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Posts de novembro 2012

Alma animal

28 de novembro de 2012 0

Donos de animais de estimação costumam ser acusados de dedicar-lhes um amor excessivo, por tratá-los como filhos. Isso é considerado um obsceno deslocamento de afetos. Tendo a discordar, quem quer filhos tem filhos, cães e gatos geralmente ocupam outro lugar.

Talvez a melhor representação disso esteja na concepção de Dimons que encontramos em “Fronteiras do Universo”, uma trilogia de que se inicia com “A Bússola de Ouro”, do britânico Philip Pullman. Estes são uma duplicação das personagens, sua “alma de estimação”. Na história, cada humano tem um Dimon (ou Daemon), sua extensão animal, como se a alma caminhasse a seu lado e ainda fosse possível dialogar com ela. O de Lyra, a personagem principal, chama-se Pantalaimon e pode assumir várias formas, mariposa, gato do mato, arminho, morcego, mudará conforme a necessidade. Quando ela crescer, sua personalidade tendo atingido uma forma mais definida, o mesmo ocorrerá com ele que assumirá uma identidade estável, sua melhor tradução.

Oriundo da mágica Oxford, Pullman lecionou lá como seus mestres Carroll, Tolkien e Lewis, mas encontrou um nicho de fantasia próprio. Conseguiu dar corpo novo a um recorrente aspecto do mundo mítico: as nossas metamorfoses como animal. Em muitas sociedades antigas os animais eram pensados como seres de outra cultura, não como natureza, tais como nós os concebemos. Imputam-lhes linguagem e credos, assim como atributos mágicos específicos a cada espécie. Conservamos algo dessa visão mágica, por isso o animal se presta para metaforizar o caráter e predicados que supomos ter.

É dessa ordem a relação que estabelecemos com nossos animais de estimação, cujo maior mérito é estimar o dono. Se são tratados como filhos, o são somente num aspecto da parentalidade, aquele no qual o filho é uma extensão do narcisismo dos pais: “‘Sua Majestade o Bebê’, como outrora nós mesmos nos imaginávamos.” , já dizia Freud.

O excessos de zelo com os animais de estimação parece ridículo aos que estão fora da cena. Mas quando problemas de saúde os afetam, seus donos apresentam um genuíno sofrimento, que aprendi a jamais subestimar. Da mesma forma, a morte de um animal de estimação arrasta consigo uma parte de nós, afinal, não dizem que os animais se parecem aos donos?

Por essa função de duplo que o animal ocupa, comemoro quando um paciente passa a estimar um para chamar de seu. Dialogar com essa criatura, adivinhar seus desejos e necessidades, é uma experiência amorosa que funciona melhor que muitos anti-depressivos. Se necessário use, não tem contra-indicações, além de que sempre é bom descobrir a cara de nosso Dimon. O meu é um Bulldog Francês ancião, cujos olhos enormes e dóceis mascaram uma natureza insubordinada. Meu número.


Publicado na Revista Vida Simples, edição de outubro

Do tempo das águas turvas

21 de novembro de 2012 0


“País de mestiços, onde branco não tem força para organizar um Ku-Klux-Klan é país perdido para altos destinos”. Publicado na revista Bravo, edição 165, o trecho acima faz parte de uma carta enviada por Monteiro Lobato para um destinatário tão entusiasta da eugenia quanto ele próprio. Antes de ser ventilado o racismo de Lobato, lembro de ter enfrentado um constrangimento pessoal por suas posições.

Tinha o hábito de ler suas histórias para minhas filhas pequenas. Nos deliciávamos ao vê-lo trazer para nosso quintal um exército de personagens clássicos. O ogro verde Shrek, nascido no século seguinte, foi muito elogiado por mixar e recriar os contos de fadas. Só que no Brasil já estávamos habituados a essas paródias graças à irreverência de Lobato. Peter Pan, o Gato Félix, anjos e seres mágicos da mitologia, da literatura e do folclore confraternizam no Sítio do Picapau Amarelo. Era empolgante essa mestiçagem na ficção, algo que aparentemente ele não aprovava na vida real.

