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Posts de outubro 2011

Escutar os enlutados

26 de outubro de 2011 0


Eram um casal inseparável. Ambos obstetras, trouxeram centenas de bebês ao mundo. Dizem que os partos estão deixando de ser nascimentos, transformados em cirurgias eletivas, com eles não era assim. Criaram dois filhos, tiveram netos, estavam aproveitando o início de uma nova época, com menos trabalho, curtindo a sensação de dever cumprido. Subitamente ele partiu, sequer teve tempo de perceber a morte. Tranquilo, em casa, em meio a uma frase, foi traído pelo coração. Levou consigo os belos planos de (mais) vida a dois.

Nesse ano minha consulta anual atrasou-se. Não sabia o que dizer a ela, já mais amiga que médica. Nossos papos roubados costumeiramente abarrotavam sua sala de espera. Encontrei-a forte. No consultório que era de ambos, costumava se escutar a voz dele, alta e musical, agora o silêncio se fazia ouvir. Naquele dia fui disposta a inverter as coisas: a consulta era minha, mas queria que os assuntos fossem dela. Sabia que seria difícil escutar o que ela tinha para contar. Também constituo um casal no qual partilhamos o trabalho e o companheirismo dos tempos livres, por isso sempre nos vi neles. É insuportável pensar que um dos dois pode instantaneamente desaparecer. Por isso a missão de escutá-la era difícil. Temia sufocar o encontro com uma verborragia solidária mas vazia.

Descobri que sua relação com a dor foi admirável: deixou-se chorar, enfrentou a solidão, a nova imparidade. Continuou, como de hábito, sendo parteira da vida, desta vez da própria, arrancada a fórceps das suas entranhas. Mas encontrei também o que temia: a infinita solidão dos enlutados. Quando falamos com eles raramente suportamos seus depoimentos. Impomos nossa versão: relatamos o último encontro, nossa reação ao saber da perda, a falta que o falecido nos faz. Sempre temos algo a dizer, não importando se fomos próximos, íntimos ou remotos admiradores. Aliás, quando se trata da dor do outro, raramente conseguimos escutar suas queixas sem interpor nossos depoimentos: “também passei por isso e, veja bem, comigo foi pior”…

Colocar-se na cena serve para partilhar o sofrimento, ajuda na elaboração do trauma. Mas a tagarelice ansiosa que irrompe na hora das condolências é útil mesmo para abafar as palavras do enlutado. Quando estamos fora da dor do viúvo, do órfão, dos que foram privados da presença de um pai, irmão ou, o pior de tudo, um filho, não queremos chegar tão perto. Seu sofrimento assusta. O enlutado nos apavora mais do que o morto no seu caixão. Apesar de ser nossa única certeza, a morte segue tabu e o sobrevivente seu emissário.

Escravos da infantilidade

12 de outubro de 2011 0

Sábado à tarde, supermercado lotado. No caixa paciência para os carrinhos abarrotados, mas dessa vez precisei de uma dose extra. À minha frente, ar aparvalhado, um jovem pai de família, forte e normal, esperava imóvel seus produtos passarem no caixa e serem empacotados. Em pé, olhar perdido, boca entreaberta, fitava o vazio, só faltava o fio de baba. Lembrava aquelas crianças que são carregadas junto com a família para um lugar que não lhes interessa, distraídas, alheias. Nesse supermercado existem empacotadores prestativos, mas eles não davam conta. Não custa ajudar, ir organizando, embalando junto, cooperar.

No comportamento passivo do meu companheiro de caixa, impossível não evocar a figura do nobre, sendo vestido, banhado, alimentado e conduzido nos braços de seus servos ou escravos, um eterno bebê. Quanto mais evoluídos nos tornamos, caminhamos em direção à autonomia, prescindimos de serviçais. É assim com as crianças, que aprendem a cuidar de si mesmas cada vez melhor. Mas será que me comporto diferente quando consigo pagar um hotel mais estrelado? Quem não curte café na cama macia, toalhas limpas, massagem, chofer? O que é um restaurante, senão ficar sentado enquanto o solícito garçom se dedica a atender nossos caprichos? São ocasiões em que voltamos no tempo, nos quais amar é maternar, cuidar. À vezes, ser independentes exaure, queremos algum mimo.

