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Posts de abril 2011

Lacan, que hoje faria 110 anos

13 de abril de 2011 0


Lacan nasceu com o século passado (13 de abril de1901, viveu até 9 de setembro de 1981) e viveu as contradições desse atribulado período. Originário de uma tradicional família católica, formou-se em medicina. Depois se encaminhou para a psiquiatria e do encontro com essa, passando pelo surrealismo, chegou na psicanálise, que nunca mais foi a mesma.

Podemos dizer que como a histeria estava para Freud, a paranóia esteve para Lacan. Sua tese de doutorado foi baseada no caso de uma paciente que tentara assassinar uma atriz (caso Aimée). Tocado pelo tema da loucura, na época ainda buscou explicações para um crime que mobilizou a França: as irmãs Papin, duas criadas, mulheres aparentemente pacatas, que assassinam e desfiguraram suas patroas.

Seu texto sobre o “Estádio do espelho”, onde examina com mais atenção a contribuição do olhar do outro para a formação do eu, foi fundador de suas próprias teorias. Esse mesmo eu é, para Lacan, uma espécie de ficção, eixo de ilusão do que acreditamos ser, portanto peça chave do nosso narcisismo e centro da nossa alienação.

Porém, seu lado mais polêmico incluía uma crítica às instituições psicanalíticas, herdeiras da tradição freudiana. Ele julgava que importantes aspectos teóricos estavam sendo esquecidos, especialmente que a psicanálise era a cura pela palavra. Seu estilo provocador e irreverente, aliado a algumas maneiras não ortodoxas de atender os pacientes, especialmente na questão do tempo da sessão, lhe valeram a expulsão da Sociedade Psicanalítica de Paris, ligada a IPA. Não lhe restou outro caminho do que, com alguns alunos (como Françoise Dolto, Serge Leclaire, Maud e Octave Mannoni, François Perrier e Mostapha Safouan entre outros) fundar outro centro de referência, a Escola Freudiana de Paris. Essa questão não é mero folclore de uma personalidade rebelde. O que Lacan sempre quis nos transmitir era que a psicanálise para operar necessita de certa ruptura com o estabelecido, e as sessões de mesma duração poderiam acomodar o discurso. Os vários relatos dos seus inúmeros analisandos nos mostram sempre o desconcerto a que ele os submetia, contribuindo para que eles se reposicionassem frente ao que diziam. Arriscado, mas Lacan nunca fazia as escolhas fáceis.

Seu estilo de ensino tomava o mesmo caminho. Adorava frases bombásticas como: “a relação sexual não existe”. Só queria chamar a atenção para algo bem simples, que teimamos em esquecer: não nos relacionamos sexualmente com o outro; de fato estamos em presença do outro, mas cada um traz sua fantasia sexual para a cena. Quando as fantasias se alinham temos a ilusão dessa relação, mas de fato é um jogo ao mesmo tempo solitário e compartilhado. Por isso há tantos desentendimentos em relação à sexualidade.

A psicanálise nunca está pronta, por isso coube a Lacan dialogar com o saber do seu tempo, como Freud havia feito. As pessoas mudam, a família não é a mesma e, portanto, as formas de organização e sofrimento tampouco. Como Lacan acreditava que o inconsciente está estruturado como uma linguagem, os seus principais interlocutores teriam que ser os lingüistas da época, no caso, Saussure, Jacobson e Benveniste. Sua obra também foi bastante marcada pelo estruturalismo de Lévi-Strauss, com o qual insistiu na importância do registro do simbólico como determinante da nossa condição.

Fora da psicanálise Lacan foi um crítico duro do século XX, considerava, por exemplo, a ciência uma ideologia da supressão do sujeito. Não desprezava seus avanços práticos, mas apontava para ciladas, particularmente quando usada nas ciências humanas. Para ele, a neutralidade é impossível, acedemos ao objeto de um estudo permeados por nossos desejos e fantasmas, nossa subjetividade está sempre em jogo. Fica difícil, assim, assumir uma posição neutra frente aos problemas. Aliás a neutralidade foi uma atitude inexistente para esse homem, que imprimiu seu estilo irriquieto, personalista e criativo por onde passou. A melhor forma de homenageá-lo é herdar sua inquietude.

Memória da destruição

13 de abril de 2011 0



Depois de muito expor, o artista plástico Franz Krajcberg se exilou num sítio, em meio às árvores que cultivou e que são hoje tão velhas quanto ele, que completou 90 anos dia 12 de abril. Ele é dono de um trabalho ímpar: esculturas compostas de troncos, ramos e raízes recolhidos em queimadas ou zonas de desmatamento, que ganham vida, mas trazem cicatrizes do encontro com a onipotência dos homens (ver em: http://www.krajcberg.vertical.fr/). O homem não desistiu, aprofundou-se, foi escolhendo caminhos que o embrenhavam no interior da sua floresta particular. Deixou de fabricar Pinóquios, pedaços de pau que na sua mudez falam e reivindicam como o marionete de Collodi. Agora é ele que se lignifica lentamente, não vai morrer, vai virar árvore.

