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Posts de março 2011

Avulsos

30 de março de 2011 0

Há ocasiões em que algo que os pacientes dizem interpela seu analista. Uma paciente contava uma história recorrente na vida de muitos: ela é solteira e falava de uma reunião familiar, na qual tentava sem sucesso encontrar lugar na conversa de seus pais e irmãos, cunhados e sobrinhos, todos legitimados pela condição de casal e entrosados na empreitada da reprodução. Embora não tenha constituído família, já havia comparecido acompanhada a esses eventos e sentia-se melhor, pelo menos não parecia ser uma extraterrestre. De repente ela repetiu uma frase minha, pinçada de uma entrevista, da qual eu não lembrava: “a sociedade trata muito mal os avulsos”. O que eu hipoteticamente já sabia, soou como se fosse a primeira vez.

A frase ressoava, desejosa de associações e de uma interpretação. Precisei entendê-la melhor para descobrir por que aqueles que não se apresentam pareados ou com seus descendentes pagam o preço da hostilidade ou da indiferença. Não só solteiros padecem, também viúvos e separados vivem essa sensação de que estão vivendo algo errado. A interpretação que me ocorreu foi a seguinte: identifiquei-me com a queixa da minha paciente porque, quando criança, nos anos anteriores ao segundo casamento, minha mãe também era avulsa. Vivemos ambas, ela viúva e eu órfã, essa condição de deslocadas. Fazia-me inveja a aparência superior das famílias completas, nós éramos tortas.

A família ainda guarda algum prestígio em nossos tempos incrédulos e sem esperança, impõe sua estrutura nuclear – casal com filhos – enquanto cânone, lugar certo para a transmissão de valores e construção da personalidade. Só isso já seria fonte provável de tal mal-estar, vivido pela paciente e na minha infância. Mas há um detalhe a mais: ela é gay e quando comparecia com uma companheira às reuniões todos lhe eram gentis, por mais reacionários que fossem. Então não se trata só de tradição, família e propriedade.

O que mexe com os pareados é uma inveja do avulso, sua possibilidade de estar só, livre para dispor do seu tempo, para escolher caminhos sem consultar ninguém. A solidão pode ser dolorida, mas aos avulsos raramente faltam amigos com quem dividir prazeres e dores, além de amores, que podem até não durar, mas emocionam. Fazer escolhas é perder as outras vidas possíveis e lembrar disso abala estruturas. Os avulsos representam liberdade perdida, vínculos desfeitos, morte, a labilidade do amor. Sua presença desperta desejos e fobias, por isso a sociedade os constrange. Toda diferença questiona.


Amadores do Sexo

30 de março de 2011 0


Perdoem-me o trocadilho infame, mas em poucas áreas somos mais amadores do que no sexo. Por isso, as palavras de uma expert, impactam. Raquel Pacheco, retratada no filme Bruna surfistinha, assistido por mais de dois milhões de espectadores, foi uma garota de programa. Sua história, narrada originalmente no livro O doce veneno do escorpião, serviu como elo entre os profissionais do sexo e a vasta legião de adultos, praticantes amadores. Moça de classe média, filha adotiva, acabou rompendo com a família para abrigar-se na identidade de prostituta. Os instrumentos de sua educação revelaram-se na escrita, num blog, batizado com seu nome de guerra, onde contava em detalhes seu cotidiano, incluindo sua avaliação sobre o desempenho dos clientes. Como profissional Bruna era apenas mais uma, foi ao escrever sobre o que todos desejam saber, que Raquel encontrou a celebridade.

Frente ao sexo nos sentimos da mesma forma do que em relação aos computadores: neles sempre há muito mais funções e possibilidades que não sabemos explorar. Mesmo aos mais ousados resta a idéia de estar sub-utilizando sua “máquina” e hoje não perdoamos à vida que não entregue todo o gozo que nos devia. Não faltam sexólogos para instruir sobre os caminhos que o prazer poderia trilhar e as palavras destes sempre encontram bom público, tanto maior quanto for a sinceridade dos autores. É justamente no item da sinceridade que Bruna derrota seus concorrentes teóricos, pois suas experiências são reais.

