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Tudo ou nada (sobre o livro de Luiz Eduardo Soares, por Mário Corso)

07 de outubro de 2012 0

Tudo ou Nada


Existem livros que a gente não sabe porque começa, tropeça neles, não seria nosso tipo de literatura. Tudo ou Nada de Luiz Eduardo Soares foi um desses acasos felizes. Não pelo autor, pois o tenho na mais alta consideração, tanto intelectualmente como por sua trajetória. É o mote que não me atraía. No que a história particular, verídica, de um carioca da elite que cai no mundo das drogas e depois no negócio da droga (em grande escala) poderia interessar a mim?

Meu erro foi esquecer que o autor é antropólogo e, para essa tribo, o olhar é sempre total. Eles miram para um objeto considerando todas as variáveis, das mais óbvias às mais recônditas. É aqui que o livro encanta, tratando a droga como ela é: um fenômeno complexo, múltiplo, que abarca todos os campos do espectro psicológico e social. A grande maioria, assim como a mídia, não fazem essa ressonância ampla. Habitualmente trata-se da questão da droga na bitola estreita, entre a polícia e a medicina, em outras palavras, entre bandido e doente. A questão é que a droga é muito mais do que isso e o desconhecimento, ou a resistência à admitir sua complexidade, é que fazem com que ela tenha um custo social tão elevado.

Poucas páginas e já estamos querendo saber como Lukas vai sair da enrascada em que está, e como foi mesmo que entrou. O livro nos fisga como uma história de detetive, mas a isca se revela maior e mais saborosa. Ao longo da história, o autor começa a contextualizar os passos e as escolhas de Lukas, nos conta os dramas particulares, mas amplia o leque para os impasses da sua geração, do que se passava então no mundo, do que se acreditava e como Lukas lidava com esses campos de força. Tudo muito equilibrado, de modo que nem nos damos conta quando o contador da história se cala e o ensaísta começa. É um livro bem escrito e generoso com o leitor, nos divertimos aprendendo, sofremos com Lukas, mas como ele, saímos melhores ao fim do livro.

Como o autor entende bem do sistema de repressão às drogas, entenda-se a polícia, o judiciário e a cadeia, seus mecanismos são esmiuçados com uma clareza ímpar. Visto que a trama é internacional, a diferença de políticas em relação às drogas também é descrita. Portanto, o livro serve para o leitor informar-se com profundidade sobre o universo da droga, do tráfico ao consumidor, saindo da visão moralista e limitada que a mídia nos vende.

Abundam livros e reportagens sobre drogas, mas raras convidam ao pensamento. As discussões costumeiras sobre toxicomania se travestem de científicas, mas, de fato, não ultrapassam o campo moral: nos posicionamos frente a ela como o fazemos frente às diferentes formas de obter prazer. Condenar as drogas é condenar um gozo que consideramos errado, e vamos ser tão mais radicais e aferrados contra ele, quanto maior for a tentação. O preconceito é proporcional à barreira que temos que erguer, como resistência, para fazer frente ao invasivo que supomos que esse gozo possa ser. Poucas coisas nos assustam mais do que formas diferentes (das nossas) de obtenção de prazer. É por essa dificuldade que, quando falamos sobre drogas, pouco levamos em conta a realidade e sim nos afundamos em discussões bizantinas que escudam uma posição moralista. Posamos de cientistas para esconder um pastor evangélico.

Inflacionamos o problema das drogas enxergando a totalidade dos problemas com ela como se sempre fossem como são nos casos extremos, em que ela destrói o consumidor. Um paralelo simples ajuda a entender: seria como se nós classificássemos todos que bebem álcool como alcoólatras. Desde seu amigo que toma todas, todos fins de semana, até sua tia que toma um cálice de champagne por semana, ao o sujeito que toma uma cerveja no dia do seu aniversário. Imagine classificar todos como bebedores que abusam. Infelizmente é com essa régua torta que medimos e pensamos a droga, enquanto na realidade ela é consumida em larga escala, por muitíssimas pessoas, durante muito tempo, e nem por isso ela leva a uma paralisia da vida. A droga pode destruir vidas, mas em muitos o consumo acha um equilíbrio estável. O paradigma de que as drogas começariam bem, mas em algum momento iriam desestabilizar e destruir o seu usuário é falso. O fato de acontecer algumas vezes não quer dizer que aconteça sempre.

