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Posts de janeiro 2010

O Haiti não é aqui?

23 de janeiro de 2010 1

 

            Um telefonema da minha tia tirou-me um pouco da impotência frente às imagens do desastre haitiano; ela é voluntária e está embarcando segunda feira para lá. Se alguém da família vai é como se eu fosse um pouquinho. Profissional madura, já esteve no Timor e trabalha na saúde pública, mas nunca viu o que provavelmente lhe espera: um hospital de campanha onde vai anestesiar para amputações. Parece que as guerras mundiais não acabaram, transmutaram-se em catástrofes, epidemias e miséria endêmica. Invejo-a por ser útil longe de casa.

            Ao definir o que é um sobrevivente, Elias Canetti observa que é aquele que permanece de pé, frente ao outro que jaz. Diz ele: “é como se anteriormente tivesse havido uma luta, e o próprio sobrevivente houvesse abatido o morto”. O amontoado de corpos dos haitianos nos invade apenas por imagens, é inodoro, evitável. Mas não ignoremos, que esse confronto coloca-nos na posição de sobreviventes: que bom que não foi aqui, que bom que não foi comigo. Frente a isso, a luta cotidiana que se trava no Brasil para sobreviver à violência urbana parece fichinha, já que nossa guerra civil é sorrateira, irruptiva. Mas a cada dia em que um desabamento, uma inundação, um massacre entre miseráveis ou um terremoto revelam nossa fragilidade, tornamo-nos mais sobreviventes ainda, queiramos ou não.

Um terremoto é uma catástrofe natural, ninguém tem culpa! Mas, quando isso ocorre num dos lugares mais miseráveis do mundo, a desgraça se potencializa, a morte se traveste de peste, multiplica-se em ondas. E isso sim é resultado do modo como nossa sociedade se organiza. Não gosto de crer que estamos condenados a este medievo tecnológico, onde o fausto de uns convive com a vida sub-humana dos outros.  

Um sobrevivente é incapaz de ignorar que tudo pode ruir ou desaparecer, dependendo do azar ou de uma presença de espírito, a qual nem sempre é suficiente. Nosso mundo é frágil, fundado sobre uma miséria de proporções endêmicas, de desperdício imensurável. Pós revolução industrial acreditou-se na prosperidade natural dos negócios e da tecnologia. O Haiti nos arranca desse sonho ingênuo, e com ou sem anestesia, o custo da sobrevivência desse modo de funcionamento requer amputações, a miséria não é casualidade.

Cresci entre velhos que carregavam a guerra e o holocausto em suas memórias. É duro pensar que é uma questão de sorte, de acaso, estar ou não no lugar e na hora onde tudo perde o sentido. Meu coração está com os milhares de voluntários no Haiti, a solidariedade é o único contraponto da destruição.

Postado por Diana Corso

Desequilibrados

06 de janeiro de 2010 1

 

Sigoruney Weaver voltou ao espaço, agora como uma cientista interplanetária, mas desta vez o Alien somos nós. O que já era sugerido nas experiências anteriores do diretor James Cameron agora é explícito: os homens, com sua voracidade capitalista, perderam totalmente seus resguardos morais e, principalmente, o equilíbrio. Avatar, o filme, com ou sem 3D, é uma experiência estética que não desaponta a quem gosta de mundo mágicos.

Para viabilizar a extração de um minério precioso para os terráqueos no planeta Pandora, organizou-se uma pesquisa na qual alguns humanos conectavam-se a seres similares ao povo local, controlados mentalmente: os avatares. Necessitavam conhecer melhor aquela civilização que resistia a qualquer negociação: não havia nada que pudesse ser ofertado a eles que estivessem dispostos a trocar por um pedaço da sua terra. Os cientistas descobriram que aqueles seres azuis, com rabo e feições felinas, têm tesouros que sintetizam nossos sonhos românticos, e que supomos que perdemos: a conexão com o meio ambiente e o grande coração do bom selvagem.