Gostamos de acreditar que as prostitutas não são de fato mercenárias, porque nos identificamos com elas. Afinal, todos julgam ser como elas: um de dia e outro de noite. O gozo fingido que elas praticam também não nos é estranho, se insinua nas ocasiões em que, no casal, um se consagra ao prazer do outro, numa cena que bajula seu desempenho ou dotes. Além disso, detestamos pensar que a relação sexual possa ser apenas um trabalho, uma tarefa, e não a expressão máxima do que se é, a verdade última do amor e do valor de cada um. Prima donna do nosso imaginário, a prostituta tem por clientela todos os que fantasiam com ela e através dela. Ela encarna a inflação de sentidos que em vão esperamos do sexo.

O texto de Raquel não tem excelência literária, mas estende uma ponte entre a mulher comum e a prostituta. Em suas palavras: “As mulheres tem de ser damas para a sociedade e putas na cama, sempre disse isso. Mas também sempre digo que temos que ser putas mulheres e mulheres putas. Muitas mulheres perdem seus homens não porque não os satisfazem sexualmente, mas porque não são ‘putas mulheres’”. Se multidões se interessaram pela sua história e pelo seu texto é graças ao prestígio que o gozo sexual tem entre nossos valores. Tentamos aprender com sua experiência, afinal, quem não gostaria de colocar no currículo que no sexo é fluente e diplomado?


Uma nova sensibilidade se apresenta (Mário Corso)

26 de março de 2011 0

Encontraram o Pinpoo. Terminou a novela do cãozinho desaparecido. Quem minimamente acompanha notícias, em qualquer meio, acompanhou o sofrimento do seu desaparecimento por relapso duma companhia aérea. Mas quem já tem certa idade nota que algo mudou por estas paragens. Anos atrás isso seria apenas um drama infantil, nenhum adulto gastaria seu tempo com cães sumidos, e jamais um fato desses ganharia manchetes. Estaríamos todos infantilizados? A nossa geração não cresceu? Difícil dizer, mas isso é mais um dos casos para demonstrar uma sensibilidade diferente em relação aos animais.

Os defensores e amantes dos animais estão ganhando visibilidade a cada dia. Porto Alegre é uma espectadora privilegiada desse processo, a campanha pelo fim das carroças (pensando nos cavalos), o estudante que se negou a aprender com vivisseção, recentemente o mini-zoológico da Redenção foi fechado para não estressar os animais e, como em outros lugares, por aqui existem muitos ativistas que pedem o fim de experiências com animais, e ainda os vegetarianos sempre denunciando a indústria da carne com seus inevitáveis maus tratos. Por outro lado, os animais amados, os domésticos, estão ainda mais amados, e sempre numa suspeita, para quem assiste a cena de fora, de um exagero na consideração que recebem. De qualquer forma, não é difícil perceber que uma nova sensibilidade para com a vida animal vem mostrando seu rosto. Embora essa tendência esteja em crescimento, os militantes da causa animal ainda são poucos, mas por sorte são bem barulhentos. Digo sorte porque nos põe a pensar, subvertem as certezas e isso sempre é bom.

Essa visão generosa para com os animais não é exatamente uma novidade, os Jainistas já defendem essas idéias há séculos. Essa antiga religião indiana, pelo menos desde 600 a.C., aparentada ao hinduísmo, mas que rejeita as castas e especialmente os sacrifícios, crê que toda forma de vida é sagrada (vegetais idem). Obviamente são vegetarianos, mas alimentam-se de frutos já caídos. Filtram a água para não beber algo vivo, usam um pano na boca para não engolir involuntariamente um inseto e, pela mesma razão, espanam previamente qualquer lugar onde sentam, para assegurar-se não destruir nenhuma pequena forma de vida.

