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A chave do tamanho

10 de maio de 2012 0


Tardiamente, fui conhecer Brasília. Temos, eu e ela, certa identidade: de gêmeas separadas ao nascer, mesmo ano. Devo dizer que me inquietou ao vê-la, cinqüentona como eu, meio caidaça. Espero que os paralelos não sejam tão óbvios. Mas o que realmente me surpreendeu foi o tamanho dos prédios, aqueles que são ícones da nossa nacionalidade. Esperava muito ver ao vivo o Palácio da Alvorada, o Itamaraty, a Catedral, o Congresso. Suas imagens povoam minha memória, estampadas em jornais, selos, moedas, na televisão. Desde que me entendo por gente são sinônimo do país, erguidos para encarnar o progresso e a grandeza da pátria. Cresci acreditando nisso. Eles são mesmo bonitos, mas surpreendentemente menores do que supunha. Entenda-se: não são pequenos, minha imaginação era superlativa. Vivi sentimento idêntico ao entrar em lugares da infância, aos quais a memória preserva a grandeza. Espichamos e esquecemos que crianças sofrem de nanismo, para elas tudo é grande e inacessível. Alguém se lembra, por acaso, como é não saber o que há em cima da mesa?

Impossível não evocar “A chave do tamanho” de Monteiro Lobato. Nessa história, tentando acabar com a guerra (foi publicado em 1942), a boneca Emília vai para a “Casa das Chaves”, reguladoras de todas as coisas do mundo. Queria achar e desligar o controle do conflito bélico que além de mundial, parecia não ter fim. Por acidente, acaba ativando uma chave que controla o tamanho dos seres humanos, que ficam reduzidos a dois centímetros de envergadura. Entre os inúmeros perigos, a pior das desventuras da boneca ocorre com duas crianças que ela encontra, cujos pais acabam sendo devorados pelo próprio gato da família, na frente dela. “A mudança de tamanho da humanidade vinha tornar as idéias tão inúteis como um tostão furado”, filosofa a boneca. Aliás, ela sobrevive graças à esperteza de perceber que tudo deve ser avaliado em outra escala.

Depois que crescemos, pessoas, objetos e lugares encolhem. Só mesmo nosso desamparo mantém a envergadura. Ele não desaparece quando alcançamos os trincos das portas. Quando pequenos, há pessoas grandes, que supomos protetoras; depois, tudo e todos perdem o porte. Assim, quem olhará por nós? A pequenez nos angustia, preferimos delirar a grandeza. Mas grande mesmo é a sabedoria da Emília: a chave é o tamanho. Mostrar aos homens que na verdade são insignificantes é uma ótima idéia para acabar com as guerras. Afinal, elas nascem da onipotência, de se achar maior que os outros. Escalas são pontos de vista e variam. Um dia é do dono, outro é do gato.


O banho das freiras

25 de abril de 2012 0

Quando pequena ouvi ou li um relato sobre a rotina de certas freiras reclusas. Nem sei se era real ou inventado. Mas o assunto me pegou, pois intrigavam-me certas peculiaridades sobre o banho dessas religiosas. Conforme recordo, elas jamais podiam desnudar-se, portanto trajavam um tipo de veste, como uma segunda pele, com a qual também se banhavam. Ficava a pensar como elas se lavavam, se podiam ou não colocar as mãos por dentro dessa armadura de pano e ensaboar as partes, digamos, mais inacessíveis. Ainda me preocupava com o aspecto da drenagem: se saíam com essa espécie de película de pano do banho, teriam que ficar secando ao relento antes de vestir o hábito, que do contrário ficaria molhado. Teriam elas aquecimento? Dedicava longas divagações à complicada logística do banho de uma pessoa que não pode se despir.

Na infância, minha filha tinha um problema de relevância similar. No caso dela era com o limite de peso que as pontes podiam suportar. Ela lia o peso nas placas. Como testariam a resistência daquela edificação? Após muito conjeturar, ela pensou que testavam com algum tipo de peso tal qual os das balanças antigas. Quando a ponte caía, construíam uma nova igual e anunciavam o peso máximo suportável. Porém, preocupava-se ela, a nova ponte não havia sido testada, e se fosse mais frágil do que sua similar anterior?

