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Posts de junho 2012

Mentiras sinceras me interessam

27 de junho de 2012 0

Noite, pai e filha param numa loja de conveniência para uma compra rápida. A menina se impressiona com as moças exuberantes que estavam ali, e pergunta ao pai se elas, tão altas, não seriam modelos. Num momento de distração da garota, o pai aproveita para transmitir a observação dela às duas travestis, que ficaram naturalmente encantadas. Seu trabalho exaustivo de montar uma bela e convincente imagem feminina fora recompensado.

As travestis são biológicamente homens, mas sentem-se mulheres e têm que carregar o fardo do sexo em que nasceram. Costumo brincar que o melhor filme sobre mulheres, para quem lhes quiser conhecer os segredos, é: “Priscila, a rainha do deserto” (Stephan Elliott, 1994), onde os protagonistas são duas travestis e uma transexual. Afinal, ninguém sabe melhor do que esses abnegados cultuadores da condição feminina, que ninguém nasce mulher, torna-se. Naquele encontro, graças ao involuntário elogio da filha do meu amigo, parecer femininos é um desejo deles que se realizou. O estranho é que elogios são sempre assim: quando os recebemos nos sentimos enganadores, como se houvesse alguma falsidade ali, uma ilusão que alimentamos, uma mentira.

O que temos de positivo é, aos nossos olhos, vivido como uma farsa, ridícula imitação dos nossos ideais. Um dia seremos desmascarados. Se alguém louva nossa obra, aparência ou valores, está, pensamos secretamente, redondamente enganado. Quando imaginamos algo que vamos fazer, as fantasias sempre incluem algum tipo de vitória, algo grandioso, frente ao qual qualquer realização parece indigna de nota. Quanto à beleza, não é à toa que ela se chama de “aparência”. Lembro da Claudia Schiffer, dizendo que depois de acordar levava mais de hora para ficar com cara de Claudia Schiffer. Os valores morais, então, são os piores candidatos à autenticidade: um mínimo de intimidade consigo mesmo revela a condição egoísta, mesquinha e violenta dos nossos anseios e pensamentos. Por sorte, na prática é outra coisa.

É justamente essa consciência dos próprios bastidores que faz com que as críticas não sofram o mesmo descrédito que os elogios. Qualquer observação que nos desmerece ou diminui é tomada imediatamente como verdade absoluta. Se alguém der a entender (ou mesmo se achamos que essa pessoa pensa assim) que somos chatos, medíocres, incompetentes ou feios, levamos fé e faremos coro com essa voz. A crítica habita nosso interior e quando encontra aliados, reais ou pressupostos, se fortalece, se agiganta. Talvez as travestis se assemelhem mesmo às belas modelos, pois aquilo que forjamos, com trabalho e superação, é uma autêntica e admirável conquista. Aplausos são para o que conseguimos fazer com o que a vida nos deu. Somos mentiras sinceras, verdades construídas. Palmas para elas.

Ao pé da letra

20 de junho de 2012 0

Elize Matsunaga descobriu que seu marido a estava traindo. O casal passou pelos desentendimentos usuais de um fim de relação, brigas, ódios, vontade de destruir aquele que ousou deixar de amar. Mas ela radicalizou: matou Marcos, esquartejou seu corpo, espalhando seus pedaços por vários lugares. Uma monstruosidade. Como é possível tanta frieza? De onde ela tirou forças para despedaçar um homem, como pôde fazer algo tão isento de humanidade?

Não me cabe diagnosticar a assassina confessa desta história, mas posso afirmar que a loucura, quando irrompe, ofuscando todas as razões que restam a alguém, dota sua vítima de força e determinação incontroláveis. O que não torna crimes cometidos nesse estado de espírito defensáveis ou justificáveis. Nas pessoas ditas normais, o surgimento dessa força sobre-humana ocorre em situações limite, urgentes, como guerras, violência urbana, doenças. Quando necessário, descobrimos a coragem, a energia e a iniciativa que desconhecíamos ter.

