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Posts de agosto 2011

Deficiências e amores

31 de agosto de 2011 0


A foto do jornal era de uma passeata peculiar, comemorava a abertura da Semana de Valorização da Pessoa com Deficiência. A imagem mostrava a Miss Deficiente Visual, Gisele Hübe, empurrando a cadeira de rodas de Juliana Carvalho, uma das idealizadoras do evento. Ou estaria Juliana guiando Gisele? Seria natural que a moça cega se beneficiasse dos olhos da cadeirante, que por sua vez contasse com as pernas da primeira. Assim seriam os amores, onde um pode oferecer ao outro o complemento do que lhe falta. Mas se a deficiente visual conduzisse a cadeirante com sua capacidade de andar sem ver o caminho e fosse puxada pela mobilidade que é possível ter sem as pernas?

As pessoas com deficiência desenvolvem dons ímpares, eficiências relativas às quais os ditos normais somos também deficitários. Já pensou em andar vendado, fazer uma refeição ou vivenciar uma experiência artística sem enxergar? Deveríamos fazer isso freqüentemente para perceber como somos limitados em termos perceptivos. Da mesma forma, nos vínculos temos mais a oferecer a partir dos desafios que vencemos frente ao que nos faltou, do que das facilidades que recebemos.

As adversidades grandes ou pequenas que enfrentamos na vida nos obrigaram a inventar-nos além do óbvio, elas estão na origem do que temos de mais interessante. Ao contrário de tornar-se gigolô das próprias desgraças, arauto da superação, de viver recolhendo uma admiração dízimo da pena; trata-se de aprender a ouvir como os que não vêem, a ver como os que não ouvem. São dons criados, tão diferentes dessa fantasia de que dependemos de dádivas da natureza, ou da genética. A vontade de um cadeirante de ir a algum lugar, por exemplo, é a expressão de um desejo do qual muitos são deficientes, eis o oposto da depressão.

Entre os amantes, é comum que se tornem imprescindíveis um para o outro porque se sentem, de alguma forma, inválidos. O somos todos, em tantos sentidos. Do ser amado esperamos que ilumine nossa escuridão, nos carregue para além das nossas forças, só isso. A vida não é muito acessível mesmo, mas somando as saídas encontradas por cada um, os vínculos amorosos nos guiam e conduzem. Bem dizia minha avó: não procure alguém cujas qualidades combinam com as tuas, mas sim aquele cujos defeitos se encaixem nos teus. Acrescento, busque alguém cujas deficiências tenham se tornado soluções, seus obstáculos saídas inusitadas. Os revezes estão na origem de modos peculiares de viver, definem mais do que as capacidades. A questão não é o que o destino nos deu, mas sim o que conseguimos fazer a partir disso.

O vira

20 de agosto de 2011 0

Início dos anos 2000 minha filha caçula participava de uma gincana na escola que incluía uma dança da turma com música dos anos 70. Ela sugeriu “O Vira”, dos Secos & Molhados, que adorava. Seus colegas aderiram e criaram uma coreografia para o rock antigo. A letra fala de seres mágicos, é fácil de decorar, o ritmo lembra uma música folclórica portuguesa. O estribilho repetia: “-Vira, vira, vira homem, vira, vira. Vira, vira, lobisomem”. Nós, os adultos, ficamos entusiasmados por ver revitalizada uma música que fora significativa para nossa geração, até que um pai se desesperou. Não queria que seu filho participasse da dança que, para ele, era uma apologia aos homossexuais. Não conseguiu impugnar a música, que defendemos com unhas e dentes, mas impediu seu filho de participar da apresentação. Estaria preservada a heterossexualidade do garoto?

Havia uma lenda que o nome original do conjunto seria Secos, Frescos & Molhados e que eles teriam sido impedidos de registrar tal afronta moral, afinal, eram anos duros. De qualquer forma, voz ambígua de Ney Matogrosso não mentia: feminino e masculino não possuem fronteiras tão claras como se queria crer. A suposta contrariedade dos censores era compreensível, os músicos estavam brincando com a ambigüidade sexual. Mas no que isso influiria no destino erótico de qualquer um?

Corta para o ano 2011: uma grande iniciativa, o kit anti-homofobia – composto de material de divulgação sobre a intolerância frente às relações e comportamentos homoafetivos nas escolas – enfrenta um caloroso debate. Um dos temores dos críticos é que o material instigue os jovens a serem homossexuais. Talvez a campanha possa passar por alguns ajustes, mas é sempre bom lembrar que não há propaganda, imagem ou música que possa pender a identidade e escolha de objeto sexual de alguém. Acredito que não se nasce gay, torna-se, mas é por caminhos nada óbvios. É a forma como nos situamos dentro de uma família, de uma época, que vai determinar com quem vamos parecer e a quem vamos amar. Um homem, por exemplo, pode ter uma identificação feminina e amar mulheres ou ser perfeitamente viril e desejar outros homens.