Muitos dos profissionais que lidam com ela sabem disso, porém seguem exagerando os efeitos da droga numa política de nos afastar dela. O estrago, quando acontece, seria (e é) tão grande que uma mentirinha útil não viria mal. Os fins justificariam os meios, o problema é que sabemos que são os meios que fazem os fins. Ou seja, a política das drogas funciona de forma paternalista, na intenção de proteger, infantiliza o interlocutor. Não conversa com ele de adulto para adulto, conversa como se ele fosse um adolescente rebelde e mal informado sobre o alcance do inferno das drogas. E os conselhos são um samba duma nota só: pare de usar. Quando você ouvir alguém dizer que a única forma de lidar com as drogas é a abstinência total acredite, essa é a forma que ele tem de lidar com a droga, e talvez seja a possível para muitos, mas querer que todos ajam dessa maneira é contraproducente.

Esse é um dos casos em que somos obrigados a explicitar nossas posições para não cair na lógica rudimentar: se ele não acredita em nosso deus, deve ser amigo do diabo que mais tememos. Para evitar mal-entendidos adianto: não uso drogas, não recomendo o uso drogas, e não raro, ajudo pessoas que se perderam por usá-las. Conheço de perto o poder destrutivo que as drogas podem ter, mas não consigo fechar os olhos para a realidade efetiva da toxicomania generalizada em que vivemos. Talvez devamos assumir que os drogados não são necessariamente só os outros. Em certo sentido, somos quase todos, pois há uma disseminação ampla se não deixarmos de fora as drogas legais para pensar a questão. Sem isso, sem levar em conta todos os fatos, não teremos possibilidade de enfrentar os sérios problemas gerados pela dependência.

Não é possível pensar esse momento toxicômano sem falar do mal-estar social, não vivemos no melhor dos mundos, ao contrário, é um mundo que precisa de muita droga para funcionar. É certo que temos problemas por nos drogar, mas é muito mais verdade que nos drogamos por que temos problemas. Vivemos premidos por exigências de boas performances profissionais, ter sucesso na vida amorosa, ser bonito, cuidar do corpo, e qualquer falha num setor arruina o todo. São ideais que criam uma multidão de fracassados e é para não fracassar, especialmente na questão central que coroa tudo: a exigência de ser feliz, que usamos tantos aditivos. Como a vida hoje não é para os fracos, não há espaço para tristeza, afogue-a com qualquer coisa.

A política de tolerância zero não funciona no caso da droga e uma sociedade livre de drogas é, neste momento, nesse mundo competitivo e ansioso, uma utopia ingênua. Vivemos numa sociedade fortemente toxicômana e não nos reconhecemos como tal. O pai não dorme sem o uísque e o rivotril, a mãe toma anti-depressivos fazem anos, o caçula não estuda sem ritalina, mas o único errado é o filho que fuma maconha. Temos remédios para dormir, para ficar acordado, para ficar mais focado, para viabilizar uma ereção, para calar a angústia, para driblar a depressão, para não oscilar o humor, enfim, a lista é grande. Sinto dizer, mas se mediamos nossa relação com a realidade utilizando drogas, elas estão simbolicamente no mesmo plano. Portanto, as compradas do traficante da esquina, ou receitadas por um médico, se o uso for ajudar a suportar a vida, talvez elas encontrem algumas coincidências no uso. O que devemos reconhecer é que é bem difícil não usar drogas para amenizar a angustia de existir e de enfrentar a realidade. Minha questão é: por que só as ilegais são combatidas com veemência? Por que o establishment grita tanto contra as drogas ilegais e aceita tão fácil a medicalização massiva até de crianças? Os excessos estão dois dois lados. A banalização da medicalização tarja preta sinaliza que um incremento químico faz a diferença. Então, por que não a maconha, pensam os jovens? Faz parte da toxicomania a crença que a realidade é desbotada, insuportável e intransponível sem um determinado elemento químico, ora, esse raciocínio vale para todas as drogas.

Minha recomendação do livro é também por que nele encontrei uma das melhores descrições, tanto poética como no relato empírico, do vazio a que a droga pode nos levar, dos labirintos circulares, das promessas que não se cumprem. O autor nos conduz a passear sem medo entre escombros de sujeitos que caíram em seu canto enganoso, e essa é a melhor política: conhecer sem preconceitos o mundo da droga. Temer o desconhecido é natural, por isso a política de exorcismo encontra eco popular. Mais difícil é admitir-se espelhado, nem que seja remotamente, naquilo que condenamos mas nos diz respeito. Nossos piores preconceitos são dedicados às maiores tentações e a droga não foge a essa regra. Este livro transpõe um pouco do abismo da ignorância, relativo a algo que compreendemos inconscientemente, mas a consciência condena. Eis uma experiência de lucidez que nenhuma substância turva, mascara, alucina. A realidade é difícil e Soares nos proporciona uma incrível viagem de cara limpa.

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