Mas nem precisaríamos ir tão longe, a idéia dos nossos índios sobre a vida animal vira nossa lógica de ponta cabeça. Para eles no começo só existia a humanidade e por escolhas e descaminhos, os animais tomaram outro rumo, decaíram, mas eles seguem “humanos” de certa forma, são nossos parentes distantes. Enquanto no raciocínio ocidental nós viemos dos animais e evoluímos, para eles os animais vieram de nós. Por isso que os casamentos com animais nas mitologias indígenas não nos fazem sentido, mas para eles sim, pois seria outro povo, não outra espécie.

Essa tendência gerou um novo termo: “especismo”, para designar aqueles que tratam os animais como objetos. Especista seria quem se julga pertencer a uma espécie superior (no caso nós os humanos) e por isso se arvoraria o direito de dominar as outras espécies. Para seguir matando, criando animais para abate ou deleite (não esqueçam os caçadores, as touradas, as rinhas…), ou ainda usando-os como cobaias, não seria possível sem essa dita arrogância especista. Esse novo termo vem acompanhado de um raciocínio onde se diz que o especismo estaria, para nós e os animais, assim como o racismo está para as raças humanas (para quem acredita que elas existam, pois biologicamente elas não fazem sentido) e o sexismo para a dominação de gênero. Ou seja, eles buscam uma filiação que os vincularia ao lado, e de uma certa forma como um aprofundamento ético, dos que lutam contra o racismo e o sexismo.

Creio que esse paralelo é abusivo, pois não penso que exista simetria entre racismo e sexismo e o especismo. No racismo e no sexismo temos algo que é em princípio igual – o valor ou capacidade das ditas diversas raças para algumas aptidões, e o mesmo para o gênero – e que são tratados como diferentes por motivos de dominação. Ou seja, nesses casos criou-se uma ideologia da dominação que funda uma diferença onde ela na origem não existe. Já no caso do especismo, trata-se de algo distinto, (e até de certa forma ao avesso), ou seja, nós e os animais não somos iguais, e os militantes da causa animal acreditam que devemos assim tratá-los. Ou seja, na denúncia do especismo, temos a determinação de uma vontade, que quer que tratemos os diferentes na origem como iguais em direitos.

E a questão tem mais uma volta, o racismo e o sexismo estão em declínio não por boa vontade e entendimento mais profundo dessa questão, mas por um jogo de forças sociais, onde as mulheres e os prejudicados lutaram, sofreram e não poucos morreram para chegar onde estamos. Por outro lado, se conseguirmos uma igualdade de estatutos de direitos com os animais, nós vamos ter que lutar por eles, pois eles não têm uma causa, a menos que seguir vivo seja uma. Ou seja, seria o estabelecimento de uma igualdade “tutorada” pelos que acreditam que isso assim deva ser. É bom lembrar que não existe um direito natural, os direitos são duramente conquistados no eterno jogo de poder e não generosamente outorgados e reconhecidos.

É auto evidente que somos diferentes dos animais, o que sim podemos dizer é que nós e eles teríamos os mesmos direitos de seguir nossa vida sem nos atrapalharmos mutuamente. Penso que em relação aos animais deveríamos é ter deveres e não atribuir-lhes direitos. De qualquer forma, escuto as reivindicações desses defensores num outro tom, no qual uma frase de Kundera é especialmente preciosa: “A verdadeira bondade do homem só pode se manifestar em toda sua pureza e em toda liberdade em relação àqueles que não tem nenhuma força. O verdadeiro teste moral da humanidade (o mais radical, que se situa em um nível tão profundo que fica fora do alcance do nosso olhar) são suas relações com aqueles que estão a sua mercê: os animais. E é aí que se deu a maior derrota do homem, fracasso fundamental de onde todos outros derivam”. Aliás, essa é a posição de Bauman também, embora ele fique no âmbito dos homens, ele que diz que a sua maneira de medir a humanidade de uma civilização é como ela trata os menos favorecidos, os fracos e desvalidos. O espírito é o mesmo, você só seria moralmente elevado se não se aproveitar da impotência alheia.

