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Posts de fevereiro 2011

De Patinho Feio a Cisne Negro

16 de fevereiro de 2011 0

Todo Patinho Feio teme nunca acordar na pele de um cisne. Só temos a coragem de ler para crianças essa trágica história de Andersen porque antecipamos o final feliz, já sabido por todos. Hoje vejo nas fotos que fui uma menina até bonitinha, mas apesar de filha única e paparicada lembro bem como me sentia insignificante e sem atrativos. Quando crianças, sentimo-nos feios, minúsculos, frágeis e sobrevivemos da promessa do porte que atingiremos um dia. Peter Pan é envolvente, mas sua história seria um pesadelo se de fato fossemos condenados a nunca tornar-nos belos jovens, independentes dos adultos, amantes ou amados de alguém, dispondo da força e do vigor daqueles que estão no auge da sua forma física. Mas tampouco esqueçamos o quanto a pequena ave sofreu, rejeitada pela mãe, solitária e hostilizada por todos. Essa também é uma parte da história que nos diz respeito. Para crescer, abandonamos aqueles que nos protegem enquanto nos sentimos rejeitados por eles. Colocamos nos pais ou substitutos as culpas pela distância que sentimos necessidade de estabelecer entre nós e eles. Crescer, para ser um belo cisne, é uma jornada de rupturas, desamparo e a incerteza de chegar a ser alguém digno de respeito.

No filme “Cisne negro”, de Darren Arnofsky, é uma jovem bailarina que vive essa transformação. Com sua disciplina de boa menina, cabelos alinhados e tutus rosas pode ser uma boa bailarina, mas não é ainda mulher para viver o papel do cisne negro, figura sedutora e diabólica que almeja encarnar no palco. Encabeçando as resistências a que a transformação em cisne negro aconteça, está a figura de sua mãe possessiva, sucessora da bruxa de Rapunzel, que retém a menina em seus domínios e não suporta vê-la transformar-se em uma fêmea adulta, capaz de atingir a visibilidade que ela, uma bailarina frustrada, nunca alcançou. A bailarina do filme descobre que o papel de filha submissa é incompatível com sua entrega à dança. Através da dança metaforiza-se o surgimento de uma mulher, que rompe com a mãe, supera-a e aprende a usar o corpo para seu prazer e glória. Afinal, como belo cisne negro se realiza no palco, polarizando os olhares, fazendo o papel que os clichês de seu sexo designaram como próprio. A boa filha não é compatível com a bela mulher. O patinho lindo da mamãe precisa ser assassinado, para chegar solitário, sofrido e incrédulo ao seu lugar de cisne.

Assim como a nossa, essa não é uma história boba de esforço e superação, é uma vertigem paranóica, cheia de pesadelos e com destino insabido. Parafraseando Rosa: “crescer é muito perigoso”.

Boa trégua!

03 de fevereiro de 2011 0

Quando a vigência dos campos de concentração chegou ao fim, os sobreviventes, prisioneiros de várias partes do mundo, começaram a abandonar a Polônia. Alguns partiram rumo ao que restara de seus países, famílias e casas. Outros, que haviam perdido as referências e esperanças, procuraram outros destinos ou a terra prometida de Israel. Nesse momento, por dentro dos cenários de destruição e confusão que caracterizavam a Europa do pós-guerra, vagava um grupo de italianos provenientes de Auschwitz, do qual fazia parte o escritor Primo Levi.

Devido a burocracias de um planeta em renegociação política, eles foram levados na direção contrária para a qual deviam ser enviados: foram para o norte, para a Rússia. Ali passavam sendo removidos de uma cidade para outra, numa marcha sem sentido, explicações ou informações. Livres da opressão dos nazistas, as más condições de vida e o caráter errático da viagem pareciam suportáveis, passíveis até de serem narradas de forma literária, por vezes até pitoresca. Esse é o argumento do livro “A trégua”, no qual Levi conta a parte final de sua experiência como sobrevivente dos campos.

Ao finalmente aproximar-se da Itália acometeu-os algo maior do que a saudade: o medo da volta. Quem eram aqueles farrapos humanos cheios de memórias inenarráveis? Sentiam “fluir nas veias o veneno de Auschwitz”, faltava-lhes força para voltar a viver. O projeto de retomar um cotidiano que nunca mais faria o mesmo sentido era uma ameaça. Frente a isso, os estranhos desvios que, principalmente através da Rússia, Romênia e Hungria, os levaram para casa, acabaram assumindo o significado de umas estranhas férias. “Os meses transcorridos, embora duros, de vagabundagem às margens da civilização, pareciam agora uma trégua, um dom providencial, embora irrepetível, do destino”, observa Levi.

Talvez a idéia da trégua seja uma ilustração possível para o que podemos esperar das sempre merecidas férias: ficar em um lugar onde sejamos ninguém, onde nossa presença não faça sentido algum e o rumo que tomamos não tenha objetivos pragmáticos. Partir do que nos assombra a alma rumo a algo que representa, mais que prazer e felicidade, uma trégua, um lugar e um momento para não ser. Levi, cujas narrativas jamais eram trágicas ou de autocomiseração, carregava um pesadelo que jamais o abandonaria, não podia almejar mais do que alguma trégua. Quanto a nós, que não tivemos essa vivência extrema, também precisamos algum descanso do nosso cotidiano opressivo, no qual, de um jeito ou outro, sempre nos afogamos. Boas férias, ou melhor, boa trégua!