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	<title>Terra do Nunca</title>
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	<description>A imaginação no divã: dois psicanalistas, Diana e Mário Corso, pensam sobre as fantasias: as que moram nas estantes das bibliotecas, no escurinho do cinema, dentro da TV, na imaginação das crianças, na cabeça deles mesmos...</description>
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		<title>A cura da homofobia</title>
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		<pubDate>Sat, 11 May 2013 13:06:09 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Diana Corso</dc:creator>
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 Em 1999 o Conselho Federal de Psicologia baixou uma resolução sobre a questão de curar homossexuais. O objetivo era impedir que se usasse uma ciência, a psicologia no caso, para proselitismo preconceituoso, vindo de setores religiosos e conservadores. Tal ato seria desnecessário se não existissem profissionais que confundiam crenças pessoais com indicações terapêuticas. Resumindo:... <a href="http://wp.clicrbs.com.br/terradonunca/2013/05/11/a-cura-da-homofobia/?topo=13,2,18,,18,77">Leia mais &#187;</a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><br class="spacer_" /></p>
<p><span style="color: #000000"><span style="font-family: TimesNewRomanPSMT, serif"><span style="font-size: small"> Em 1999 o Conselho Federal de Psicologia baixou uma resolução sobre a questão de curar homossexuais. O objetivo era impedir que se usasse uma ciência, a psicologia no caso, para proselitismo preconceituoso, vindo de setores religiosos e conservadores. Tal ato seria desnecessário se não existissem profissionais que confundiam crenças pessoais com indicações terapêuticas. Resumindo: o que o CFP diz é que não se pode curar algo que não seja uma doença. Na verdade apenas traz ao Brasil o que já é consenso em quase todos países ocidentais: não existe nenhuma teoria psicológica ou psiquiátrica séria que defenda tal posição. A questão volta à discussão agora que setores políticos, especialmente os evangélicos, insistem em rever a questão. </span></span></span></p>
<p><span style="color: #000000"><span style="font-family: TimesNewRomanPSMT, serif"><span style="font-size: small"> O objetivo da derrubada dessa resolução seria dar aos profissionais da saúde o “direito” de considerar o desejo por pessoas do mesmo sexo como um sintoma a ser curado, uma doença a ser combatida. Isso possibilitaria aos psicólogos religiosos agir em nome de sua formação acadêmica para tratar como doença uma forma de amar. Isso não encontra respaldo em nenhum conhecimento que eles possam ter adquirido na universidade. Em outras palavras, se alguém quer combater a homossexualidade, que o faça sem o aval da academia e do órgão regulador da profissão.</span></span></span></p>
<p><span style="color: #000000"><span style="font-family: TimesNewRomanPSMT, serif"><span style="font-size: small"> É de se perguntar por que é um problema tão grande para uns o fato de outros amarem pessoas do mesmo sexo? O desejo de homens por outros homens e mulheres por mulheres é velho como a história da humanidade. Por que tanto estardalhaço em torno disso? Por que dedicar tanta energia a combater modos de amar e desejar? </span></span></span></p>
<p><span style="color: #000000"><span style="font-family: TimesNewRomanPSMT, serif"><span style="font-size: small"> As piores repressões incidem sobre os desejos que sentimos como mais insidiosos, tentadores. Se antes a fidelidade era o grande tema, pois tratava-se de defender a permanência do casamento tradicional, agora a identidade sexual parece se o ponto mais frágil do edifício subjetivo. A ambiguidade sexual é hoje um fato em nossas roupas e condutas, mulheres usam calças, homens colocam brincos, todos trabalham nos ofícios que quiserem e ter um filho não condena ninguém à prisão doméstica. </span></span></span></p>
<p><span style="color: #000000"><span style="font-family: TimesNewRomanPSMT, serif"><span style="font-size: small"> Os territórios dos sexos nunca foram tão indefinidos e isso deixa muita gente confusa, além de produzir fobias. Como diz o nome, trata-se de “homofobias”: pessoas que sentem temor, não podem conviver, saber a respeito ou aproximar-se de outras que desejam os do seu sexo. Esses sujeitos frágeis estão assim preocupados com o embaralhamento dos territórios dos gêneros porque, no âmago, sabem ou intuem, que as fronteiras são arbitrárias, não há nada que nos obrigue a ser ou desejar de determinada forma. Podem clamar à vontade pela obviedade da anatomia, pela necessária complementariedade do pênis e da vagina, pela fecundidade macho-fêmea. Isso nunca foi unívoco para o desejo dos humanos e nunca será.</span></span></span></p>
<p><span style="color: #000000"><span style="font-family: TimesNewRomanPSMT, serif"><span style="font-size: small"> Usa-se hoje falar de gênero em vez de sexo, essa forma de se expressar comporta a compreensão de que a anatomia não é um destino, que há múltiplas variações para os pensamentos que guiarão a vida sexual e a forma de se parecer. Os psicanalistas insistem em “caso a caso”, porque é assim. </span></span></span></p>
<p><span style="color: #000000"><span style="font-family: TimesNewRomanPSMT, serif"><span style="font-size: small"> É fundamental que se tenha claro que quando falamos de “homo”, “hétero” ou “bi” sexuais, estamos necessariamente misturando canais, pelo menos dois são mais claros. Por um lado há a identidade sexual. Ela se constrói de tal modo em que o comportamento e aparência de uma pessoa pode ou não corresponder à expectativa do sexo em que se nasceu: nos tornaremos homens másculos ou afeminados, mulheres masculinizadas ou femininas. Neste caso, um homem pode, por exemplo, parecer-se com o sexo oposto, mas também amar alguém do sexo oposto. Não é preciso parecer um machão para amar as mulheres. Isso ocorre porque o desejo sexual, é o outro lado, uma segunda questão, que não necessariamente se articula com a identidade. Portanto, um homem pode parecer feminino e gostar de mulheres, assim como uma mulher ter uma aparência e comportamento viris e interessar-se por homens. Pode também um homem gay, que deseja outros homens, ser muito mais macho que muito hétero e entre as lésbicas é muito comum que sejam delicadamente femininas. </span></span></span></p>
