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Posts de dezembro 2009

Ainda o Dr. House

12 de dezembro de 2009 4


Duas semanas atrás, a jornalista Cris Gutkoski escreveu sobre o seriado House neste caderno. Não é réplica nem espero tréplica, é apenas continuação. Gostei do artigo, gosto da série, então emendo umas linhas que espero estejam à altura dele. Não tenho o mesmo entusiasmo de fã com a série que a Cris, mas, como ela, penso que o seriado dá mesmo o que falar.
House é uma série de TV americana centrada na personagem que lhe dá nome, ou seja, o Dr. House, cujo seu sucesso o coloca acima das outras, e creio que essa empatia do público não é gratuita. O esquema é simples, House é um médico especialmente brilhante que só se dedica a casos que lhe desafiam a inteligência. A cada episódio vemos a o doutor encontrar a saída dentro de um labirinto de sintomas que não fazem sentido. Em quase todos, ele arranca alguém dos braços da morte, sempre quando quase já é tarde demais. Não espere um médico bonzinho e compreensivo, House é dedicado, mas é o mais mal-humorado, antipático e grosseiro médico da história da TV, e arrisco, do cinema. Com os que lhe são próximos é ainda pior, maltrata a todos que ama.
De onde provêm tanto entusiasmo com esse misantropo? Cris lembrou-nos do conforto do reencontro com os mesmos personagens que esse formato parecido com a novela nos traz. Gostaria de centrar na análise da personagem, acho que ele é o grande achado. Em primeiro lugar temos um enredo policial, ao modo Sherlock Holmes. A fórmula é a mesma das histórias policiais, só que o inimigo oculto é a doença traiçoeira. Ela não mostra sua face diretamente, esconde-se no corpo sofredor do paciente.
Como nos mistérios policiais, a busca de House visa reunir indícios mínimos e pela via da dedução chegar à conclusão, à revelação da doença culpada. A cura é uma mera conseqüência, apenas um epílogo da aventura da descoberta. Todo o aparato tecnológico de ponta está à disposição desse médico detetive que revira as nossas entranhas pedindo mil exames até encontrar o mal insidioso. Não deixa de ser irônico, que no mundo real os médicos são tão mais respeitados quanto menos exames necessitem para chegar a um diagnóstico, usando a cabeça no lugar das máquinas. O que o paciente tem a dizer sobre o mal que lhe aflige em geral é considerado bobagem, mentira. Para House são os sintomas do corpo que contam.
Mas esse detetive é muito particular. Ele teve um coágulo na perna mal diagnosticado e quase a perdeu, e depois disso vive num inferno de dor crônica que o leva a ser dependente químico de analgésicos fortes (geralmente Vicodin) e a andar de bengala. Só quem teve uma dor dessas pode saber o mau humor que brota dessa situação, e a desesperança que é acordar todo dia com essa amiga indesejável agarrada a um membro. Essa posição lhe faz ficar num lugar único, ele é médico e paciente ao mesmo tempo. House representa a onipotência da medicina, mas tem o fracasso dela inscrito no corpo, ele não tem cura, apenas alívio. Ele prescreve remédios e os toma o tempo todo. Ele detêm o conhecimento sobre as doenças, mas está subjugado a uma. Ou seja, ele é médico, mas é um de nós, ele sabe o que é sofrer.
Os antropólogos e folcloristas o classificariam como um trickster, ou seja, aqueles seres que embaralham as classificações justamente por estarem nos dois lados. Por isso mesmo nunca sabemos o que esperar dum trickster, ele pode nos tratar mal ou nos tratar bem, pode nos roubar ou nos dar um pressente, nos bater ou nos tirar duma enrascada. Sua essência é a imprevisibilidade: esse é House.
Freud estava certo quando dizia que viveríamos tempos hipocondríacos, nunca a preocupação com o corpo foi tão grande. Transformamo-nos em babás eternas de nosso corpo frágil e entre esses cuidados obsessivos com a saúde está o pânico da doença. Partindo desse zelo, para desenvolver uma hipocondria, esse tipo de paranóia invertida, onde o perseguidor vem de dentro do próprio corpo, é só um curto passo. O inimigo já não está no mundo, mas se esconde dentro de nós, esperando um momento de descuido para nos ferir, portanto todo cuidado é pouco.
Os seriados que envolvem medicina aproveitam essa onda, falam dos nossos medos, contrabandeiam a ilusão de conseguir mais informação sobre as doenças. Hoje os médicos em seus consultórios precisam discutir os diagnósticos com pacientes formados na prestigiosa Google Medical School. Esse “saber” sobre a doença fornece uma idéia de controle, como um espantalho destinado a afugentar a morte, ou ainda, na idéia da Cris: “como se a morte, fosse, também ela, uma ficção”.
O establishment das ciências médicas hoje é de um determinismo materialista radical. A homossexualidade é genética, o autismo idem, depressão é um desarranjo da química cerebral, os nossos antepassados com maior capacidade de retenção de energia foram selecionados e isso nos faz sermos obesos, e por aí vamos. A experiência de vida e a nossa família pouco contam, seríamos pré-destinados, portanto é inútil pensar em nossa trajetória e em nosso passado. O que acaba sendo uma boa notícia: afinal, não seríamos responsáveis por nada. Aproveitem! Não somos sujeitos de nada e somos “assujeitados” a tudo. Das idiossincrasias do desejo sexual, passando pela agitação motora, chegando ao comportamento serial killer, de tudo, mas tudo mesmo, de alguma forma, a biologia daria conta.
Em House isso vai ao paroxismo, os pacientes dele nunca são conversivos, hipocondríacos, psicossomáticos, raramente têm quadros auto-imunes, tampouco as fibromialgias com sua névoa de indefinição comparecem, nem ao menos uma enxaqueca idiopática o questiona. Deve haver uma competente triagem prévia no Princeton-Plainsboro Teaching Hospital, que afaste esses pacientes, que tantas dores de cabeça dão aos clínicos. Seus pacientes realmente têm algo no corpo, às vezes até a alma sofre, mas o bisturi resolve quase tudo, a subjetividade nunca conta nem é causa de nada.
Em várias mitologias, os seres que mostram uma assimetria corporal, especialmente no andar, são os que de alguma forma já estiveram do outro lado: conheceram o mundo dos mortos, voltaram e no seu corpo ficou uma marca dessa viagem. Será que é só coincidência House mancar? Ou é mais uma marca de que ele simboliza um mediador dos mundos, aquele que conhece a passagem e escolhe (nesse caso protege) quem passa? Enfim, acredito que a personagem oculta desses dramas é a morte e House é seu competente toureiro. Nós o amamos como a um anjo torto da morte, afinal, nunca se sabe, ele pode nos dar mais uns dias.

