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Posts de junho 2013

A invasão Zumbi (por Mário Corso)

29 de junho de 2013 0

Uma dinastia pode estar chegando ao fim. Depois de reinar absoluta durante todo o século XX a primazia dos vampiros no uso da ficção de terror encontrou um adversário à altura: os zumbis chegaram. O começo foi tímido, na década de 30, quando nasceram no Haiti, e seguiram obscuros até os filmes de Romero nos anos 60, mas depois disso ganharam um impulso irresistível e crescem sem parar. Hoje o zumbi é o personagem mais usado para filmes, séries de terror e para imaginar cenários pós apocalípticos. Mas ele é muito mais do que isso, sua marca ganhou nossa imaginação: o zumbi está em games, quadrinhos, existem as “marchas zumbis” em inúmeras cidades, recentemente ganhou uma excelente revista digital: ZumbiGo! Acreditem, até comédia romântica com eles já temos (Meu namorado é um zumbi), ou seja, nenhum cenário de Halloween estará completo sem sua presença. De qualquer forma, a comparação com o vampiro não é sem interesse, afinal, sai um morto-vivo para entrar outro.

Os fanáticos por zumbis vão odiar que eu misture os passivos escravos que eles foram quando nasceram no Haiti, apenas mortos que voltavam à vida pela magia de um feiticeiro para serem usados como força de trabalho barata, aos misteriosos e organizados Caminhantes Brancos de Guerra dos Tronos. Mas estou mais interessado neste momento em suas semelhanças do que nas nuanças que os categorizam. Pois uma questão é comum, e é dessa que quero falar: eles estão mortos mas vivem, e isso partilham em comum com os vampiros.

A questão que devemos nos fazer é o que esses mortos-vivos dizem de nós? Se estão tão em voga, talvez sejam eco de recônditas questões que não nos atrevemos a pensar, e por isso elas abrem espaço na nossa consciência via fantasia.

A morte perdeu espaço na modernidade, sua antiga forma pública foi encerrada dentro de hospitais. Da mesma forma, falamos menos da finitude, e tememos o envelhecimento como crianças temem o bicho papão. Espichamos o tempo de vida, mas encolhemos a reflexão sobre a existência. Portamo-nos de forma ambígua: nos cuidamos para durar mais, mas não encaramos o fim como natural. Desprendida das antigas convenções tradicionais e sem acreditar numa transcendência, a modernidade nos confinou na hipertrofia do presente, por isso a reflexão sobre a morte não prospera. Porém somos, ainda que contra vontade, seres para a morte, a condição humana passa por isso. Se não houver reflexão sobre o tema, ele voltará para nós como sonho e pesadelo. Esses zumbis somos nós, em uma forma lúdica e rebaixada de filosofar sobre nosso destino.

O zumbi fala não só da morte como de sua fronteira: a temida velhice. Os zumbis também representam os velhos, sua incomoda lentidão, seus passos pesados, seus movimentos em câmera lenta. Se a morte nos aguarda, na melhor das hipóteses esse pesadelo vem junto com outro: ficar velho, com o corpo corrompido pelos anos. A contaminação é inevitável, todos seremos zumbis.

Qualquer plataforma mítica comporta múltiplos significados, justamente seu sucesso demostra essas camadas de possibilidades. O corpo decaído é a marca zumbi por excelência. Ora, nosso tempo nos pede um cuidado exaustivo com o corpo. Ele deve ser modelado, malhado, adequado a padrões exigentes. A forma zumbi expressa nosso cansaço com essa demanda de mimar um corpo que inevitavelmente vai decair. É como se disséssemos: vamos ser feios de uma vez, chega de privações e de trabalho forçado, essa casca de pele não vale o esforço exigido! Nesse sentido o corpo zumbi é a recusa do corpo disciplinado e diz que seguimos vivos se não o temos. O zumbi é  o protesto contra nossa vaidade excessiva e o culto a saúde.

Um fato difere categoricamente os vampiro dos zumbis: os primeiros são aristocratas e os segundos são plebeus. Certamente outro fato que o zumbi expressa é a massa. O vampiro está no topo da cadeia alimentar, literalmente se alimenta de todos e ninguém se alimenta dele. O fenômeno zumbi é a revolução francesa no território da ficção, a plebe angariando fatias de prestígio. Nossa ideologia prega a individualidade, devemos ser únicos, afinal, ser confundidos com a massa, ser ninguém, é o grande horror. O fenômeno zumbi sugere um cansaço também com essa ideologia individualista, nos aponta a luta inglória e sem sentido para despontar na multidão, como também a força dos excluídos. O mundo dos vampiros é para eleitos, o mundo zumbi é a verdadeira democracia, aceita a todos, todos seremos zumbis.