<p><span style="color: #000000"><span style="font-family: TimesNewRomanPSMT, serif"><span style="font-size: small"> A sigla LGBTTT não é assim comprida por acaso, pois a obrigação de parecer-se com o sexo em que se nasceu e de desejar o sexo oposto são questionados por lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transexuais e transgêneros. Cada uma dessas letrinhas abre para um universo variado de formas de ser e amar. Ao nascer, se não formos hermafroditas, nosso corpo nos remete a um destino social, uma forma de ser e de amar. É (ou era) esperado que fossemos nos construir à imagem e semelhança do sexo em que nascemos e que estejamos interessados pelo sexo oposto, sem maiores vacilações e questionamentos. Mas nunca é tão simples assim. Para começo de conversa, temos uma complicada história de amor com o progenitor do nosso mesmo sexo, em relação ao qual temos desejos, vontade de ser amados e escolhidos por ele. </span></span></span></p>
<p><span style="color: #000000"><span style="font-family: TimesNewRomanPSMT, serif"><span style="font-size: small"> Quanto à aparência, juntamos traços da mãe e do pai, ou daqueles que cumpram essas funções em nossa vida, misturamos com vivências que incluem outras personagens marcantes (professores, amigos da família, outros parentes) e com isso montamos nossa identidade. Essa mistura toda inclui, obviamente, pessoas de vários gêneros. Antes de chegar à vida amorosa propriamente dita, as amizades na infância e na puberdade muitas vezes são sofridíssimas histórias de amor homoerótico. Meninas padecem pelo abandono amoroso das amigas, meninos se escolhem e discriminam, para tristeza de uns e outros, sem que nenhum dos envolvidos vá necessariamente se tornar gay mais adiante. </span></span></span></p>
<p><span style="color: #000000"> <span style="font-family: TimesNewRomanPSMT, serif"><span style="font-size: small"> Ao longo da vida, podemos até mudar aquilo que nós mesmos pensávamos sobre nossa escolha amorosa e erótica (homo ou hétero), ou sobre nossa aparência (feminina, viril ou andrógina) em função de um processo, de experiências, encontros. Também pode acontecer de crescermos com certezas (ou suspeitas) a respeito disso desde pequenos. Há aqueles que chamamos de bissexuais porque descobriram um amor no seu mesmo sexo, e então, quando esse amor termina, voltarão à condição anterior. A sexualidade e a construção da identidade de gênero são imprevisíveis, a única certeza é o adeus às certezas. </span></span></span></p>
<p><span style="color: #000000"><span style="font-family: TimesNewRomanPSMT, serif"><span style="font-size: small"> Por isso, hoje tantos jovens têm ousado explicitar essa mobilidade, essa ambivalência sexual. Estão mais liberados para viver a complexidade de como ser a amar. Não se trata de algo criado pelos nossos tempos mais liberais, trata-se de dar visibilidade a algo que ficava nos subterrâneos, que era vivido clandestinamente, culposamente, ou era reprimido gerando quadros psíquicos variados, não raro graves e incapacitantes. Essa nova liberdade não inibe nem propicia o surgimento de homossexuais, apenas evita neuroses.</span></span></span></p>
<p><span style="color: #000000"><span style="font-family: TimesNewRomanPSMT, serif"><span style="font-size: small"> Raramente recebemos pacientes que se queixem da forma como desejam, isso é para todos nós uma força que nos impulsiona e se impõe. Os motivos de consulta, que movem experiências terapêuticas, em geral dizem respeito à relação da pessoa e do seu meio com esse desejo. Um homem dificilmente buscará tratamento por desejar outros homens, mas o fará porque isso o faz sentir diminuído frente à família, os colegas de trabalho ou estudo. Portanto, é o preconceito, é a ilegitimidade do desejo, que certamente leva ao sofrimento psíquico. Amores proibidos dóem por serem proibidos, não por serem amores.</span></span></span></p>
<p><span style="color: #000000"><span style="font-family: TimesNewRomanPSMT, serif"><span style="font-size: small"> A homossexualidade não é uma doença a ser curada, ela não passa de uma forma de desejar. Já a homofobia talvez inspire cuidados terapêuticos. A ajuda psicológica deve ser dispensada para aqueles que apresentam uma vida limitada por uma relação conflitiva com os próprios desejos. Precisam de ajuda os que sofrem quando entram em contato com algo que lhes lembra pensamentos inconfessos, com os quais não conseguem conviver, os que são assombrados por dúvidas para as quais não têm resposta. A fobia é uma dessas formas de sofrimento, na qual alguém fica fixado em algo que lhe produz horror e fascínio. Todo mundo tem alguma, mas quando elas se tornam fortes e assumem muita importância na vida de alguém acabam sendo motivo de consulta. Por sorte fobia tem cura, não é fácil, mas muitos já conseguiram.</span></span></span></p>
<p><br class="spacer_" /></p>
<p><em>Mário Corso e Diana Lichtenstein Corso, psicanalistas. Publicado em Zero Hora.</em></p>
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		<title>Estranho na minha alma</title>
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		<pubDate>Sun, 28 Apr 2013 14:26:49 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Diana Corso</dc:creator>