O herói do filme é gêmeo do que originalmente treinava para conduzir um avatar, mas morreu. Ao contrário do irmão cientista, ele é um soldado, mas está paralítico. No corpo de seu avatar, pode executar as tarefas que fazem parte da formação de um guerreiro Na’vi, numa mobilidade que contrasta com suas pernas inúteis da vida real: saltar entre as árvores, caçar, domar e voar em dragões alados. Como ele, estamos paralisados pela tamanha confusão que fizemos, criando cidades monstruosamente artificiais, sofrendo castigos climáticos crescentes, enquanto nossa única atitude não passa de separar um pouco de lixo. Desse jeito, parece melhor mesmo abandonar esta carcaça inútil que é nossa civilização e começar tudo de novo, como um povo caçador-coletor, capaz de uma cultura coletiva não competitiva.

O novo campeão de bilheteria e de tecnologia do entretenimento é um grito ecológico. Nossos sonhos coletivos das telas já não se bastam com máquinas, eles começam a ser mais orgânicos, amazônicos. Isso pode muito bem apontar uma guinada: no futuro deixaremos de ser colonizadores ensandecidos de nosso planeta e buscaremos algum equilíbrio entre nós e com o meio ambiente. Ou numa leitura mais pessimista: a possibilidade de uma relação não selvagem entre os humanos e com seu mundo mudou-se definitivamente para Pandora, um planeta onírico. Na vida real, restaremos aqui, paralíticos, beligerantes e obtusos.

 

Postado por Diana Corso

Os homens e sua “Caixa do Nada”

04 de janeiro de 2010 2


Nunca acreditei que os homens fossem de Marte e as mulheres de Vênus. Devido à minha natureza beligerante, acho que sou mais Marte. Se tivesse que escolher planetas para os sexos, destinaria toda a espécie feminina a Marte, graças à agressividade intrínseca e velada da relação entre nós mulheres. Quanto aos homens, não os identificaria com Vênus, porque nas questões do amor nunca serão nativos de planeta nenhum. Talvez os destinasse – por que não – à própria Terra, afinal andam tão desinteressados de grandes transcendências.

Como nós, eles também se estranham entre si quando algum tenta sobressair-se aos outros, justamente porque são uns exibidos profissionais. Além disso, há a disputa pelo cargo de chefe da matilha, que inclui vários rituais, que podem envolver objetos corpóreos e incorpóreos, que serão exibidos, medidos, compartilhados e permutados, conforme a necessidade do momento.

Da diferença entre os sexos, cada vez mais sei que pouco sei. Mas encontrei no youtube alguma resposta para tranqüilizar minhas inquietações: pode ser acessado digitando “cérebro masculino e feminino” ou http://www.youtube.com/watch?v=RLbOuHX8rMA . Trata-se da apresentação de um humorista americano que explica como a cabeça do homem é composta de caixinhas cuidadosamente separadas, onde tudo está classificado, nada se toca, nem se mistura; enquanto a das mulheres mais se parece com a internet, onde tudo se comunica, se interpenetra, e nada se hierarquiza. Por isso as mulheres podem executar várias tarefas eficientemente ao mesmo tempo, além de tratar todos os assuntos simultaneamente sem perder o fio, para desespero completo de seus parceiros.

Essa classificação é interessante, mas fiquei mesmo encantada com aquela que o humorista declarou ser a caixa predileta dos homens: a “caixa do nada”. Ela é vazia, óbvio, e é em seu interior que eles se refugiam quando exaustos, lá eles zapeiam, assistem futebol, pescam, lêem jornal, bebem cerveja ou consertam coisas.

Quando contei dessa caixa a uma amiga, ela exclamou: “que inveja do pênis que nada, eu tenho inveja é da caixa do nada!” Olhando de perto, na verdade não existe contradição entre essas duas invejas: é justamente porque os homens têm um lugar no mundo há milênios que eles podem se dar ao luxo de reduzir-se a nada. Quanto a nós, inquietas e inseguras de ocupar os lugares visíveis, novatas da ribalta, ainda alienígenas no mundo externo ao lar, não podemos dar-nos ao luxo de desaparecer. De natal, eu quero uma “caixa do nada”!

Postado por Diana Corso