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Posts de agosto 2010

Intempestivo

18 de agosto de 2010 0


Concordo com o Prof. Dr. em Lingüística Aplicada e Semântica Profunda Fernando Veríssimo quanto ao tipo de relação que devemos ter com as palavras: “a gramática precisa apanhar todos os dias para saber quem é que manda”, diz ele. Quanto a mim, também tenho minhas birras com as palavras e suas regras. A pior delas é com o significado de “intempestivo”.

O Prof. Aurélio afirma que essa palavra significa “inoportuno, súbito, imprevisto, inopinado”, mas não me resigno. Ao menos o significado oficial ainda lhe preserva uma irruptividade no tempo: fulano chegou intempestivamente! Mas ainda é pouco para o que imagino para ela. Intempestivo teria que ser um sujeito violento, que pode bater na mulher sempre que contrariado. Se mulher, estaria sempre pronta para quebrar toda a louça da casa. Para mim é óbvio que diz de alguém que possui tempestades na alma. Já seu significado usual dá a entender que um inadequado qualquer poderia ser considerado intempestivo. Sinceramente, eu esperava mais de uma palavra tão forte e bonita. Mas todo esse lero só para dizer que temos uma relação afetiva com cada palavra, nenhuma é banal. Tudo o que se diz e escuta produz algum efeito.

Nosso nome próprio é a palavra que carregamos com mais dificuldade. Certa vez encontrei um casal com seu bebê, os quais me explicaram que estavam esperando ele crescer para que decidisse o nome. Eu não queria estar no lugar daquela criança, cujo sexo, na falta de um nome, não lembro. Se já é missão impossível preencher com significados amealhados ao longo de uma vida a designação que recebemos, que dirá fazer jus a um nome escolhido por nós mesmos, o qual representaria nossas mais megalomaníacas e irrealizáveis fantasias.

Nosso nome resulta de um sonho consciente ou inconsciente de nossos pais, com o qual sempre poderemos de alguma forma nos confrontar. Mas se fossemos nomeados de acordo com nossas próprias exigências, seriamos um projeto destinado ao fracasso. “Diana” é a deusa romana da lua, dos animais e dos bosques, associada à Ártemis grega. Vou passar a o resto da vida tentando, inutilmente, ficar à altura disso. Mas imagine o peso, se eu mesma o tivesse escolhido: seria grande demais para mim.

Veríssimo tem razão quando defende a liberdade poética de submeter a língua à nossa vontade, disso depende o humor, a arte, da possibilidade de transcender as significações óbvias. Mas, igual, as palavras nos subjugam, seus efeitos mudam nossa vida o tempo todo. Além disso, elas brotam em nossos lábios de forma intempestiva, nos dois sentidos.

Um violinista em Auschwitz

04 de agosto de 2010 0

“Viemos das cinzas, agora dançamos”. Com essa frase o Sr. Kohn, um sobrevivente do holocausto, agora com seus 89 anos, defendeu a iniciativa que está provocando polêmica no youtube. Acompanhado de sua filha, uma artista plástica que idealizou o vídeo, e de três netos, Kohn dançou “I will survive” nas dependências dos campos de concentração de Auschwitz, Terezin e vários outros locais onde os judeus foram supliciados.

Muitas pessoas se sentiram incomodadas. Considerando a dança desrespeitosa com quem sofreu lá, pois eles teriam feito algo equivalente a dar uma gargalhada num funeral. A visita aos campos costuma produzir lágrimas e uma enorme desolação pessoal: vê-los é encarar o lobo do homem demasiado perto. Imagino que não deve ter sido fácil dançar lá, o que torna o gesto dessa família mais político, um ato significativo.

Os sobreviventes do Holocausto estão chegando ao final da vida e em breve teremos que lidar com uma memória sem a presença de seus protagonistas. O problema maior não é somente o esquecimento, que é o que costumamos fazer com as partes desagradáveis da nossa existência, mas também o tom com o qual no futuro vamos nos remeter a essa triste lembrança. Essa família resolveu marcar esses templos da morte com uma celebração da vida. Não será esse gesto o mais enobrecedor para todos que passaram por lá? Ele diz: vocês não nos derrotaram, estamos aqui, vivos e comemorando o prazer de existir.

Enquanto judia, que teve parte da família amputada pelo holocausto, sempre me pergunto se teria tido a coragem de sobreviver. Por vezes creio que teria sucumbido à tristeza, à revolta pela injustiça, tampouco sei se encontraria forças para lutar, acredito que poderia ter desistido de tudo. Admiro cada uma daquelas pessoas que sobreviveram, são heróis da superação, muito além do que eu julgo que seria capaz. Uma dança de três gerações nos campos, ao som de uma música que diz “eu sobreviverei”, trata da persistência da memória, não da negação da história. Kohn teve descendência, voltou e dançou. Aqueles passos foram de um homem que agora chega naturalmente ao final de sua vida e está orgulhoso de ter se erguido das cinzas. Freud dizia que “tolerar a vida continua a ser o maior dever de todos os seres vivos”. Se ela não fosse tão intolerável, não olharíamos a morte com tanto fascínio, nem se mataria tanto e tão fácil. Sobreviver é a maior resposta ao holocausto, mesmo que ainda seja difícil.