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		<description><![CDATA[

Fim do dia, das forças. O amigo liga chamando para um chope. Chegando lá, agradável surpresa: na mesa estava sua ex-mulher! Inevitável não fantasiar uma retomada, a separação sempre deixa uma ferida mal fechada, uma vontade de colar o que quebrou. Sempre gostei dela, do casal que eles faziam, mas eu sabia que aquele amor... <a href="http://wp.clicrbs.com.br/terradonunca/2013/04/28/estranho-na-minha-alma/?topo=13,2,18,,18,77">Leia mais &#187;</a>]]></description>
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<p><br class="spacer_" /></p>
<p>Fim do dia, das forças. O amigo liga chamando para um chope. Chegando lá, agradável surpresa: na mesa estava sua ex-mulher! Inevitável não fantasiar uma retomada, a separação sempre deixa uma ferida mal fechada, uma vontade de colar o que quebrou. Sempre gostei dela, do casal que eles faziam, mas eu sabia que aquele amor acabou. Havia escutado meu amigo o suficiente para saber que seu coração tomara outros rumos. Quere-los juntos novamente era egoísmo. Apesar disso, a conversa foi deliciosa como costumava ser no passado, estávamos relaxados, contentes. Depois, cada um foi pacificamente para seu lado, sem ressentimentos visíveis.</p>
<p>Amigos também ficam sequelados com os divórcios, sofre-se junto. A pior partilha, quando um amor acaba ou colapsa, é a dos afetos. Os que estão de fora do relacionamento descobrem-se desagradavelmente dentro: são disputados, junto com livros discos e algum patrimônio. Os amigos raras vezes conseguem transitar igualmente entre ambos, sem ter que escolher. A posição é similar, embora menos grave, à dos filhos. Estes, no entanto, não podem, nem devem, nem querem se posicionar, precisam manter o equilíbrio.</p>
<p>Quando a separação é tinta fresca, os ex-amantes estão loucos. Afogados em ressentimentos, reprisam incessantemente as mesmas histórias. Exigem paciência budista. Descontam a perda em tudo o que passar pela frente, seja filho, amigo, parente ou mascote. O filhos, com o coração sem lar, precisam acolher a dupla de desequilibrados que substituiu seus pais. Os amigos sofrem mal menor, mas a costumeira intimidade agradável transforma-se no muro das lamentações.</p>
<p>Fico triste, mas não desaprovo separações. Já entendi que vínculos terminais devem ser eutanasiados. Relações destruídas ou destrutivas podem consumir os envolvidos até o fim. Vi muita gente florescer após um recomeço, por vezes em um novo amor, outras em importante romance consigo mesmo. Mas sei o alto preço disso. Das separações que vivi, minhas ou alheias, impossível esquecer o desgarramento, a devastação, o vazio, o sem sentido que restou. Dói, destrói. Conviver com um amigo separado é reviver esse luto, essa perda. Nessa hora, o amor fraterno é imprescindível, mas impotente, nossa presença não tapa o furo.</p>
<p>Aquele entardecer, na presença de uma ferida cicatrizada, me encheu de energia. <em>“Estranha no meu peito. Estranha na minha alma. Agora eu tenho calma. Não te desejo mais. Podemos ser amigos simplesmente. Amigos, simplesmente. E nada mais.”</em> A letra de Fernando Lobo, na música <em>“Chuvas de verão”</em> traduzia o encontro. O final feliz, por vezes, não é o dos contos de fadas, o casamento, pode ser também uma separação que finalmente aconteceu. Por que não?</p>
<p><br class="spacer_" /></p>
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		<title>@ Laerte</title>
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		<pubDate>Sun, 28 Apr 2013 14:24:50 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Diana Corso</dc:creator>
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		<description><![CDATA[
Tenho várias tiras do Laerte Coutinho coladas numa parede em meu consultório, são como enigmas que seguem me interrogando. Mais do que um cartunista, ele escreve poesia e filosofia com imagens. Suas tiras são abismos de múltiplos significados nos quais me perco. Todas as recomendações são poucas para que o leitor conheça sua obra. Ele... <a href="http://wp.clicrbs.com.br/terradonunca/2013/04/28/laerte/?topo=13,2,18,,18,77">Leia mais &#187;</a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><br class="spacer_" /></p>
<p>Tenho várias tiras do Laerte Coutinho coladas numa parede em meu consultório, são como enigmas que seguem me interrogando. Mais do que um cartunista, ele escreve poesia e filosofia com imagens. Suas tiras são abismos de múltiplos significados nos quais me perco. Todas as recomendações são poucas para que o leitor conheça sua obra. Ele é certamente um dos artistas mais importantes do Brasil.</p>
<p>Quando já o admirava, ele passou a dedicar sua vida a um tema nada prosaico: a identidade sexual. Começou a vestir-se de mulher, frequentava o “Brazilian Crossdresser Club”, discretamente, sob o nome de Sônia. Aos poucos, o prazer de usar a indumentária do sexo oposto deixou a clandestinidade. A Revista Piauí de abril (n. 79) dedica-lhe várias páginas, numa reportagem na qual é tratado por vezes com pronomes femininos, por outras masculinos. Sua coragem desnuda a todos, quer usemos cuecas ou calcinhas. Na vida, como na arte, ele produz uma imagem intrigante.</p>
<p>A formação da identidade sexual é pura incerteza. Apesar disso, ao crescer cruzamos com duas perguntas: o queremos e o que seremos, ou seja, a quem desejamos e como nos pareceremos. Além da questão de gênero, o desejo aponta muitas variações, preferiremos velhos ou moços, miúdos ou graúdos, humildes ou opulentos, pessoas vistosas ou alguém cuja beleza brilha somente aos nossos olhos, e assim por diante. Porém, uma definição bifurca os tipos de objetos de desejo: do nosso sexo ou do oposto. Não falta quem lembre ingenuamente que a anatomia nos condena à complementaridade fecunda do macho e da fêmea. Quanto ao que nos parecemos, há roupas para deixar isso bem claro, convém que as usemos conforme o corpo com que chegamos ao mundo. Os militantes dessas certezas fecham a questão.</p>
