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Posts de janeiro 2012

Morrer de véspera

29 de janeiro de 2012 0


Bilbo tem 13 anos. Para humanos é o fim da infância, na sua trajetória canina é o fim da vida. Mas isso não é novidade para ele, nem para nós. Já faz cinco anos que dois veterinários diferentes lhe deram pouco tempo de vida. Alegavam, o que deve ser verdade, pois apareceu nos exames da época, que ele tinha o coração quase do tamanho da caixa torácica e trinta por cento da função renal. A não ser que um milagre tenha acontecido, isso só pode ter piorado. Na ocasião lhe receitaram vários remédios, ração especial, uma vida de velho. Ele detestou, é próprio da sua raça a infância eterna. Nenhum bulldog francês amadurece, só ficam mais lentinhos. Os tratamentos o tornaram muito magro e deprimido, ficava de mau humor cada vez que lhe empurrávamos mais uma pastilha. Por isso decidimos deixa-lo em paz: que durasse pouco, mas fosse feliz! Cortamos os remédios, a ração insossa. Livre da existência terminal, voltou a brincar e correr. Hoje, se fosse gente teria uns oitenta anos.

Na verdade, se fosse humano talvez já estivesse morto, de preocupação, de tristeza pela condenação que uma doença grave significa. Às vezes morremos de desesperança, achamos que a vida, se não for infinita, não adianta que dure. A religião tampouco consola, pois a suposta eternidade da alma já não conforta tanto. Mesmo com saúde, é só olhar em volta e acabamos fazendo os cálculos de quantas estimadas décadas nos restam, na melhor das hipóteses. Aliás, o envelhecimento é exorcizado principalmente porque informa do tempo que já gastamos. Velhice é folha corrida. A fantasia de ser eterno e intacto, como os belos vampiros contemporâneos, faz a vida parecer fonte de infinitas possibilidades. A consciência da morte obriga a objetivar as escolhas: não teremos tempo de ser e ter tudo. Mas entre a ignorância do animal e o pensamento negativista dos homens há outras atitudes bem mais inspiradoras.

Convivi com amigos que, ao invés de morrer de véspera, fizeram de uma má notícia fonte de sabedoria. Há duas décadas o diagnóstico da contaminação com o vírus HIV era um prenúncio de morte iminente. Felizmente, não foi assim para todos, mesmo antes da descoberta do coquetel. Em alguns casos, a ameaça de morte os livrou das dúvidas pueris, da adolescência eterna. Agarraram-se à vida com vontade, viabilizaram escolhas profissionais, relacionamentos estáveis. Acabaram o estágio. Pressionados, se efetivaram no emprego da existência. A medicação, que lhes devolveu a imunidade, já os encontrou de bem com a vida. Woody Allen dizia que a palavra mais bela que já tinha ouvido era: “benigno”. Sua hipocondria cômica sempre nos lembra que a consciência da morte pode ajudar a repactuar com a vida. Mesmo que o fim seja certo, por que não seguir alegremente? Como meu velho cão.


“Só” uma intérprete

18 de janeiro de 2012 0


Depois que tomava uma música para si, Elis Regina lhe emprestava a alma. Olhava o público nos olhos, parecia que um a um. Era lúdica, gorjeava travessa, abria um sorriso solar, o corpo inteiro se engajava na voz, os braços abertos em hélice. As canções ficavam marcadas a fogo com seu selo, tornavam-se dela, abafava outras versões. Jamais escreveu letra ou melodia, sua autoria era conferida pelas interpretações. Amanhã farão trinta anos de sua ausência.

Um bom ator é um intérprete de seu personagem, mas a qualidade da cena dependerá da entrega, de que o porta voz esqueça sua própria identidade e vista o papel. Minha carreira teatral sucumbiu brevemente quando, tomada de suores e tremores, não conseguia esquecer minha pobre pessoa, cujo fracasso no palco se impunha sobre as falas da peça. Tão preocupada com meu vexame só conseguia interpretar a mim mesma. Um verdadeiro intérprete entrega-se à Pomba Gira, deixa-se possuir, e assim, num contragolpe, termina apropriando-se do espírito que o toma. Se for genial não conseguiremos diferenciar a criatura do criador, o demônio da vítima que o conjurou. Assim era Elis, de quem se dizia que era “só” intérprete.
Os psicanalistas se aproximam desse espírito: ao interpretar sonhos, por exemplo, o fazemos num estado de entrega, como o dos artistas. A verdade oculta sob o enredo maluco de um relato onírico pode ser lida sob o texto daquele que o narra. O paciente lembra o que sonhou, mas em sessão faz um relato peculiar onde, sem saber, opina sobre a aventura onírica. Seu analista exercita uma escuta sem preconceitos, sem deixar-se influenciar por suas teorias. É preciso surpreender-se por uma formulação curiosa de palavras, um desencaixe no relato, um estribilho: eis a dita atenção flutuante. Assim descobre a nota dissonante do relato e a destaca do contexto, essa será a chave do enigma ou pelo menos de uma porta para entrar nele. Também o analista se relaxa e se perde de si, pois sem entrega não ocorre essa peculiar forma de escuta. Interpretações, como se vê, são sempre uma inusitada autoria, onde alguém se apropria do texto do outro para produzir a novidade.