Essas são questões de criança, com o tipo de solução estapafúrdia que elas costumam inventar. Mas não são muito diferentes de uma série de raciocínios práticos com que os adultos costumam se distrair, principalmente em noites de insônia. Problemas ridículos e soluções dispensáveis ocupam longas jornadas de reflexão. Tanto matutar, nos leva a desconfiar de que é sobre questões realmente significativas que se trata. É inevitável pensar que uma menina ocupada com o direito de desnudar-se e tocar-se está às voltas com a sempre animada sexualidade infantil. Na mesma linha de inferência, a preocupação com a segurança das pontes indica uma precoce inquietude sobre as garantias que o mundo oferece. Sempre poucas e vagas.

Esses pequenos dilemas constituem verdadeiras questões, travestidas de charadas aparentemente fúteis. Fingindo ser pueris e aleatórios, apresentam-se pensamentos significativos: desejos, freqüentemente sexuais, assim como questões filosóficas. O problema das pontes, por exemplo, é uma inquietação lógica: como uma experiência pode gerar certezas para compreender uma realidade similar? Desse ponto de vista, até parecemos (e no fundo somos) bem mais profundos! Melhor assim.

Uma magra na sala e ...

22 de abril de 2012 0


“Gordinha é como pantufa, todo mundo gosta de usar mas ninguém sai de casa com ela!”

Eis como uma amiga descreve sua vida amorosa, não pouco atribulada. O problema é que seus parceiros costumam desaparecer antes do sol nascer. Ela acha que fazem isso por vergonha de ser vistos em sua companhia, o que seria um ponto negativo para o currículo deles. Talvez ela tenha razão nessa inquietude: quem come mais do que devia acaba sendo, a princípio, um tipo de transgressor. Gordura, fruto da gula, passou a ser o pior pecado capital...

Talvez, para nossos tempos em que a imagem é tudo, a gorda represente um novo tipo de mulher proibida, da qual acredita-se ser possuidora de um tipo de luxúria oral. Capturada nessa armadilha de fantasias, minha amiga sente-se exilada das relações amorosas legitimadas, relegada a uma espécie de bordel da imaginação.

Hoje como ontem, dá muito trabalho parecer uma mulher recomendável. Agora é preciso suar pela boa forma e cobrir formas irregulares, comer quase nada em público, bronzear-se (sob supervisão dermatológica, claro) e ocultar marcas da idade. Parceiras jovens ou “bem conservadas” pontuam mais. Se necessário, como um dócil objeto de Pigmalião, terão que recorrer à lipo-escultura. Carnes brancas e flácidas não ficam bem. O espartilho, agora invisível, impera como nunca.

Gordinhos representam a tentação e são condenados por viver alheios à cultuada abstinência, por não destilarem em suor suas impurezas. Eles não têm os volumes nos lugares certos: seios fartos, traseiros carnudos, mas a barriga lisa, conforme apregoado pelo cânone da Barbie. Mas, se hoje as garotas podem exibir suas formas em decotes intermináveis e saias sumárias, não seriamos finalmente corpos liberados? Não é o que parece, pois só pode ser visto o que estiver dentro das regras. E com tantas regras a seguir, o exercício e a fome acabam se constituindo numa espécie de burka internalizada. Já o implante de silicone é a voluptuosidade domada.

Os gordos evocam um desejo fora de controle. É como se comendo impudicamente burlassem o trabalho civilizatório, esse que nossa selvageria interior sempre ameaça. Evoluímos para nos alimentar sem voracidade, no lugar da compulsão, queremos ver a força de vontade. Boas maneiras e boa forma são ditadas pelo mesmo manual de etiqueta, essa que nos faz parecer tão ponderados e adequados. Idealizadas magérrimas mulheres francesas que saboreiam mini porções são o antônimo dos estigmatizados gordos, apresentados como selvagens devoradores de montanhas de fast-food. De fato, há gordos que comem sem prazer, só para se estufar, afogar a ansiedade, mas não é só disso que a obesidade é feita. Porém, a verdadeira pergunta é por que isso é mais condenável do que o igualmente estranho prazer de passar fome?