<p>Os jovens contemporâneos a abrem e têm praticado a ambiguidade com uma liberdade inédita. A androginia das roupas e adereços, assim como a bissexualidade das escolhas amorosas, inquietam as gerações anteriores e as almas frágeis. Mas eles não fazem mais do que externar incertezas que todos guardamos no armário. Nunca seremos suficientemente convincentes como homens ou como mulheres aos nossos próprios olhos, da mesma forma, tampouco somos imunes à atração por pessoas de ambos os sexos. Forjamos em nós certezas, as gritamos para acalmar as dúvidas que nos sussurram aos ouvidos. Criamos mitos religiosos e até científicos para dizer que existe uma definição clara dessa fronteira.</p>
<p>Antigamente, quando queríamos dirigir uma mensagem a homens e mulheres dizíamos assim: “prezado (a)”, ou seja, se você for mulher, também será contemplada, em segunda opção. A luta feminista está tirando as mulheres desse segundo plano, hoje diríamos assim: “prezad@”. Com o fim da divisão dos mundos que acompanhava a separação dos sexos, a identidade sexual entrou em questão. Estamos banindo mais do que a opressão das mulheres, trata-se agora da derrocada dos clichês sobre as características definidas de cada gênero. Laerte, diz ser  “uma mulher em caráter experimental”, eu te compreendo querida, eu também sou.</p>
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		<title>Você é um político</title>
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		<pubDate>Sun, 31 Mar 2013 11:50:07 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Diana Corso</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Política é a soma dos SEUS pequenos atos]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><br class="spacer_" /></p>
<p>Em catástrofes evitáveis, como o incêndio da boate que matou 241 jovens em Santa Maria, a punição dos culpados é uma necessidade para os enlutados. Julgamentos exemplares e de grande repercussão revelam uma eficiência da justiça que gostaríamos de ver mais frequentemente. Faço votos de que sejam efetivos, além da pirotecnia. Mas há uma questão polêmica relativa ao episódio: o indiciamento de pessoas ligadas à administração pública, as quais não foram responsáveis diretas pelos fatos.</p>
<p>Para minha surpresa, estes se declararam injustiçados, dizem ser objeto de perseguição política, sugerindo que sua responsabilização não passa de um lance no jogo partidário. Acredito que tais indiciamentos são corretos justamente por serem políticos, o que nos ajuda a lembrar o que é  mesmo a aviltada política. Ela não é, ou não deveria ser, reduzida a um tabuleiro de jogo alheio à realidade. Os prefeitos assim como nossos demais representantes das várias câmaras, são eleitos para administrar nossa vida de acordo com um determinado plano de trabalho. É nisso que votamos. As barganhas eleitorais são uma perversão das nossas escolhas, conseqüência sintomática da nossa omissão.</p>
<p>O que acontece numa gestão onde os bombeiros não zelam pela segurança, onde os fiscais são no mínimo omissos e centenas de jovens morrem é política sim. Política é o exercício da procuração que passamos a um cidadão para cuidar de nós e do nosso patrimônio comum. Político não é um produto que adquirimos se a propaganda for boa. Compreendendo a vida pública como território privado dos políticos de carreira, agimos como se não fossemos também, todos nós, figuras públicas.</p>
<p>Pensava nisso, numa espécie de balanço moral, questionando qual é o maior valor que nos cabe seguir e legar: o concernimento, que, trocando em miúdos, é o envolvimento com o que transcende nosso umbigo. Sempre que possível, nos voltamos para dentro, alheios, alienígenas, alienados da conexão com o que nos revolta. Contamos com o alívio da indignação, esse barulhento instrumento da paralisia: “não me acuse de nada, não fiz nada, sou uma alma pura”. Igual a uma das máximas de Homer Simpson: “quando cheguei aqui já estava assim”.</p>
<p>Gostaríamos de gerar vencedores, criar filhos capazes de ser colocados no páreo da competição. Mas filhos, como políticos, não são um produto a ser bem colocado no mercado. Precisamos ajudar os mais jovens a entrar no mérito das conseqüência sociais de suas escolhas e atitudes, do contrário serão autômatos ególatras, como muitos políticos de carreira, predadores na sua relação com a realidade.</p>
<p>Convém lembrar e ensinar que cada gesto que fazemos, mesmo os mais banais, fazem diferença para todos. São pequenos atos, feitos por cidadãos políticos, profissionais ou não, desde a designação de um subordinado, até atitudes privadas de reciclagem, de responsabilidade social. O modo como vivemos não é um irrelevante grão de areia na praia, é parte de uma rede, de uma reação em cadeia. Talvez esse possa ser o maior valor moral contemporâneo a ser cultivado: a consciência de que somos responsáveis pelo todo, saber-nos coletivos, políticos. Cada um de nós recebe do próximo a procuração que responsabiliza pela gestão do destino comum. Honremos esse compromisso.</p>
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		<title>O Papa Francisco e os Lamed Vaf  (por Mário Corso)</title>
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		<pubDate>Fri, 29 Mar 2013 13:06:54 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Diana Corso</dc:creator>
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		<description><![CDATA[
