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Versões do abismo

08 de junho de 2011 0



Alguma coisa acontece quando um jornalista se aventura na ficção. Narrativa assumidamente inventada, a literatura é livre, solta da verdade, conscientemente narcisista, ignorante da realidade. Já o repórter voa como um balão de gás preso a um cordão, não pode nem deve desconectar-se, pois dele esperamos um mundo menos incompreensível. Ser bom numa profissão é arcar com as utopias que ela carrega: a do jornalista é de que a informação seja confiável, de que podemos fazer a soma das versões e ter como resultado a verdade. São os jornalistas nossos olhos, ouvidos e pernas extra, graças a eles podemos transcender e compreender o que de relevante se passa além das nossas estreitas fronteiras.

Ao contrário do óbvio de seu ofício, que é fazer de seu trabalho telescópio, satélite, olhar maior, Eliane Brum sempre trabalhou com o microscópio. Pois não é somente o que está longe que nos escapa. Assim em suas reportagens, livros e documentários revelou gente que está conosco, mas não é visível a olho nu, experiências de vida, miséria, morte e superação às que nunca prestaríamos atenção. A peculiaridade desse trabalho sensível um dia ainda ia acabar em ficção, e assim foi.

Dar voz pública às mulheres trouxe como consequência a oportunidade de divulgar seus pesadelos típicos, entre eles o maior: o de afogar-se nas águas abissais da relação mãe-filha, uma luta corpo a corpo, onde uma fenece para que outra desabroche. É sobre isso o primeiro livro de ficção de Eliane: “Uma:duas”, publicado pela Leya. Sua personagem Laura é uma filha que procurava tirar a mãe do seu corpo, sabendo que sem isso, nada sobraria. Como sair das entranhas, sem poder partir completamente?

Mulheres precisam ocupar um corpo que a cada dia se torna mais semelhante ao da própria mãe. Minhas filhas tinham pavor da “Maria Degolada”, o fantasma de uma mulher assassinada, lenda da tradição de Porto Alegre. Dizem que se nos trancarmos no banheiro e gritarmos três vezes seu nome ela aparecerá no espelho. Elas tinham razão, para nós mulheres os espelhos sempre guardam uma assombração, é a cara da nossa mãe, é a nossa cara da mãe.

Mesmo navegando na fantasia, Eliane, a jornalista, não podia deixar de ouvir os dois lados. o pesadelo simbiótico tem duas versões, mãe e filha escrevem o que sentem sem ler uma à outra, cabe a nós a acareação da verdade inexistente. Elas se odeiam e amam com paixão e nos conduzem por sua dolorosa separação. É uma reportagem nos abismos. Eliane invadiu os divãs, os pesadelos das mulheres e de lá, mais uma vez, trouxe notícias quentinhas.

Mães de pequenas misses

25 de maio de 2011 0


Semana passada, nos Estados Unidos, uma mãe perdeu a guarda da filha por ter declarado num programa de televisão que fazia aplicações de Botox na sua pequena de 8 anos, visando suprimir rugas (sic). Como se vê, a paranóia do envelhecimento exige ações cada vez mais precoces! O objetivo da senhora era tornar a menina competitiva em concursos de beleza infantis. Esse tipo de mulher protagoniza um popular programa de tevê a cabo “Pequenas misses” (Discovery Home&Health), um reality show que acompanha a trajetória obstinada de mães para transformar crianças em versões da Barbie, com maquiagem pesada, penteados improváveis, manicure e até depilação.

As entrevistadas quase sempre são mães obesas, que apresentam visíveis sinais de abandono pessoal. Elas organizam sua vida em torno dos tais certames, onde suas bonecas de corda as representam, pequenos avatares, marionetes a serviço da frustração materna. É fácil indignar-se e ficar contente com a merecida punição de uma delas, pois é explícita no programa a monstruosidade dessas destruidoras de infância. Partilho desses sentimentos. Porém, em sua coluna da Folha de São Paulo, corajosamente Rosely Sayão se pergunta: “será que os pais do programa são muito diferentes daqueles que enchem a agenda dos filhos com aulas de todos os tipos? Dos que procuram definir o futuro dos filhos do modo como eles arquitetam?”. É diferente, conclui, mas sabemos que é evocativo.

A seu modo, essas senhoras cujo próprio corpo abandonou a cena, são abusadoras. Possuem com suas fantasias o corpo das filhas como um pedófilo que goza em preencher com seus desejos sexuais o vazio da criança que ainda desconhece os dela. Em ambos casos temos o adulto reinando absoluto, e a infância transformada em objeto passivo.

Mas por que esse circo de horrores tem audiência garantida? Horroriza e fascina essa cena de submissão infantil porque de algum modo nos identificamos com seus protagonistas. Na verdade sabemos que é inevitável na criação de um filho que os pais acabem projetando sobre ele seus desejos e frustrações. Não há nada anormal nisso, ele precisa confrontar-se com essas forças, mas apenas enquanto os parâmetros que usará para construir seus próprios ideais. Assistimos aliviados, pois nos salvamos dessa! Frente a essas mães totalitárias a nossa é um exemplo de democracia! Mas também nos hipnotiza, pois quem não desejou tornar-se a encarnação das fantasias da mamãe? Assim teríamos a garantia do seu amor? A mãe da pequena miss representa nossos piores pesadelos e inadmissíveis desejos.