Mas o que sempre me pergunto frente a esses movimentos, aos quais geralmente, mas com reservas, tenho simpatias, é se estamos diante de um avanço da sensibilidade humana ou um de retrocesso? Em outras palavras: isso seria uma forma mais ampla de um humanismo revigorado? Ou estaríamos, apesar das boas intenções, frente a um sintoma de desencanto com a humanidade? Ou seja, buscamos na natureza, mais especificamente nos animais, uma causa, um equilíbrio e um valor, porque as bandeiras de sempre andam desbotadas? É fato que as tradicionais causas já não empolgam tanto nem tantos, de fato existe um cansaço delas. Paira a idéia de que a humanidade é uma paixão fútil e existe uma desesperança no humano e nas suas instituições e as religiões idem. Onde então buscar uma nova causa que oriente a aspiração ética que trazemos? É isso que mobilizaria essa nova sensibilidade para com os animais?

Não acredito que vivemos um retorno ao modo romântico de amor à natureza, e seus velhos paradigmas, pensamento que atribui nosso desequilíbrio a um afastamento dela. O certo é que a distância nos permite idealizá-la. Uma das questões que é facilmente esquecida é que a natureza é um eterno entredevorar-se, os vivos alimentam-se dos mortos. Em todos os níveis. Para Joseph Campbell uma das nossas contradições, da qual não conseguimos uma síntese, é que as criaturas vivas sempre se alimentam de outro ser vivo. O mundo biológico é um eterno entredevorar-se. Nas suas palavras: “Pois bem, um dos grandes problemas da mitologia é conciliar a mente com essa pré-condição brutal de toda a vida, que sobrevive matando e comendo vidas. Você não consegue se ludibriar comendo apenas vegetais, tampouco, pois eles também são seres vivos. A essência da vida, pois, é esse comer-se a si mesma! A vida vive de vidas”. Ora, esse movimento é o recalque disso, da nossa condição animal e da brutalidade da selva que, queiramos ou não vivemos, não um retorno a ela. Eles querem é humanizar a natureza.

Talvez a melhor resposta seja a mais simples. De fato estamos todos infantilizados. Mas não de qualquer forma, isso decorre duma tentativa de simplificação do mundo, queremos um cosmo unívoco, um mundo básico, do certo e do errado, do bandido e do mocinho, e isso os humanos com sua labilidade e complexidade não podem nos dar. Creio que esse movimento usa sem saber a seguinte máxima de Mark Twain: “recolha um cão de rua, dê-lhe de comer e ele não morderá: eis a diferença fundamental entre o cão e o homem.” Nossos amigos sabem que correm o risco de ser mordidos se escolherem os humanos e se refugiam no amor fácil dos animais.

Os animais nos mergulham num mundo sem mal entendidos, cuidar e ser amado. Você dá e você recebe. Eles nos refrescam a memória dos cuidados maternos. Viemos ao mundo banhados no amor da mãe, ou ele existe ou não nos constituímos. Um amor que não pede nada (na verdade não é nada assim, mas é assim que gostamos de pensá-lo). Exercemos com os animais uma maternidade que parece estar no horizonte das conquistas possíveis. E pior, colocamos essa forma de amar e se relacionar como paradigmática das relações humanas. Enxergamos nos animais a fresta do nosso desamparo. Deletamos cognitivamento o fato que o homem morde a mão que o alimenta, que muitas vezes é ingrato. Reduzimos o mundo às vicissitudes desse amor unívoco. E como recompensa, passamos por boas almas, os malvados são os outros, nós amaríamos os mais fracos. Quando na verdade é certa fraqueza nossa que orienta as nossas escolhas para o mais fácil. Evitamos a humanidade e sua inevitável complexidade para desembocarmos numa miragem de natureza idealizada. Melhor para os pets, pior para nós.

Escrevo com os pés aquecidos no meu velho bulldog desenganado por tantos veterinários. Vive de teimoso. Minha filha longe pede que eu cuide para que ele não morra antes dela voltar, a menor não concilia o sono sem sua presença. Eu cuido dele por elas e por mim. Embora ele seja um pouco mentiroso, é um bom papo e sei que posso contar com ele para tudo.

