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Posts de setembro 2012

A "boa"morte

30 de setembro de 2012 0

Perdi uma amiga, partiu antes de ficar velha. Ela deixa marcas importantes em sua área profissional, uma legião de amigos órfãos de sua presença, uma vida plena, interrompida por um câncer fulminante. Mal teve tempo de passar pelas torturas da doença, viveu seus últimos tempos ignorante do mal que implacavelmente a corroía. Graças a isso, viajou, estudou no exterior e se divertiu. Sentia vagos mal-estares estomacais, que atribuía à alimentação. Quando seu trágico destino foi revelado, já era tarde para qualquer providência, que, se tomada antes, tampouco seria diferente. Ela teve uma, sempre indesejável, boa morte. Se é possível desejar algo nesse território, também gostaria de partir assim, tendo tido o direito de viver plenamente até o fim, como ela.

Nesse sentido, celebro a resolução do Conselho Federal de Medicina, que se pronunciou sobre os termos do “Testamento Vital”. Trata-se do direito de deixar estabelecidos os limites a respeito dos procedimentos aos quais não desejamos ser submetidos na fase terminal. A morte deveria pertencer a seu protagonista, mas infelizmente, não existe momento de maior entrega.

Duvido que exista alguém que não tenha fantasiado sobre seu enterro. Quem não gostaria de ser uma mosca para assistir à própria despedida? Na derradeira celebração, estaríamos em condições de avaliar a veracidade das lágrimas, estimar nossa importância para os outros. É também oportunidade de, por que não, deixá-los culpados, se por acaso isso nos satisfaz. Dizem que a mãe judia vai mandar gravar em sua lápide: “eu disse que não estava me sentindo bem”. No enterro, nosso epitáfio está na boca de todos, cada presente oferece uma frase que nos definia, ou uma memória marcante do convívio, dirá em que lhe faremos falta. Enfim, parece o momento em que nossas maiores perguntas estarão por fim respondidas e não estaremos lá para ouvir. Pena.

O problema é que até esse momento, em que nosso ser transforma-se nas palavras dos que permanecem vivos, precisamos passar pela dura transição de morrer. Morrer costuma doer. Dói sentir-se esvair, é absurdamente triste ver-se partir, dói o corpo que colapsa. Tenho mais medo de morrer do que da morte.Talvez, se minha amiga tivesse tido tempo de escrever seu testamento vital, não escolheria outros termos para sua partida.

Há pouco o mundo assistiu chocado ao suicídio do diretor de cinema Tony Scott, que pulou de uma ponte, dizem que após constatar que possuía uma doença incurável. Abisma-me semelhante ousadia, não só relativa ao ato em si, mas também de assumir essa posição frente aos seres queridos. Morrer é como sair de uma festa, cedo é constrangedor, tarde é melancólico, buscamos a hora certa e sempre ficamos com a sensação de ter errado o momento. Nunca faria um ato como o de Scott pois o efeito dramático sobre os que ficam é avassalador, também é preciso zelar pela dor deles. Quando chegar a hora, só peço que me poupem de torturas desnecessárias e me deixem partir. Essa é minha vontade e creio que a de tantos.

Tatu-bola ou jequice-tatu? (por Mário Corso)

29 de setembro de 2012 0

Imagine que você seja um publicitário e precisa criar uma marca. Seu cliente dispõe de um cardápio rico, mas escolhe como símbolo algo que: entre o dia e a noite prefere a noite; entre o céu e a terra escolhe o subsolo; entre as cores vivas opta por um monocromático pastel; ao invés de um barulho vivaz escolhe o silêncio. Não é uma marca para uma funerária e sim para uma festa com convidados do mundo inteiro. Você pensa que isso não pode acontecer? Pois acabou de acontecer.

Não acreditei quando soube que o futuro mascote da copa será o tatu-bola. Conferi o site, pensei estar no Sensacionalista. De onde partiu semelhante idéia? Animais ctônicos como ele, habitantes da intimidade da terra, simbolicamente trazem conotação negativa, vide a cobra, o lagarto, a minhoca, a toupeira. O tatu nos lembra buraco, esconder-se, é um animal defensivo, que foge da briga, ou seja, animicamente um covarde. Seus dotes físicos tampouco ajudam, é sem graça e cor de terra, possui uma armadura escamosa sem charme, uns poucos pelos espetados e desgrenhados por baixo. De hábitos noturnos, só sai à noite para conversar com a coruja. Quanto aos nomes do tatu, não podemos reclamar, afinal, embora ainda não escolhido entre: Fuleco, Zuzeco ou Amijubi, as opções, são tão esdrúxulos como a escolha do animal, portanto, há uma coerência interna. Nessa lógica, é claro, apaga-se o único ponto forte do candidato: a sonoridade fácil de seu nome e que contém a palavra bola. Se não há escolha deixem tatu-bola, ainda que seja uma bola (o tatu enrolado sobre si) que não rola, e não se possa nem se deva chutar.

