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Posts de outubro 2012

Maduros, não caindo.

28 de outubro de 2012 0

Manchetes aleatórias de jornal: “idoso(a) é atacado por ladrões”, ou “idoso morre num acidente”, “idoso é suspeito de assassinato”. Para minha surpresa, lendo a matéria descubro que o idoso em questão tem ao redor de sessenta anos! Não estou pronta para me considerar uma idosa em dez anos.

Para um jovem repórter de vinte anos, tudo depois dos cinqüenta é a antecâmara do fim, então tanto faz. Não o recrimino, todos ficamos confusos para entender o que é mesmo um velho. Há o preconceito social, velhice é aquilo cujo nome não se deve mencionar, como se invocasse um mal. Mas também a confusão é propiciada porque a fase considerada “terceira idade” (quais são mesmo as duas primeiras, não há muito mais?) tornou-se muito longa e as pessoas amadurecem e fenecem de formas díspares.

É similar ao que ocorre na infância. Existem crianças de todos os tamanhos e diferentes graus de amadurecimento respondendo pela mesma idade. O crescimento passa por épocas de aceleração, outras de estagnação. Uns funcionam aos trancos, por arranques, outros numa linha contínua, há ainda os que desabrocham do dia para a noite. A juventude e a idade adulta são as épocas mais uniformes da vida em termos de imagem corporal. Desde que se “bota corpo” até que os “enta” começam a se empilhar somos muito parecidos. É difícil saber se alguém tem vinte ou trinta e tantos. Depois disso, ficamos desiguais como as crianças.

Existem sexagenários, septuagenários e octogenários de todos os matizes. Tirando um que outro achaque e alguns médicos a mais na rotina, há hoje nessa fase muita gente produtiva, independente, bonita. De mesma idade, há os que cedo se acovardam, se isolam, comem e dormem frente à televisão, vivem para a doença e esperam a morte.

Em respeito a esses cidadãos vividos e vivazes, e a nós mesmos, talvez devêssemos criar uma nomenclatura mais complexa para a dita terceira idade. Gostaria do direito às etapas. Começaria, aos sessenta, por “adultos tardios” (assim como existem os “jovens adultos”, em inglês usam “older adults”). “Maduros” também é bacana, dá idéia de finalmente estar no ponto. Depois, talvez “septuagenários”, ou “idosos principiantes”? Aos oitenta finalmente aceitaria ser considerada idosa, para que as limitações do meu corpo fossem respeitadas com direito à acessibilidade e uma rotina mais pausada. Os argentinos têm palavras simpáticas: “maduros” para os que recém começam a sentir o pior da idade, “gente grande” para os que já chegaram lá. Aceito sugestões.

A infância, cuja valorização social tem poucas centenas de anos, já possui uma série de palavras para descrever seus processos. O mundo nunca esteve tão velho, mas a maturidade ainda não recebeu a mesma consideração. Viver mirando-se numa patética juventude eterna nos impede de usufruir da experiência. Nomear, classificar, estudar, servem para aceitar e, quem sabe, usufruir da sabedoria daqueles que talvez tenham aprendido algo com a vida.

Confissões de uma Centopéia

27 de outubro de 2012 0

Quando jovem adorava histórias de pioneiros americanos e sua vida difícil. A compra de um tecido, de uma fita, um instrumento, uma boneca, eram ocasiões raras e comemoradas. Aquela vida espartana, em cujas páginas gostava de me aninhar, parecia valorizar os objetos com os quais se convive, eles precisavam de muito menos coisas que nós. Sentia o aconchego da justa medida, de um tempo em que se era livre da necessidade de consumir. O vasto acesso a uma infinidade de objetos cansa: o que parecia possibilidade torna-se compulsão, é o feitiço que acaba dominando o feiticeiro.