Somos versões dos nossos antepassados, adaptadas ao nosso tempo. Seus traços nos assaltam e com eles compomos uma identidade. A originalidade possível não passa da apropriação peculiar dessa origem, que é de certa forma uma interpretação. Uma intérprete, como Elis, é autora de versões. Versões também são obras de arte, ou, como diria Borges: obras de arte são sempre “só” versões.

Um homem, muitas vidas.

05 de janeiro de 2012 0


Quantas vezes deixamos de realizar algum anseio por achar que é tarde para recomeçar ou transformar nossa vida? Encruzilhadas, opções, estão sempre aparecendo, mas falta coragem. Muitas vezes sou procurada para ajudar nessas curvas de destino. A teoria me diz que é possível, mas nada como uma história verdadeira para acreditar.

Para o primogênito de um ferroviário a universidade oferecia poucas opções: médico, advogado, engenheiro. Naquela época, arquiteto e psicólogo não eram destinos plausíveis para um macho gaúcho do interior. Estudou engenharia na capital, militou em tempos de repressão. Apaixonou-se por uma mineira, companheira de política, e perseguidos tiveram que sumir. Foram parar novamente no interior. Mas suas aspirações estéticas e ideológicas contaminavam o pragmatismo do engenheiro civil. Projetou formas inéditas e com elas desenhou o campus da universidade onde leciona até hoje, o museu antropológico, casas exóticas. Era arquiteto, urbanista, educador e político. Teve filhos, netos. Basta? Para ele, não. Guloso de novidades foi analisar-se. Apaixonou-se novamente, desta vez pelo caminho aberto por Freud. Nada o impediu de voltar aos bancos da mesma universidade onde é professor, cursou psicologia, estuda psicanálise. Já tinha quase sessenta quando se formou e hoje, rumo aos setenta, tornou-se psicanalista. Provavelmente seus pacientes têm oportunidade de projetar para suas vidas formas tão criativas quanto as que ele encontrou.

Quantas vidas teve esse homem? Todas as que quis e sabe-se lá o que ainda vai inventar. Talvez, relativo à vocação, possa se aquietar, pois um psicanalista vive muitas vidas além da sua. Quem clinica é testemunha e promotor de viradas surpreendentes ou, ao contrário, de situações em que se reencontra o eixo anterior, que já parecia perdido.

Ele não é meu paciente, é meu tio e graças e ele não tenho dúvidas de que a vocação é algo muito maior que um conjunto de dons. Aprendi que o norte são desejos inesperados, inexplicáveis, e sobre a tenacidade em realiza-los.

Se para um homem cujas opções cabiam nos dedos de uma mão a vida abriu-se em leque, imagine hoje! Além das mais inusitadas profissões possíveis, o jovem sabe que as oportunidades e vivências o transformarão de modo imprevisível. Outrora poucos ousavam sonhar, mudar de rumos, descobrir novidades em si mesmo. Mas não há porque se apoquentar, podemos nos inspirar nessa e em tantas histórias assim. Para seu pai, chefe de estação, os caminhos seguiam os trilhos, não havia como nem porque descarrilhar. O filho, pioneiro de um tempo de roteiros indeterminados, descobriu o número infinito de linhas com que se pode projetar e percorrer a própria existência. Uma história e tanto, que hoje pode ser a de qualquer um.


publicado na Revista Vida Simples edição de dezembro

A última viagem do Professor

04 de janeiro de 2012 0

Banido de sua Hungria natal pelo nazismo, meu pai não cessou de viajar até a aposentadoria. Nunca se aquietou de fato, enquanto o corpo permitiu seu armário era uma mala. Quando ficou velho e teve que parar fiquei preocupada: podia ficar horas lendo, mas eu sabia que para mantê-lo bem ele teria que seguir viajando. Então o apresentei aos cursos do Professor Alexandre Roche. Ele ensinava francês no instituto que leva seu nome, mas fazia isso contando histórias, levando seus alunos para jornadas históricas e literárias. Nascido em Alexandria, de pais franceses, estudou história na França. No Brasil, ensinava a língua de Voltaire com muito mais do que verbos e pronomes. Por vários anos, ele conduziu meu pai em suas últimas viagens, que não foram menos divertidas do que as que fazia de avião.

