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Posts de dezembro 2010

Provas e provações

22 de dezembro de 2010 0

Para mim já acabou, como criança que fui e até como mãe, mas doeu nas duas pontas. São as incertezas do fim do ano escolar, o medo de não passar, o pânico do vexame de rodar, da opinião do professor, a necessidade de provar o que não temos certeza se sabemos ou se, caso saibamos, conseguiremos demonstrar.

Todas as professoras de matemática que tive foram uma provação, sua matéria continua até hoje insondável para mim. Uma delas, recentemente encontrou minha mãe na rua e, ao ser informada de que eu não havia fracassado na vida, não pôde conter sua surpresa: – “então ela deu em alguma coisa!” Como se vê, não fui aluna muito promissora nesse quesito. Assim como ocorreu comigo, creio haver muitos alunos que não são eficientes em todas as áreas, que encontram dificuldades em exatas ou humanas, ou mesmo são atrapalhados para adaptar-se à sala de aula, sendo agitados ou sonhadores. Por vezes, há algum problema com o aluno, mas sem dúvida quando se trata de aprender não cabemos todos na mesma fôrma.

Para que alguém possa aprender, é preciso que haja algum espaço para a curiosidade, que as dúvidas não sejam atestado de ignorância, que o envolvimento do docente seja visível. Se não for assim, a única coisa que estará sendo testada nas provas é a obediência, a capacidade de disponibilizar o cérebro para ser preenchido pelo pretensamente sábio superior hierárquico. Dar-se bem, neste caso, prova que o aluno não se opõe a ser influenciado e formado/formatado pelo seu mestre.

Com muita freqüência, graças à competência dos professores e escolas isso tudo funciona. Porém, por vezes, crianças e jovens se fecham frente aos ensinamentos dos pais ou professores para proteger-se de uma invasão imaginária, ou talvez porque haja outro assunto relevante que precise ser digerido. Também ocorre que sua natureza possa pender radicalmente para outra forma de aprendizagem, que um campo de saber lhe seja mais permeável, enquanto o outro é hostil e estrangeiro. Cada professor prefere um tipo de aluno e vice-versa, o resto é desencontro.

Ignorando tudo isso, certos mestres se regozijam com a autoridade de que gozam, intimidando seus alunos, principalmente aqueles com maiores dificuldades. Infelizmente conheci alguns desses. É uma covarde glória do forte sobre o fraco, que no final do ano vive sua apoteose de poder. Felizmente esses são poucos, e graças a isso, no fim das contas, acabei não dando tão errado assim, apesar de nos meus pesadelos os carrascos da SS terem a cara de certas professoras de matemática.

O hábito de filmar cretinices (por Mário Corso)

15 de dezembro de 2010 0

O exercício da futurologia é o caminho mais curto para se dizer bobagens. Quem tem a minha idade, que nem é tanta assim, viu o mundo se transformar muito e hoje podemos ver que as previsões que nos venderam sobre o futuro eram ridículas. Todos erraram, tanto no campo social como no tecnológico, ninguém sabia mesmo para onde estávamos indo. O mundo dos Jetsons não aconteceu e o que realmente chegou revolucionando como tecnologia era bem outra coisa. Pelas espaçonaves e os robôs vamos seguir esperando, mas já temos os computadores, a internet (esta sim, ninguém tinha nem sonhado) e, acredito o mais famigerado: o celular.

O celular não parecia tão revolucionário quando chegou, pois seu pai, o telefone, já existia desde a virada do XIX para o XX, mas ele é um das geringonças que nos fazem ser diferentes. A rapidez com que sua posse, quase aristocrática anos atrás, passou para massiva é extraordinária, hoje o país tem um número igual de habitantes e de celulares habilitados. O fato é que ele se tornou algo tão indispensável como irritante. Poucos objetos são tão úteis e uma praga ao mesmo tempo. Eu o critico, mas não abro mão dele sempre ao meu lado, ele veio para ficar e não há o que fazer. Somos achados e achamos todos, e rapidamente ele nos permite sair de apuros. Nos plugamos voluntariamente a uma máquina que possibilita que rastreiem nossa vida.