O momento pede pratos exíguos: comida fina que parece natureza morta, de alto apreço estético e baixo valor calórico. A mulher magra e musculosa é tida como a boa moça, enquanto a gorda - não precisa ser uma obesa mórbida, basta fugir ao padrão - evoca prazeres pouco domesticados. Os mais interessantes. Outrora, ressaltando os territórios da boa conduta e o indispensável tempero do proibido, dizia-se às moças que lhes cabia ser como uma dama na sala e uma puta na cama. Quem sabe, agora mudamos a frase, para lhes recomendar que sejam como uma magra na sala e uma gorda na cama?


publicado na revista vida simples, edição de abril

Sherlock Holmes das grandes causas (por Mário Corso)

18 de abril de 2012 0

As crianças gostam de contos de fada pois eles lhe transmitem uma confiança no mundo: tranquiliza-as a certeza de que no fim tudo que descarrilhou voltará ao normal. Não importa o quanto o herói sofra, quantas perdas tenha, haverá uma reviravolta que colocará tudo outra vez em equilíbrio. Crescemos e seguimos pedindo à ficção garantias que a justiça triunfará, que os bons serão recompensados e os maus pagarão suas faltas. No romance policial o mal é rasteado, esquadrinhado, compreendido e finalmente vencido. Como já não temos o olhar onisciente de um deus sobre nossas faltas, criamos a ideia de que a ciência e seus métodos, aliados a homens especialmente inteligentes, descobrirão tudo. O que nos amedronta virá a luz e será eliminado. Graças a essa linhagem de homens brilhantes e implacáveis seria impossível esconder um crime, assim como era enganar os deuses. O romance policial é o conto de fada dos adultos e o detetive é seu deus decaído. Essa ficção cria um cosmo onde os fatos no princípio não fazem sentido, mas que um olhar esperto juntas as pontas soltas, desvela a maldade e a domina. Não sabemos bem qual é a face do mal, nem o número seus demônios, mas ele é vencível. E mais, o mundo não é caótico, não é som e fúria gratuita, sabendo ler os fatos ele teria um sentido.

Consideramos Edgar Alan Poe o criador do romance policial, mas o maior detetive, arquétipo de todos os que seguiram, nos foi dado por Conan Doyle com seu impagável Sherlock Holmes. Esse detetive transcendeu seu criador e a obra que o originou. Como outras personagens que se tornaram ícones, ganhou contornos de um mito contemporâneo. Por isso muitos se apropriam dele para lhe atribuir novas aventuras. Um mito é um instrumento que ajuda a pensar, uma fantasia a serviço da subjetividade de cada época. Ele muda ao sabor das transformações dos modos de ser e de conceber o mundo e revela um pouco de nós mesmos, de nossos anseios e angústias.

Por ser o melhor, Holmes possui todas as características que distinguem e definem o detetive. Além das óbvias, como inteligência aguda, rapidez de raciocínio, conhecimento enciclopédico, excentricidades aleatórias, eles tendem a ser assexuados. Os grandes detetives não têm família, não se envolvem com namoradas, ou então são passageiros seus affairs. Possuem uma misoginia difusa, tudo indica que as mulheres atrapalham a concentração, essa atitude retoma na modernidade a antiga ideia que sexo e pensamento sério não andam juntos. As mulheres seriam mundanas demais e por isso atrapalham os voos mais altos do pensamento. Como na antigas religiões, é preciso estar puro para ascender ao sagrado e a verdade.

Um dado que pouco nos damos conta é a revolução do pensamento que Conan Doyle nos propõe, e talvez essa seja uma das razões não explícitas de seu sucesso. O modo de pensar comum na virada do século XIX para o XX era partir do todo e então deduzir o particular. Doyle pega no ar a mudança em curso de paradigma e nos demonstra, de forma acessível, a possibilidade de chegar à verdade através de pequenos indícios, pistas infinitesimais em que antes não reparávamos. Hoje é fácil, depois do DNA, acreditar que as pequenas coisas têm assinatura, no começo do século passado era apenas uma intuição.