Recebi a triste notícia de que Monsieur Roche, como o chamávamos, também partiu. Gostaria de acreditar que eles se encontraram em algum lugar e estão botando a conversa em dia. Estes dois velhos se foram deixando-nos uma lição inesquecível: um professor e um aluno nunca se aposentam, ensinar e aprender pode ser um prazer que dure a vida inteira.

Uma língua é mais que um acervo de palavras, um decantado das culturas nela se expressa, carrega sentimentos, convicções, conta histórias. Idiomas são musicais, falar a língua em que se nasceu e cresceu é reproduzir a entonação e o ritmo do discurso amoroso que nos fez ser o que somos. A língua materna é a do acalanto, dos sonhos, é a que usamos para praguejar secretamente e contar quando estamos distraídos.

Aprender uma outra língua sempre será uma traição à original. Traindo a língua mãe produzimos diferentes versões de nós mesmos, experimentamos liberdades, mas também vivemos um exílio, a alma sente-se em viagem. Quando aprendemos um idioma depois de adultos conservaremos restos de sotaque que são nosso certificado de origem. Meu pai falava sete línguas com sotaque húngaro, língua em que encontrava poucos parceiros com quem conversar após os 17 anos.

Várias vezes estrangeiro, Roche sabia disso e não escondia seus erres arrastados em português. Mas para ensinar francês, fazia o possível para que seus alunos se sentissem em casa. Como um ancestral emprestado, oferecia as histórias de uma tradição aos que nunca serão nativos nela. Falava da França, do Egito, de literatura, política. Seu ensino era acima de tudo uma experiência de hospitalidade. Monsieur Roche, desta vez partiu numa viagem sem malas. Obstinado como um gaulês, deve estar ensinando francês para os anjos.

Tchau-tchau lixinho!

02 de janeiro de 2012 0

Não importa o quando os apocalípticos possam resmungar: acredito que o mundo e seus habitantes vêm melhorando. Sei da contabilidade triste da destruição ambiental. Tampouco ignoro que preservar e cuidar são posturas em construção. Ainda assim constato que pudemos nos tornar mais civilizados. Em meio século de vida tive tempo de testemunhar mudanças radicais: na minha infância, o chão parecia bom lugar para largar qualquer lixo; praias, praças, jardins e lugares públicos no final do dia pareciam um campo de guerra onde jaziam milhares de detritos; fumava-se continuamente em todos os lugares, até nos hospitais, e ninguém achava nada disso estranho. Há muita gente que ainda não entendeu, mas fazer sujeira agora pega mal.

Cuidar dos próprios dejetos é uma forma de crescer, uma demonstração de autonomia para a qual estamos ficando mais aptos a cada geração. Pode parecer estranho, mas o cocô é nosso primeiro lixo e o penico é a inaugural experiência de responsabilidade com os dejetos. Mãe não é somente aquela que alimenta, é também a que limpa, que se incumbe dos restos da sua cria e é com muito pesar que abrimos mão de ser cuidados. Ter alguém que ande atrás de nós recolhendo o que deixamos atirado, dando um destino àquilo que descartamos, é um jeito de sentir-se amado, mas para os crescidos é uma infantilidade.

Não é incomum na vida dos bebês, que esperem a chegada da mamãe, um dia inteiro se necessário, para poder oferecer-lhe o presente do conteúdo de suas fraldas. Quando uma criança pequena descarta uma embalagem ou resto de comida a mão de sua mãe surge como extensão natural do gesto do filho, recolhendo aquilo que ele simplesmente deixa cair ou joga fora. Na verdade, nossos dejetos corporais são uma parte de nós que precisamos perder, mas mesmo que já não nos sirvam, nunca abrimos mão de bom grado daquilo que foi nosso.

Durante a aprendizagem do controle dos esfíncteres, é comum os bebês ficarem acenando para seu cocô, em uma despedida lúdica, antes que seja acionada a descarga e desapareça no vaso sanitário, assim fica mais fácil separar-se dele. Acontece na vida das crianças que elas desenvolvam distúrbios como a encoprese, no qual fazem suas necessidades na roupa. Esse tipo de acidente decorre da tentativa de reter seus dejetos, não entregá-los para ninguém, até que eles acabam escapando, quando não dá mais para segurar. Como se vê, nosso lixo corporal pode ser nojento, mas para nosso inconsciente maluco faz parte de nós e é difícil livrar-se dele. Uma sociedade que recicla seus dejetos atingiu pelo menos o nível dos pequenos que podem ir ao vaso sem a ajuda de um adulto. Estamos indo bem, algum dia seremos todos cidadãos adultos, deixando de acreditar que uma mão mágica de mãe vai limpar nossa sujeira.