Pouco a pouco, o celular foi ganhando poderes, depois do básico, a capacidade de qualquer um ser encontrado em qualquer hora, ele foi acrescido de uma câmera e desde então ninguém mais teve paz. Pior, antes ela só fotografava, agora também filma. Como seria previsível, há um exagero nisso: graças a essas câmeras crimes foram solucionados, cenas inesquecíveis foram registradas, mas para cada lance sublime existe um número centuplicado de imbecilidades.

Uma das fantasias mais pregnantes do estado totalitário é o “Grande Irmão” de 1984, de Orwell, onde a Teletela, um aparelho de TV que permitia tanto ver como ser visto, fixou a imagem mais popular do que seria um estado opressivo: ser visto em qualquer momento, sempre vigiado. Tanto que as câmeras de segurança, para certas pessoas, dão uma idéia de ser vigiado além da conta, passa um mal estar difuso. As câmeras dos celulares são o mais próximo desse olhar onipresente. Em qualquer lugar, a mínima bobagem que você faça pode estar sendo gravada e não vai para um arquivo pessoal, mas para uma vitrine total que é o Youtube. A maior parte disso é pura bobagem, diversão barata, mas existe um lado perverso. Por exemplo, filmar uma surra que um bando de cretinos aplicou em alguém por diversão noturna a perpetua, de tal modo que a vítima fica exposta a ela intermináveis vezes. Assim ocorre com os jovens, que em um momento entre o etílico e a idiotia, querendo mostrar uma desenvoltura que não tem no sexo, acabam arranjando uma dor de cabeça e uma péssima reputação eterna. Alunos que sofrem bullying sofrem o agravante de ter sua humilhação perpetrada na rede.

Uma das questões que isso coloca é tão interessante como difícil de explicar: por que cenas de transgressões são gravadas? Isso é tanto mais difícil de compreender considerando que elas são a prova dum ato ilícito, muitas vezes criminoso, e em quase todas covarde. Por que alguém faria, ou deixaria que se fossem feitas provas contra si mesmo ou contra o seu grupo? A resposta óbvia é que isso serve para poder mostrar, exibir o ato para mais pessoas, multiplicando a sensação de poder exercido pela força. Numa sociedade de império da imagem, faz todo sentido e torna o fato ainda mais real se for filmado. Mas essa resposta não me satisfaz de todo, acredito que uma das razões é que se filma para não estar na cena.

As câmeras, filmando ou fotografando, possibilitam uma função que passa despercebida, ela serve também para estabelecer uma distância frente ao que está ocorrendo. Quem filma está e não está ali, fazer o registro é estar fora e dentro ao mesmo tempo, mas mais protegido da cena, tanto da beleza como no seu oposto, uma brutalidade. A lente permite uma alienação positiva: quando a realidade é demais, o registro dela nos coloca num outro lugar. Por isso enquanto turistas tiramos tantas fotos, pois o novo nos desequilibra numa medida que não conseguimos dar conta. Invadidos por imagens, que por sobrecarga não assimilamos, guardamos um pouco de assombro para mais tarde. Muitas vezes, em ocasiões sociais, aquelas pessoas com mais dificuldade de participar ou sentir-se parte do grupo tornam-se os fotógrafos da ocasião, dessa forma participam da festa, mas a vêm de fora ao mesmo tempo.