Possuo muito mais sapatos do que necessito: fosse uma centopéia, estaria abastecida. Certa vez, discutindo o porquê dessa fascinação por calçados com uma amiga, ela observou: o sapato é a única peça do vestuário que mulheres de qualquer silhueta podem comprar! Serve para todas, sempre cai bem, sejamos mais ou menos afortunadas pela beleza. Se a democracia pédica é uma realidade, conclui-se que, mais do que de sapatos, gostamos é de poder comprar.

Homens trocam carros que ainda estão ótimos; os celulares são os sapatos dos adolescentes; crianças acumulam tantos bonecos ou carrinhos que se atrapalham para brincar; idosos são vítimas dos canais de compras. Uma amiga que vivia com os pais velhinhos tremia cada vez que soava o interfone, alguma encomenda estapafúrdia estava chegando!

Independente do número que se veste, idade ou sexo do consumidor, a publicidade sempre tem algo a nos oferecer. Sereias cujo canto nos fascina, comerciais e lojas parecem saber como traduzir nossos desejos, sempre tão difíceis de compreender, em objetos passíveis de comprar. Nunca sabemos bem o que queremos ser ou ter: a quem, como e quando amar, como trabalhar, como descansar, de quais prazeres usufruir, como fazer para ser admirados. A pergunta do gênio da lâmpada é sempre angustiante: quais seus desejos? Em termos de consumo, tudo isso fica fácil de definir: as crianças, os amigos secretos e parentes são instruídos a pedir algo em datas festivas, ocasiões em que felicidade e amor se materializam, parecem compráveis. Por isso nos frustramos tanto.

Consumir é uma satisfação que pede sempre mais. Como todas as ilusões, essa idéia de que, mesmo por um instante, é possível saber exatamente o que nos faz falta acaba sendo um alívio provisório. Mas como um vício, só funciona se não parar. Quando o objeto está em mãos, o vazio já se instala. Compras só adiam a insatisfação, que ruge mais forte quando provocada. O consumo é o ópio do desejo, entorpece o que realmente nos move. Enfeitiçados pelo canto das compras, ignoramos nossos verdadeiros desejos. Estes, só se expressam se tivermos coragem de enfrentar, com angústia, a pergunta verdadeiramente genial: afinal, o que você quer?

Publicado na Revista Vida Simples, edição de outubro

Moonrise Kingdom

24 de outubro de 2012 0

Desta vez não há bruxas, ogros, príncipes malvados, ajudantes mágicos, animais falantes, fadas madrinhas, malvados. Mesmo assim o clima de Moonrise Kingdom (de Wes Anderson, 2012) é de conto de fadas. Na falta de personagens fantásticos, há muita aventura: perseguições, lutas e perigos, mas o verdadeiro combate é contra os ressentimentos e frustrações que impedem as pessoas de se amarem e conectarem.

Os heróis são duas crianças apaixonadas. É um amor ainda alheio ao erotismo, o que os move é a mútua compreensão contrastante com a surdez dos que os rodeiam. Os adultos evidentemente não entendem, muito menos aceitam, o caso da menina revoltada com o escoteiro órfão e enjeitado, ambos com 12 anos. Por isso fogem numa jornada pela ilha onde vivem, arrastando atrás de si um exército de escoteiros, a família da menina, o policial secretamente apaixonado pela mãe dela, a assistente social que quer internar o garoto. O casal leva consigo o que considera essencial: ele sua parafernália de escoteiro, garantindo virilmente bem estar e orientação; ela uma mala de livros de fantasia e uma vitrola com discos, que sabe usar habilmente para tranqüilizá-los e animá-los sempre que necessário.

Nas crianças admiramos a autenticidade, são espíritos ainda frescos, a vida só lhes oferece possibilidades. É como se o crescimento nos condenasse a uma estreiteza hipócrita, o que não deixa de ser verdade. A trama do filme aposta nessa idealização da infância, mas também nesse amor de principiantes. O amor costuma ser um dos nossos maiores investimentos, é nele que depositamos as maiores expectativas de plenitude e satisfação, as ilusões mais vãs. Do amor só queremos tudo.