Mas o que a última versão de Sherlock, os dois filmes de Guy Ritchie, mantêm do original? Ainda é o nosso Holmes? Creio que sim, as características da sua personalidade foram mais mantidas que as do gênero policial. Os filmes estão mais próximos dos romances de aventura. No romance policial o crime já está dado, basta decifrá-lo, enquanto na aventura o mal está em curso e cabe ao herói alterar seu curso. Além disso, o Holmes de nossa época pede um equilíbrio maior entre corpo e cérebro. Hoje um herói de poltrona, sem músculos e agilidade seria impensável. O mesmo se dá em relação a Watson que passa a ser mais esperto e participativo, nosso tempo anti-aristocrático não suporta parcerias tão assimétricas.

Quanto aos objetivos, Holmes alargou seu horizontes: agora as grandes causas lhe interessam. Ao invés de assassinos pérfidos isolados, roubos e intrigas, na sua versão atual a meta é a estabilidade política da Inglaterra e evitar a primeira guerra mundial. Repaginado, ele sai da esfera policial e chega na política, agora é um herói mais elevado e politicamente correto. Sua inteligência está a serviço do bem de todos, portanto, podemos dormir mais sossegados.

publicado na revista Carta na Escola, março de 2012


O fio da memória

28 de março de 2012 0

Graças a sua coleção de fantoches, Policho era uma lenda na minha infância. Nas estantes de sua casa, dezenas de figuras caricaturais e mágicas ficavam longe do meu alcance, só os olhos podiam tocá-las. Não eram brinquedos, eram atores, apenas estavam repousando. Seu dono era um “bonequeiro”, fazia teatro de fantoches: em suas mãos eles falavam, dançavam, brigavam muito e arrancavam gritos e risadas da platéia. Fantoches são exagerados.

Atrás do artista havia um homem politizado, ativista em tempos pouco propícios para isso no Uruguai, onde vivíamos. Por isso foi preso e barbaramente torturado. Entre seus crimes estava o fato de ser filho de um importante educador cubano e pai de dois jovens considerados perigosos, como se tornaram os jovens naquele então. Na cela após a jornada de suplícios, ocorreu-lhe uma avassaladora amnésia. Na determinação de calar, já não lembrava quem era: saber-se era perigoso. Fruto do esforço de evocar, veio-lhe à mente o pedacinho de uma história que ele passou a contar a si mesmo. Infelizmente não sei qual era, se conto, lenda ou romance, e não há como lhe perguntar, ele já partiu. Dia após dia, a trama crescia. Scherazade de si mesmo, foi atiçando a própria curiosidade e sobrevivendo à miséria da desesperança. Quando a narrativa se completou em sua cabeça foi como se tivesse atravessado um portal. Ela era a chave: toda sua memória voltou, com ela a identidade e a força para suportar a dor.

A evocação que o livrou da amnésia, podia ter sido de uma lembrança de infância, da família, uma música, o número da carteira de identidade ou endereço, elementos da realidade pessoal que ele procurava resgatar. Mas o que voltou foi uma história. É o mesmo caminho traçado por Umberto Eco em seu livro “A Misteriosa chama da Rainha Loana”, no qual um homem recupera a memória perdida visitando o porão da casa que fora do avô, onde ficara sua antiga coleção de gibis. Reencontrar-se com histórias de que gostava foi o método para encontrar a própria identidade porque nelas ficam guardados sonhos e desejos.

São nossas divagações fantasiosas, enfeixadas em histórias que lemos, assistimos ou nos contaram, que melhor nos traduzem e representam: ali está o tesouro da hipotética verdade de cada um. Talvez, se algum dia precisar, eu possa recorrer às histórias que aqueles bonecos quietos na estante me cochicharam, encenadas no palco da imaginação infantil. Eles eram só fantoches, mas tinham um amo que certamente sabia que uma boa história é a chave de tudo o que somos.

