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Posts de março 2010

mestres constrangidos

31 de março de 2010 1

 

            Participei da gravação de um programa de televisão sobre bulliyng. Com o pessoal da TV Escola, buscávamos uma palavra em português para esse termo, que a esta altura já faz parte do vocabulário psico-pedagógico. Achamos que “constrangimento” era uma aproximação, embora parecesse suave para a carga de agressividade repetitiva e intencional, em geral ocorrida entre estudantes, que essa prática pressupõe. Derivado da palavra inglesa bully, valentão, o termo designa o achincalhamento, a humilhação sistemática que os mais fortes fazem sobre os mais fracos. Por vezes isso ocorre de forma pessoal e discreta, outras anônimas, através da internet, ou em público com o apoio de um grupo. Esse aviltamento de um aluno por outros está representado em todas as formas da ficção e é parte da vida escolar, tanto quanto os cadernos e o quadro negro. O debate em torno do assunto é recente, mas a literatura tem relatos muito antigos da violência praticada contra aqueles que se mostram quietos, sensíveis, ou diferentes em qualquer (mínimo) aspecto dos outros.

A segunda parte do programa foi gravada numa escola estadual, onde um empolgado grupo de professores e alunos produziu blogs, pesquisas, teatro e, principalmente, um debate interessante e complexo. Foi inevitável perguntar-se: para que o bulliyng aconteça e se perpetue, seria preciso que o professor tenha sido de algum modo coadjuvante nesse comportamento?

Conviver com crianças e adolescentes obriga a permanecer em contato o próprio passado. Se a infância doméstica pode até ser lembrada ao som de passarinhos cantando, a escolaridade sempre tem uma trilha sonora mais tensa, com acordes trágicos e raros allegros. O professor diariamente partilha dramas que evocam memórias que ele nem sempre gostaria de manter vivas, não admira que em muitos casos seja cego ou até conivente com certas práticas das quais talvez algum dia tenha sido vítima, testemunha ou algoz.

Num passo a mais, entre as questões levantadas na escola, chegamos a uma conclusão bem incômoda: ensinar em escolas públicas hoje é estar submetido a uma prática de achincalhamento constante. Sem remuneração adequada, prestígio social e formação continuada, o professor é um profissional desautorizado por todos. Oscila entre comportar-se como uma criança que sofre bulliyng, evitando ir à escola, fazendo-o com os olhos baixos e voz sumida, e a postura contrária desses verdadeiros guerrilheiros do ensino, como os que conheci na Escola Estadual Itália. A esses mestres, meu carinho.

           

 

Postado por Diana Corso

bonde para elas

17 de março de 2010 2


 
Na idade da pedra do feminismo algumas mulheres livres adotavam vestimentas masculinas, por vezes até nomes ambíguos, para poder circular em ambientes que eram vedados às saias. A entrada no mercado de trabalho foi marcada por sucessivos movimentos de mimetismo com a identidade masculina, único modo estabelecido até então. Tão diferente da proclamada sensibilidade e delicadeza das mulheres, muitas adotaram condutas agressivas, de intransigência e intolerância, quando precisavam se impor em alguma posição de mando. Mas a violência física era uma exclusividade do homem, não foi uma característica incorporada pelas mulheres em busca de um lugar ao sol fora de casa.
Eventos recentes, nos quais episódios de violência foram protagonizados por “bondes” (gangues juvenis) femininos, organizando brigas entre grupos de meninas rivais, chegando inclusive a travar lutas letais entre elas, mostram que as mulheres adquiriram mais um péssimo hábito masculino.
Esses eventos podem não significar muito mais do que o vazio de perspectivas entre os adolescentes, que os reduz a recursos primitivos de construção de identidade: serve fazer-se reconhecer pela força, participar de provas físicas de coragem e dar mostras de poder que só valem para o prestígio interno ao grupo. Para esses adolescentes de horizontes curtos, a sociedade em que vivem, o mundo fora de seus redutos grupais, é visto como uma floresta na qual eles vão “caçar” os objetos e o dinheiro necessários para o reconhecimento interno. Seu guru, quando há um, é o traficante. As mulheres sempre participaram dessa vida sem sentido, que infelizmente é a de muitos brasileiros, mas quase sempre como mães e namoradas. Ter seu próprio bonde é uma questão, portanto, de igualdade social, equiparação de papéis, por que não?
Mas não se trata de voltar ao tempo das mulheres vestidas de homens. As meninas dos bondes não são de aparência masculinizada, elas podem usar roupas de feminilidade escrachada, justas e mínimas, e incorporam as armas em seu visual Lara Croft de subúrbio, como mais um adereço insinuante. A sensualidade agressiva dessas piriguetes armadas é sim um elemento a mais para pensar: numa torção marginal de sua clássica posição de objeto, as meninas do bonde podem ostentar seus atributos em público e tirar vantagem com eles equiparando-se à supremacia da força masculina. Elas não são mais presas, são predadoras. Se o mundo é uma selva, os novos espaços conquistados pela mulher vão requerer o uso do tacape.
 

