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Posts de dezembro 2012

O fim do (meu) mundo - por Mário Corso

21 de dezembro de 2012 0

Fim do (meu) mundo


Se você está lendo estas linhas é por que o fim do mundo, previsto para hoje, não aconteceu. Confesso uma ponta de decepção, o fim, ou ao menos uma catástrofe, engrandeceria o homem, nos restituiria a condição de protagonistas num universo indiferente ao nosso destino. O cosmos foi mais uma vez indiferente aos rogos dos humanos e às suas previsões, o universo e o planeta continuam na sua imperturbável mecânica celeste, independente e ignorantes das nossas malfadadas conjecturas.

Diga-se, em favor dos Maias, os pretensos profetas do apocalipse em questão, que isso não foi uma idéia deles, e sim uma leitura apressada nossa, a partir de informações incompletas sobre sua cultura e calendário. Se não foi dessa vez, não se preocupe, cedo ou tarde vão anunciar outro fim, e de novo vamos vacilar se acreditamos ou não. A temática apocalíptica é uma velha conhecida e parece que não sai de cartaz. Não faz muitos anos, em 2000, era o mesmo temor, o mundo iria acabar, e cá estamos nós, lampeiros como sempre.

Inútil reclamar da imbecilidade, invocar racionalidades de todas matizes, acusar os crentes apocalípticos de passar atestado de ignorância científica. Até procede, mas a questão é outra: esse temor tem raízes míticas, e esse sistema de crenças e medos não funciona com a lógica da razão. Quando se opera com o sistema mítico, a ciência e o bom senso não têm entrada. Qualquer sistema mitológico clássico, quando conseguimos captá-lo em sua forma mais articulada e completa, pensa o cosmos com os mesmos termos: o nascimento (ou renascimento), um período de auge glorioso, um declínio sofrido e, finalmente, a destruição com o retorno ao caos. Portanto, o apocalipse faz parte desse esquema, dessa visão do mundo. Quando se raciocina miticamente, mais dia menos dia, desemboca-se nesse vórtice.

A questão que muitos se colocam é: por que discursos assim, tão disparatados, ainda tem pregnância? Por que, contra todas as evidências possíveis, ainda há quem acredite nisso? Creio que a questão está mal posta, poderíamos pensar o contrário, por que não seria assim? Goste-se disso ou não, o tempo do mito não acabou. O avanço da ciência e seu método, se por um lado combate a religião, a superstição, a magia, deixa muitas questões sem respostas e é onde se abre a brecha para o retorno do pensamento mítico. Os homens podem viver com pouco, mas raramente abrem mão de um sentido para o mundo e para sua vida. Qual a razão da existência? Para onde vamos? De onde viemos? Se o futuro promete tanto, por que me tocou viver esta época tão menor? Que diferença fiz, farei, nada mudaria se eu jamais tivesse nascido?

A ciência explica o mundo, mas quanto aos anseios de sentido de que padecemos, fornece mais dúvidas do que certezas. São poucos que agüentam a vida segurando-se no pouco que ela nos dá e encaram o sem sentido da existência. Já o pensamento mítico é um gerador de sentidos, ele capta o horror humano ao vazio e o preenche de qualquer maneira, com o que estiver mais à mão. Melhor um universo de conto de fadas, com entidades benignas ou malignas nos controlando que o nada. Nosso narcisismo não suporta que não haja transcendência, que sejamos um acaso na imensidão cósmica, um mero macaco melhorado.

O erro mais banal, mais primário, em que nosso pensamento cai, e como cai, é o de confundir-se com o objeto a ser examinado. Se alguém acredita que estamos no fim dos tempos, é possível que ele tenha razão, algum fim se aproxima, mas é mais provável que seja o fim dele, ou o fim de um mundo que reconhece como seu. Todos constatamos a velocidade com que a história anda e atropela tudo: costumes, formas de pensar, de viver. São tantas as novidades que perdemos as referências. A revolução da semana passada está velha, a tecnologia de ontem virou sucata.

A sensação é que o ritmo vem se acelerando. O fato é que nos sentimos ultrapassados a cada dia e, se não estamos em constante adaptação, corremos o risco de não entender o mundo em que vivemos. Nesse constante recriar-se para o novo, alguns se cansam e se perdem pelo caminho, ou ainda, simplesmente desistem. São esses os que vivem o fim do seu mundo, afinal, os valores que lhe ensinaram na infância já não servem, a paisagem não é a mesma, os anseios são outros. Não fica claro que o mundo está acabando? Quando chega a notícia do fim dos tempos, apenas confirma algo que já sentimos.

Sinceramente não desgosto de ondas apocalípticas, me sinto mais humano, mais completo, reencontro minhas desativadas ramificações religiosas que por momentos entram em alerta. Uso para fazer um exercício, que sugiro a todos: perguntar-se qual parte nossa está morrendo? Qual dos horizontes em vias de desaparecimento vamos sentir falta?

O homem não tem uma inclinação nostálgica por vocação mórbida, nossa substância é fornecida pelo tempo em que vivermos, que nos fez ser o que nos tornamos, isso é tudo de que dispomos. É duro pensar que tantos seguirão sem nós, por um tempo indefinido. Parece injusto, jamais saberemos da história que está por vir. Pensar que seríamos o último capítulo nos deixaria no admirável papel de ponto final, protagonistas essenciais, o que infelizmente não somos. Uma velha e saudosa senhora que conheci sempre dizia: “o cemitério está lotado de insubstituíveis”. Somos todos datados. A questão é quando expira o prazo. Viveremos um apocalipse privado, está é a única certeza.