Não levamos fé em muita coisa neste tempo sem utopias. Afogados em desesperança, tememos como nunca a solidão, esfinge que faz perguntas irrespondíveis. Apaixonar-se ou refugiar-se em sonhos, como fazem os artistas e as crianças quando brincam, são alívios fundamentais. Síntese de tudo isso, ao fugir em nome do seu amor, esses protagonistas infantis carregam a todos nós em direção aos tesouros afetivos que ainda conservamos.

Como já ocorrera em outros filmes de Anderson (Tenenbauns, Sr. Raposo, Darjeeling), os adultos são muito neuróticos, mas guardam certa graça com suas excentricidades. São atrapalhados mas esperançosos e nunca desistem uns dos outros. Esta, que considero sua obra prima, não podia ser mais otimista nesse sentido. Concordo com ele: somos bem maluquinhos, mas se conseguirmos nos conectar tudo pode acabar num final feliz. Mesmo que não seja para sempre.




O Facebook e o cérebro (por Mário Corso)

17 de outubro de 2012 0

Esses tempos escutava as aventuras de um jovem médico voluntário no Xingu. A barreira da língua era um empecilho, a lógica das queixas, e as formas inusuais de expressar o sofrimento físico também. Mas o que realmente o desafiava era como manter uma ficha médica, como aproveitar as informações dos colegas que já haviam passado por lá. Por exemplo: a ficha indicava um senhor de aproximadamente 60 anos, mas lhe traziam uma criança. Como? Simples, lhe disse o intérprete, o avô tinha um nome muito respeitado, e como gosta muito do neto, deu o seu nome a ele. Logo, agora o fulano é essa criança. O avô tomou outro nome. Como que o intérprete sabe? Ora, todos sabem, responde o intérprete. Essa troca não era um caso isolado, portanto quem quiser fazer uma ficha médica dessa população vai ter que pensar numa outra lógica, e esqueça as referências espaciais, eles são nômades.

Para nós, a troca de nome beira o inconcebível pois acreditamos que devemos, de alguma forma, nos manter iguais a nós mesmos vida afora e nosso nome faz parte disso. Aliás, mudamos tanto durante a vida que é difícil saber qual é o núcleo que responde pela nossa identidade. Em outras palavras: o que é que muda e o que permanece inalterado em nós é uma pergunta sem resposta fácil.

O exemplo acima não é único, na maior parte das sociedades tradicionais os nomes variam ao longo da vida. Geralmente nos ritos de passagem o indivíduo ganha um novo nome, mas nem só: nascimentos e mortes também costumam também suscitar novas denominações nos parentes. Ou seja, um indivíduo pode se chamar de diferentes formas durante a vida. Quem vive entre eles sabe a lógica que preside a troca e acompanha as mudanças. Essas alterações constantes, aliadas às complicadas (em comparação às nossas) relações que regem os casamentos, de quem pode casar com quem e de quem não pode nem se aproximar, ou ainda quem pertence a cada clã ou sub-clã e a que linhagem o recém-nascido pertencerá, constituem um complexo enredo social que exige bastante do cérebro.

Mas lembro essa questão a propósito duma recente pesquisa: os cientistas da University College de Londres divulgaram os resultados de uma investigação mostrando uma correlação entre certas áreas do cérebro e o número de amigos que as pessoas possuem nas redes de relacionamento virtuais. As pessoas com maior número de amigos possuem certas áreas cerebrais mais desenvolvidas. Certo, mas o que determina o que? Eles tem mais amigos por ter essa área mais desenvolvida, ou possuem essa área mais desenvolvida pelo exercício da amizade? Os pesquisadores pararam por aqui. Certamente uma nova pesquisa partirá dessa pergunta. Dada a plasticidade adaptativa do cérebro, apostaria no uso, mas isso é um palpite, teremos que esperar um outro estudo.

