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Posts de janeiro 2013

Mudança

16 de janeiro de 2013 0


Desconfiada, fui assistir ao filme sobre um menino e um tigre náufragos. Não fossem as recomendações de pessoas próximas que me garantiram ser imperdível não teria ousado. Isso dito por uma incorrigível fã de filmes de aventura, fantasia e ficção infanto-juvenil. Com a mesma confiança dos apreciadores que me deram esse presente, recomendo ao leitor: se já não viu, não perca!

A magia da jornada marítima do garoto indiano funciona porque Ang Lee, diretor de A vida de Pi, administra o improvável, as cenas malucas, com boas doses de humor sutil. O filme é mais do que uma aventura, é uma pulga atrás da orelha sobre como ver e narrar a própria vida. A organização da informação, que devemos a jornalistas e historiadores, é imprescindível, mas insuficiente para fazer-nos compreender quem somos, onde estamos e o que diabos aconteceu. Precisamos mais que isso. Para isso servem a ficção, a fantasia, a beleza dos diversos tipos de vozes e olhares.

São essas recriações da verdade que nos tornam capazes de elaborar um trauma qualquer. Não precisa ser uma guerra, uma catástrofe, um abuso, também ficamos marcados pela morte de um avô, pela ocasião em que esqueceram de nos buscar na escola, pela perda do primeiro amor.

Contado com arte, o vivido transforma-se em algo que pode ser visto e compreendido de vários jeitos. Por isso, longe de ser supérflua, a arte é um instrumento de crescimento e equilíbrio emocional eficaz para todas as idades. Artigo de primeira necessidade!

Passaram-se quase 12 anos, desde setembro de 2001, quando recebi um telefonema da Claudia Laitano, convidando-me a uma contribuição quinzenal neste espaço do Segundo Caderno. Tenho escrito estas colunas, misto de crônica e mini-ensaios, sobre fatos reais e imaginários. Esta é a última vez que sou publicada aqui. Migro para o espaço de Opinião da Zero Hora, mensalmente aos domingos, além de outras escritas esporádicas.

A duras penas aprendi que as histórias que pedem para ser contadas pelo colunista, por vezes são fatos, outras ficção. Seguirei falando sobre produtos culturais, que não passam de ilusões, exatamente como os sonhos: tramas inverídicas onde os psicanalistas garimpamos as maiores verdades!

A realidade por vezes é grande demais, é como um alimento cru que necessita preparo para ser absorvido por nossos estômagos frágeis. Nos jornais e revistas, o artigo, o ensaio, a crônica, a coluna tentam dar forma ao que vivemos sem entender. (Nos divãs também.) Loucos, pretensiosos, esses jornalistas e escritores. Gracias, Claudia, por ter me convidado a ser como eles!

Somos todos Marcelinhos (ou tudo o que você quis rir da pornografia e nunca teve coragem de fazer)

13 de janeiro de 2013 0


Os adultos saem e, distraídos, deixam disponível conteúdo impróprio para menores no computador. Marcelinho aproveita que está sozinho para ler alto o que não devia. É criança e sua leitura é engraçada, titubeante, porque em geral não entende o que lê, como o dos que estão aprendendo. Marcelinho é um fantoche e seus quadros de humor para adultos circulam pela internet intitulados “Marcelinho lendo contos eróticos”. Evidente que as histórias pornográficas são escolhidas a dedo, para aumentar o efeito cômico, entre as mais estúpidas e mal narradas, embora nesse setor seja raro achar alguma que não o seja. Alguns bons escritores e cineastas conseguiram fazer antológicas cenas de sexo, cuja qualidade advinha de uma sensualidade em geral ausente na pornografia.

A graça do fantoche está em nos re-conectar com a curiosidade sexual infantil. Todo adulto certamente lembra de alguma cena na qual, enquanto criança, viu ou lhe contaram algo a respeito de sexo. Um interesse lúbrico, que chega cedo na vida, move os pequenos em jornadas detetivescas em busca dessas informações que, quando obtidas, fazem pouco sentido ou são interpretadas de modos equívocos.

Hoje em dia, na sexualidade que a mídia e a arte difundem continuamente, as crianças são expostas a muito mais do que deveriam ver. Porém, as imagens ou palavras não contém significados diretos ou óbvios. Os pequenos não entendem a mecânica da relação sexual de primeira. Por isso, constroem suas hipóteses, que são as teorias sexuais infantis, a partir de prazeres que conhecem bem, associados à excreção, à alimentação e à agressividade.

