Pular a barra do clicRBS e ir direto para o cabeçalho.
clicRBS
Nova busca - outros

Posts de junho 2010

B@bel

23 de junho de 2010 1


A internet é nova Torre de Babel, onde todos querem a comunicação universal e acabam dando espaço para mal-entendidos de proporções globais. É um meio onde a informação avança sem tempo para certificar-se de sua procedência, nem refletir sobre seu caráter.

Uma divertida confusão anda circulando ao redor do mundo: estranhados com a difusão de uma frase – “cala a boca Galvão” – divulgada no Twitter e associada à presença dos brasileiros na Copa do Mundo, vários estrangeiros se interessaram em saber o que ela significa. Foram erroneamente informados por um vídeo postado no youtube que “cala a boca” quer dizer “save” e “galvão” é um pássaro raro em vias de extinção. O vídeo, que já teve 760 mil acessos, explica, em claro inglês britânico, que podemos participar da campanha de salvamento dos “galvão birds” escrevendo no Twitter a simples mensagem “cala a boca Galvao”. Assegura que para cada vez que essa frase fosse enviada, estaria se viabilizando a doação de uma pequena quantia em dólares destinada à campanha, embora não esclareça quem vai pagar por isso. Uma pegadinha brasileira que tira proveito tanto da nossa imagem como um país primitivo, de pássaros exóticos e uma grande floresta em perigo, tanto quanto da urgência de milhares de pessoas de fazer o bem de forma rápida e barata.

Dizem que Galvão Bueno despertou tanta animosidade graças à insistente repetição de clichês com que narra os jogos, nenhuma de suas metáforas é nova. Ele coloca a energia do futebol em ritmo de partida de dominó de clínica geriátrica. Foi essa geração da internet que, por se sentir subestimada, mandou um recado de que não precisa de um animador de bingo para seus momentos de lazer.

Rotina é bom, como um conjunto de práticas que nos assegura uma continuidade na vida, elas se repetem com a mesma certeza que temos de que ao voltar para casa encontraremos nossa cama no mesmo lugar. Mas nem por isso vamos passar a vida deitados nela, levantamos todo dia incertos de que ganharemos a partida e essa é a motivação, o desafio. As regras dos esportes são pura rotina, movimentos calculados, regrados, mas é no imprevisível que nos prendemos. É o contraponto do previsível com o surpreendente que garante o encanto, tanto no futebol como na vida. Galvão pelo jeito não entendeu isso.

Como todo equívoco, a pegadinha brasileira diz uma verdade, e essa mensagem é que somos mais do que carnaval e uma floresta em extinção: nosso país também exporta humor e brincadeira. Independente do resultado da copa, o Brasil já ganhou uns pontos.

Torcedoras

09 de junho de 2010 0

Existem mulheres que genuinamente gostam de futebol, infelizmente não estou entre elas. Muitos acham que é um embuste, um subterfúgio feminino para aproximar-se “deles”, invadir a reserva ecológica dos maridos. Mas os fatos são eloqüentes: hoje, discussões que envolvem termos como meia esquerda e ponta direita, a escalação do time adversário no campeonato passado, os cabalísticos números 3-4-2, 4-4-2, assim como as incompreensíveis tabelas, incluem um número crescente delas; além disso, os times femininos de futebol já ocupam espaço nas canchas e elas levam a sério seu esporte. Céticos insistem que isso é mimetismo com os nativos do futebol, os machos. Elas deviam ater-se a esportes que incluam saltos de gazela e shortinhos, sem encontrões e caneladas. Na dúvida, assista a um bom jogo de vôlei feminino para ver toda a “delicadeza” requerida.

A identificação com os gostos e hábitos masculinos foi uma tendência forte entre as mulheres que queriam ser livres. Na contramão disso, hoje existem também muitos homens, com H, que descobrem os encantos de atividades outrora femininas, como cuidar da própria imagem. São homens que ficam aliviados de poder duvidar e fraquejar, sem ter vergonha disso, e que gostam inclusive de conviver e cuidar dos filhos. Queira-se ou não, os sexos se misturaram e arejar as identidades sexuais não é ruim, apenas é recente. Porém, sem referenciais tradicionais nas quais espelharem-se, ambos os sexos partilham o mesmo desamparo, ainda carecem dos parâmetros da mãe refém do lar e do pai ao qual cabia reinar e sustentar. Faltam-lhes também utopias, religiões poderosas, identidades nacionais, autoridades confiáveis. Quando os tronos ficam vagos, o futebol como valor mais alto se levanta: é algo para pertencer e acreditar.

Um time é uma nação sem fronteiras, todos cabem, seu coração é grande como o de uma mãe. Ele é um valor em si a ser adorado, mesmo quando cai para a segunda divisão. Confiaremos na vitória de nosso time como esperamos que nosso pai seja grande, por isso reagimos com fúria quando ele nos desilude. Sem problema, ele pode ser duramente criticado, igual nossa adesão é incondicional. As mulheres, por sua vez, não mais são entregues no altar, passando da posse de um homem para a ingerência de outro. Agora, ser protegidas e passivas não passa, para elas, de fantasia sexual ou devaneio romântico. Portanto, se a pátria da bola oferece guarida aos desamparados, por que isso seria restrito a um sexo só? De qualquer maneira, da próxima vez que tentar compreender o que é um impedimento, vou perguntar para uma mulher.