Fale com elas

19 de dezembro de 2012 0


Já viveu mais de meio século, mas meu marido ainda lembra do cuidado que tinha na hora de pendurar a lancheira para não se enganar. No jardim de infância, antes de conhecer as letras, cada criança tinha uma figura no cabide, a dele era um elefante, aquele era seu lugar. A creche é o primeiro espaço de existência pública, onde se pode ser alguém fora da família. Os adultos da família nos nomeiam, definem, rotulam, e com isso vão nos modulando, mas quando saímos “por conta”, quanto se tem um cabide de elefante para chamar de seu, é que passamos a ser alguém.

A Casa dos Cataventos, nome emprestado da poesia de Quintana, não é creche, nem escola, é um lugar para brincar e conversar. Lá também cada criança marca sua chegada de um jeito. Em vez do cabide, pois muitas não trazem uma mochila, ao chegar seu nome é registrado no quadro, num livro de presenças, no copinho que vai usar para tomar água. Ela é anunciada por escrito, mesmo que ainda não saiba ler. Os adultos desse lugar estranho estão lá para falar com ela e não sobre ela. Eles se interessam sinceramente por suas fantasias, que ali são grande coisa. É bom que seja assim, a infância é incompatível com a hipocrisia. Crianças farejam a mentira, brincam de faz de conta, nunca fazem de conta que brincam.

Situada na Vila São Pedro, a casa é um projeto comum de psicanalistas e universitários, mas ali os pequenos membros da comunidade é que são as estrelas. Inspirado na Casa Verde, criada na França por Françoise Dolto, e nas Casas da Árvore, instaladas nas favelas cariocas, esse trabalho provou-se uma importante ferramenta de saúde mental. Os profissionais se alternam: eles também devem colocar seu nome, brincar e conversar. As crianças entram e saem quando querem, seguem as regras combinadas entre todos, e brincam com dedicação. Por que adultos fazem das tripas coração para criar e manter um lugar aparentemente tão despretensioso?

A maior parte das crianças em situação de extrema pobreza cresce órfã de atenção. Em geral passam a vida sem jamais ter conversado com um adulto sobre seus sonhos e pesadelos. Ninguém fica sabendo do que cada uma tinha medo e raiva, e isso tudo elas compreendem e expressam brincando!

O que não vira brincadeira tende a entrar em confronto com a sociedade. Dar espaço à fantasia evita a marginalização de sentimentos, pensamentos e atos, simples assim. Por isso, no Natal que se aproxima, convém lembrar que o importante não é o brinquedo, o presente. Brinque, converse com seu filho, seu neto, seu sobrinho. Acolha sua imaginação e ele lhe dirá quem é!






Luto negado

05 de dezembro de 2012 0

Júlio Miguel Molina, coronel da reserva do exército, foi assassinado em Porto Alegre. Num lance surpreendente, a investigação desse crime abriu as portas para a elucidação de outro: o assassinato do deputado cassado Rubens Paiva, torturado até a morte e desaparecido durante a ditadura. Na casa do militar foram encontrados documentos, restos de arquivos do DOI-Codi. Nunca mais se teve notícia de Paiva depois do dia 20 de janeiro de 1971, embora sua tortura houvesse sido testemunhada por outras vítimas. Os cinco filhos e a esposa estavam em casa quando ele foi levado por militares da aeronáutica. Posteriormente, foram informados de que o preso havia fugido. Essa família conviveu por décadas com um desaparecimento, que é diferente de uma morte. Sem poder se despedir, tiveram que dizer adeus por dedução.

Os papéis encontrados devolvem simbolicamente partes do corpo de Paiva. Atestam sua prisão e arrolam os objetos recolhidos na ocasião: vestimentas, um lenço branco, um chaveiro com cinco chaves, papéis e documentos. Até agora não havia como provar a presença do deputado nas dependências do exército. Agora há. Além de anistiado, o crime estaria prescrito. Porém, ocultação de cadáver é um crime que não prescreve. Nem o luto.

O luto é um processo lento, no qual vamos acreditando, a contra-gosto, que perdemos alguém para sempre. Inutilmente aguardamos sua volta, tecemos comentários que lhe interessariam, esperamos sua opinião, e a cada reiterado silêncio, nos convencemos um pouco. Mortes aniversariam por muito tempo, revemos repetidas vezes suas cenas. Por ser inexorável, a morte é sempre traumática. O trabalho do luto é a tentativa de lhe emprestar algum sentido.

Um corpo desaparecido, insepulto, é o seqüestro do direito ao luto. Sem ritos funerários, a morte fica parecendo uma ilusão, de tal modo que a própria vida do morto vai tornando-se imaginária. A crueldade com Paiva estendeu-se, portanto, à família. Seu filho, o escritor Marcelo Rubens Paiva, perguntou-se sobre Molina: “Por que guardava o documento? Era uma espécie de souvenir da guerra suja?” A resposta talvez seja que os algozes (com quem o coronel teve algum vínculo) também precisam materializar a morte para acreditar nela, mesmo que seja dos seus inimigos. A tragédia grega de Antígona, impedida de realizar os ritos funerários de seu irmão, se atualiza para os parentes de presos políticos desaparecidos. No fim desta tragédia brasileira, espero que estejam escritas cenas de restituição da dignidade do luto.