O preço da masculinidade

21 de março de 2012 0

No interior do Rio Grande do Sul alguns pecados são imperdoáveis. Para um cão pastor atacar uma ovelha é evento que só acontece uma vez: pagará com a vida. Aliás, um dos ditos que corre por aqui é “cachorro que come ovelha, só matando”. Supõe-se que o ato selvagem despertará uma gula ancestral, a fera acordada não se resignará mais à doma.

Esta é a história de um menino e seu cão “criminoso”. Ela me foi contada por sua irmã mais moça, que já avó nunca esqueceu. Era um pastor belga, a sombra negra do seu jovem dono, mas cometeu o crime de caçar o que devia proteger. O pai, homem antigo, achou que o animal devia ser punido pelo dono, assim tornando o evento exemplar para seu filho. Exigiu que ele matasse seu animal de estimação. O garoto recusou, mas os peões por ali reunidos observaram que não seria muito máscula semelhante covardia. A provocação funcionou e ele se embrenhou com seu parceiro no mato. Sumiu o dia todo. Noite fechada, as mulheres da casa choravam e já temiam por ele, quando voltou, silencioso, soturno. Nunca mais falou sobre isso, mas parecia ter executado a própria alegria. Era agora um homem, mostrou o desprendimento de um guerreiro, pagou o preço da masculinidade. Tornou-se um adulto tumultuado, nunca abandonou as terras do pai, foi seu predileto e razão de seus cabelos brancos.

Muito se diz sobre o árduo caminho das mulheres pela libertação. Foram milênios de opressão e dois séculos de luta das feministas. A cada 8 de março saudavelmente lembramos disso porque ainda há muita desigualdade. Por sorte, na esteira das lutas feministas, também a condição masculina teve suas regras alteradas. Histórias como essa tendem a não se repetir. Se bem é verdade que sempre cometemos algum gesto de assassinar a própria infância para crescer, a doação dos brinquedos preferidos já basta. Quanto à identidade sexual, cada dia fica mais claro que é incerta e transitamos sempre perto da raia do sexo oposto. Isso não se confunde com ser gay: homossexuais amam o próprio sexo, mas têm os mesmos dramas de identidade que os héteros.

Como o menino da história, estamos sempre sendo chamados a provar que nos tornamos suficientemente masculinos ou femininos, uma conquista sempre incerta. Que o digam as mulheres sem filhos, assombradas pelo olhar superior das supostamente legitimadas pela maternidade; os solteiros ou separados heterossexuais, que se envergonham sem a presença ostensiva de um parceiro sexual; os virgens tardios. As mulheres já não sabem bem o que é ser uma e, graças a elas, os homens carecem das certezas milenares. Não deviam queixar-se disso, já não serão eternos soldados, não precisarão pagar o preço da tristeza de assassinar a própria sombra, essa que brinca ao nosso lado enquanto caminhamos.

(publicado na Revista Vida Simples, edição de março)

Filhos da máquina de sonhos

14 de março de 2012 0

Por que na ficção os mestres se expressam por enigmas? Quando Harry Potter está com a vida a prêmio, o prof. Dumbledore em vez de dizer o que ele tem que fazer, lança uma charada que deve ser decifrada em meio às correrias. Mas por que não ajudar os meninos, não vê o velho mestre que a situação está preta?

Só que o enigma é o encanto da aventura! Decifrar a frase misteriosa faz com que eles cresçam com a missão. Tornados detetives acabam entendendo no que estão metidos e seu papel na trama. Do contrário, seriam como soldados no front, a quem cabem estreitos heroísmos. Hoje não admiramos a alienação, a obediência; o engajamento deve ser ativo, original, inteligente.

Cada um de nós é, de certa forma, portador de um enigma. Afinal, não teríamos vindo ao mundo à toa. Carecemos imaginar uma sofisticada engrenagem da qual supomos ser peça imprescindível. Esse é o raciocínio do menino Hugo, protagonista do filme “A invenção de Hugo Cabret” de Scorsese. Somos parte de um mecanismo, pensa ele, cada um tem utilidade peculiar. Cabe-nos desvendar o mistério de seu funcionamento, consertar seus estragos.