Porém a forma pejorativa de ser massa também se expressa no zumbi. Ele começou como escravo e ainda tem muito dele. Um ser sem vontade e sem cérebro, talvez por isso goste tanto de comê-lo, quem sabe ingerindo comece a ter algo dele. A civilização mecânica e burocrática, onde o pensar não tem vez e consumir é a meta, nos faz zumbis. Embora pareça na contramão de qualquer organização social, a toxicomania na sua forma mais acentuada nos deixa zumbis. Drogados são seres para os quais o mundo se esvaziou de sentido, afinal, só se interessam pelo seu objeto, sua substância mortífera. Ou alguém tem dúvida que as cracolândias não são habitadas por zumbis? O zumbi expressa tanto a obsessão nociva da droga como a anorexia do desejo, essa apatia tão comum, mas que corriqueiramente se confunde com depressão.

Zumbi rima com apocalipse, geralmente ele aparece em cenários distópicos. O mundo zumbi é inóspito. Mais por sorte do que por mérito, apenas uma família e amigos se salvam, o resto é inimigo. O olhar político nesses casos beira o simplório: nosso mundo não tem conserto nem esperança, só resta seguir vivendo numa pequena comunidade que se cuida e evitando todos os outros, já que o mundo é, de fato, muito perigoso.

Enfim, o zumbi chegou e terá uma longa vida pois possibilita expressar inúmeras ideias soltas e pensamentos que buscam uma forma. Nada nos mostra que caminhamos na direção de uma convivência mais pacífica e harmoniosa com a morte e com nosso corpo. O pensamento burocrático impera, a crença em objetos mágicos (químicos) que nos adormecerão a vontade também. O mundo nos aparece como mais perigoso e violento. O horizonte político não entusiasma. As condições são propícias para aparições zumbirescas e outras assombrações. E pior, se um zumbi não morder você, um dia teu próprio espelho o fará.


Festival de Besteiras (por Mário Corso)

26 de junho de 2013 0


Nos anos sessenta Stanislaw Ponte Preta lançou três coletâneas de fatos que eram piadas prontas. Registrava o surto de burrice protagonizado pela ditadura no poder. Os livros chamavam-se FEBEAPÁ, sigla de: Festival de Besteiras que Assola o País. Lembro disso porque, novamente, uma parte do Brasil sente que vivemos uma época de piadas de mau gosto.

Muita gente se juntou às passeatas, mas o motor delas, o gatilho do movimento, são jovens urbanos, bem informados, conectados às redes sociais. São pessoas mais sensíveis a pautas sobre comportamento, ecologia e estilo de vida. Para eles certos fatos beiram o irreal e lhes dão a ideia de que o país está emburrecendo. As mais óbvias, que dispensam comentários, são a cura gay e a bolsa estupro, mas existem outras. A política de combate às drogas é falha, e recentemente foram aprovadas medidas que aprofundam os equívocos anteriores, nos atrelando ao modelo americano que não dá certo nem lá.

É esse mesmo pessoal que pede mais bicicletas e menos automóveis nas ruas, vê com tristeza árvores sendo derrubadas para alargar engarrafamentos. Se irrita com o crédito fácil para carros novos enquanto se usam os mesmos ônibus sucateados. Não percebe nada de novo para os velhos problemas de mobilidade urbana. Jaime Lerner disse que o carro é o cigarro do futuro e para essas pessoas esse futuro já chegou. Não enxergam o carro como charme, mas como incômodo.

Esse mesmo pessoal quer sair da caricatura do Brasil como país do samba e do futebol, por isso não sente a copa como sua. Ainda não sabem o que os representaria como o novo caráter nacional, por enquanto apenas recusam a velha marca. Pelo humor dos cartazes eles não rejeitam a alegria do carnaval nem o coletivo do futebol. Apenas querem ser outra coisa.

É claro que a crise se dá por uma questão de credibilidade, ninguém se sente representado por nada. Ela é mais que contra o governo, é contra o estado brasileiro, que se mostra surdo e corruptor. Mas esses movimentos também representam o choque do novo contra o velho. O país urbano, jovem, laico, sonhador, querendo inovar, contra o Brasil periférico, religioso, conservador e resignado. De um lado uma tentativa de crescer em harmonia com a natureza, do outro o progresso a qualquer preço que sempre foi praticado. Qual o seu lado?


Sem Facebook (por Mário Corso, na ZH de hoje)

18 de junho de 2013 0

Das minhas relações mais próximas, só três comungam comigo não ter facebook. Não pensem que tenho críticas, sou um entusiasta, apenas não quero usar. Pouco dou conta dos meus amigos, onde vou arranjar tempo para mais? Minha etiqueta me faz responder a tudo, teria que largar o trabalho se entrasse na rede social. Só recentemente minhas filhas me convenceram que se não respondesse um spam ninguém ficaria ofendido.

A cidade ganhou a parada. Acabou o pequeno mundo onde todos se conheciam, onde não se podia esconder segredos e pecados. Viver na urbe é cruzar com desconhecidos, sentir a frieza do anonimato. Essa é a realidade da maioria.

Meu apreço com as redes sociais é por acreditar que elas são um antídoto para o isolamento urbano. São uma novidade que imita o passado, uma nova versão, por vezes mais rica, por vezes mais pobre, da antiga comunidade. Detalhe, não quero retroceder, a simpatia é pelo resgate da nossa essência social. Vivemos para o olhar dos outros, essa é a realidade simples, evidente. Quem pensa o contrário vai na conversa da literatura de auto-ajuda, que idolatra a auto-suficiência e acredita que é possível ser feliz sozinho. É uma ilusão tola, nascemos para vitrine.