O que sim poderia ser considerado é um outro dado dessa questão. Do ponto de vista histórico o número de pessoas que conhecemos durante a vida mudou muito. Vivemos numa sociedade individualista, em contato com muita gente, mas com poucos deles temos laços significativos. Sabemos e temos informações sobre nossa família, que é cada vez menor, e de alguns amigos eleitos. Freqüentamos muitas pessoas, mas de poucas retemos informações como o nome, filiação e um trecho de sua vida. Já não gastamos muita energia arquivando nomes de pessoas aleatórias, suas qualidades, seus defeitos, sua história. Num passado não tão distante isso era ao avesso. As sociedades tradicionais tinham a vida social em grande conta e as informações sobre os indivíduos que delas faziam parte eram cruciais.

Acredita-se que, do ponto de vista evolutivo, a forma de funcionar em relação aos parentes, às amizades, às pessoas que conhecíamos e à importância que damos a elas, certamente sofreu mais influência desse momento histórico anterior ao nosso, pois somos – a sociedade moderna individualista – uma exceção recente no longo percurso do homem.

Nosso cérebro foi moldado, e assim funcionou durante a maior parte do tempo, em sociedades tradicionais, ou seja, conectado a uma extensa rede social, onde sabíamos tudo de todos. Mais ainda, se considerarmos que essas sociedades têm um funcionamento distinto em relação aos mortos, pois eles não são esquecidos, são honrados e lembrados em rituais, somam-se essas referências além do carrossel de nomes dos vivos. No passado, as gerações mortas também contavam no acervo da memória, das relações que precisavam manter-se articuladas, constantemente evocadas. Logo, nosso cérebro evoluiu guardando um grande número de nomes, agregados ao lugar social e à origem de cada indivíduo, pois as sociedades anteriores à nossa davam à trama da vida social suma importância.

Talvez possamos lembrar aos pesquisadores, que “escanearam” o cérebro para essa investigação, que do ponto de vista evolutivo nossa mente pode ser anômala em relação ao que fez a aventura humana. Nesse sentido, nossas capacidades sociais pareceriam atrofiadas se comparadas às sociedades anteriores. Somos introspectivos e solitários, dependemos menos do olhar coletivo, no sentido presencial, do convívio de fato, enfim, do que era a aprovação da aldeia. Esperamos nosso reconhecimento de determinados indivíduos particularmente valorizados, com quem desejamos nos identificar, raramente de todo um grupo.

As redes sociais geralmente despertam um temor difuso em pais e educadores, eles ficam sem saber se aprovam ou não ver seus jovens consumir tanto tempo conectados a ela. Queria contribuir a essa questão colocando um ingrediente: talvez o motivo pelo qual os jovens possuam uma extensa rede social nas comunidades virtuais, seja menos uma novidade, e mais um retorno a uma forma antiga de funcionamento, para a qual nosso cérebro sempre foi apto. Claro, não da mesma forma, mas usando uma capacidade de se situar e sentir-se à vontade numa ampla rede de pessoas com diferentes pesos de significação. Isso se considerarmos do ponto de vista evolutivo. Já do ponto de vista histórico, poderíamos ver algo semelhante: as redes sociais simulam a aldeia, uma comunidade onde todos se conhecem e partilham informações.

O fato de vivermos numa sociedade individualista não quer dizer que não tenhamos saudades das antigas formas de convívio. Quem sabe as redes sociais nos apontem o esgotamento, a pobreza, ou uma insuficiência das formas contemporâneas de estarmos (ou não estarmos) uns com os outros. Seria uma crítica espontânea e ingênua ao individualismo. Enquanto julgamos mal os jovens pelas suposta superficialidade da conexão com seus amigos virtuais, deixamos de ver a profundidade da intenção de criar algo novo, algo vivo, em termos de laço social.

