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Posts de maio 2012

Efeito Borboleta

27 de maio de 2012 0

Certo dia, neste verão, tentei salvar uma borboleta. Estava presa entre as cortinas do hall de uma pousada. Sem jeito, tomei-a pelas asas e a destruí. Pode parecer ridículo, mas bom tempo sofri com a imagem do inseto mutilado martelando no fundo dos olhos. O episódio não estragou o dia, nem as férias, mas pinicava a alma, como assombração.

Tenho uma particular sensibilidade ao mundo animal, pertenço ao vasto contingente dos que sofrem com as desgraças dos bichos. Isso não faz que me sinta uma pessoa melhor, sei que se pode ser doce com os animais e amargo com os humanos. Mas não era essa a razão do peso da cena da borboleta: todo pensamento é em camadas, sempre têm algo por baixo. Esse pequeno acidente representava outro, anterior. Há dois anos, nessa mesma pousada, mergulhei afoitamente na piscina e colidi com meu marido, deixando-o com um horroroso olho roxo. Recém chegados da estrada, a água azul era um oásis, cheguei correndo e tchibum! Mutilei o rosto do meu amado, as férias da família, e ainda escutei deles a reprimenda de que poderia ter sido pior se minha vítima fosse uma das crianças que nadava ali.

Lembrei disso ao ler uma frase do romance “As horas” (de M. Cunningham), que tem como personagem a escritora Virginia Woolf. Ao despertar, a personagem, que é a própria Virgínia, pensa: “pode ser que seja um bom dia; precisa ser tratado com cuidado”. Palavras muito simples, que contém o espírito da obra dela, a quem passei as férias dedicada. Na frágil existência, cada gesto, cada dia são decisivos. Mais que fatos, ela privilegiava a descrição do olhar de cada personagem, narrou a vida mínima, a que as mulheres observavam enquanto os homens faziam coisas consideradas grandes.

Virgínia, que como todos sabem acabou suicidando-se na meia idade, viveu mais intensamente do que muitos que chegam na velhice. Por vezes cansava-se da vida, principalmente de si, mas não se tornou uma narradora mórbida. Mais romântica do que gótica, era dada a perceber a beleza. Observou e descreveu os humanos ao redor como animais curiosos: queria saber do quê vivem, qual seu alimento subjetivo, de onde tiram motivos para cada novo dia. Por que seguem adiante, perguntava-se, mesmo os que parecem ter tão pouco para levar consigo? O que mantém a marcha do mendigo? A jornada dos obreiros? A persistência dos burocratas? Dos que têm que cuidar um doente desenganado?

A eminência da catástrofe, que pode mutilar como fiz com a borboleta, como o salto impensado, valoriza a vida como conquista cotidiana. Carece cuidar de cada dia, reconhecer-lhe o encanto em suas expressões mínimas, pois do próximo ninguém sabe. Este “hoje” que bate asas em nossas mãos, é frágil, mas pode ser bom.


Publicado na Revista Vida Simples, edição de maio de 2012

A chave do tamanho

10 de maio de 2012 0


Tardiamente, fui conhecer Brasília. Temos, eu e ela, certa identidade: de gêmeas separadas ao nascer, mesmo ano. Devo dizer que me inquietou ao vê-la, cinqüentona como eu, meio caidaça. Espero que os paralelos não sejam tão óbvios. Mas o que realmente me surpreendeu foi o tamanho dos prédios, aqueles que são ícones da nossa nacionalidade. Esperava muito ver ao vivo o Palácio da Alvorada, o Itamaraty, a Catedral, o Congresso. Suas imagens povoam minha memória, estampadas em jornais, selos, moedas, na televisão. Desde que me entendo por gente são sinônimo do país, erguidos para encarnar o progresso e a grandeza da pátria. Cresci acreditando nisso. Eles são mesmo bonitos, mas surpreendentemente menores do que supunha. Entenda-se: não são pequenos, minha imaginação era superlativa. Vivi sentimento idêntico ao entrar em lugares da infância, aos quais a memória preserva a grandeza. Espichamos e esquecemos que crianças sofrem de nanismo, para elas tudo é grande e inacessível. Alguém se lembra, por acaso, como é não saber o que há em cima da mesa?

Impossível não evocar “A chave do tamanho” de Monteiro Lobato. Nessa história, tentando acabar com a guerra (foi publicado em 1942), a boneca Emília vai para a “Casa das Chaves”, reguladoras de todas as coisas do mundo. Queria achar e desligar o controle do conflito bélico que além de mundial, parecia não ter fim. Por acidente, acaba ativando uma chave que controla o tamanho dos seres humanos, que ficam reduzidos a dois centímetros de envergadura. Entre os inúmeros perigos, a pior das desventuras da boneca ocorre com duas crianças que ela encontra, cujos pais acabam sendo devorados pelo próprio gato da família, na frente dela. “A mudança de tamanho da humanidade vinha tornar as idéias tão inúteis como um tostão furado”, filosofa a boneca. Aliás, ela sobrevive graças à esperteza de perceber que tudo deve ser avaliado em outra escala.

Depois que crescemos, pessoas, objetos e lugares encolhem. Só mesmo nosso desamparo mantém a envergadura. Ele não desaparece quando alcançamos os trincos das portas. Quando pequenos, há pessoas grandes, que supomos protetoras; depois, tudo e todos perdem o porte. Assim, quem olhará por nós? A pequenez nos angustia, preferimos delirar a grandeza. Mas grande mesmo é a sabedoria da Emília: a chave é o tamanho. Mostrar aos homens que na verdade são insignificantes é uma ótima idéia para acabar com as guerras. Afinal, elas nascem da onipotência, de se achar maior que os outros. Escalas são pontos de vista e variam. Um dia é do dono, outro é do gato.