Postado por diana corso

O que nos maravilha em Alice?

13 de março de 2010 0

 

 

Alice, seu País das Maravilhas e suas aventuras Através do Espelho, seguem angariado legiões de fãs e estudiosos. Eles encontram em suas linhas todo tipo de sabedoria e maluquice: desde complexos enigmas matemáticos até não menos cabeludas patologias psíquicas. Discutem-se essas inferências praticamente desde sua publicação, em 1865. É inútil colocar mais lenha nessa fogueira, que deve ser deixada aos cuidados dos ativos membros das diferentes Lewis Carroll Society distribuídos ao redor do mundo todo, especialistas na matéria. A pergunta que nos colocamos aqui é bem mais simples do que as que inquietam esses nobres estudiosos: o que faz essa personagem ser tão tocante para tantos, por tanto tempo?

A resposta também é direta e simples: Lewis Carroll gostava de exercitar-se na lógica infantil e soube descrevê-la de forma que adultos e crianças se sentissem tocados por ela. Além disso, as aventuras de Alice são oníricas, o autor soube respeitar as regras de construção dos sonhos e também por isso nossa empatia com essa história é forte, afinal visitamos a cada noite o mundo maravilhoso dos sonhos. Nosso cérebro não desliga nunca, ele aproveita o repouso para reacomodar os restos do dia, equilibrar as tensões, e alucinar soluções para as pendências não resolvidas. O resultado disso são nossos sonhos e pesadelos. Dependendo da conexão que temos com nosso inconsciente, podemos lembrar mais ou menos deles, mas todo mundo sonha.

Em certos momentos, as obras que relatam universos surrealistas podem parecer uma barafunda aleatória de alucinações sem sentido, mas não são. Prova disso é que nem toda obra, apenas por parecer maluca, consegue se comunicar com o público. Nós reconhecemos por intuição aquelas que realmente são como os sonhos, que fazem eco em nossas próprias produções oníricas, respeitam sua lógica. Estas demonstram conhecer nossos segredos e Lewis Carroll conseguiu essa proeza.

Boa parte da graça da infância provém do jeito canhoto e literal através do qual as crianças compreendem o que se diz e o que se faz. “Somos todos loucos aqui”, dizia o Gato de Cheshire e nenhuma criança discordaria disso.  As cenas sociais podem parecer bem estranhas, indecifráveis aos recém chegados. Focada com a lente infantil, a vida dos adultos parece como a do Coelho Branco, que corre atrás de objetivos insignificantes, a mando de uma rainha enlouquecida, como o Chapeleiro Maluco, que vivia condenado a um eterno chá da tarde, ou como as Rainhas esbaforidas que percorriam seu mundo de tabuleiro com a mesma pressa fútil do Coelho. São as determinações inconscientes que regram a lógica dos sonhos, as mesmas que influenciam decisivamente nossas escolhas, medos preconceitos, inibições, compulsões e desejos.

O mundo gira e gira rápido, mas para onde mesmo vamos?  Resta aos pequenos a passividade de serem arrastados na correria maluca dos grandes. Embora crescidos, no fundo sentimo-nos como eles, sem controle sobre nossa origem e destino. Mas as crianças são mais destemidas e curiosas, elas não se angustiam tanto com a experiência de tanto desconhecer e pouco controlar.