Bullying: usos e abusos de um termo

11 de maio de 2011 0



De tanto em tanto sofremos epidemias de explicações, e já faz algum tempo que o bullying está nesse registro. Denunciar essa prática é válido para revelar um sadismo que nunca esteve ausente da relação entre as crianças, frente ao qual as instituições escolares sempre foram cegas. Porém, acabamos observando outro fenômeno: o de um termo que acaba deixando de interpretar fenômenos e começa a participar de sua gênese.

Semana passada, um jovem entrou numa escola em Porto Alegre gritando, agredindo e causando pânico na sala de aula. Ex-aluno, justificou-se dizendo que estava vingando o bullying sofrido pela irmã. O assassino perturbado do Realengo também teria sido vítima de tal prática. Hitler teria arcado com as consequências de sua baixa auto-estima e o próprio nazismo seria uma reação do povo alemão à posição humilhante em que o resto do mundo os colocou após a primeira guerra. Um marido traído, motivo de chacota entre os conhecidos, pela mesma linha de argumentação, teria justificativa para matar os amantes e todos os fofoqueiros de plantão. A cadeia de ressentimentos pode não ter fim quando uma vitimização qualquer funciona como justificativa para um ato de violência. É a apoteose dos agressores que se sentem vítimas.

Minha entrada na escola deu-se juntamente com a aprendizagem da língua portuguesa, falar errado e ser estrangeira não foi fácil. Era a única criança judia da escola pública na qual fiquei até a adolescência. Na época, rezava-se todas as manhãs antes do início das atividades (nosso país sempre foi laico em termos), eu era convidada a retirar-me. O objetivo de evitar constrangimentos, ao me impor outra religião, causava um pior: o exílio do pátio. Passei, portanto, por situações que poderiam ter sido caracterizadas como bullying, as quais sempre foram poucas porque me mimetizava, tinha terror de ser tachada de diferente, já que de fato era.

Um padecimento qualquer não é uma sentença de vida, é um elemento com o qual se faz o que se consegue. Na clínica, conheci jovens e crianças que faziam coisas desagradáveis ou ridículas para que isso atraísse a agressividade dos outros, geravam hostilidade e com isso realizavam uma fantasia inconsciente. O bullying é um fenômeno, mas sua causa compõe-se de infinitas variáveis. Ser hostil com os outros, como é o caso dos algozes, provocar os maus tratos sofridos, como por vezes é o caso das vítimas, ou mesmo ser incapaz de entrosar-se, são sintomas psíquicos, mensagens atravessadas. Perceber que a escola é a primeira experiência de socialização, onde podem nascer sofrimentos que perduram, é fundamental, mas que isso sirva para tornar a instituição mais sensível, não para aumentar o coro das vinganças justificadas.


Fluxo da impessoalidade

11 de maio de 2011 0



Motoristas sobrevoam uma paisagem, de preferência sem dispersão, atentos a rotas, contextos, coordenadas. Lombas e acidentes do terreno só exigem uma rápida mudança de marcha. Nada precisam saber de cheiros, gosmas na calçada, vegetação e sombras, do zoológico de animais domésticos, dos adolescentes coreografando sua música solitária, de velhos ocupados e crianças contando algo a um adulto que se reclina, de pessoas belas, esdrúxulas, vivazes, sorumbáticas. Com cada rosto que se cruza há uma negociação de olhares, uma história imaginada, medo ou confiança. Só os loucos desrespeitam a separação entre carros e pedestres: atravessam a rua costurando entre os carros, conduzindo sua moto de delírio.

Entre os veículos também há breves encontros em que os motoristas se enxergam, no tempo impaciente de uma sinaleira, na redução contrariada de um obstáculo. Mas a identidade não é o corpo, é o carro: é o gordo do Gol vermelho, a loira do Audi prata, o senhor da Saveiro preta. O carro é avatar: através dele expressamos, mas também ocultamos nossa personalidade. Isolados, minimizamos o encontro, xingamos tudo o que obstrui o fluxo. Parar nos deixa acuados, o engarrafamento nos desnuda.

No conto de Julio Cortazar chamado “A autopista do sul”, a história se passa numa estrada francesa, num engarrafamento ocorrido sem razões reveladas. São vários dias de imobilidade, ao longo dos quais os passageiros dos carros vão se transformando em membros de uma pequena sociedade nascente. A identidade das personagens inclui as características do veículo que dirigem. Organizam-se em grupos, lideranças se consolidam, redes de solidariedade se firmam, intrigas ameaçam a união. Nesse tempo de movimento cessado a vida segue: há doença, um suicídio, até uma história de amor brota do árido asfalto. O autismo (perdão pela piada involuntária) do trânsito foi sendo suplantado pela empatia do grupo. Subitamente o engarrafamento dissolve-se tão inexplicavelmente quanto se perpetuara. Retomado o movimento da autopista, os carros se distanciam velozmente e sentimos pena dos vínculos que se desmancham. Instala-se novamente o fluxo da impessoalidade.