Ele é aprendiz de relojoeiro, trabalhava com o pai nesse ofício até a morte trágica deste. Ambos dedicavam-se ao conserto de uma espécie de boneco robot, que havia sido encontrado abandonado. Hugo, que já havia perdido a mãe, torna-se órfão e é levado por um tio imprestável a habitar os corredores internos, as entranhas, da estação de trem, onde fazia a manutenção dos relógios. Abandonado ali, vivia clandestino, tendo por companhia apenas o boneco estragado. Se descoberto, seria colocado num orfanato, mas preservava sua liberdade para viver consagrado à tarefa de completar a obra do pai. Estava convicto de que esse boneco, ao funcionar, revelaria alguma mensagem paterna, dando um sentido à perda e à sua vida. Enquanto esgueira-se e realiza pequenos roubos, principalmente das peças necessárias para refazer o robô, seu destino se cruza com o de um velho senhor que se torna parte da charada.

A descoberta final de Hugo é surpreendente: mais que fatos, verdades, há sonhos que são sempre enigmáticos. A herança que recebemos é composta das fantasias dos que nos precederam. Crescer é terminar e recriar o boneco que os pais sonharam. Apesar do valor que nossos ancestrais possam ter provado, seu maior legado foram seus devaneios. Por isso o filme é uma homenagem aos fundadores do cinema, aos artistas, trabalhadores da fantasia. Somos, afinal, uma engrenagem da incansável máquina de sonhos dos homens. Espero que imprescindível.


WALDRAUSCH

04 de março de 2012 0


Esses dias fazia de segundo violino para Lya Luft numa palestra. Escutando uma história da sua infância quase me perco da minha função. Sua prosa envolvente, onde realidade e ficção perdem o sentido do limite, me embalava.

Ela estava no jardim de sua casa quando começava uma tempestade. Sentia a vegetação sinistramente agitada pelo vento, aquela inquietude da natureza que conhecemos, um ar carregado de ameaças. A tempestade é um encontro menor com o caos, ergue-se como um tsunami pocket para tirar tudo do lugar. No vento, que anuncia a água e os trovões, há uma gravidade, uma urgência no ar. É um momento de desamparo: dá vontade de correr para um abrigo, “estar dentro”, não importa do que.

Eis que mãe se aproxima da pequena Lya paralisada, os olhos azuis arregalados, abaixa-se e lhe sussurra em alemão, língua na qual transitava na infância: é o “waldrausch”. O “rumor do bosque”, ela nos traduz. A criança se acalmou, o medo transmutou-se em poesia. A ameaça do mau tempo tornou-se uma espécie de conto de fadas, assustador, mas fascinante, como um filme de terror, uma sinfonia angustiante, que nem por isso deixa-se de escutar. Uma simples palavra pronunciada pela mãe fez a diferença. Deve ter sido assim que ela virou escritora, ofício que, aliás, começou a exercer depois de tornar-se mãe, não por acaso.

Lembro de uma amiga que me contava história avessa. Sua mãe era fóbica, pouco saía de casa, sobrecarregando-a com o cuidado dos irmãos. Dentre as ameaças do mundo, eram as tempestades os piores inimigos dessa mulher, momento no qual recolhia os filhos e abrigava-se embaixo da mesa da cozinha. Ela cresceu corajosa, sina freqüente dos primogênitos que podem contar pouco com os pais. Porém, sofria de uma dependência amorosa, da qual custou a se livrar: o ser amado era seu lugar seguro. Um grande, e infelizmente fracassado, amor foi para ela como a mesa, abrigo que a mãe usava para se abrigar da tempestade. Quão diferente teria sido se fosse uma mãe que pudesse continuar lhe sussurrando ao ouvido cada vez que o desamparo ameaçava: “é o rumor do bosque”!