Quando apareceram expressões inaceitáveis alusivas à Tia Nastácia, minhas filhas se revoltaram e perderam o entusiasmo pelo Sítio. Acabaram reincidindo, não há menina brasileira que tenha crescido alheia às reinações de Narizinho. Aliás, é bom lembrar que ela casou com o príncipe peixe do Reino das Águas Claras sem nenhum preconceito! Essa pequena crise doméstica deixou-me claro que hoje banhamo-nos em outras águas, bem menos turvas.

Nosso tempo não perdoa o racismo. Hoje é inaceitável a incoerência de valores entre vida pessoal e obra. A hipocrisia, embora eterna, perdeu espaço. Como valorizar algo feito por aqueles que a história condenou? É sempre bom lembrar que os campos de extermínio nazista derramavam sua fumaça fétida sobre as comunidades que viviam coladas a eles. Como era possível àquela gente conviver com esse horror? Condenando Lobato ao ostracismo, banindo suas obras, julgamos que nada se aproveita de alguém assim. Seria o mesmo que condenar todo o legado cultural da população da Alemanha e da Polônia pelo que promoveu. O julgamento é justo e necessário, mas separar o joio do trigo vale a pena. Principalmente por que as crianças precisam saber que o autor genial, assim como o cidadão vizinho ao campo, eram pessoas comuns como nós. Eles cometeram muitos erros e, mesmo hoje, nenhum de nós está livre de imitá-los. Covardia é furtar-se a esse debate com filhos e alunos. A propósito, ontem foi o Dia da Consciência Negra, data pensada para lembrar das atrocidades que somos capazes de cometer.

Charadas ambulantes

07 de novembro de 2012 0

Conheço um senhor para quem o essencial na vida se resume a um rádio de pilhas. Precisa acompanhar os noticiários para controlar as transmissões extraterrestres que falam a seu respeito. Isso é tudo o que quer da vida, não cobiça carro, apartamento de cobertura, TV com HD, Apple, Nike. Apreciaria ter com quem conversar sobre suas preocupações, isso basta.

Há aqueles cujos objetos preciosos cabem num saquinho de plástico que carregam sempre consigo. Dentro tem papéis rasgados, recortes de jornal, panos sujos, tiras, cadarços, alguma comida, pedaços de objetos. Cada uma dessas posses possui significado para seu dono, mas também pode ser descartada a qualquer momento. É gente sem nenhum apego.

Outrora ditos loucos de rua, hoje são considerados “portadores de sofrimento psíquico”. São também denominados de psicóticos e outras classificações científicas para os encarregados de sua saúde mental. Indiferentes à nomenclatura, andam por aí envoltos em sua nuvem. Gesticulam nas calçadas, discursam para seus fantasmas, o olhar nublado raramente pousa nos passantes. Sabem parecer zumbis: andando no meio dos carros sem notar o perigo. Seguido estão bêbados, o álcool lhes adormece o delírio, a fome, as dores.

Sempre queremos tantas coisas, temos desejos sempre maiores do que as posses, por isso não há nada mais incompreensível do que esses franciscanos sem fé. Até o trombadinha, o ladrão, parecem mais naturais do que o maluco indigente: com esses ao menos partilhamos os objetos de cobiça. Já o mendigo enlouquecido rouba-nos as certezas, indiferente ao que consideramos essencial. Ele é uma charada que nos assalta, uma provocação involuntária.

As vezes bate um desânimo, um cansaço de lutar tanto, até as vitórias ficam sem sentido. Não é raro, entre os ditos normais, que se fantasie com desistir de tudo, com uma vida minimalista. Temerosos dessa vacilação, exilamos os que nada têm, nada querem, nada guardam. Eles, fazendo parecer opcionais os caminhos que acreditávamos ser naturais, nos despertam angústia.

De que (não) necessita gente que veraneia na calçada? Que trama encenam suas vozes, as imagens do seu delírio? O que dizem esses que falam estranho na nossa língua? Pensamentos e atitudes inusuais estremecem o que consideramos óbvio. Toda diferença traz novos paradigmas: cegos ensinam a escutar, deficientes auditivos tornam os gestos mais eloqüentes. Loucos indigentes questionam nossa necessidade de acumular cacarecos. O encontro com diferentes formas de perceber e compreender é como viajar, sem avião, sem drogas. Recomendo.