Um animal terrestre já representou o Brasil: a cobra fumando, símbolo da FEB. Mas o contexto era diferente, simbolizava a adesão à guerra. Como miticamente a terra está conectada à morte, um signo que lembra-se isso era perfeito. A escolha se deve à famosa frase, em que se dizia ser mais fácil uma cobra fumar do que o Brasil entrar na guerra, e a cobra fumou. Outras frases e metáforas foram usadas para dizer o mesmo, mas essa pegou por que representava o Brasil e seu momento. O exército brasileiro era pequeno e mal preparado, só a matreirice e oportunismo poderiam fazer dele fatal, por isso um ofídio. Pequena, mas mortal. O Brasil com os perigos traiçoeiros da selva eram assim evocados.

Quando Disney criou uma personagem para o Brasil escolheu um papagaio: Zé Carioca. A idéia do malandro nem era dele, nós é que nos vendíamos assim. Faz pouco, o filme Rio fez sucesso com uma Arara Azul que ficou associada ao Brasil e ao Rio de Janeiro. Essas aves colaram nos representando porque são animais do dia, solares e coloridos como é nosso país. Essas aves não só “falam” como o falam alto, fazem barulho, são associadas à alegria e ao bom humor. Elas têm tradição nesse quesito, por que desperdiçar esse gancho?

Os argumentos pelo escolha são frágeis. O tatu é um animal em extinção, é verdade, mas ele e quantos mais? Ele representa o cerrado e a caatinga, ok, mas essas regiões não espelham o Brasil no imaginário mundial. Para fora, nosso país é selva e mar. O que aliás é ótimo, com eles estamos em um território de diversidade, imensidão, força e magia. Ou seja, temos uma natureza rica, uma fauna incrível, se queremos abrir nossas portas, especialmente ao turismo, não seria mais fácil pegar algo já registrado na cabeça de todos como um valor positivo?

Faça uma experiência simples: lembre ou pergunte a alguém quais são os animais que estão impressos nas notas que manuseamos todos os dias. Os acertos serão maiores para a onça, na nota de 50, para a arara na de 10, e o mico na de 20. Quanto às outras, a maioria vai ter que meter a mão no bolso e olhar. Enxergamos melhor o que já é conhecido, e esse é um princípio básico quando quer se fazer um novo símbolo que pegue. Esses são os momentos onde é o óbvio que conta pontos, a boa propaganda dá roupa nova a velhos arquétipos. Não somos condenados a sermos representados eternamente pelos mesmos símbolos, o novo pode e deve advir, mas nesse caso não estamos criando material para currículo de escola, um projeto para o país, o que conta é a eficácia de uma imagem que divulgue a copa e traga o maior número de pessoas possível, que passe uma imagem de um pais acolhedor, exuberante e aprazível. E se fosse mesmo para fazer um corte com a representação tradicional do Brasil, sempre ligada a um elemento da natureza, que escolhessem um símbolo cultural, por que não um duende como o Curupira? Seria um toque de magia indígena, autóctone.

A tentação para um psicanalista é interpretar esse tatu com um ato falho. A COL escolheu um animal fabril (sim, para isso ele serve, ele constrói buracos, intervém na natureza) pois nada está pronto para copa e conviria chamar mais um operário. Um especialista em terra ajudaria nos túneis e estradas que ainda não saíram do projeto. Ou então o que retorna seria a personagem Jeca Tatu de Monteiro Lobato, símbolo do Brasil provinciano, inculto, doente e pobre. O país cresceu, livramo-nos do Jeca e ficamos com o Tatu. Seria ele o que restou da nossa jequice?

É a segunda bola fora no quesito imagem e propaganda. O símbolo da copa, aquelas mãos em verde e amarelo tampouco estão à altura do que podemos fazer. O design e a propaganda no Brasil fazem coisas muito melhores.

Que fique bem claro minha adesão ao projeto da copa no Brasil. Sou um entusiasta, creio que o Brasil tem condições de fazer uma copa como qualquer outro país. Tampouco acredito que esse dinheiro gasto em infra-estrutura seria melhor investido em escola, hospital, esse argumento tolo das prioridades. Essa conversa soa como deixar de fazer o Natal para economizar e trocar a geladeira, cancelar as férias para pagar um plano de saúde melhor. Quem realmente faz isso? É incrível como tem quem dá conselhos que não segue.

A questão que me preocupa é outra: se a inteligência que vamos usar para fazer a copa pode ser medida por decisões como essas, começamos com um gol contra.

Carnaval de Primavera

26 de setembro de 2012 0

Os historiadores não se cansam de lembrar que a dita tradição gaúcha, o gaudério de bota, bombacha, lenço no pescoço, sorvendo sua cuia de chimarrão, não passa de uma brincadeira cultural. Longe da verdade histórica, o bravo guerreiro, tão celebrado a cada setembro, é a fantasia glamourizada de um peão que nunca existiu.