Esse bosque está sempre dentro de nós. Uma floresta de pensamentos, fantasias e pesadelos feitos de amor e morte. Em nossa turbulenta natureza interior, ventanias, cataclismos se armam de tanto em tanto. Tanto sabemos disso que trememos a cada brisa sinistra, carregada de cheiros que vieram sem ser convidados. Quando as memórias de infância carecem do encanto necessário, sempre temos na ficção um lugar seguro para estar enquanto a tempestade passa, cumpre seu ciclo. Os artistas são aqueles que partilham suas metáforas, seus bosques e ventos, ao pé do nosso ouvido. Quanto a nós psicanalistas, o tempo todo garimpamos essa palavra que permite atravessar a rude natureza da alma.



Lisbeth por Eliane Brum

14 de fevereiro de 2012 0

A trilogia que lançou Lisbeth Salander, a detetive hacker que está virando as personagens femininas e o romance policial de cabeça para baixo tem muitos admiradores, mas a apreciação daquela que é uma das mais corajosas e incensadas jornalistas do nosso país é mais uma honra para a jovem sueca da ficção. Se ela existisse, pouco se importaria com qualquer homenagem, mas azar o dela. Eliane, em sua coluna para a Época desta segunda feira, analisa não só a imparidade da figura dela, mas também o fato de ser uma ficção escrita por um jornalista, cuja trama é a cara de nossa época flúida, anônima, fugaz e sem contornos. Obrigado Eliane, por esse texto brilhante que tanto eu quanto o Mário adoraríamos ter escrito!

eis o link, para a (sempre) excelente coluna da Eliane:


http://revistaepoca.globo.com/Sociedade/eliane-brum/noticia/2012/02/por-que-amamos-tanto-lisbeth-salander.html

Um tempo de homens que amam as mulheres

11 de fevereiro de 2012 0


Detetive mulher como ela, nunca foi vista. A soporífera Miss Marple deve estar furiosa em seu túmulo. Aliás, muitos diriam que ela sequer é feminina: destemida, franzina, tatuada e cheia de piercings, aparência andrógina, bissexual assumida, sempre em guarda, carente de empatia. A fragilidade de sua figura não sugere nenhuma delicadeza, Lisbeth Salander foge totalmente aos estereótipos do gênero. Mas sim, ela é mulher, de um tipo em expansão, levando o território do feminino e da novela policial por novas trilhas, seguidas com entusiasmo por um vasto público. Essa proeza é obra de um escritor sueco, Stieg Larsson, jornalista engajado, feminista convicto, que morreu cedo, sem saber do estrondoso sucesso de sua trilogia Millenium.

Depois dos milhões de exemplares vendidos em todo mundo e dos filmes suecos, chegou a vez de Hollywood mostrar sua versão da série. No que essa história tanto agrada? A trama é boa, o herói, o jornalista Mikael Blomkvist, é um sujeito incorruptível, interessado no bem comum, contra o capitalismo selvagem e as falcatruas que ocorrem nos cantos escuros. Estávamos carentes de bons heróis, com legítima preocupação social. Porém, acreditamos que é na personagem da jovem detetive Lisbeth que reside a novidade e o segredo cativante da história.

Os livros da trilogia buscam desvendar uma série de crimes, mas o verdadeiro desafio é descobrir a história da própria Lisbeth, a origem de seu heroísmo fora de esquadro. Dos ótimos filmes suecos (Niels Oplev, 2009, o primeiro nas locadoras), infelizmente só estreou no Brasil um episódio. Os americanos providenciaram um remake, como de hábito. No lugar do charmoso e nada bonito repórter do filme original, entra o galã Daniel Craig, questão de gosto.

Na história de Larsson, o repórter investigativo Blomkvist vive o pior momento de sua carreira após ter sido vencido pelos advogados de um magnata ignóbil, cuja corrupção havia denunciado. Pontos fracos de sua investigação viabilizaram essa derrota e a revista da qual era editor chefe também teve seu prestígio abalado. Sente-se desacreditado e está financeiramente quebrado. É então chamado por um velho milionário que o incumbe de investigar um desaparecimento, ocorrido há quatro décadas, de sua sobrinha predileta e herdeira.Um mistério que não queria morrer sem ver desvendado. Ressabiado, Mikael aceita a missão mas procura se alicerçar melhor, pois teme ver suas descobertas caírem novamente em descrédito. Para lhe proporcionar uma retaguarda técnica, uma agência de detetives lhe envia seu melhor homem: Lisbeth Salander, cuja aparição é sempre impactante.