Uma pessoa abandonada, substituída no coração daquele que ama, pode sentir-se desmanchar. O amor não é apenas um momento de prazer, cumplicidade ou companhia, também é dele que provém a identidade. Declaramos nosso “estado civil”, ou seja, existe alguém que atesta publicamente nos amar e viver conosco. Depois de um rompimento, aquele que deixou de ser amado se desconhece, sente-se nada, um dejeto. Pensa que nunca mais será escolhido, aos seus olhos seus atrativos desaparecem. Todo mundo já passou por isso alguma vez. Situação difícil, costuma deixar um legado de lágrimas, lamúria, depressão. Ou pior.

Estamos acostumados a ver homens enlouquecerem por ciúmes ou desesperados mediante separações que não aceitam. Não é incomum que assassinem suas ex-parceiras, quando não chacinam os frutos daquela relação. Os filhos lembram a maldita mulher que os abandonou, devem também desaparecer. Talvez seja pelo costume, de uma sociedade machista onde a honra do homem tinha legitimidade jurídica para ser lavada, que não nos horrorize tanto. A masculinidade sempre foi mais ativa, às mulheres feridas de amor cabe definhar.

Elize reagiu como uma vingadora. Louca, como ficam esses homens que matam a família inteira, tirou forças dessa situação limite que nos transforma em heróis ou monstros. Seu mundo se desfez, passou, provavelmente, a funcionar com uma lógica delirante. Tomou a desgraça ao pé da letra, se era para dividir seu homem, repartiu-o por São Paulo. Neste caso, aparentemente o resultado foi um surto. Marcos Matsunaga tornou-se de todos e de ninguém. Assim, literalmente.

Homens-livro

07 de junho de 2012 0

“Fahrenheit 451”, o clássico de Ray Bradbury, escrito em 1953 está acima da costumeira disputa sobre a qualidade do original e da adaptação: o filme homônimo de François Truffaut, de 1966, também é uma obra prima. Essa história me toca em particular, pois deu forma literária à subjetividade do mundo em que nasci. Um tempo é melhor retratado por seus temores e esperanças do que pela realidade, são as fantasias que desvelam esses bastidores, a subjetividade dos fatos. Nesse sentido, a literatura é fonte fidedigna de pesquisa histórica.

A Guerra Fria, assim como o modo de vida do pós-guerra, são metaforicamente retratados no livro como se fossem um futuro distante. Se hoje dizemos que os jovens são parcos de esperanças, isso certamente deve tributo ao tratamento que as gerações anteriores deram às utopias, moradas das expectativas e dos sonhos coletivos. Foi uma época triste, onde anseios de um mundo melhor encontraram no totalitarismo seu destino trágico.

A derrota bélica e política do nazismo não foi o fim, nem a única expressão, da determinação de transformar o estado em um deus, que, como tal, não devia explicações a ninguém. Havia um empenho global, e nisso o estalinismo foi certeiro, em fazer da alienação do homem comum uma regra. Seja qual for o tipo de governo que o século passado concebeu, mais à esquerda ou direita, as coisas importantes costumavam acontecer além da alçada do cidadão. Este que ficasse quieto, sua opinião era menos que bem vinda. Nas ditaduras o pensamento é cerceado, enquanto que nas democracias indignas do seu nome a astenia política é incentivada. Hoje, num mundo onde a liberdade conquistou muitos espaços, os regimes totalitários sobrevivem, prova de que há algo na condição humana que ainda anseia por esse modo de vida. É tão mais fácil não pensar…

Acabamos de perder Ray Bradbury, aos 91 anos, o autor dessa que é uma das mais belas fantasia distópicas, metáfora genial do ocaso da esperança. Mas, longe de ser um pessimista, deixou-nos, com “Farenheit 451”, uma nota para nunca ser esquecida: a ficção contém os sonhos mais preciosos, a riqueza e complexidade que nos tornam potencialmente revolucionários. Melhor que isso, mesmo quando o ambiente é adverso há homens dispostos a dar a vida em defesa da arte, das boas histórias. Quando tudo nos é retirado, percebemos que na beleza do encadeamento das palavras, na genialidade de uma trama, resiste nossa essência. Enquanto ela existir, sobreviveremos.