Esse mesmo raciocínio serve para o vandalismo, alguém nesse grupo não é, ou está, tão idiotizado pelo ato, e como para distanciar-se do que lhe altera a sensibilidade então filma. Esse registro serve tanto como prova do “triunfo” e marca da culpa ao mesmo tempo. O mesmo raciocínio vale para um terceiro que apenas presencia a cena e a filma, ele a princípio não é vítima nem agressor, apenas está ali por acaso na hora em que as coisas acontecem. A filmagem permite que ele seja não tão passivo, afinal ele faz alguma coisa, pois senão seria apenas ser testemunha duma brutalidade, na qual, se interviesse, poderia acabar como vítima também. Filmar é um ato menos covarde do que se omitir. Assim ocorre nos grandes acontecimentos, como vimos a participação de celulares na divulgação da recente guerra no Rio.

Paradoxalmente, o feitiço parece encontrar seu reverso: quanto mais apostamos na impossibilidade de esconder-se, pois estamos expostos ao olho do celular que tudo vê e divulga, passamos a utilizar esse mesmo recurso para distanciar-nos da cena. Ao filmar e fotografar, estabelecemos um anteparo entre o acontecimento e nós, afastamo-nos um pouco da posição de protagonistas. Pode ser uma das formas de alienação, das tantas que temos tido oportunidade de exercer, mas passar da condição de atores para a de diretores coloca-nos numa relação mais autoral com a realidade: quem filma de alguma forma edita um pedaço dos fatos, seleciona o trecho mais eloqüente e assim, sem querer querendo, se posiciona.

Espelho abjeto

09 de dezembro de 2010 0

Fabrício Carpinejar reclamou em sua última coluna que, após o pai ter abandonado o lar, a mãe o deixou com a indigna tarefa de exterminar as baratas. Julgou que ela só lamentara na separação ficar a mercê dos insetos, “pensava que o pai era um inseticida”. Ele deveria ter ficado grato: essa missão equivale ao cargo de general dos exércitos dela, melhor cavalheiro da távola do rei.

As baratas são o terror e o lado sombrio das mulheres, na dúvida recomendo a leitura de A paixão segundo G.H.. “Às vezes acordo transformada em uma barata”, escreveu Claudia Tajes, comparando-se com a personagem de Kafka. Mulheres sentem-se cheias de patas, antenas, pelinhos que consideram nojentos, uma carapaça difícil de cobrir nas inúmeras imperfeições, basta uma e se anula qualquer possibilidade de bem parecer. O homem também as tem, mas nem nota. Já a nós nada escapa, pois exigimos de nossa aparência a perfeição impossível. Como elas, temos muitos membros, para poder fazer tudo rápido e concomitantemente, sem contar as longas antenas, com as quais prestamos atenção a várias coisas ao mesmo tempo. Como a personagem de Kafka, possuímos um corpo que desperta enorme, de borco, que contemplamos com pavor. Levamos horas para emergimos prontas dos nossos aposentos, dando o último olhar coquete no espelho, já transformadas na cereja do bolo. Mas antes disso sentimo-nos uma massa amorfa que precisamos reconstruir a cada dia. Um homem não tem esse problema, ele vive focado, seu corpo gira em torno de seu precioso órgão, haste que enfeixa todo seu ser, por isso eles só fazem uma coisa de cada vez, são falo-centrados. Conectados com esse eixo de sua identidade, o resto da personalidade masculina é dominado por essa única variável.

Como nós, a barata conhece e habita as entranhas da casa, cujos cantinhos dominamos e tememos tanto quanto os de nossos corpos; ela se esconde e espia, como fazemos com os furinhos de celulite. Como esse monstro, somos oriundas dos bastidores da cozinha, dos banheiros, do lar. Ela é nosso espelho abjeto e, por isso, objeto fóbico preferencial.

O medo faz parte da infância, opera desde o inconsciente pelo resto da vida, independente do sexo. Usando o medo como bússola, mapeamos o mundo e estabelecemos nossas hierarquias interiores: onde e quando se pode ir, protegido pelo quê, por isso as crianças são medrosas. Quando a barata chega e provoca a histeria feminina, os gritos convocam um pai, um homem, alguém com poder para exterminar o monstro do pior pesadelo. Fabrício, agradeça à sua mãe a honra recebida.