 Uma questão que se coloca quando lemos o Velho Testamento: por que Deus não destrói  esse nosso mundo imperfeito? Afinal, pouco O veneramos e insistimos em tantos e repetidos pecados. Por muito menos do que somos ou fazemos Ele varreu do mapa Sodoma e Gomorra. O que O deteria agora de fazer agora... <a href="http://wp.clicrbs.com.br/terradonunca/2013/03/29/o-papa-francisco-e-os-lamed-vaf-por-mario-corso/?topo=13,2,18,,18,77">Leia mais &#187;</a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><br class="spacer_" /></p>
<p><span style="color: #000000"><span style="font-family: TimesNewRomanPSMT, serif"><span style="font-size: small"> Uma questão que se coloca quando lemos o Velho Testamento: por que Deus não destrói  esse nosso mundo imperfeito? Afinal, pouco O veneramos e insistimos em tantos e repetidos pecados. Por muito menos do que somos ou fazemos Ele varreu do mapa Sodoma e Gomorra. O que O deteria agora de fazer agora o mesmo conosco?</span></span></span></p>
<p><span style="color: #000000"><span style="font-family: TimesNewRomanPSMT, serif"><span style="font-size: small"> A tradição judaica tem uma boa resposta: nossa sorte estaria depositada em trinta e seis pessoas justas, os Lamed Vaf. Essas pessoas seriam nossa salvação. Nas palavras sintéticas de Borges: “os pilares secretos do nosso universo”. Nosso mundo não é destruído porque pelo menos alguns homens retos habitam esse planeta infeliz. Seu nome vem do iídiche, mas proveniente do hebraico: “um dos trinta e seis”. Os Lamed Vaf não sabem que o são, não sabem quem são os outros, tampouco desconfiam de sua missão. O que se sabe é que são todos muito pobres e se descobrem seu propósito morrem, sendo que imediatamente, outro é posto em seu lugar.</span></span></span></p>
<p><span style="color: #000000"><span style="font-family: TimesNewRomanPSMT, serif"><span style="font-size: small"> Várias questões se colocam: seriam todos homens? Ou existiriam mulheres Lamed Vaf? Por que trinta e seis? Seriam todos judeus, ou Deus tem uma visão mais ampla dos seus garantes do universo? E a pergunta principal: quem criou os Lamed Vaf? Afinal, se eles são a garantia de que Deus não nos esmague num momento de fúria, não faria muito sentido que Ele tivesse criado algo para Lhe fazer barreira posteriormente. Ou então, Deus é consciente de seus rompantes, e criou esses seres perfeitos para Lhe lembrar da esperança de que um dia viéssemos a nos corrigir. Essas questões permanecem sem resposta, mas a evocação dessa lenda me ajudou a pensar a simpatia atual pelo novo Papa Francisco.</span></span></span></p>
<p><span style="color: #000000"><span style="font-family: TimesNewRomanPSMT, serif"><span style="font-size: small"> É extraordinária a reação positiva de sua escolha entre os laicos, entre os quais me incluo. Que os católicos o recebessem bem faz sentido, depois de anos de papa sem carisma chegou um  com dose dupla. Ele transmite uma nobreza e integridade por todos os ângulos. Se vai conseguir dar novos rumos para a igreja é assunto interno aos católicos, e dos que vão à missa.</span></span></span></p>
<p><span style="color: #000000"><span style="font-family: TimesNewRomanPSMT, serif"><span style="font-size: small"> Minha questão é: por que até os não católicos simpatizaram com a escolha? É difícil explicar, mas apostaria que um dos motivos é supor que ele funcionaria como um Lamed Vaf, versão católica. E convenhamos, o ocidente anda precisando de um, vivemos numa era sem estadistas. Sua figura seria uma esperança mínima de uma humanidade melhor, como se existindo pelo menos um moralmente superior, nós também poderíamos ser melhores. O homem cria utopias para suportar sua precária existência, tanto concreta como moral, parte da ideia de que em algum lugar algo melhor existe, existiu ou existirá. O horizonte do homem não poderia ser só esse. As utopias sonham nossas nossas melhores possibilidades, figuras públicas extraordinárias também.</span></span></span></p>
<p><br class="spacer_" /></p>
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		<title>Armarinho</title>
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		<pubDate>Sun, 24 Mar 2013 23:12:04 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Diana Corso</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Não sei corte e costura, mas prego botão, faço bainha e cerzidos, também posso bordar pontos simples e até tricotar algo que lembra um cachecol. Essas pequenas habilidades dão um mínimo de autonomia para não contratar costureira para coisas banais. Mantenho um pequeno costureiro para essas tarefas, o que se revela bastante complicado. Encontrar um... <a href="http://wp.clicrbs.com.br/terradonunca/2013/03/24/armarinho/?topo=13,2,18,,18,77">Leia mais &#187;</a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Não sei corte e costura, mas prego botão, faço bainha e cerzidos, também posso bordar pontos simples e até tricotar algo que lembra um cachecol. Essas pequenas habilidades dão um mínimo de autonomia para não contratar costureira para coisas banais. Mantenho um pequeno costureiro para essas tarefas, o que se revela bastante complicado. Encontrar um armarinho na maior parte dos bairros é pior, perdoem o trocadilho infame, do que achar uma agulha num palheiro. Para quem não sabe (homens e mulheres), armarinho é uma loja especializada em aviamentos de costura, que são os apetrechos necessários para tal fim.</p>
<p>Perto de casa havia uma loja de 1,99 que fechou, onde funcionava uma espécie de armarinho clandestino. Entre flores de plástico e estatuetas de gesso, era possível comprar alguma linha (esqueça cores mais ousadas), talvez um fecho, mas não se esperava encontrar linhas de bordar e botões. O que foi que condenou esses lugares à extinção, ao ostracismo, à raridade?</p>
