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Posts de julho 2010

O Profeta, um destino complexo.

31 de julho de 2010 0

O Profeta, filme dirigido por Jacques Audiard, é uma produção francesa, da história de Malik, um rapaz de origem árabe, que amadurece dentro de uma cadeia, sendo que passa boa parte do tempo ligado à máfia da córsega. Filme falado em três línguas, transcorrido entre as grades quase todo o tempo, violento, com gente nada bonita, sujo e…belo. A fotografia é imperdível, grandes planos de rosto, como nos filmes de Van Sant. Filme confuso, onde se mistura o objetivo com o subjetivo de forma muito sutil, e tocante. Mas o importante mesmo é que é um romance de formação: o garoto entra no lugar como órfão, parece ser um transgressor renitente, apesar de que não ficamos sabendo muito bem o que ele fez, nem isso tem importância.

Ao longo de seus anos de cadeia vai aprendendo, é adotado e escorraçado por um líder corso, obrigam-no a matar, encontra quem o incentive a estudar. Entra menino e sai homem, construído a partir de uma colcha de retalhos de experiências e identificações, feito de atos ousados, de rompimentos, de escolhas. No final, de um modo muito enviesado é ao mesmo tempo árabe, mafioso, instruído. É possível isso?

Afinal, o sistema carcerário e as más companhias não fabricam somente indivíduos

toscos, assassinos, psicopatas, gente que só pensa em rapinar e satisfazer-se? Como é fácil pensar assim, ficamos nós aqui e eles lá e o mundo devidamente compartimentado. Mas não é o caso, no presídio, como na vida, a formação de um indivíduo é complexa e pode levar a muitos destinos. Entre os psicopatas que moram nas cadeias, os garotos que crescem em reformatórios, como Malik, há um trabalho de fazer-se a si mesmo onde se colhe experiências, planta-se atos e das conseqüências disso resultam indivíduos diferentes, de destino imprevisível e subjetividade complexa.

Talvez essa seja uma importante lição para que possamos aprender a lidar com a população carcerária, foco de gastos públicos, desprezo e temor coletivos e símbolo da desesperança. Cada uma daquelas pessoas tem uma trajetória de vida e faz com ela o que consegue, compreende-la e coloca-la em questão deve ser um complemento necessário da reclusão. Por que alguém seguiu, se aliou ou identificou com determinadas pessoas? Na resposta a essas perguntas está a história de uma vida, de Malik e de tantos outros com os quais não queremos nos encontrar numa esquina escura.

O Sótão

21 de julho de 2010 1

A morte de uma paciente aumentou meu sótão. Quando ela partiu (a idade a levou), fiquei em seu velório um tempo, em pé, perdida. Não sou da família, tampouco amiga, a única pessoa ali com quem eu falaria seria ela própria. Provavelmente comentaríamos a bonita despedida que estava recebendo, mas creio que ela sabia que seria assim. O problema é que fiquei com as lembranças que ela deixou em mim e sei que ela nunca mais vai buscá-las. É assim com meu trabalho de psicanalista: guardamos milhares de histórias, personagens, sonhos, que em geral ficam ali, empoeirados. Não quer dizer que fico pensando nisso, aí não seria sótão, seria cristaleira: aquelas coisas que se tira o pó, usa-se em ocasiões festivas, olha-se de vez em quando. Sótão é para guardar as coisas que se tornaram inúteis, não se quer mais, mas tampouco ousaríamos jogar fora.