Mulheres indomadas

25 de março de 2011 0


Ao chegar em casa Marge encontra seus detestáveis sobrinhos, a quem chama de monstros sem pescoço, que a recebem com uma salva de sorvetes. É com prazer que ela revida, com grossa camada de sorvete esfregada no rosto da criancinha malcriada, para horror da cunhada, grávida do sexto filho. Ela entra ao encontro de seu marido, que não se alegra com sua presença, não quer mais do que o copo de uísque, sua companhia predileta. Ela ainda tenta fazer-se notar, tagarela enquanto limpa as belas pernas que as crianças haviam sujado, depois sobre elas coloca delicadas meias de seda, a câmera sobe por elas junto com nosso olhar. Nós, do público, não ignoramos seus atrativos: é Elisabeth Taylor, no auge da sua beleza, que encarna a apaixonada e rejeitada protagonista de “Gata em teto de zinco quente”. Trata-se de uma mulher cuja beleza não consegue retirar o homem amado da melancolia, sua dedicação não se sobrepõe ao efeito do álcool, que o anestesia da dor e da covardia de viver.

O filme é de 1958, baseado numa peça de Tenessee Williams, que aliás detestou a versão. Corriam os anos do pós guerra, nos quais as mulheres, em sua maioria ainda esposas e mães, não conseguiam voltar às trincheiras do lar, mesmo que quisessem. Sequer a possibilidade de encarnar a mulher objeto, aquela para quem as belas pernas bastariam para triunfar, foi de bom proveito para essa geração. Trata-se das infelizes donas de casa retratadas por Betty Friedan. Suas filhas herdaram-lhes a insatisfação, mas foram à luta, participando da revolução dos costumes da década que principiava.

As mulheres de Elisabeth Taylor, suas personagens mais marcantes, eram esposas, mas estavam mais para megeras do que para domadas. A verve dessas mulheres de visão sagaz e frases impactantes as diferenciou das suas mães e avós, que se contentaram em oferecer ao mundo sua beleza e dedicação à família. Nas falas dessas personagens, seus maridos são desmascarados: o patriarcado vai sendo deposto pelas personalidades fortes delas. Ora os denunciam, ora os fortalecem, ora com eles disputam território, a trama varia, mas o protagonismo feminino explode, mesmo que ainda preso aos estreitos limites do lar. O homem frágil de Marge encontra a oportunidade de reatar com seu pai à beira da morte graças à persistência dela em recupera-lo para si e para a vida. Para isso de nada serviram suas pernas. Longe dos papéis tradicionais essa mulher conquista a admiração do patriarca: o sogro moribundo tem sua eleita na jovem, que não lhe dera netos, nem conseguira trazer prosperidade ao marido bêbado.

A gata em teto de zinco quente é aquela que não se acomoda, não adormece, não pára, suas patas queimam e doem. Elisabeth Taylor deu corpo e alma às mulheres afastadas do refúgio da mesmice. Idômitas, língua afiada, perspicazes, elas nunca mais foram objeto decorativo, mesmo que tivessem olhos violetas. Liz, obrigado e adeus.

Casamentos inesperados

16 de março de 2011 0


Os amigos atônitos queriam saber se estávamos casando para usufruir de algum benefício legal, algum convênio. Não era o caso. Tampouco fomos pressionados por exigências familiares. Era teimosia, queríamos ter a condição de casal perante a lei e a nós mesmos e tínhamos pressa. Já fazia algum tempo que havíamos juntado os trapos (naquela época isso era meio literal), mas o casamento era a autorização para sonhar a longo prazo, uma forma de afastar o fantasma da dissolubilidade iminente do vínculo amoroso. Já havíamos passado por uma separação, aprendido o necessário, sofrido nosso quinhão e bastava. Casar é um ato de rebeldia contra a fragilidade das relações, uma negação.

Os companheiros do movimento estudantil concluíram que havíamos entrado para o campo da burguesia, a família aceitou sem entusiasmo. Casamos num cartório feioso, os amigos reunidos num churrasco se cotizaram para comprar uma luminária, de papelão e pano. As tias, às quais brincando eu exigi que trajassem longo, se vestiram de prenda e terminamos cantando tango, muito bêbados. Mais de um quarto de século depois, acho que deu certo, até agora pelo menos.