Homens e mulheres vivem nos CTGs, no Acampamento Farroupilha e nos desfiles, uma espécie de carnaval de primavera. Fantasiados de gaúcho e prenda, fazem danças típicas, acrobacias eqüestres, e festejam por vários dias o mútuo reconhecimento. Depois falamos da longa duração e da entrega popular aos orgiásticos e ostensivos carnavais baiano ou carioca, como se os prolongados festejos sulistas nos ocupassem menos. De qualquer modo, durante essa época os nativos sentem-se felizes e tranqüilos, assim fardados e comportando-se conforme os clichês da personagem. Umas poucas insígnias resolvem as inquietudes de que tanto padecemos.

Fora da festa, a vida é mais hostil: o papel viril e feminino não cessam de ser questionados, a sabedoria dos pais não vale um vintém e, diferente do Patrão do CTG, ninguém ousa dizer aos mais jovens o que vestir, cantar e pensar. No baile à fantasia tradicionalista, basta envergar o traje regulamentar e todas essas incertezas são banidas, gaúcho corretamente fardado é macho, prenda com saia de armação e flor no cabelo é mulher. As dúvidas do século XXI são resolvidas com o imaginário do XIX e estamos conversados.

“Não há como ser original, se não for com base em uma tradição”, escreveu o psicanalista Winnicott, aludindo ao fato de que partimos de uma base, que nos alicerça, justamente para transcendê-la. Nesse sentido, é sempre bom lembrar que, apesar do aspecto tranqüilizante da festa regional, nossa cultura só mostrará sua riqueza enquanto for tributária do maior acervo de referências que pudermos adquirir. Jorge Luis Borges, que muitas histórias de homens do campo escreveu, já dizia que “nossa tradição é toda a cultura ocidental”, “nosso patrimônio é o universo”, e que “não podemos aferrar-nos ao argentino para ser argentinos: porque o ser argentino é uma fatalidade e nesse caso o seremos de qualquer modo”.

Ele propunha, como contraponto, que “se nos abandonamos a esse sonho voluntário que se chama criação artística, seremos argentinos e seremos, também, bons e toleráveis escritores.”. O mesmo vale para nós, gaúchos. Só para lembrar que nosso movimento tradicionalista organiza uma boa festa popular, mas a arte e a cultura das quais nosso povo pode se orgulhar são muito maiores do que isso.


Frankenstein on drugs

12 de setembro de 2012 0

oO cara não se sente à altura do cargo, teve a sorte de ser selecionado, mas se acha infra-dotado. O trabalho é insano, seus colegas também estão alucinados, todos fazem coisas além das suas capacidades, superar limites é o mínimo que se espera. Conhecem-se pouco, para a organização são números, importante é o sucesso da missão. Só há um jeito de garantir a eficiência: drogas. Consumidas garantem um desempenho perfeito. Os outros também usam, todos temem a abstinência, sem elas nada feito.

O discurso acima serviria para o mundo dos negócios, do entretenimento, da vida social, mas no caso trata-se de um filme, no qual agentes americanos, a serviço de missões secretas, são submetidos à manipulação bio-química. É Legado Bourne, o quarto filme da série inspirada nos livros de Robert Ludlum, agora sem o charme de Matt Damon, mas ainda divertido. A novidade desse episódio é a conexão das capacidades superlativas do herói com as substâncias que lhe são administradas, o que o torna um dependente químico. A corrida toda, que é a luta da criatura contra o criador, característica dos episódios anteriores, agora circula em torno desses remédios. O herói atual sonha em libertar-se deles, mas não sem antes garantir o efeito permanente dos poderes que lhe emprestam.

Os filmes sobre o agente Jason Bourne são variações sobre o tema da história de Frankenstein. Desde o monstro de Mary Shelley (1818), surgiram muitas versões dessa criatura.Todos eles, a exemplo dos Replicantes de “Blade Runner”, são fruto de um sonho transformado em pesadelo. O enfrentamento entre cientista e sua obra, a criatura, é sempre terminal e o arrependimento pela empreitada determina a eliminação da experiência. Victor Frankenstein recriou a vida, reanimou tecidos mortos e horrorizou-se com seu ato no mesmo momento em que seu monstro abriu os olhos. No caso dos Replicantes, de vários robôs da ficção e destes agentes secretos turbinados, produzem-se seres de potência incontrolável, que pecam por ganhar autonomia e desobedecer. Mas o importante nesta série de reaparições do mito, é investigar as novas formas que ele assume.

Neste caso, o que a criatura quer é eficiência. Para tanto, precisa das drogas da eficiência, legais ou ilegais, que fazem parte da nossa cultura. Na missão de vencer, distração é pecado, os outros são inimigos ou rivais, limites são para os fracos. Se falhar, a fila anda, você está morto. Hora de reler Frankenstein, pois a história começa com um aviso: a obsessão por ignorar os limites torna-nos seres assustadores, irreconhecíveis aos próprios olhos.