Quando checamos insistentemente para saber como reagiram as nossas postagens somos desvelados no pedido amoroso. O viciado em rede social é obcecado pela sociabilidade. Está em busca de um olhar, de uma aprovação, precisa disso para existir. Ou vamos acreditar que a carência, o desespero amoroso, e a busca pelo reconhecimento são novidades da internet?

Sei que o facebook é o retrato da felicidade fingida, todos vestidos de ego de domingo, mas essa é a demanda do nosso tempo. Critique nossos costumes não o espelho. Sei também que as redes são usadas basicamente para frivolidades, é certo, mas isso somos nós. Se a vida miúda de uma cidadezinha fosse transcrita, não seria diferente. Fofoca, sabedoria de almanaque, dicas de produtos culturais, troca de impressões e às vezes até um bom conselho, além de ser um amplificador veloz para mobilizações.

Também apontam que amigos virtuais não substituem os presenciais. Todos se dão conta, justamente usam a rede na esperança de escapar dela. O objetivo final é ser visto e conhecido também fora. Usamos esse grande palco para ensaiar e se aproximar dos outros, fazer o que sempre fizemos. O facebook é a nostalgia da aldeia e sua superação.


Afeto embrulhado

15 de junho de 2013 0

O convidado chega a um aniversário infantil. O aniversariante recebe desconfiado o volume colorido, ainda é pequeno e não entende direito o que está acontecendo. Com exclamações, a mãe tenta atrair o interesse dele para o brinquedo que mora dentro do embrulho. Uma vez focado no presente, o pequeno fica hipnotizado pelo papel, ou mesmo pela caixa, deixando o objeto mais importante de lado. A mãe se desculpa, constrangida.

Cena dois: esquecer aniversário de namoro ou casamento é crime capital, mas ele lembrou e comprou um presente! Desta vez foi ousado, arriscou uma roupa. Eis uma opção exigente, é preciso conhecer o mapa do corpo da amada como um cego lê braile para acertar. É um gesto de amor indiscutível. Ela abre, prova, ficou perfeito.

Mas não havia cartão, nem um bilhete. Indignada, ela entristece por não ser merecedora de uma linha sequer. Será que ele não é capaz de um singelo “para minha amada”? Como a criança, ela também se fixou na embalagem. Cegada por seus argumentos, não notou que o objeto em si era uma declaração de amor.

Cena número três: buscamos presentear um amigo com referências culturais diferentes, de outra geração, ou estrangeiro a nossos costumes. Queremos muito agradar, dar algo relevante, nosso investimento amoroso ou financeiro deve ser visível. No começo das buscas já percebemos a dificuldade, pois muitos objetos possuem um valor perceptível somente aos iniciados. A significação do objeto para nossas referências culturais, a etiqueta, o pacote da loja também revelam a importância da oferenda. Para alguém estranho a esses códigos, deve ser o objeto em si o mensageiro do gesto, mas fica mais difícil. No fundo, o bebê da primeira cena não está errado, o atrativo da oferenda começa, e muitas vezes fica aí, na embalagem.

Representados por inúmeros objetos que possuímos e vestimos, somos o que temos, mas também o que recebermos e o que conseguirmos oferecer aos outros. Até quando nos auto-presenteamos, a mensagem é “eu mereço”. Por vezes trata-se de recompensa mensurável, outra de um consolo ou até de revanche. Já comprei um par de botas caríssimo porque fiquei com raiva duma desfeita recebida. É a famosa “sapatoterapia” feminina. Para os homens fica mais caro, pois costumam praticar a “carroterapia”.

Nosso sistema de trocas, quer seja de presentes, olhares ou palavras, é uma forma de construção de identidade. Até ao olhar-nos no espelho interrogamos o que os outros vêm em nós, quanto valemos aos seus olhos. Nesse transito de amores e valores, todo objeto é, primordialmente, uma mensagem.

Às vezes o encontro se dá e nos fazemos entender, afinal através dos objetos também se dialoga. Para tanto, presenteado e presenteador têm que estar dispostos a escutar o sentido do gesto, devem calar a voz interior que assopra insatisfações, ressentimentos e auto-críticas. Quando isso se torna possível, nos alegramos quando o bebê celebra o envoltório vistoso, contente de estar recebendo um presente. A mãe não precisa ficar envergonhada, também sabemos brincar de fazer uma bola com o papel colorido, rasgar é um prazer, revelar o conteúdo da embalagem um desafio. Bebês brincam de esconde esconde com tudo, inclusive com presentes. Quanto à amada, livre da premissa da mágoa, consegue perceber na roupa entregue sem palavras o toque do desejo que a recobre.

Presentear é adivinhar o outro, dar provas de que o escutamos tanto quanto ele nos acolhe. Presente maravilhoso é aquele em que alguém revela saber-nos bem. É tranqüilizador quando os outros, de fora, acham que somos parecidos com o que pensávamos ser. Quando erram, ao contrário, sentimo-nos mais sós. Objetos a parte, é sempre uma questão do afeto que encerram.