No último filme da série Toy Story, o menino que é dono dos brinquedos protagonistas cresceu, vai para a faculdade e precisa liberar seu quarto. O destino dos brinquedos mais apreciados seria o sótão. Por peripécias da trama eles se perdem, acabam descartados e encontram um destino feliz nas mãos de uma garotinha. Mas há uma pequena cena que deixa claro quem é o verdadeiro sótão: a mãe do rapaz. É ela que ficará com as memórias da infância dele, as quais serão buscadas, talvez, quando ele se tornar pai. Ela entra no quarto esvaziado, olha em volta, e mesmo num filme de animação é possível perceber seu desamparo. Provavelmente não era só o dela, era o meu que estava vendo, pois também estou com filhas crescidas, saindo das mais diversas formas. Atrás delas ficam brinquedos, livros infantis, pôsters de filmes, cuidados maternos agora desnecessários. Definitivamente, os pais são o sótão dos filhos.

Memórias são diferentes de lembranças de viagem, álbuns de ocasiões festivas, que ficamos tentando mostrar para pobres pessoas que fingem que se interessam. Memórias são matéria de sótão, lugar destinado ao que já foi significativo, mas que não se usa mais. Onde colocar, por exemplo, as lembranças de um casamento que acabou? São imagens e pensamentos que ficam na vã esperança, de um resgate, como os brinquedos do menino teriam ficado se fossem para lá. Guardar tudo isso não é voluntário, nem mesmo útil, já que minha paciente não vai mais usar suas histórias e talvez meus netos nunca se interessem pelos Playmobil que encaixotamos.

É engraçado que amadurecendo costumamos nos queixar de que ficamos mais esquecidos. Deve ser porque o sótão ocupa cada vez mais espaço. Mas pobre daquele que não o tem.

Faltou resiliência

07 de julho de 2010 2


Utiliza-se o termo “resiliência” para designar a capacidade que algumas pessoas teriam para resistir às provações sem sucumbir ao desespero, sem destruírem-se internamente quando algo no exterior lhes abala a integridade. Resilientes seriam os que sobrevivem psiquicamente aos diversos tipos de catástrofes pessoais e sociais, como traumas, torturas, deportações, perdas, abusos e maus tratos. Apesar de marcados por essas experiências, elas não os impedem de retomar uma vida relativamente normal. O conceito original vem da física, fala da capacidade de um material para resistir a choques, conservando sua forma original.

Também podemos falar de resiliência para golpes menores do destino, ou seja, a capacidade de levantar rápido depois de um tombo. Foi essa resiliência que não apresentamos na derrota para a Holanda. No início da partida tudo corria bem, dominávamos e tínhamos a vantagem do primeiro gol. Tomamos um gol e passamos de um estado de confiança, de domínio, para um de gelatina emocional, o destempero tomou conta. É inevitável perguntar por que a equipe adversária conseguiu manter-se animada mesmo enquanto perdia, enquanto nós parecíamos não estar suportando sequer um empate.

Coisa típica de brasileiro, dirão com justeza: aos que voltam para casa sem a vitória não se dedica nenhum apoio, reconhecimento da trajetória, só vale o resultado e disso os jogadores sabiam. Mesmo assim, esperava-se deles, sempre tão incensados pela fama, que tivessem mais recursos para desempenhar seu trabalho.

A defesa de uma criança numa situação traumática passa pela capacidade de lançar mão do “capital psíquico adquirido”, diz-nos Cyrulnik. Para esse autor não se trata de um dom com o qual alguns são agraciados e outros não. A força para superar as adversidades depende de uma trajetória de vida, do que se recebeu, colheu e do que se faz com isso. Treinar um grupo de homens eficientes, mas frágeis, não faz Esparta. É preciso que cada um deles tenha, e saiba usar, recursos interiores para se sobrepor às frustrações inevitáveis.

No futebol como na vida, não é incomum viver sem nuances. Mesmo sem ser bipolares, oscilamos entre fantasias de estrondoso sucesso e o pânico do fracasso absoluto. A resiliência nos habilita a viver sem essa dicotomia, no intervalo, erguendo-se nos momentos difíceis a partir do acervo que carregamos conosco. Entregues aos extremos, muitos acabam transformando o pavor em realidade e paralisam. Para 2014, quem sabe um psicanalista na equipe técnica?