<p>Fiar, tecer e costurar historicamente sempre fizeram parte da condição feminina, tornando-se quase seu sinônimo. Porém, na conquista implacável de novos territórios a que nós mulheres nos lançamos, abandonamos com desprezo tudo aquilo que fazia parte do confinamento doméstico. Por milênios a metade fêmea da humanidade viveu exilada da vida pública, alienada de todas as decisões importantes, inclusive as que afetavam seu destino. Em sua gaiola, ela podia costurar e tecer, apenas na reta final do exílio feminino, algumas privilegiadas conquistaram o direito de dedicar-se a ler e escrever. Não admira tenhamos feito um divórcio litigioso das agulhas.</p>
<p>Temos assistido alguns resgates comerciais ou lúdicos das artes femininas: mulheres artistas têm ateliês de costura, assim como cozinheiras gourmets fazem das antigas ocupações um bom divertimento ou negócio. Mas reparem, aqui também elas estão avançando sobre o espaço dos homens: foram eles que fizeram da costura e da comida um comércio, pois o trabalho feminino sempre foi expediente interno.</p>
<p>Não seremos vistas entrando num armarinho, no máximo numa loja de Patchwork. Na realidade cotidiana, orgulha-nos a incapacidade de executar tarefas que seriam naturais às avós. Foi uma alienação necessária para criar uma nova identidade para a mulher. Mas talvez hoje possamos evitar a infantilidade adquirida: mulheres agora precisam de outros para vestir-se e alimentar-se, reproduzindo a impotência que os homens sempre tiveram no lar. A feminista Betty Friedan os chamava de “homens-criança”: no mundo eram importantes, em casa incapazes de cuidar da própria higiene. É triste copiar tanta inermidade. Uma boa meta para a cruzada feminina pela libertação talvez seja resgatar os dons e a sabedoria das nossas antepassadas. Incluindo a costura, entre tantos outros. Ou ao menos voltar a ser capazes de pregar os próprios botões.</p>
<p>PS: descobri um armarinho na minha própria rua. Dentro de um brechó!</p>
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		<title>Exuberância enrustida</title>
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		<pubDate>Wed, 06 Mar 2013 20:18:16 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Diana Corso</dc:creator>
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 Com seu inconfundível sotaque argentino, no intervalo do cafezinho da clínica, ela me disse: “tu te achas muito bonita”. Eu, uma psicóloga desalinhada, na casa dos vinte, ela uma psicanalista quarentona e cheia de charme. Em eterno litígio com minha imagem, custei a entender a alfinetada. Complementou: “é que não te pintas, porque... <a href="http://wp.clicrbs.com.br/terradonunca/2013/03/06/exuberancia-enrustida/?topo=13,2,18,,18,77">Leia mais &#187;</a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><br class="spacer_" /></p>
<p><span style="font-family: TimesNewRomanPSMT, serif;font-size: small"><strong> </strong></span></p>
<p><span style="color: #000000"><span style="font-family: TimesNewRomanPSMT, serif"><span style="font-size: small"> Com seu inconfundível sotaque argentino, no intervalo do cafezinho da clínica, ela me disse: “tu te achas muito bonita”. Eu, uma psicóloga desalinhada, na casa dos vinte, ela uma psicanalista quarentona e cheia de charme. Em eterno litígio com minha imagem, custei a entender a alfinetada. Complementou: “é que não te pintas, porque achas que não precisas...”</span></span></span></p>
<p><span style="color: #000000"><span style="font-family: TimesNewRomanPSMT, serif"><span style="font-size: small"> Minha colega, de fato, não saía de casa sem delineador. Como se seus enormes olhos azuis necessitassem de algo a mais. Sempre precisamos de algo a mais, era o subtexto. É pretensão pensar-nos suficientes com o que temos. No fundo, todo discreto se acha grande coisa. Paradoxal, mas verdadeiro.</span></span></span></p>
<p><span style="color: #000000"><span style="font-family: TimesNewRomanPSMT, serif"><span style="font-size: small"> Discreto não é displicente, não é largado, não boicota a sua imagem. Ninguém é tão bonito a ponto de sobreviver ao esculacho. A Top Model não acorda com cara de Top nem de Model. Passei da idade que ela tinha na época, hoje não saio de casa sem delineador, mas costurei uma versão pessoal do conselho recebido.</span></span></span></p>
<p><span style="color: #000000"><span style="font-family: TimesNewRomanPSMT, serif"><span style="font-size: small"> O investimento na própria imagem pode ser óbvio, como no caso das pessoas chamativas, enfeitadas, ou mesmo uma aposta no detalhe, no que é invisível a olho nu. Professo o segundo tipo, daqueles que fazem o gênero da discrição presumida, da falsa humildade, da exuberância enrustida, chame como quiser. O cuidado com a lingerie, por exemplo, traduz esse espírito. Embora fique oculta a maior parte do tempo, é meticulosamente escolhida conforme o que revela, comprime, marca, sugere. Temos a depilação, que tenta fabricar uma superfície impecável, a tatuagem, enfeite perene da pele. Nunca cessa o combate à topografia da celulite e das estrias, acidentes geográficos a serem reparados. São preocupações obsessivas, parte de um complicado processo que termina com o arremate da maquiagem, reta de chegada de um labirinto de incertezas. Os homens não cansam de afirmar que não reparam nem na metade dessas providências, mas as mulheres insistem num cuidado, incapaz de calar a profunda inquietação, o pânico do erro. No fundo, almeja-se a perfeição, como se houvesse possibilidade de controlar o olhar de que seremos objeto, ditar o conteúdo do desejo. A fantasia subjacente é de dominação. Como sempre, a insegurança gera sede de poder.</span></span></span></p>
<p><span style="color: #000000"><span style="font-family: TimesNewRomanPSMT, serif"><span style="font-size: small"> Minha avó insistia em que uma mulher deve estar sempre impecável por baixo das roupas, “nunca se sabe quando vamos parar no hospital”, dizia. Sua intimidade era meticulosa no aguardo da síncope, do atropelamento. Eu prefiro cultivar a fantasia de que meus caprichos não se destinem ao encontro com o azar, que se enderecem ao escolhido para apreciar meus detalhes. Mas aprendi algo com minha amiga experiente: não há lugar para o pecado da soberba, reparei que até seus lindos olhos se beneficiavam do arremate. </span></span></span></p>