A literatura sempre foi considerada perigosa para os regimes totalitários, porque em seu interior os homens se compreendem melhor, tornam-se mais sábios, críticos e corajosos. Quanto mais escrevermos e lermos, mais nos pareceremos com uma civilização e menos com uma boiada. Isso vale para todas es formas da arte.

Bradbury projetou, para um futuro não muito distante, uma sociedade alienada, onde a população idiotizada era mantida distante de qualquer coisa que pudesse gerar angústias, dúvidas ou tristezas. Uma sociedade de semi-analfabetos, alimentados cotidianamente pela ilusão de participar de uma programação televisiva simplória e realista. Contentavam-se com metas medíocres, como a aquisição de objetos da moda, o aumento da capacidade de consumo, o cuidado com a auto-imagem. Também se dedicavam à vida social, baseada em conversas fúteis, principalmente sobre TV. Para garantir um estado de espírito compatível com essa rotina bovina tomavam remédios regularmente. Sentimentos e emoções eram proibidos, nenhuma manifestação artística era suportável. Os livros, remanescentes clandestinos de um passado recente, quando ainda era permitido viver intensamente dores, amores e desejos, eram caçados e queimados. Farenheit 451 é a temperatura na qual eles entram em combustão.

Qualquer evocação da nossa sociedade vinda da descrição anterior não é mera coincidência. Detalhe: nesse quadro montado pelo autor havia uma ditadura que submetia a população a horizontes tão estreitos. Bondoso da sua parte, pois já devia saber que entramos na fila dos pobres de espírito alegre e espontaneamente, sem necessidade de ser subjugados para tanto.

Os revolucionários de Bradbury não são guerrilheiros ou resistentes no sentido clássico, eles apenas defendem a existência da vida interior representada pela leitura. Trata-se de um grupo rebelde de homens no exílio, na clandestinidade, que se empenha na sobrevivência do acervo literário da humanidade. Eles decoram obras literárias e se incumbem de contá-las e preservá-las. Cada um torna-se um homem-livro. Ao deserto de referências simbólicas eles contrapõem seu apego à leitura. É interessante que a escolha da obra é feita por cada revolucionário, ele passa a ser esse livro, será identificado com ele, atenderá por seu nome, fará das palavras dele as suas. Existe melhor representação do tipo de relação que temos com nossas histórias prediletas?

Porque esse valor todo dado aos livros? Ler pode e deve ser aprazível, não necessariamente nos faz felizes, mas certamente porque nos enriquece, nos traduz. A fruição solitária e portátil de um livro não requer instalações, nem equipamentos. Basta a imaginação de outro ser humano, escrita no código de uma língua que conheçamos bem, e a viagem está garantida. Naquela sociedade a leitura foi banida porque faz dos cidadãos seres pensantes.Todo aquele que lê complica as coisas, no bom sentido. Na resistência imaginada por Bradbury, cada indivíduo preserva um pedacinho do acervo cultural da humanidade para fazer diferença no futuro.

Nessa história, há uma contraposição quase caricatural entre cultura e barbárie que é verdadeira e profética. Para nossa sociedade hipocondríaca, vidiota, consumista e narcisista, mais livros fariam diferença. Talvez quanto mais homens-livro houvesse, menos homens-bomba seriam necessários. E você, se pudesse salvar um livro da destruição, já pensou qual seria?