Lisbeth é uma brilhante hacker profissional, fala pouco e intimida o interlocutor com seu olhar fuzilante. Miúda mas ágil como um ninja, une a milenar curiosidade feminina a uma mente objetiva e racional. Entre as mulheres da ficção popular, as poucas super-heroínas tendem a ter seus dotes associados aos atributos físicos, são voluptuosas como a ronronante Mulher Gato, a antiga Barbarella ou Lara Croft, nascida dos games.

Lisbeth é cerebral como Sherlock Holmes, misteriosa e poderosa como uma bruxa, mas sua mágica é terrena. Semelhante a Batman, outro herói sombrio, seus poderes são fruto da obstinação e da inteligência, assim como a motivação de ambos nasce de um grande ressentimento, o dela contra os homens que não sabem amar as mulheres. Poderia ter sido criada por Mary Shelley, pois como a criatura do Dr. Frankenstein torna-se vingativa por ter crescido desamparada num ambiente violento, no caso dela onde as mulheres são violadas e feridas, e assim como ele é feita de um apanhado de pedaços. Os fragmentos com que a criatura Lisbeth se monta provém do que outrora era exclusivo dos homens: é guerreira, estrategista, sedutora, prática e insensível sempre que necessário. Qualidades tradicionalmente masculinas, das quais uma mulher ao se apropriar acaba, ainda hoje, parecendo, a seu modo, monstruosa. O susto provocado pela imagem da detetive hacker provém do mesmo medo que levou as bruxas à fogueira: o poder feminino.

A mulher sempre foi temível por deter os segredos de alcova, calcanhar de Aquiles da grandeza dos seus homens. Os bastidores foram seu reino, seu poder provinha exclusivamente da vida privada, onde se oculta a verdade de cada um, uma essência que a imagem pública esconde com zelo. É por isso que todos, Freud inclusive, não cessam de se perguntar o que querem as mulheres. No apreço delas residiria o verdadeiro valor de cada um, por isso devem ser decifradas, conquistadas e subjugadas.

Lisbeth e Mikael confundem os clichês dos gêneros. A bissexualidade de Salander, tão em voga, é um poder cobiçado, como se os mistérios do sexo, que nos é sempre oposto, pudessem tornar-se finalmente acessíveis. Seduz mais do que é seduzida, enquanto seu par, o “Dom Juan” Blomkvist, é que sucumbe aos seus encantos. Ele é o parceiro perfeito da nova mulher: sabe ser paternal e cuidador, mas permite-se depender dela se necessário. Ele é ético, confiável e fiel como se espera de um grande amigo, sensual e respeitoso, nunca compete com elas, as ama, admira e jamais as submete. No contraponto desse homem ideal estão os crápulas, que nos romances da trilogia são numerosos, desprezíveis, sendo que o próprio Blomkvist já sofreu nas mãos de um deles.

A grande repercussão da série é reflexo da vitória do feminismo e da democracia enquanto ideais, pois a missão da dupla é o exorcismo da injustiça e do poder do homens maus, representantes do antigo pai despótico, ditatorial, do machismo que estupra e reprime. Ao longo da história, homens e mulheres lutaram juntos, mas apesar delas costumarem somar forças às grandes causas libertárias, as pautas feministas eram sistematicamente esquecidas. Elas foram freqüentemente traídas pelos seus companheiros de luta, deixadas para trás, queixosas. Pode ser que isso esteja acabando. Blomkvist e alguns homens de seu tempo estão com as mulheres, já não as temem tanto. O maniqueísmo do romance policial, como nos contos de fadas, nos tranquiliza com a vitória do bem. Neste caso, da dignidade das mulheres.


Publicado no caderno Cultura, jornal Zero Hora, em 11 de fevereiro de 2012