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Posts de julho 2011

Bisavó precoce

10 de julho de 2011 0

De olho no retrovisor, o motorista de táxi observou: a senhora tem netos, né? Eu ainda nem tinha os complicados 50 que recém me atingiram, mas fiquei mordida igual: – bisnetos, respondi. Ao longo da última década, desde que deixei de ocultar os cabelos brancos, tenho enfrentado vários desses episódios, até mesmo oferta de senha especial no banco. Não é fácil, mesmo que ache que não pareço uma idosa, não há argumento que torne leve o inevitável resultado do rápido duelo de olhares: nele o outro sempre associa o cabelo grisalho à velhice.

Tive duas avós, uma ficou totalmente branca aos quarenta e outra morreu aos oitenta com uma natural cabeleira castanha, adivinhe qual herança me tocou? Meus cabelos desistiram da sua natural cor de rato aos trinta. Exausta da luta, depois de ter passado por toda a gama de ofertas dos institutos de beleza e das farmácias, descobri que as mechas grisalhas misturadas ao cabelo marrom restante eram o tom mais bonito que eu já tivera na vida. Naquela época, encontrar um cabeleireiro que topasse a parada era quase impossível, mas adoro ser contra a corrente e o desafio me instigava. Não se engane: o cabelo grisalho não libera a visita rotineira ao salão, mesmo porque ele é rebelde, está sempre arrepiado e carece de atenção para parecer sedoso. Parei foi de fingir. Sei que é bobagem, mas tenho certa dificuldade com próteses, máscaras, lembro que até as ombreiras quando estavam na moda me constrangiam, parece roubar no jogo, doping. A maquiagem não me envergonha, pois ela é explícita, não esconde sua presença.

Não é preciso alongar-se muito sobre o que estamos cansados de saber: a velhice é um espantalho contemporâneo e ninguém quer enxergar tais traços em si mesmo. Mais do que uma questão de estética, é do pânico da finitude que se trata. Um idoso é alguém que tem mais vida para trás do que pela frente, mas somos gulosos, da nossa existência queremos um crédito infinito, o consolo de que se pode recomeçar a cada instante, que nada acabe. Ignoramos que a trajetória de uma vida se faz de sucessivas mortes do que já fomos. Mesmo a velhice obriga à constante reinvenção, pois as inevitáveis limitações precisam ser contornadas com a descoberta de novos prazeres, o da tranqüilidade, por exemplo.

Confundimos potencial com potência, ter muita vida pela frente significa mais tempo para tornar-nos mais próximos da perfeição. Mas jamais voltaria, pois amadurecer dá muito trabalho e nem pensar em reencontrar com todas as incertezas e os medos do passado. Cada fio grisalho que nasce é troféu de uma batalha vencida e há uma humildade que só o tempo ensina, na marra. Por isso, senhor taxista, ainda não tenho bisnetos, mas nem por isso devo mascarar o quanto já vivi. Já foi difícil chegar até aqui e não vou recuar.


Ufanismo Hétero

06 de julho de 2011 0

Nunca tinha me ocorrido que deveria ficar orgulhosa de ser heterossexual. Seria motivo de orgulho se fizesse algo que exigisse empenho, superação, conquista, ou mesmo por ser ou fazer algo que enfrentasse forte desvalorização, a modo de confronto.   Sem dúvida os gays têm do que se orgulhar, porque a saída do armário pressupõe uma coragem de soldado espartano. Experimente dar a cara para bater cotidianamente, suportar os maus tratos e a maledicência, quando não a condescendência! Sem dúvida é uma valentia que pareceria desnecessária aos heterossexuais.

Quando se é adolescente, apesar do corpo estar em seu momento mais viçoso, quase todos se sentem estranhos, fora de prumo, deformados, indesejáveis. Imagine, então, quando nesse momento de descobrir a própria sexualidade você deseja algo considerado “errado”. Sem uma imensa força de vontade não se inicia essa caminhada de encontro aos amores que fazem devanear, que dão tontura e arrepios, os quais, querendo ou não, para muitos envolvem pessoas do mesmo sexo.

Por isso, é extraordinário que gays existam e tenham encontrado o empenho necessário para amar-se e legitimar isso socialmente. Sua aceitação é fruto de militância, proselitismo e ousadia. Declarar o orgulho de algo tão condenado é a afirmação necessária para enfrentar o efeito negativo da condenação. Mas tanta hostilidade seria incompreensível se não percebêssemos que tornar-se heterossexual é uma condição tão frágil. Cada dia mais, visto que as identidades sexuais se viram esvaziadas de seus clichês, o homem poderoso e sua mulher submissa.

O projeto do parlamentar evangélico Carlos Apolinário (DEM), propondo o “dia do orgulho heterossexual” para as vésperas do Natal é prova da incerteza de que esse desejo seja um caminho direto e natural. Admitir que é preciso orgulhar-se disso, parte do pressuposto de que para amar alguém de outro sexo também é preciso vencer muitas barreiras. Para chegar a ser heterossexual será necessário manter no armário o caráter erótico de vários vínculos com pessoas do mesmo sexo: as amizades, que são amores que não vão para a cama, os desejos inadmissíveis entre a menina e sua mãe e menino e seu pai. Há muito mais confusão e incerteza no caminho que levará alguém a ser hétero do que a bancada evangélica poderia jamais admitir. Quem sabe, de forma inconsciente, eles estejam pressupondo que em termos de amor e sexo não há caminho natural? Sofre-se para chegar a qualquer definição, por isso seria preciso orgulhar-se de todos os resultados. Desconfio, porém, que não seja bem isso que o Sr. Apolinário tinha em mente.