Uma princesa guerreira

06 de junho de 2012 0

Por duzentos anos Branca de Neve sobreviveu na imaginação das crianças, fiel ao relato dos irmãos Grimm, pouco alterado por Disney. Essa história adormecida, sem nunca ter perdido as cores, pode-se dizer que acaba de ser novamente beijada.

2012 foi o ano da ressurreição da princesa morena, dois filmes a despertaram. Mas desta vez ela foi chamada à ação: em “Branca de Neve e o Caçador”, de Rupert Sanders, ela tornou-se uma princesa guerreira.

Essa trama confirma uma antiga suspeita: que a nova Rainha, a feiticeira Ravenna, assassinara o Rei. A enteada foi mantida prisioneira até que, como na história clássica, o espelho revele sua beleza. Agora a malvada não quer apenas matá-la e comer seu coração. A feiticeira Ravenna mantém-se linda e desejável vampirizando a juventude de jovens súditas. Branca de Neve é especial, pois lhe conferirá a vida eterna. Ao fugir, a princesa é ajudada por um cavalo branco, sem príncipe. Quando desperta de seu sono enfeitiçado não é para casar, é para liderar as tropas que derrotarão sua rival e salvar o reino aterrorizado pelo domínio nefasto de Ravenna. Já o Caçador é um jovem viúvo atormentado, que se culpa pela morte da esposa. Ele protege a moça paternalmente, lhe ensina lutar, mas se apaixona por ela. Ressurge também um amor infantil, William, que também é seu dedicado e apaixonado cavalheiro. Só que a princesa, convenhamos, tem mais o que fazer.

Muitas princesas sobreviveram ao esquecimento, várias conseguiram a juventude eterna. Branca de Neve foi a primeira delas a inaugurar um novo cânone: a princesa cantora de desenho animado. Só podia ser ela, novamente, a revolucionar o nicho das princesas clássicas: o amor não é mais o final feliz.

O que permanece? O fato de que crescer é tornar-se órfão. Nos contos de fadas a mãe amorosa morre rápido (quando na verdade é o filho perfeito que sucumbe, assim que começa a crescer e aparecer). É aí que as madrastas e bruxas são convocadas para representar os conflitos normais do desenvolvimento. E mais, a mulher terá que desbancar a mãe, cuja juventude fenece esperneando, superá-la em encantos. Deverá a seu modo matá-la, apropriar-se dos atributos femininos. Esse conflito alimenta a paixão das meninas por histórias de princesas e bruxas.

O que não tinha como sobreviver? A idéia de que a vida de uma mulher encontra o ápice no casamento. Da revolução de costumes dos anos sessenta, da libertação da tristeza pelos horizontes estreitos do lar, veio a certeza de que elas querem mais. Para nós, liderados por uma presidenta guerreira, não é uma surpresa.

PS: uma leitora me lembrou que era bom avisar que não é um filme para os pequenos! Concordo. Já para os grandinhos, até os já beeeem grandinhos como eu, é diversão garantida! Seguir pela vida afora em companhia de nossos contos de fadas prediletos, que se transformam para nos acompanhar, é uma experiência instigante. Se outrora eles animavam as veladas dos trabalhadores cansados, na voz dos contadores de histórias, hoje, através do cinema, eles nos reencontram já adultos. Igualmente cansados, agradecemos as boas doses de fantasia, que distraem e enriquecem. Ainda por cima nos re-conectam com a infância e com os personagens significativos da nossa história e constituição imaginária. Convém nunca esquecer, que mesmo depois que ela acabou, é a infância a matriz onde a fantasia nasce e se opera. Ali moram histórias que usamos como instrumentos para elaborar nossos pequenos problemas e dilemas. Nesse sentido, sou particularmente grata à Branca de Neve, que foi meu alter-ego durante alguns anos quando era criança. Foi muito bom reencontrá-la e torcer por ela em lutas e batalhas. Mesmo que a Charlize Teron (a bruxa) seja a mais bela…