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Carta aos futuros pais

17 de agosto de 2011 0


Quando era pequena gostava de imaginar que aquele a quem um dia amaria estava em algum lugar, apenas ainda não nos conhecíamos. Havia nessa fantasia uma idéia de predestinação otimista, não queria supor acasos que me condenassem à solidão. Acreditava que o que era meu estava reservado, quando fosse a hora “ele” chegaria. Na verdade tratava-se de uma fantasia de esperança baseada na experiência: meu pai faleceu quando eu ainda era um bebê e até meus seis anos passei achando que um dia chegaria um pai, que era como um príncipe-encantado, que tanto desejava ter. Afinal ele chegou e nosso encontro deu certo. Quando partiu, bem velhinho, deixou-me a memória de uma paternidade legítima. Disse isso a ele em todos os dias dos pais que tivemos e ainda sinto falta de fazê-lo agora. Desta vez dedico a outros futuros pais meu otimismo, os votos de que outros tenham a sorte que eu e ele tivemos.

Muitos que se tornarão pais e filhos já existem em algum lugar, mas ainda não se conhecem. São crianças que perderam suas famílias, nunca tiveram uma, ou foram afastadas de maus tratos e situações de abandono. São pais que encaminharam os papéis de adoção e esperam por um encontro. Entre estes, além dos casais que enfrentam problemas de fertilidade, há ainda outras configurações familiares que incluem famílias monoparentais, casais gays, maternidades e paternidades tardias.

A função parental não é viabilizada por hormônios, nem pela capacidade da lactação ou acionada nos pais pela aparição de seus traços na criança. Sem um desejo que sustente o lugar de pai e mãe não há nada no mundo que viabilize uma família. Se um nascimento não passar de um descuido, um acaso irresponsável, um arrebato que não se sustenta, só assistiremos a desencontros e tristeza. Após a gestação e o parto sempre é necessário que pais e filhos se adotem uns aos outros. No reino da reprodução humana a natureza garante muito menos do que gostaríamos de crer.

Nossa sociedade fez da família nuclear clássica uma espécie de fetiche. Na teoria, pois na prática várias mudanças aconteceram. Testemunhamos histórias de arranjos diferentes e bem sucedidos, através das quais compreendemos a riqueza de possibilidades da relação de pais e filhos. Aliás, toda tentativa é bem vinda, pois a existência de famílias de propaganda de margarina nunca impediu que pais e filhos encontrassem destinos trágicos e infelizes.

Pelo que vivi, por tudo isso que fomos aprendendo, desejo a todos os pais e filhos que ainda não se conheceram um futuro feliz dia dos pais!


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