Talvez a minha geração deva deixar a arrogância de lado e perceber que pode aprender com o que os jovens apontam, e que até mesmo possa haver uma sabedoria que nos escapa na troca de nomes dos índios do Xingu. A rapidez dos diálogos e fragilidade da imagem mutante daqueles que se expõem uns aos outros, deixando-se influenciar pelos pares e figuras de referência, reflete indivíduos em processo de transformação, permeáveis aos desafios sociais. Poderíamos supor que nossos jovens hiperconectados estejam buscando caminhos para o resgate dessa herança social, uma retomada da vida em comunidade. Com sorte e muita prática, talvez possamos ver triunfar o exercício da solidariedade e da interlocução que o convívio propicia.

Trilha sonora do passado

10 de outubro de 2012 0

No taxi, o rádio submete à vontade do motorista. Como o assunto era futebol, dissociei. Mas despertei do devaneio por força de um som inusual: a narrativa histérica, em espanhol, de um gol, reproduzida por um programa de comentários desportivos. Escutar um gol em minha língua mãe abriu um arquivo esquecido de lembranças e sentimentos ligados a esse som.

Vivia no Uruguai na década de 60. Seguido ia almoçar na casa de uma espécie de tio, cujo filho ao crescer tornou-se juiz de futebol. Eles acompanhavam as partidas com paixão, os gols eram praticamente uivados pelo locutor. Eu brincava por ali, à escuta dessa trilha sonora que mais de quarenta anos depois me tomou de assalto. O gol em espanhol reavivou a memória de todo um cenário: a imagem borrada da TV preto e branco, um maravilhoso aparelho de fazer soda, a detestável sopa fria de frutas, meu amigo Muki, o cachorro da casa.

São Paulo, para onde me levaram um tempo depois: devo aprender português. Repita: João perdeu o balão, João é um chorão. Lição impossível. Quem chorava era eu: – “nunca vou conseguir falar isso!”. Aprendi, crianças são permeáveis ao som das línguas, deixam-se colonizar. Agora, como canta Caetano em Língua, “adoro nomes, nomes em ã, de coisa como rã e ímã”. O português gaúcho que tive que falar depois me soava rude, hoje é meu tom. Minhas pátrias são os sons das minhas línguas.

Ao falar, letra e música são uma só. Ao ler, recitamos para nós mesmos com ritmo, emprestamos cadência ao texto. A memória auditiva é uma linha direta para o passado. Uma vez reencontrados, os acordes das palavras produzem arrebato, emoção, memórias, como naquele gol. Pelos ouvidos somos seqüestrados para um tempo que não pensávamos que ainda podíamos sentir. Mesmo que não se tenha mudado de país, de língua, possui-se uma “língua mãe”, constituída pelas vozes dos parentes, pelas propagandas antigas, as músicas da época. As expressões verbais da infância e da adolescência soam mais eloqüentes.

Somos datados: o som da língua é nosso carbono 14, só as vozes do passado são sentidas como próprias, autênticas. Essa é uma das dificuldades da longevidade de que nos beneficiamos hoje: como viver tantos novos tempos, que soam tão diferente, sem sentir-se estrangeiros?

Dias atrás, uma amiga falou ao telefone uma expressão em ídiche que não escutava desde que perdi minha avó. Outra avalanche de memórias, arrematadas por mais um som: a gargalhada gostosa daquela senhora que nunca terminava as piadas. Ríamos era dela, que ria às lágrimas e sufocava o final.

Tudo ou nada (sobre o livro de Luiz Eduardo Soares, por Mário Corso)

07 de outubro de 2012 0

Tudo ou Nada


Existem livros que a gente não sabe porque começa, tropeça neles, não seria nosso tipo de literatura. Tudo ou Nada de Luiz Eduardo Soares foi um desses acasos felizes. Não pelo autor, pois o tenho na mais alta consideração, tanto intelectualmente como por sua trajetória. É o mote que não me atraía. No que a história particular, verídica, de um carioca da elite que cai no mundo das drogas e depois no negócio da droga (em grande escala) poderia interessar a mim?