<p>(publicado na revista vida simples, edição de fevereiro)</p>
<p><br class="spacer_" /></p>
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		<title>Sede de vingança</title>
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		<pubDate>Sun, 24 Feb 2013 13:47:11 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Diana Corso</dc:creator>
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Não mais nos reunimos em praça pública para ver a cabeça dos culpados rolar ou pender. Mas, sempre que possível, fazemos isso no noticiário e, principalmente, nos cinemas. Nos antigos filmes de cowboy, um catártico tiroteio garantia a punição dos bandidos e a saída incólume do herói. Duros de matar, esses homens a cavalo foram... <a href="http://wp.clicrbs.com.br/terradonunca/2013/02/24/sede-de-vinganca/?topo=13,2,18,,18,77">Leia mais &#187;</a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><br class="spacer_" /></p>
<p>Não mais nos reunimos em praça pública para ver a cabeça dos culpados rolar ou pender. Mas, sempre que possível, fazemos isso no noticiário e, principalmente, nos cinemas. Nos antigos filmes de cowboy, um catártico tiroteio garantia a punição dos bandidos e a saída incólume do herói. Duros de matar, esses homens a cavalo foram logo substituídos por policiais igualmente solitários. Final feliz requer o chão coberto de corpos dos maus. Em “Django Livre”, como já fizera em “Bastardos Inglórios” e em “Kill Bill”, o diretor Quentin Tarantino arma seu roteiro a partir da nossa sede de vingança contra escravocratas, nazistas e machistas violentos.</p>
<p>Sou uma vingativa confessa, quero ver sangue. Mas fique tranquilo, no sentido figurado. Nada de pena de morte e torturas. Sei que a civilização começou quando alguém abriu mão da retaliação. Na vida real, a morte só deve ocorrer quando inevitável. Porém exorcizo minhas pendências na ficção. Da segunda guerra, onde meus antepassados e parentes foram assassinados, gosto de lembrar que existiu o Levante do Gueto de Varsóvia. Como eles, se fosse para morrer gostaria de levar pelo menos um nazista comigo. Na fantasia sempre somos mais corajosos.</p>
<p>A vingança, seja histórica ou pessoal, funciona de forma parecida com o fim litigioso de um relacionamento amoroso. Sejamos sinceros, não queremos que o outro seja feliz, lhe desejamos a morte lenta e o ostracismo. Todo mundo sabe que odiar é outra forma de amar, às avessas, que o oposto do amor é a indiferença, que o melhor troco é ignorar, genuinamente. Mas isso leva muito tempo para ser possível e mesmo assim sofremos recaídas. A dor deixa cicatrizes e elas são lembretes lavrados na pele, para sempre.</p>
<p>Os protagonistas dos filmes de Tarantino carregam essa insígnia, assim como os judeus tatuados, os escravos marcados, o mesmo ocorre com o maior vilão nazista em “Bastardos”. Há coisas que não são passíveis de um desfecho elegante, como seria a superação. Nem tudo se consegue esquecer, mesmo porque precisamos garantir que nunca se repita.</p>
<p>Questiona-se a cantilena de afro-descendentes e judeus que estão sempre na defesa e não perdoam os maltratos sofridos. Em parte, ela é necessária: preconceitos estão sempre ressurgindo, é preciso ficar em guarda. Porém, nem os descendentes de alemães nem os brancos da atualidade têm culpa pelos absurdos cometidos pelos seus antepassados. O que fazer, então, com os restos desse ódio vingativo? Tratá-los com o mesmo preconceito que se sofreu seria indigno, igualmente vergonhoso. Mas como conviver com as cicatrizes que latejam, a mágoa que espreita pronta para pular sobre nós, a autocomiseração, que pode não orgulhar-nos, mas compõe nosso lado sombrio?</p>
<p>Depurá-lo no cinema é uma forma de eliminar o excesso. É uma sangria do despeito, da tristeza, que permite manter o fluxo da civilidade. Não somos, nem nunca seremos, totalmente civilizados. Potencialmente, somos tanto algozes, quanto vítimas vingativas. Haja matinê!</p>
<p><br class="spacer_" /></p>
<p><br class="spacer_" /></p>
<p><br class="spacer_" /></p>
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		<title>Mudança</title>
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		<pubDate>Wed, 16 Jan 2013 22:41:52 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Diana Corso</dc:creator>
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		<description><![CDATA[
Desconfiada, fui assistir ao filme sobre um menino e um tigre náufragos. Não fossem as recomendações de pessoas próximas que me garantiram ser imperdível não teria ousado. Isso dito por uma incorrigível fã de filmes de aventura, fantasia e ficção infanto-juvenil. Com a mesma confiança dos apreciadores que me deram esse presente, recomendo ao leitor:... <a href="http://wp.clicrbs.com.br/terradonunca/2013/01/16/mudanca/?topo=13,2,18,,18,77">Leia mais &#187;</a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><br class="spacer_" /></p>
<p>Desconfiada, fui assistir ao filme sobre um menino e um tigre náufragos. Não fossem as recomendações de pessoas próximas que me garantiram ser imperdível não teria ousado. Isso dito por uma incorrigível fã de filmes de aventura, fantasia e ficção infanto-juvenil. Com a mesma confiança dos apreciadores que me deram esse presente, recomendo ao leitor: se já não viu, não perca!</p>