Carroll era grande apreciador de charadas e jogos de palavras, e brincar com múltiplas interpretações de uma palavra é fácil para aqueles que estão ainda familiarizando-se com a linguagem e costumes do planeta dos adultos. Enquanto artista e matemático, ele praticava a lógica do pensamento infantil como se fosse uma língua arcaica que nunca esquecera de falar. Os sonhos são o último reduto dessa liberdade que as crianças acabam tendo sem querer, de jogar com as convenções, com as palavras, desrespeitar a razão e as leis da física, por isso, somente quando sonhamos somos capazes de reviver algo da condição infantil.

As melhores e mais duradouras histórias são as que nos permitem sonhar acordados, junto com outras pessoas, assim como nos possibilitam resgatar a lógica da infância e dos sonhos. Graças a elas podemos percorrer lugares maravilhosos, sejam eles lindos ou assustadores, sem medo de enlouquecer de verdade ou de perder as rédeas da nossa vida.

No final da sua viagem pelo País das Maravilhas, Alice acordou, contou seu estranho sonho à irmã mais velha, em cujo colo adormeceu, e saiu correndo. Acabou deixando suas aventuras em seu lugar e através delas a irmã começou também de certa forma a sonhar. Carroll é como essa irmã, que sonha maravilhas graças à imaginação das crianças com quem teve o privilégio de privar; ou como o Gato de Cheshire, que compartilha com Alice a percepção de que este mundo que é mesmo maluco. Ele nos contou as aventuras de Alice, saiu e nos deixou aqui sonhando acordados.

 

Postado por Diana e Mário Corso

Falha Humana

03 de março de 2010 2



 
Um grupo de pessoas se reuniu para fazer uma aposta na loteria e acertou. Quando foram conferir sua condição de premiados descobriram que a aposta não fora feita pela lotérica. A felicidade instantânea tornou-se pesadelo. Entre as explicações para esse triste desenlace, é que houve falha humana: a funcionária do estabelecimento não fez a aposta.
            Dentre todas as alternativas, essa é a que me toca mais. Viver, para mim, é uma sucessão de sobressaltos, nos quais entre suores frios e pensamentos confusos, me recupero de sucessivos sustos nos quais penso ter feito algo errado ou prejudicial para alguém. Isso serve para coisas ridículas como um comentário infeliz, um aniversário esquecido, ou mesmo muito graves como um negócio catastrófico (até parece que lido com milhões!) ou o dano na saúde de alguém querido.
            As inúmeras responsabilidades que assumimos são sempre maiores do que nossa atenção possa dar conta. Por mais que nos preocupemos, façamos listas, criemos condutas ou rotinas adequadas, conseguimos apenas redução de danos, o que não é pouco. Quando acontece um acidente aéreo, se o motivo tiver sido uma falha humana, parece que poderia ter sido evitado, como se ela não tivesse sido também, a seu modo, acidental. Temos uma suspeita de que por trás de toda falha humana houve algum tipo de intencionalidade, ou pelo menos uma culpa: o piloto não descansou ou treinou o suficiente, talvez ele estivesse com problemas pessoais, deveria ter tirado uma licença ou era incompetente mesmo.
Explicações são muito melhor que nada. Se alguma motivação pessoal houvesse nos acidentes, no mínimo ela seria de cunho inconsciente, digamos que alguém precisasse destruir a própria vida, a carreira, exterminar seu futuro. Mas é mais fácil admitir que esse tipo de lapso, fracasso ou acidente seja válido para uma entrevista de emprego mal sucedida, uma gafe social, um esquecimento de compromisso, não para o extermínio de centenas de vidas.
            Semana passada, pulei numa piscina sem antes olhar para o fundo. Ainda não entendi como foi que isso aconteceu, mas causei uma colisão que deixou meu marido, que estava mergulhando, com um olho roxo. A pior parte dessas paranóias de fazer algo errado é quando se confirmam, sem falar nas brincadeiras dos amigos que me acusam de violência domestica. Das dificuldades em ser adulto, a impotência que resulta de entender que tudo o que conseguimos é errar menos, é a pior delas. Tenho pânico da falha humana.

Postado por Diana Corso