Meu erro foi esquecer que o autor é antropólogo e, para essa tribo, o olhar é sempre total. Eles miram para um objeto considerando todas as variáveis, das mais óbvias às mais recônditas. É aqui que o livro encanta, tratando a droga como ela é: um fenômeno complexo, múltiplo, que abarca todos os campos do espectro psicológico e social. A grande maioria, assim como a mídia, não fazem essa ressonância ampla. Habitualmente trata-se da questão da droga na bitola estreita, entre a polícia e a medicina, em outras palavras, entre bandido e doente. A questão é que a droga é muito mais do que isso e o desconhecimento, ou a resistência à admitir sua complexidade, é que fazem com que ela tenha um custo social tão elevado.

Poucas páginas e já estamos querendo saber como Lukas vai sair da enrascada em que está, e como foi mesmo que entrou. O livro nos fisga como uma história de detetive, mas a isca se revela maior e mais saborosa. Ao longo da história, o autor começa a contextualizar os passos e as escolhas de Lukas, nos conta os dramas particulares, mas amplia o leque para os impasses da sua geração, do que se passava então no mundo, do que se acreditava e como Lukas lidava com esses campos de força. Tudo muito equilibrado, de modo que nem nos damos conta quando o contador da história se cala e o ensaísta começa. É um livro bem escrito e generoso com o leitor, nos divertimos aprendendo, sofremos com Lukas, mas como ele, saímos melhores ao fim do livro.

Como o autor entende bem do sistema de repressão às drogas, entenda-se a polícia, o judiciário e a cadeia, seus mecanismos são esmiuçados com uma clareza ímpar. Visto que a trama é internacional, a diferença de políticas em relação às drogas também é descrita. Portanto, o livro serve para o leitor informar-se com profundidade sobre o universo da droga, do tráfico ao consumidor, saindo da visão moralista e limitada que a mídia nos vende.

Abundam livros e reportagens sobre drogas, mas raras convidam ao pensamento. As discussões costumeiras sobre toxicomania se travestem de científicas, mas, de fato, não ultrapassam o campo moral: nos posicionamos frente a ela como o fazemos frente às diferentes formas de obter prazer. Condenar as drogas é condenar um gozo que consideramos errado, e vamos ser tão mais radicais e aferrados contra ele, quanto maior for a tentação. O preconceito é proporcional à barreira que temos que erguer, como resistência, para fazer frente ao invasivo que supomos que esse gozo possa ser. Poucas coisas nos assustam mais do que formas diferentes (das nossas) de obtenção de prazer. É por essa dificuldade que, quando falamos sobre drogas, pouco levamos em conta a realidade e sim nos afundamos em discussões bizantinas que escudam uma posição moralista. Posamos de cientistas para esconder um pastor evangélico.

Inflacionamos o problema das drogas enxergando a totalidade dos problemas com ela como se sempre fossem como são nos casos extremos, em que ela destrói o consumidor. Um paralelo simples ajuda a entender: seria como se nós classificássemos todos que bebem álcool como alcoólatras. Desde seu amigo que toma todas, todos fins de semana, até sua tia que toma um cálice de champagne por semana, ao o sujeito que toma uma cerveja no dia do seu aniversário. Imagine classificar todos como bebedores que abusam. Infelizmente é com essa régua torta que medimos e pensamos a droga, enquanto na realidade ela é consumida em larga escala, por muitíssimas pessoas, durante muito tempo, e nem por isso ela leva a uma paralisia da vida. A droga pode destruir vidas, mas em muitos o consumo acha um equilíbrio estável. O paradigma de que as drogas começariam bem, mas em algum momento iriam desestabilizar e destruir o seu usuário é falso. O fato de acontecer algumas vezes não quer dizer que aconteça sempre.