É nas sutilezas da história de alguém que sua sexualidade se define. Nenhuma influência pontual mudará a complexidade de um destino, ela pode, no máximo, dar-lhe voz. Mas os rumos imprevisíveis da sexualidade mexem com os ânimos dos mais inseguros: a revelação da diferença angustia, pensam que seus desejos secretos, tão comuns, podem ser revelados ou ativados por manifestações culturais. O pânico de nada serve, exorcizar supostas influências não oferece a garantia que os inquietos gostariam de ter. A sexualidade se constrói junto com a identidade e a cada um cabe viver a dor e a delícia de ser o que é.


Carta aos futuros pais

17 de agosto de 2011 0


Quando era pequena gostava de imaginar que aquele a quem um dia amaria estava em algum lugar, apenas ainda não nos conhecíamos. Havia nessa fantasia uma idéia de predestinação otimista, não queria supor acasos que me condenassem à solidão. Acreditava que o que era meu estava reservado, quando fosse a hora “ele” chegaria. Na verdade tratava-se de uma fantasia de esperança baseada na experiência: meu pai faleceu quando eu ainda era um bebê e até meus seis anos passei achando que um dia chegaria um pai, que era como um príncipe-encantado, que tanto desejava ter. Afinal ele chegou e nosso encontro deu certo. Quando partiu, bem velhinho, deixou-me a memória de uma paternidade legítima. Disse isso a ele em todos os dias dos pais que tivemos e ainda sinto falta de fazê-lo agora. Desta vez dedico a outros futuros pais meu otimismo, os votos de que outros tenham a sorte que eu e ele tivemos.

Muitos que se tornarão pais e filhos já existem em algum lugar, mas ainda não se conhecem. São crianças que perderam suas famílias, nunca tiveram uma, ou foram afastadas de maus tratos e situações de abandono. São pais que encaminharam os papéis de adoção e esperam por um encontro. Entre estes, além dos casais que enfrentam problemas de fertilidade, há ainda outras configurações familiares que incluem famílias monoparentais, casais gays, maternidades e paternidades tardias.

A função parental não é viabilizada por hormônios, nem pela capacidade da lactação ou acionada nos pais pela aparição de seus traços na criança. Sem um desejo que sustente o lugar de pai e mãe não há nada no mundo que viabilize uma família. Se um nascimento não passar de um descuido, um acaso irresponsável, um arrebato que não se sustenta, só assistiremos a desencontros e tristeza. Após a gestação e o parto sempre é necessário que pais e filhos se adotem uns aos outros. No reino da reprodução humana a natureza garante muito menos do que gostaríamos de crer.

Nossa sociedade fez da família nuclear clássica uma espécie de fetiche. Na teoria, pois na prática várias mudanças aconteceram. Testemunhamos histórias de arranjos diferentes e bem sucedidos, através das quais compreendemos a riqueza de possibilidades da relação de pais e filhos. Aliás, toda tentativa é bem vinda, pois a existência de famílias de propaganda de margarina nunca impediu que pais e filhos encontrassem destinos trágicos e infelizes.

Pelo que vivi, por tudo isso que fomos aprendendo, desejo a todos os pais e filhos que ainda não se conheceram um futuro feliz dia dos pais!


Viva e deixe morrer

03 de agosto de 2011 0


Fiquei triste com a morte Amy Winehouse. Dizem que as drogas e bebedeiras a destruíram. Sim e não. Parece que terminou seus dias tentando afogar sua angústia com o narcótico mais à mão e de certa forma ela tinha razão: para alguns a lucidez pode ser insuportável. Apesar disso, acredito que foi a incapacidade de distinguir-se da personagem que criou que lhe foi realmente letal. Estranhamente bonita, vozarrão emocionante e letras corajosas, conquistou as graças da fama. Viveu rápido, morreu aos 27 anos, no prenúncio da balzaquiana que ela nunca será. Nesta época em que percebemos o amadurecimento como carrasco dos nossos horizontes todas as viradas de décadas são trágicas.

