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Um lugar para nascer

26 de agosto de 2012 0


Tenho longa história de fascinação pelo parto, por isso queria opinar num assunto que atualmente tem suscitado polêmica: o parto domiciliar. Sou contrária à transformação do nascimento num momento artificial. Sofro com a atual alienação das parturientes do processo, parto não é cirurgia eletiva. Porém, fico intranqüila que o parto ocorra longe dos recursos de um hospital, pois são muitas as ameaças que pairam sobre a dupla mãe-filho no primeiro encontro.

Quando jovem tive várias oportunidades de acompanhar partos, primeiro como curiosa insistente num hospital público, após como estagiária no Hospital Presidente Vargas, onde testemunhei um trabalho exemplar. Não estive lá tantas vezes porque acho o parto um espetáculo fácil. O nascimento é algo demasiado estranho, beirando o traumático, que precisei ver, muitas vezes, para assimilar sua realidade e encanto.

Como um ser humano acontece, do nada ao tudo, dentro de um ventre? Inaugura-se com a loteria da fecundação, o feto segue um programa próprio de transformações, sugando os recursos da futura mãe, sem com licença nem obrigado. O parto, irruptivo, também impõe-se quando for sua hora. O corpo materno se esgaça, a passagem tem que se abrir, quer seja pelos músculos ou pelo bisturi. No ápice de um parto normal, o topo da cabecinha cabeluda se anuncia, surgida de um orifício onde não se acredita que possa passar nada, eis alguém começando seu caminho pela vida!

Hoje não estamos muito preparados para grandes emoções como essa, queremos só as planejadas, susto de parque de diversões basta. Frente aos acontecimentos fortes, não sabemos bem o que pensar, tememos nunca estar à altura. Preferimos planejar, controlar o destino. Santa ingenuidade.

Esquecemos que o parto, assim como a gestação, sabem seu caminho pelo corpo, podemos confiar nisso muito mais do que se ousa atualmente. Marcando cesarianas desnecessárias, muitas mulheres deixam de viver o protagonismo a que teriam direito. É outro o envolvimento de uma parturiente usando seus movimentos, seus músculos, para colocar o filho no mundo, em vez de vê-lo ser-lhe retirado, imobilizada, inerte, cortada.

Por outro lado, também trabalhei com crianças com problemas de desenvolvimento, muitas delas seqüeladas por partos mal-atendidos, gestações mal-acompanhadas. Uma UTI neo-natal é decisiva quando os contratempos se avizinham. Vi mais de uma vez mães e bebês à beira da morte, por complicações imprevisíveis, que se salvaram por estarem em um hospital.

Quero para minhas filhas, amigas e pacientes, para todas as mulheres que amo, o direito a serem cuidadas num hospital. Mas também a que sejam sujeitos atuantes, presentes de corpo e alma ao nascimento dos seus filhos. Participar não significa marcar data, contratar equipes de filmagem, mas sim a possibilidade de acreditar na própria força, parir sem alienação. O parto humanizado é uma antiga e valiosíssima reivindicação, mas não em casa.

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