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Posts de fevereiro 2010

Nossas coisas selvagens

25 de fevereiro de 2010 2


Estrearam simultaneamente dois filmes de estética infantil, mas complexidade nem tanto. No Fantástico Sr. Raposo, um pai de família é incapaz de entender-se com seu filho e consigo próprio após perder a identidade juvenil de predador. É um belo filme sobre a paternidade contemporânea e a forma como a vida adulta, com suas convenções e chatices, não traduz o que mais prezamos em nós, que parece morrer junto com a irreverência da juventude.
Mas é no segundo filme, Onde vivem os monstros, que esse mesmo assunto da dificuldade de domesticar a força de nossos sentimentos e aplacar as frustrações se aprofunda. Em inglês, o título do livro infantil de 1963 que lhe deu origem é mais explícito: “Onde vivem as coisas selvagens”. É disso que se trata, de onde colocar nossas coisas selvagens.
No livro, Max é um menino que fica com muita raiva depois de ter sido mandado dormir sem jantar por ter feito muitas travessuras e ameaçar sua mãe de devorá-la, já que ela o havia chamado de “coisa selvagem”. Em seu quarto ele vive uma aventura imaginária onde viaja para essa terra das coisas selvagens, e lá se torna seu rei. Brinca com eles até cansar e sentir falta do aconchego materno e volta, a tempo de encontrar seu jantar servido no quarto, ainda quente. A adaptação cinematográfica precisou ampliar a trama enxuta e dirigida à primeira infância. Criou um menino inconformado com a separação dos pais, a ocupação da mãe com o trabalho, e com a indiferença da irmã adolescente. Quando recebem a visita do namorado da mãe para ele é o fim: num acesso de raiva, morde-a foge para essa terra imaginária trajando sua fantasia de lobo.
Em ambas situações, é a dificuldade de controlar a fúria por ter sido preterido pela mãe que move o menino Max, quer seja por negar-lhe alimento, quer por arranjar um namorado. No filme, os monstros são cheios de inquietudes: desejam ser notados, apreciados, querem brigar menos e que seu grupo fique unido para dormir e brincar e sentem-se abandonados pela personagem mais materna entre eles, e esperam que o rei Max faça isso. A volta para casa se dá quando ele reconhece sua incapacidade para liquidar os sofrimentos com urros e brincadeiras e unir o que insiste em se romper. Mesmo acompanhado das coisas selvagens, ele não consegue impedir sua solidão.
Max e o Sr. Raposo esperam que a vida lhes dê mais poder, que seja menos frustrante, que as bravatas e urros resolvam no grito nossas limitações. Somente crianças e jovens para ser tão ingênuos. Somente?

Postado por Diana Corso

Compartilhando fantasias

07 de fevereiro de 2010 0




 

Jesse era um garoto muito problemático, fracassava nos estudos, nada parecia realmente despertar seu interesse. Seu pai, um crítico de cinema canadense, acabou propondo-lhe uma solução ímpar para seu problema: poderia largar a escola se topasse participar de um “clube do filme”. Ele selecionaria três filmes por semana, programados de forma a dar ao rapaz uma idéia da sétima arte e de sua história. Jesse topou e passou a morar com o pai. Estabeleceram regras de comportamento e partiram para os trabalhos, no sofá da sala. David Gilmour descreveu essa experiência ímpar no livro Clube do Filme (Ed. Intrínseca).

É uma leitura imperdível: em primeiro lugar, porque ele nos indica uma série de títulos, dos quais aproveitamos as lições que ele dava a Jesse, ensina a ver detalhes, um enfoque, uma luz, uma cena, explica a importância histórica da obra; em segundo lugar porque é uma lição de paternidade. A seleção dos títulos ocorria de acordo com os momentos do garoto, os debates também obedeciam a essa sensibilidade. Gilmour não fez uma invasão alienígena intelectualóide no cérebro de seu filho, por isso o garoto melhorou, ganhou em capacidade de expressão, passou a fazer planos.

Creio que não foram os filmes em si os responsáveis pela transformação, eles foram imprescindíveis porque constituíram motivo de encontro entre pai e filho. Porém o cinema é mais do que algumas horas de distração conjunta: é compartilhar sonhos e pesadelos. Assistir filmes e conversar sobre eles é transmitir aos filhos algo além do que compreendemos conscientemente. É melhor do que dar sermões (os quais também são necessários, vez que outra), pois trata-se de formar num filho algo mais profundo e verdadeiro do que a racionalidade pode fazer.

            Gilmour morria de medo de estar fazendo uma enorme besteira. Como mãe, eu jamais teria nem metade de sua coragem, e muito menos a paciência infinita que ele demonstrou frente à lentidão do crescimento de Jesse, face aos momentos de derrota e desânimo. Quer por louco, quer por visionário, ele ousou, e com isso, mais do que lições de estética, ou de história da arte, fez seu papel de pai.

 Por mais que nosso tempo invista na fantasia de termos filhos poderosos, libertos das limitações de seus pais, a transmissão entre as gerações ainda é a maior fonte de motivação para eles. Gilmour compartilhou suas fantasias com o filho, assim como essa experiência íntima de paternidade com seus leitores. Sorte que existem as férias para aprender tanto e de forma tão interessante, tempo fundamental para nós e para Jesse. Aproveite.

Postado por Diana Corso