Postado por Mário Corso

Queremos tanto a Leila

09 de dezembro de 2009 1


 

Apesar de ser acusada de leviana e superficial, houve poucos que levaram nossos desejos tão a sério como ela. Acreditamos que a vida é curta para ser desperdiçada numa rotina medíocre, que emoções fortes garantiriam uma existência que valesse a pena. Ela tomou sonhos por desígnios e, por ser mulher, coube-lhe a aventura da paixão, a experiência venturosa do sexo. Como a realidade que lhe tocou negou-lhe as oportunidades de cortesã, foi nos livros que ela encontrou um cenário para seus sonhos. Como suas heroínas, em fantasia circulava pelos salões, vivia romances tórridos num ambiente opulento.

Na vida real, entre um jovem escrivão e um nobre decadente, arejou sua existência provinciana com algum sexo e muitos devaneios. Comprou vestidos caros, foi uma Cinderela devassa enquanto pôde. Mas seus príncipes a deixaram em farrapos, descartaram-na assim que descobriram fazer parte do delírio amoroso de Emma Bovary. Endividada, solitária e frágil, ela despertou para uma realidade que jamais havia vivido, afinal, ela era habitante dos sonhos, os seus e os nossos.

Emma era personagem dos romances que lia e não sabia ser outra coisa. Tomou veneno, morreu dolorosamente, perdendo também o direito a seu último desejo, que era simplesmente adormecer. Ela não está sozinha nessa empreitada de confundir a vida de celulose com a parca realidade. Quer seja em celulose, celulóide ou sinais digitais, aprisionamos alguns seres humanos numa existência romanceada, a serviço de nossa alienação. Não é à toa que Emma deu origem ao termo “bovarismo”, que designa todos aqueles que se resistem a desembarcar de suas fantasias. Como Madame Bovary, as pessoas, que se engajaram na tarefa de encarnar personagens não têm como sobreviver à vida tridimensional.

Julio Cortazar, num conto chamado “Queremos tanto a Glenda”, apresenta-nos um grupo de admiradores do trabalho de uma atriz, cuja carreira perfeita os unia. Quando ela resolve voltar às telas, depois de uma retirada de cena que eles julgavam ter sido perfeita, maculando sua imagem de ídolo, eles decidem colocar o ponto final com as próprias mãos: “na altura inatingível onde a havíamos exaltado, a preservaríamos da queda, seus fiéis poderiam seguir adorando-a sem míngua; não se desce vivo de uma cruz.”

Só para dizer que o fim da bela morena Leila Lopes, uma Leila nada Diniz , para sua desgraça, foi um sacrifício da personagem. Não fomos nós que a matamos, como os fãs de Glenda, mas talvez o bovarismo da nossa época não a tenha ajudado.     

 

Postado por Diana Corso