Estima-se que a população de Barbies já chegaria a um bilhão. Perde apenas para a população da China e da India, e, com esse número, poderia pleitear um assento no conselho de segurança permanente da ONU. Esse grande número, e uma cultura, ainda que não profunda mas vasta, não intimidou Fernanda Roveri em sua incursão ao mundo da Barbie. Saiu recentemente seu livro Barbie na educação das meninas: do rosa ao choque. (Annablume editora, 2012). O trabalho é sobre a boneca, em primeiro plano, mas se abre para o questionar o sexismo radical dos brinquedos que estão em oferta para nossos pequenos.
A autora nos fornece um panorama da origem e evolução desse brinquedo, desde os impasses de sua criação, até as estratégias de venda que a tornaram a mais importante boneca já concebida. Na apreensão do problema a autora não se restringe aos efeitos culturais: vasculha dados sobre sua produção, a toxidade dos materiais, os chineses quase escravos que as fabricam, além das brigas nos tribunais, em inúmeras querelas jurídicas. Revela os bastidores da indústria de brinquedos, a qual nada têm nada da magia que seu produto final tenta encarnar. É a mesma estratégia agressiva dos outros setores, com seus golpes abaixo da cintura, mas que nos é vendida como ousadia, criatividade e competitividade. Depois do livro é difícil ver a Barbie com os mesmos olhos: com a lupa que o livro nos empresta, o brinquedo da Mattel ganha uma aura sinistra.
Quanto à alma do produto, pois os brinquedos nos chegam hoje acompanhados de um universo simbólico, como nos lembra a autora, mais que uma boneca, Barbie é um modelo de feminilidade. Porém trata-se de uma versão rebaixada, estereotipada, uma boneca do século XX com personalidade do século XIX. Ela não entende de matemática e gasta quase todo seu cérebro para vestir-se e adquirir acessórios. Bom, na verdade, seria extraordinário se não fosse assim, a Mattel não é uma escola nem tem finalidades educativas, apenas re-transmite os valores contemporâneos mais tradicionais.
Tendo a discordar do livro apenas em um ponto: quanto à maneira como concebe a transmissão dos valores sociais para as crianças, como se fosse sem mediação. Ou seja, como se um objeto falasse por si e a criança reproduzisse esse discurso ou o tomasse sem filtros. Na verdade, mesmo que esteja carregado de significados e mensagens, nenhum objeto em si tem tanto poder. As crianças têm muito a nos ensinar sobre a relação com os objetos, pelo menos aquelas que são saudáveis o suficiente para brincar no sentido pleno da palavra. Brincar é criar, é corromper o brinquedo ao sabor de sua imaginação. Somente crianças muito isoladas, com parcos recursos intelectuais, e ou com transtornos de saúde mental, tomam os brinquedos e mensagens culturais de forma direta.
Entre a criança e o brinquedo existem muitos mediadores e os pais são fundamentais nesse cálculo. As crianças não têm orçamento próprio, há sempre um adulto entre ela e seu brinquedo. Portanto, mesmo que o pedido venha do pequeno consumidor, a compra é um aval para que esse objeto faça parte da vida da criança. A pergunta que se impõe nesse caso é: como podemos dar tal boneca às nossas filhas? Será que desejamos que elas tenham horizontes tão estreitos? É uma aposta em sua futilidade? Revela nossa visão verdadeiramente retrógrada da condição feminina?
A resposta não é difícil: a boneca Barbie pode servir para estabelecer parâmetros externos sobre aparência das mulheres, portanto transmite valores estéticos, que servem para calar as inquietações dos pais a respeito da formação da identidade de gênero. Embora hoje os gêneros estejam entrelaçados como nunca, tanto no papel desempenhado no mundo, quanto na aparência, ainda nos sentimos muito inquietos relativo a isso. Existe um apego aos indícios que caracterizam um gênero ou outro, já que nos restam tão poucas certezas sobre a identidade que queremos, podemos e devemos ter. Parecer mulher ou homem é ainda um valor fácil de adquirir e ostentar. Os pais contemporâneos sentem-se inseguros de conseguir transmitir aos filhos o suficiente para que eles sejam “maravilhosos” e “vencedores”, tão perfeitos na realidade quanto na sua fantasia. Se os filhos se parecerem em gênero ao sexo em que nasceram, os pais se tranqüilizam, missão cumprida, pelo menos nesse quesito.
Os brinquedos marcadamente femininos ou masculinos (ou seja, a maioria deles) cumprem essa função de assegurar aos pais do destino “correto” de seus filhos. A tolerância às ambiguidades sexuais, quando ela existe, funciona com os filhos dos outros. Quanto aos próprios, só os extremos bem marcados são bem vindos, por isso os pais são cúmplices da industria de brinquedos. Pais que compram Barbie sabem o que fazem, e pagam, concordando ou não se importando, com o efeito colateral de uma identidade feminina superficial e vazia que acompanha o brinquedo. A Mattel trafica valores discutíveis, é uma indústria carente de qualquer de ética, concordo. Porém, o consumidor, assim como a criança, não é tão tolo: pagamos caro pela ilusão de uma certeza, a de que existiria um jeito certo de ser mulher.
Por sorte, as mulheres, com suas inúmeras revoltas e conquistas, apesar de brincarem com bonecas tão fúteis, estão cada vez menos Barbies.
Publicado na Revista Carta Fundamental – Edição de maio de 2012

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