Os trabalhos associados aos cuidados maternos primários, nos quais adultos adquirem privilégios de crianças, sempre foram desvalorizados. Mulheres, pessoas socialmente exiladas, escravos, ocuparam os bastidores da nossa vergonha. Na verdade, aquele que abre mão da autonomia também se abstém da liberdade que ela proporciona, da intimidade, da privacidade. Por isso relega-se ao ostracismo aos que fazem parte dela. Mães, pobres e escravos tornaram-se ralé da vida pública, escondidos no armário de nossa carência afetiva, associados ao medo de ficar sozinhos. A infantilidade é um segredo.

Entregar-se nos braços de alguma comodidade é uma delícia, mas como exceção, descanso de guerreiro, conquista. É gostoso, um luxo que só é tal se não for um hábito. Mas no dia a dia, a dependência é uma forma de alienação, uma existência empobrecida. Que dizer de alguém, aparentemente crescido, que precisa se fazer adotar pelo primeiro empacotador franzino que encontra pela frente? Por favor, supermercado não é Spa, há adultos na fila!


Fézinha

02 de outubro de 2011 0



Viver é perigoso e mesmo depois de crescidos ainda nos sentimos desamparados frente às arbitrariedades do destino. Por isso, restos de um pensamento mágico infantil ajudam a recuperar um poder que sempre nos escapa: o de prever catástrofes para melhor evitá-las. De natureza atéia e incrédula, não conto com uma idéia qualquer de conectar-se com algo maior. Posso até tomar milhares de cuidados, mas não me iludo: há um forte elemento de imprevisibilidade, a morte e o sofrimento podem simplesmente aparecer quando bem entenderem. Tomada nessa ideia, e sem perceber, criei para mim uma brincadeira, um pequeno oráculo portátil, que me ajuda a diminuir a sensação de impotência. Acredite se quiser: são os sachês de adoçante.

Uso uma marca de adoçante em pó que vem em doses individuais, em lindos envelopes coloridos. O ritual é o seguinte: no café da manhã devo pegar um envelope na caixinha sem olhar (a fé é cega) e sua cor é prognóstico do dia que me espera. Há cinco cores: roxo, azul, verde, amarelo e cinza. Sem pensar fui montando um sistema no qual tendo ao bom prognóstico: os envelopes roxos significam um dia “excelente”, todos meus desejos serão viabilizados, não seremos vítima de acidente ou violência, nem uma doença se revelará ou matará qualquer pessoa da minha família. Já os azuis e verdes, nessa ordem, são dias respectivamente “muito bom” e “bom”. O amarelo significa um prognóstico “regular” e somente o cinza revela necessidade de cautela, perigo no ar, frustrações ou tristeza à vista. Como se pode observar, em cinco possibilidades só uma é ruim. De posse desse pequeno prognóstico, junto mais coragem matutina para enfrentar a assustadora jornada diária.

Embora não fosse consciente, sei que a brincadeira não é sem sentido: pertenço a uma família de diabéticos, meu querido avô morreu antes de ficar velho, recusando-se a qualquer abstinência alimentar. Para mim o açúcar era um grande vilão. Sem perceber, associei minha brincadeira mágica a uma providência: substituir o açúcar por adoçante. Não se tratava de uma aposta cega na sorte! Talvez no fundo ela não exista. Toda fé, superstição ou crença inclui seus ritos. Reverenciam-se homens santos, reza-se, fazem-se oferendas, pensamentos positivos, rituais. Sempre é uma revolta ativa contra a passividade à qual a morte nos condena. Ela vem quando quer, mas não morremos sem lutar. Inconscientemente, elegi o açúcar como um vilão que podia enfrentar. Graças a isso pude desenvolver esse otimismo infundado, onde de cinco possibilidades, tenho quatro bons prognósticos. Quem dera a vida fosse assim, passível de controle! Ainda bem que algo da magia da infância sobrevive para que possamos brincar de esperança, nem que se tenha que recorrer a pequenos truques! (publicado na revista Vida Simples, edição de setembro)