Muitos dos profissionais que lidam com ela sabem disso, porém seguem exagerando os efeitos da droga numa política de nos afastar dela. O estrago, quando acontece, seria (e é) tão grande que uma mentirinha útil não viria mal. Os fins justificariam os meios, o problema é que sabemos que são os meios que fazem os fins. Ou seja, a política das drogas funciona de forma paternalista, na intenção de proteger, infantiliza o interlocutor. Não conversa com ele de adulto para adulto, conversa como se ele fosse um adolescente rebelde e mal informado sobre o alcance do inferno das drogas. E os conselhos são um samba duma nota só: pare de usar. Quando você ouvir alguém dizer que a única forma de lidar com as drogas é a abstinência total acredite, essa é a forma que ele tem de lidar com a droga, e talvez seja a possível para muitos, mas querer que todos ajam dessa maneira é contraproducente.

Esse é um dos casos em que somos obrigados a explicitar nossas posições para não cair na lógica rudimentar: se ele não acredita em nosso deus, deve ser amigo do diabo que mais tememos. Para evitar mal-entendidos adianto: não uso drogas, não recomendo o uso drogas, e não raro, ajudo pessoas que se perderam por usá-las. Conheço de perto o poder destrutivo que as drogas podem ter, mas não consigo fechar os olhos para a realidade efetiva da toxicomania generalizada em que vivemos. Talvez devamos assumir que os drogados não são necessariamente só os outros. Em certo sentido, somos quase todos, pois há uma disseminação ampla se não deixarmos de fora as drogas legais para pensar a questão. Sem isso, sem levar em conta todos os fatos, não teremos possibilidade de enfrentar os sérios problemas gerados pela dependência.

Não é possível pensar esse momento toxicômano sem falar do mal-estar social, não vivemos no melhor dos mundos, ao contrário, é um mundo que precisa de muita droga para funcionar. É certo que temos problemas por nos drogar, mas é muito mais verdade que nos drogamos por que temos problemas. Vivemos premidos por exigências de boas performances profissionais, ter sucesso na vida amorosa, ser bonito, cuidar do corpo, e qualquer falha num setor arruina o todo. São ideais que criam uma multidão de fracassados e é para não fracassar, especialmente na questão central que coroa tudo: a exigência de ser feliz, que usamos tantos aditivos. Como a vida hoje não é para os fracos, não há espaço para tristeza, afogue-a com qualquer coisa.

A política de tolerância zero não funciona no caso da droga e uma sociedade livre de drogas é, neste momento, nesse mundo competitivo e ansioso, uma utopia ingênua. Vivemos numa sociedade fortemente toxicômana e não nos reconhecemos como tal. O pai não dorme sem o uísque e o rivotril, a mãe toma anti-depressivos fazem anos, o caçula não estuda sem ritalina, mas o único errado é o filho que fuma maconha. Temos remédios para dormir, para ficar acordado, para ficar mais focado, para viabilizar uma ereção, para calar a angústia, para driblar a depressão, para não oscilar o humor, enfim, a lista é grande. Sinto dizer, mas se mediamos nossa relação com a realidade utilizando drogas, elas estão simbolicamente no mesmo plano. Portanto, as compradas do traficante da esquina, ou receitadas por um médico, se o uso for ajudar a suportar a vida, talvez elas encontrem algumas coincidências no uso. O que devemos reconhecer é que é bem difícil não usar drogas para amenizar a angustia de existir e de enfrentar a realidade. Minha questão é: por que só as ilegais são combatidas com veemência? Por que o establishment grita tanto contra as drogas ilegais e aceita tão fácil a medicalização massiva até de crianças? Os excessos estão dois dois lados. A banalização da medicalização tarja preta sinaliza que um incremento químico faz a diferença. Então, por que não a maconha, pensam os jovens? Faz parte da toxicomania a crença que a realidade é desbotada, insuportável e intransponível sem um determinado elemento químico, ora, esse raciocínio vale para todas as drogas.