De origem judaico-polonesa, sobreviveu a vários momentos trágicos da Europa, lutou e viu seu mundo e família serem assassinados, queimados, ruírem. Saído da guerra, refugiou-se neste país tropical que somos. Muitos vieram apostando que a exuberância destas terras renderia eterna fartura aos que nelas se exilassem. Cantaram as matas verdejantes, seus frutos e gente morena, deitaram-se em redes, esquecidos do seu velho mundo hostil. Fazem isso desde que o Brasil foi descoberto. Krajcberg não aportou no Brasil para entrar em algum tipo de fantasia idílica, suas retinas continuaram constatando a destruição, mesmo quando ela ainda não era visível. Era inegável que a natureza estava queimando como as cidades que viu arderem na guerra, que a vida das florestas fenecia, como os corpos magros dos famintos, prisioneiros das misérias bélicas que testemunhara. Fugiu de um genocídio para esbarrar num massacre vegetal. Sua obra é por ele intitulada de “memória da destruição”.

Experiências traumáticas esterilizam o discurso, as guerras deixaram gerações de silenciosos, quem viveu o horror sente que contar é reviver, envergonha-se de sobreviver, seu passado é inefável, não espera ser compreendido. Poucos conseguiram tomar a palavra, mas ele o fez esculpindo com as raízes retorcidas de uma natureza que descobriu estar sendo também bombardeada. Para Krajcberg uma destruição é sempre metafórica de outra. Agora, somente fotografa. Como se estivesse coletando e preservando imagens de plantas: espécimes para uma Arca de Noé imaginária. Seus olhos substituem as imagens do que não gostaria de ter visto por outras, maravilhas vegetais que não quer que desapareçam. Fotografando envia-as para uma posteridade à qual não tem muita esperança de que chegarão. A destruição é inesquecível. Sua arte um modo de sobreviver.




Especialista acredita que bullying não é causa do massacre em escola do Rio Para o psicanalista Mario Corso, como a maioria das vítimas foram meninas, a intenção do criminoso não era atacar os valentões

09 de abril de 2011 0


Bruna Menegueço



 Shutterstock

Autor do massacre na escola Tasso da Silveira, que terminou com a morte de 12 adolescentes, no Rio de Janeiro, na quinta-feira (7), teria sofrido bullying (atos de violência física ou psíquica), segundo colegas. Wellington Menezes de Oliveira, de 23 anos, que cometeu o suicídio depois de trocar tiros com a polícia, sofria calado com as provocações dos colegas. Mas para Mario Corso, psicanalista, membro da APPOA (Associação Psicanalítica de Porto Alegre) e autor dos livros Fadas no Divã: psicanálise nas histórias infantis, em 2005, e Psicanálise na Terra do Nunca: ensaios sobre a fantasia, em 2010 (ambos pela Ed. Artmed), escritos em parceria com sua esposa Diana Corso, essa teoria não tem fundamento. Segundo o especialista, como a maioria das vítimas foram meninas, a intenção do criminoso não era atacar os valentões. Ele explica mais na entrevista a seguir.

CRESCER: Especula-se que Wellington tenha sido vítima de bullying naquele local por isso voltar para a escola para vingar-se? O que o senhor pensa disso?
MÁRIO CORSO: Para mim, isso é uma tese furada. As coisas nos levam a pensar por outro lado. Se ele sofresse bullying, por que iria matar meninas, e não os “valentões”? Na minha opinião, o assassinato de mulheres é uma afirmação viril. Pensando no simbolismo de Simone de Beauvoir, em seu livro O Segundo Sexo, a mulher está ligada ao nascimento porque dá à luz e o homem, como guerreiro, à morte. Wellington quis morrer como homem e encontrou o jeito mais absurdo de “penetrar” essas meninas.

C: A escola poderia ter evitado essa tragédia de alguma forma?
M.C.: Não, de jeito nenhum. Esses ataques psicóticos são casos isolados e o principal problema aqui no Brasil é o acesso fácil às armas. Em uma sociedade desarmada, ele provavelmente teria feito menos estrago, se estivesse usando apenas um canivete, por exemplo.

C: O que os pais têm de fazer se o filho for vítima ou autor de bullying?
M.C.:
Os pais não devem correr atrás de uma coisa que já aconteceu, eles devem estar conectados com seu filho sempre. Cumplicidade com uma criança não se constrói aos 10 ou aos 15 anos, se constrói desde o nascimento ao descer para chutar bola com o filho no prédio. São pequenas atitudes de confiança. Um pouco de sofrimento é inevitável para o crescimento, mas a criança que sofre bullying demonstra sinais. Ela emudece, muda os hábitos, o jeito de se vestir…

C: Existe uma polêmica sobre a obrigatoriedade de um psicólogo dentro de uma escola. O que você pensa sobre isso?
M.C.: Eu acho uma ótima ideia. Se tem alguém ali na escola circulando com o olhar mais atento vai detectar alguns casos como esse. Não todos, mas vai minimizar. Se existir uma política de buscar esses movimentos, detectar e cuidar, eles vão diminuir. Aliás, quanto mais adultos responsáveis dentro da escola, melhor.

C: Se fosse em uma escola particular, teria sido diferente?
M.C.:
Não, também é possível entrar em uma escola particular. Fazer ou sofrer bullying não tem classe social.