O quadro de Marcelinho, com sua voz infantil, lendo esses textos tira sua graça do encontro indevido entre a curiosidade infantil, saudável e bem vinda, com a exposição explícita daquilo que ainda não está no momento de compreender. A criança vai “descobrindo” o sexo aos poucos, só o que está suportando saber, é ela que deve dar o ritmo.

Mesmo depois de crescidos, somos todos Marcelinhos: o sexo é um constante desafio, uma incógnita. Na verdade, achamos que os outros estão fazendo coisas mais ousadas e divertidas das que nos ocorrem e uma miríade de promessas de prazer acena do horizonte. Seguimos a vida toda acreditando num paraíso do sexo, um hipotético quarto dos pais, onde estariam acontecendo peripécias incríveis. Ali os grandes fariam as coisas realmente grandes: infalíveis, longos, múltiplos e plenos orgasmos, que só ocorrem de forma tão espetacular na pornografia e em nossa imaginação eternamente infantil. As acrobacias e aventuras sexuais comicamente lidas por Marcelinho desvanecem um pouco do excessivo prestígio que damos ao sexo. Afinal, a grama do vizinho pode não ser tão verdinha.


Phone home!

05 de janeiro de 2013 0


Para entender as crianças, pense como você se sente em viagem a um país novo, uma cultura exótica, diferente, onde cada minuto é desconcertante. Ao final de um único dia parece que transcorreu uma semana e só o que você quer é um banho e o quarto de hotel, sua casa nesse planeta distante. Quanto menores, mais estrangeiras ao nosso mundo elas são. Os pais terão que ser guias pacientes, saber a hora de recolher seus turistas confusos e estressados à bem-vinda rotina familiar.

Conviver com os pequenos exige atenção, sensibilidade de funcionar dentro de um ritmo que eles possam acompanhar, algo que poucos adultos e pais estão dispostos a fazer. É preciso manter-se falando com eles, diagnosticar seu desconforto. Crianças demandam tradução. Tudo lhes soa incompreensível, cansam fácil, precisam refugiar-se em seu mundo lúdico privado, em geral na hora em que o adulto gostaria de continuar na festa. São de tiro curto e se forem forçadas a ir além de suas forças vão acabar criando algum tipo de birra, litígio ou bagunça.

Crescemos, mas seguimos para sempre alienígenas às novidades do destino. Pelo resto da vida, as mudanças fascinam e assustam. Ao chegar, juventude, adultez e velhice sempre nos encontram contrariados, recalcitrantes e confusos. Somos como um computador superado, ficamos sobrecarregados e damos tilt a cada desafio. Nossa visão de mundo é como um sistema operacional condenado à defasagem.

Um bom exemplo disso está no filme E.T., de Spielberg, que completou três décadas este ano que finda. Nessa história, só as crianças entendem o desamparo e o desterro do simpático extra-terrestre, embora esse seja um sentimento universal. Todos temos nossa criança interior, essa que nos assombra para sempre. Ela também se confunde com o desconhecido e quer ligar para casa, precisa contato com a Nave Mãe.

Ano novo é como lugar novo. A sensação de caderno virgem é a expressão otimista dos balanços de fim de ano. Prometemos que desta vez não haverá folhas incompletas, amassadas, em branco! Fazemos listas de boas intenções, votos depositários da insaciável cobiça de perfeição. Graças a isso, o primeiro dia do ano marca o início de uma jornada fadada à frustração. Meus cadernos continuam caóticos, em sentido figurado, mas, como todo mundo, tenho fé na renovação, ela abre a porta da esperança. Reincidentes, voltamos a acreditar na aposta em que “desta vez vou fazer tudo certo”, mas e se não? A cada recomeço reencontro a criança acuada que nunca me deixou. “Phone home, phone home!”, pedia o E.T..

Para o ano que entra e tantos outros, lembre-se de que dependemos de encontrar um equilíbrio instável entre o conhecido e o estranho. Precisamos seguir em frente, mas de tanto em tanto, repousar em território conhecido, mesmo que ele pareça um caderno rabiscado, com orelhas. Seja um adulto compreensivo consigo mesmo. Ao longo do trajeto, se agache, olhe sua criança interior nos olhos e a conforte. Seja um bom pai para você mesmo e feliz ano novo!