Minha recomendação do livro é também por que nele encontrei uma das melhores descrições, tanto poética como no relato empírico, do vazio a que a droga pode nos levar, dos labirintos circulares, das promessas que não se cumprem. O autor nos conduz a passear sem medo entre escombros de sujeitos que caíram em seu canto enganoso, e essa é a melhor política: conhecer sem preconceitos o mundo da droga. Temer o desconhecido é natural, por isso a política de exorcismo encontra eco popular. Mais difícil é admitir-se espelhado, nem que seja remotamente, naquilo que condenamos mas nos diz respeito. Nossos piores preconceitos são dedicados às maiores tentações e a droga não foge a essa regra. Este livro transpõe um pouco do abismo da ignorância, relativo a algo que compreendemos inconscientemente, mas a consciência condena. Eis uma experiência de lucidez que nenhuma substância turva, mascara, alucina. A realidade é difícil e Soares nos proporciona uma incrível viagem de cara limpa.

De quem é?

03 de outubro de 2012 0

Um grupo de jovens em viagem pela Europa fez um experimento cômico: no Louvre, escolheram aleatoriamente uma obra obscura, uma paisagem sem graça, irrelevante se comparada com outras pinturas importantes daquele museu. Admiravam explicitamente o dito quadro, fotografando-se em frente a ele e pedindo aos passantes que os retratassem a seu lado. Não demorou muito para que se criasse uma pequena comoção. O quadro teve seus quinze minutos de fama extra graças ao grupo de admiradores falsários. Várias pessoas se reuniram em torno dele e um guia atônito foi chamado a explicar a pintura de paisagem, pela qual costumava passar em branco.

Como se vê, o valor artístico também é uma questão de prestígio, que o diga o sempre nervoso mercado das artes. As gafes são inevitáveis, pois somos incultos crônicos. A vida é curta para dar conta de todo o acervo disponível para ler, escutar, assistir e olhar. Além disso, nem sempre sentiremos empatia pelas obras consideradas “primas”.

Se não formos críticos, estudiosos ou pesquisadores de qualquer uma das sete (ou mais) artes, não precisamos sentir vergonha de nossos julgamentos. Não é uma questão de etiqueta, é de estética: o “gosto”, “não gosto”, pode e deve ser levado em conta. Por outro lado, o acesso regular à arte costuma tornar a categoria do “gosto” muito mais ampla. Certamente viveríamos num mundo muito melhor se as oportunidades de sensibilização para o belo ou para o diferente estivessem ao alcance de todos.

Meu marido gosta muito de música, já meu ouvido é menos que amador. Prefiro que escolham para mim. Aproveito muito o ambiente que cada som cria, encaro a trilha sonora como uma oferenda do outro. Porém, quando ele me mostra uma música, sou reincidente num hábito que o chateia: antes de me entregar aos acordes, pergunto: “o que é? Ou: “de quem é isso?”. Fora as preferidas que sei de cor, raramente reconheço uma música, o que me envergonha bastante. Ele, paciente que é, me responde sempre: “primeiro escuta, depois te digo o que é!”. Sua ressalva é compreensível, pois antes do prazer da música, antecipo a preocupação com meu prestígio intelectual. Azar o meu, se fosse menos insegura aproveitaria ainda mais as audições caseiras.

No passeio ao museu, sempre vale a pena se informar sobre as obras que vai se ver, mas por que não confiar nos sentidos? Entendo o pessoal que parou na frente da paisagem obscura, usaram o movimento do público como guia, por que não? Depois do encontro com o quadro, o olhar define a paixão, ou não. Não importa como nos deixemos levar até ela, deixar-se arrebatar pelo prazer de uma obra tem que ser mais interessante que a erudição vazia. Em primeiro lugar simplesmente pare, olhe e escute! Depois, aprenda.

publicado na Revista Vida Simples, edição de setembro