosto, morrer bem informado.”; “Madrugada em
claro não traz clareza.”; “O tédio é uma tristeza que não sonha”. No
twitter apenas ele aumenta o alcance disso que já fazia.
A ninguém interessa se eu, você, ou outros mortais vamos dormir, é
insignificante. Tampouco importa o que Carpinejar vai fazer. Mas
depois que ele escreveu que “arrumar a cama é preparar um envelope
para nos guardar”, tenho menos medo da insônia. Vai ver que poesia é
isso, upgrade da vida cotidiana, transcrição das catacumbas pessoais,
legibilidade do indigesto. Com Carpinejar esvazio a saudades de
Quintana.

Postado por Diana Corso