Neste fim de semana fui ao lindo casamento de duas amigas, elas também viviam juntas há um tempo, mas desejaram formalizar. Na ocasião, com o casal de amigos que partilhava a mesa conosco, fizemos planos para o casamento deles, para ele, o terceiro, um filho de cada relação anterior. Se é certo que os casais gays se amam e unem contra tudo e todos, os casamentos após separações também encontram narizes torcidos. Ambos são uniões fora dos padrões clássicos, graças a isso já nascem ao abrigo do ideal de perfeição, cada dia juntos é uma conquista, uma birra, não uma convenção.

Mas então para que casar? Minha geração apostava no fim dessa formalidade, que hoje se revela viçosa como nunca. A razão é que assim como precisamos do olhar dos outros para saber que existimos, os amores também precisam circular socialmente para consolidar-se. Não somente nossa auto-imagem é mais “exo” do que “endo”, nossos vínculos também são. Amores precisam da benção, não de um padre, mas de todos os outros: pais, filhos, amigos e parentes, com quem também temos relações amorosas. Casar é escolher-se um ao outro, colocando-se esta relação acima de outros vínculos. É uma traição à família e aos amigos, por isso é preciso que eles celebrem e aprovem. Eu aposto nessas relações que nascem no contrafluxo: praticam a tolerância mútua na cotidiana adaptação ao que nunca está onde deveria. Devíamos todos aprender com elas.



Histórias de amor impossível para fantasiar

02 de março de 2011 1

Na chamada de capa de uma revista feminina anunciam-se: “histórias de paixão proibida para ler e fantasiar”. Decepção, os casos contados são menos empolgantes do que o título promete. Mas é uma publicação bem comportada, não deveria esperar fantasias lúbricas. Um padre que largou a batina, um patrão solteirão, um primo mais jovem, todos terminando em casamento e era isso. Quando desmascarada, uma história sempre perde o encanto, por isso jamais saberemos se Capitu traiu, essa é a magia de Machado.

Mas porque a revista não disse: histórias para ler e vivenciar? A resposta está no caráter das fantasias, sejam de amor, vitória ou vingança: são mais para ser imaginadas do que realizadas. Acrescenta-se a isso o fato de o amor ser muito mais romântico e o sexo mais perfeito na fantasia do que na prática. Na vida real toda história de amor se assemelha ao trabalho: ela é feita de persistência, tolerância, diplomacia e dedicação mútua. O ser amado tem ritmos próprios para comer, dormir, gosta de fazer amor de certa forma, você imaginou outra coisa, ou isso mesmo com uma coloração distinta. Um dos dois vai ter que se adaptar, ou, provavelmente, ambos.

Já na fantasia, essa que nutrimos para uso privado, em devaneios e sonhos, somos os diretores da cena e os produtores trabalham febrilmente para criar o ambiente que nos convém. Os atores servis desempenham o papel com rigor e nem é preciso editar, a cadência dos acontecimentos já nasce perfeita. A fantasia é o que o cinema gostaria de ser quando crescer.

Num filme agora clássico, “As pontes de Madison” (Clint Eastwood, 1995), a protagonista é uma italiana, mulher de meia idade, que encontrou um amor tranqüilo com um homem do interior dos Estados Unidos, onde ela construiu uma vida convencional. Num intervalo de quatro dias, nos quais sua família se ausentou, uma paixão proibida arromba sua vida sob a forma de um charmoso fotógrafo cosmopolita, de passagem pelo vilarejo. Ela fez suas escolhas, ponderando que o amor que tinha pelo marido se interrompido se destruiria, enquanto que o que nutria pelo amante se vivido sucumbiria. O charme dessa história de paixão madura está em que até o fim da vida esses amantes dedicaram o melhor de seus pensamentos a esse encontro perfeito e fugaz. A fantasia é acompanhada uma superioridade técnica que a realidade jamais poderá equiparar. Se vivemos para uma, perderemos a outra, ou teremos o corpo numa enquanto a cabeça devaneia em outra. São escolhas. Sempre.