<p>A magia da jornada marítima do garoto indiano funciona porque Ang Lee, diretor de <em><strong>A vida de Pi</strong></em>, administra o improvável, as cenas malucas, com boas doses de humor sutil. O filme é mais do que uma aventura, é uma pulga atrás da orelha sobre como ver e narrar a própria vida. A organização da informação, que devemos a jornalistas e historiadores, é imprescindível, mas insuficiente para fazer-nos compreender quem somos, onde estamos e o que diabos aconteceu. Precisamos mais que isso. Para isso servem a ficção, a fantasia, a beleza dos diversos tipos de vozes e olhares.</p>
<p>São essas recriações da verdade que nos tornam capazes de elaborar um trauma qualquer. Não precisa ser uma guerra, uma catástrofe, um abuso, também ficamos marcados pela morte de um avô, pela ocasião em que esqueceram de nos buscar na escola, pela perda do primeiro amor.</p>
<p>Contado com arte, o vivido transforma-se em algo que pode ser visto e compreendido de vários jeitos. Por isso, longe de ser supérflua, a arte é um instrumento de crescimento e equilíbrio emocional eficaz para todas as idades. Artigo de primeira necessidade!</p>
<p>Passaram-se quase 12 anos, desde setembro de 2001, quando recebi um telefonema da Claudia Laitano, convidando-me a uma contribuição quinzenal neste espaço do Segundo Caderno. Tenho escrito estas colunas, misto de crônica e mini-ensaios, sobre fatos reais e imaginários. Esta é a última vez que sou publicada aqui. Migro para o espaço de Opinião da Zero Hora, mensalmente aos domingos, além de outras escritas esporádicas.</p>
<p>A duras penas aprendi que as histórias que pedem para ser contadas pelo colunista, por vezes são fatos, outras ficção. Seguirei falando sobre produtos culturais, que não passam de ilusões, exatamente como os sonhos: tramas inverídicas onde os psicanalistas garimpamos as maiores verdades!</p>
<p>A realidade por vezes é grande demais, é como um alimento cru que necessita preparo para ser absorvido por nossos estômagos frágeis. Nos jornais e revistas, o artigo, o ensaio, a crônica, a coluna tentam dar forma ao que vivemos sem entender. (Nos divãs também.) Loucos, pretensiosos, esses jornalistas e escritores. Gracias, Claudia, por ter me convidado a ser como eles!</p>
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		<title>Somos todos Marcelinhos (ou tudo o que você quis rir da pornografia e nunca teve coragem de fazer)</title>
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		<pubDate>Sun, 13 Jan 2013 23:04:23 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Diana Corso</dc:creator>
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		<description><![CDATA[
Os adultos saem e, distraídos, deixam disponível conteúdo impróprio para menores no computador. Marcelinho aproveita que está sozinho para ler alto o que não devia. É criança e sua leitura é engraçada, titubeante, porque em geral não entende o que lê, como o dos que estão aprendendo. Marcelinho é um fantoche e seus quadros de... <a href="http://wp.clicrbs.com.br/terradonunca/2013/01/13/somos-todos-marcelinhos-ou-tudo-o-que-voce-quis-rir-da-pornografia-e-nunca-teve-coragem-de-fazer/?topo=13,2,18,,18,77">Leia mais &#187;</a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><br class="spacer_" /></p>
<p>Os adultos saem e, distraídos, deixam disponível conteúdo impróprio para menores no computador. Marcelinho aproveita que está sozinho para ler alto o que não devia. É criança e sua leitura é engraçada, titubeante, porque em geral não entende o que lê, como o dos que estão aprendendo. Marcelinho é um fantoche e seus quadros de humor para adultos circulam pela internet intitulados “Marcelinho lendo contos eróticos”. Evidente que as histórias pornográficas são escolhidas a dedo, para aumentar o efeito cômico, entre as mais estúpidas e mal narradas, embora nesse setor seja raro achar alguma que não o seja. Alguns bons escritores e cineastas conseguiram fazer antológicas cenas de sexo, cuja qualidade advinha de uma sensualidade em geral ausente na pornografia.</p>
<p>A graça do fantoche está em nos re-conectar com a curiosidade sexual infantil. Todo adulto certamente lembra de alguma cena na qual, enquanto criança, viu ou lhe contaram algo a respeito de sexo. Um interesse lúbrico, que chega cedo na vida, move os pequenos em jornadas detetivescas em busca dessas informações que, quando obtidas, fazem pouco sentido ou são interpretadas de modos equívocos.</p>
<p>Hoje em dia, na sexualidade que a mídia e a arte difundem continuamente, as crianças são expostas a muito mais do que deveriam ver. Porém, as imagens ou palavras não contém significados diretos ou óbvios. Os pequenos não entendem a mecânica da relação sexual de primeira. Por isso, constroem suas hipóteses, que são as teorias sexuais infantis, a partir de prazeres que conhecem bem, associados à excreção, à alimentação e à agressividade.</p>
<p>O quadro de Marcelinho, com sua voz infantil, lendo esses textos tira sua graça do encontro indevido entre a curiosidade infantil, saudável e bem vinda, com a exposição explícita daquilo que ainda não está no momento de compreender. A criança vai “descobrindo” o sexo aos poucos, só o que está suportando saber, é ela que deve dar o ritmo.</p>
<p>Mesmo depois de crescidos, somos todos Marcelinhos: o sexo é um constante desafio, uma incógnita. Na verdade, achamos que os outros estão fazendo coisas mais ousadas e divertidas das que nos ocorrem e uma miríade de promessas de prazer acena do horizonte. Seguimos a vida toda acreditando num paraíso do sexo, um hipotético quarto dos pais, onde estariam acontecendo peripécias incríveis. Ali os grandes fariam as coisas realmente grandes: infalíveis, longos, múltiplos e plenos orgasmos, que só ocorrem de forma tão espetacular na pornografia e em nossa imaginação eternamente infantil. As acrobacias e aventuras sexuais comicamente lidas por Marcelinho desvanecem um pouco do excessivo prestígio que damos ao sexo. Afinal, a grama do vizinho pode não ser tão verdinha.</p>
<p><br class="spacer_" /></p>
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