Paul McCartney tinha um pouco mais que isso quando criou “Viva e deixe morrer”. Ele dizia que o coração jovem é um livro aberto, mas este mundo leva a sofrimentos e desistências que fazem com que deixemos de simplesmente pensar “viva e deixe viver”. Realizamos alguns sonhos, mas não faltam contrariedades e limitações. Cada frustração é uma pequena morte, quer seja de um ideal, de um desejo. Falam que vivemos um tempo sem utopias. Bobagem, sobre a geração de Amy pesa a nossa mais cara utopia: a adolescência como a grande época da vida, momento de tirar todo o suco antes da mesmice da maturidade. Amy tinha uma mente inquieta, seu romantismo se alimentava de desencontros e embebedava sua urgência de amar e viver, parece nunca ter tido essa leveza jovem cantada pelo ex-Beatle.

A sociedade contemporânea merece todas as críticas por alimentar-se dessa competição nervosa para chegar a lugar nenhum, por essa gincana de quinquilharias, sustentada pela máquina de moer sonhos a que chamamos de bom senso. A resistência adolescente a crescer tornou-se uma das formas de questioná-la. Winnicott dizia que os adolescentes são passageiros, mas numa sociedade a imaturidade não o é: sempre haverá novos candidatos a carregá-la por um tempo de suas vidas. Ele lembrava ainda que é nessa saudável imaturidade que se inspiram as revoluções, as utopias. Gostaríamos de morar nelas, mas infelizmente, para não crescer é preciso morrer.

Os jovens se arriscam, tentam ignorar a morte, mas vivem a toreá-la – Eu morri uma centena de vezes, cantava Amy. Já a maturidade sabe que tem um prazo e odeia isso. Enquanto fantasia com as noites de glórias e excessos dos adolescentes, acorda para tomar seu iogurte com cereais e ir ao trabalho. Em sonhos somos onipotentes, na prática sabemos que basta viver para morrer um pouco a cada dia.

publicado em Zero Hora, Segundo Caderno, em 03 de agosto de 2011

Relatos de viagem

03 de agosto de 2011 0



Em um restaurante apertado participava involuntariamente da confraternização da mesa ao lado, onde um grupo era agraciado com uma exibição de fotos de viagem. Não os invejei. Lembrei da minha infância, de enfadonhas sessões de slides de viagem que os adultos promoviam. Os visitantes chegavam com uma caixa cheia de imagens, escurecia-se a sala e todos acompanhavam os detalhes do carro alugado, a fachada do hotel, o guia simpático, o restaurante imperdível, a paisagem, o monumento, um verdadeiro massacre! Com ou sem slides, ao voltar todos queremos relatar a experiência, mas a empatia angariada sempre é parca. Por vezes disfarça-se o relato como se fosse uma iniciação: “vou te dar umas dicas que podem tornar tua própria viagem imperdível”, as quais raramente são seguidas.

Viagens são percursos intencionalmente significativos: sonhamos encontrar uma tradição, um glamour, um gozo, prazeres, exotismos, lugares que planejamos admirar, aproveitar. Porém, chegados ao destino, o lugar estranho exige adaptação, a sobrevivência perde todos seus automatismos e lutamos para construir rotinas mínimas em cada ponto do caminho. Vivemos experiências difíceis de classificar e compreender. Mais do que para lembrar, pois raramente são vistas, as fotos servem para tentar reter o cenário que temos dificuldade de decodificar. Uma vez uma jovem me disse sobre a foto de viagem que me mostrava: – “fotografei para olhar depois”. Ela tinha razão, por vezes nosso olhar parece insuficiente.

Lembro do relato de um casal conhecido: um desastrado passeio de carro a um lugar estranho, que sequer era típico, folclórico ou acolhedor. Um trajeto insólito, que nem eles mesmos entendiam por que tinham feito. A história era imperdível, não pela qualidade da aventura, que era nenhuma, mas pela capacidade narrativa da dupla. Eles falavam da própria surpresa por terem armado essa cilada para si mesmos e da comédia de erros em que ela se transformou. Histórias de viagem são uma arte para poucos, e sem qualidade literária os relatos são chatos por não transmitir nada. Não merecem melhor ibope do que detalhes sobre a cor escolhida para a parede do quarto, o enguiço do micro-ondas, o tratamento dentário, a restituição do imposto…

Quando esta coluna for publicada, estarei viajando. Farei minhas fotos, comprarei bugigangas, mesmo que se trate de um descansinho trivial, não de uma volta ao mundo ou aventura exótica. Mas não se preocupe o leitor: como viajante sou tristemente banal, na volta não vos torturarei com meus relatos. (publicado em Zero Hora, Segundo Caderno em 20 de julho 2011)