Deslocar-se não é um trecho fora da vida. Existimos também no tempo em que ainda não chegamos, enquanto “estamos indo” para algum lugar. Por que não incorporar os trajetos na nossa consciência? Andar, pedalar, usar transportes coletivos (que não fossem uma tortura), são formas de locomover-se vendo sutilezas, suportando a existência de outros corpos. Mesmo que todos pareçam tão nus, sem seus cascos, tão frágeis, sem escudo.


Conficções

11 de maio de 2011 0


Conviver com um escritor pode ser perigoso. Ele está sempre caçando histórias, chegou a confessar certa vez que no meio de uma discussão de relacionamento com a mulher distraiu-se bolando uma crônica sobre a situação. Episódios da vida de todos os circundantes podem ser capturados por ele e virar fantasia. Embora não tenha pudor em colocar nome e sobrenome das vítimas, ele torce o evento conforme a necessidade literária, nossas banalidades assumem um tom mais dramático. Padecem desse risco principalmente seus filhos e sua mulher, personagens prediletos, além dele mesmo, de sua realidade imaginária.

A própria realidade, vista com a lente da poesia que ele empresta ao cotidiano, vai se tornando igualmente estranha, ficcional. Quando menos esperamos, aprendemos com ele a fazer pequenas crônicas mentais do que vivemos: “isso dá uma crônica”, exclama frequentemente. Aliás, a expressão que intitula esta crônica, “conficção” é dele: Fabrício Carpinejar, que assim encontrou meio de expressar a união entre o depoimento sincero do que se viveu com a fantasia, a ficção.

Fabrício tem um nobre precursor, na figura de D.Quixote. De tanto turvar a realidade com as histórias de cavalaria que lia com ardor, o Cavaleiro Andante forçou aqueles com quem convivia a delirar com ele. Foi assim que convenceu um vendeiro, a quem chamava de castelão, a armá-lo cavaleiro, ladeado por duas moças da vida, que tratava como damas, a quem dizia passar a dever obrigações. Sobre um simples livro-caixa o assim denominado castelão concedeu a nobreza de que sempre careceu. Para tanto, recitou suas anotações em tom de reza, transformando um registro comercial em palavra mágica. Para Cervantes, a loucura é contagiosa, no melhor sentido.

Aquilo que julgamos ser uma realidade tampouco o é, pois memórias são duvidosas e relatos de fatos recentes são romanceados. Até a personagem que julgamos ser é uma construção ficcional, cujas características lapidamos até a morte. Da infância guardamos escassas memórias, cenas, trechos que quando contados nos deixam uma dúvida: será que lembro disso ou estou inventando a partir de alguma foto ou narrativa alheia? Nossa realidade é ficcional.

Quanto à ficção propriamente dita, alguém duvida que ela revela segredos do seu autor, muitos dos quais são inconscientes até para ele? Pura fantasia, portanto, não existe, verdadeira realidade, tampouco. Por isso, conviver com um escritor, ou mesmo com a literatura, é o mais interessante dos perigos: se não passamos de histórias, pelo menos podemos apostar em tornar-nos narrativas bem mais interessantes!

Lacan, que hoje faria 110 anos

13 de abril de 2011 0


Lacan nasceu com o século passado (13 de abril de1901, viveu até 9 de setembro de 1981) e viveu as contradições desse atribulado período. Originário de uma tradicional família católica, formou-se em medicina. Depois se encaminhou para a psiquiatria e do encontro com essa, passando pelo surrealismo, chegou na psicanálise, que nunca mais foi a mesma.

Podemos dizer que como a histeria estava para Freud, a paranóia esteve para Lacan. Sua tese de doutorado foi baseada no caso de uma paciente que tentara assassinar uma atriz (caso Aimée). Tocado pelo tema da loucura, na época ainda buscou explicações para um crime que mobilizou a França: as irmãs Papin, duas criadas, mulheres aparentemente pacatas, que assassinam e desfiguraram suas patroas.

Seu texto sobre o “Estádio do espelho”, onde examina com mais atenção a contribuição do olhar do outro para a formação do eu, foi fundador de suas próprias teorias. Esse mesmo eu é, para Lacan, uma espécie de ficção, eixo de ilusão do que acreditamos ser, portanto peça chave do nosso narcisismo e centro da nossa alienação.

Porém, seu lado mais polêmico incluía uma crítica às instituições psicanalíticas, herdeiras da tradição freudiana. Ele julgava que importantes aspectos teóricos estavam sendo esquecidos, especialmente que a psicanálise era a cura pela palavra. Seu estilo provocador e irreverente, aliado a algumas maneiras não ortodoxas de atender os pacientes, especialmente na questão do tempo da sessão, lhe valeram a expulsão da Sociedade Psicanalítica de Paris, ligada a IPA. Não lhe restou outro caminho do que, com alguns alunos (como Françoise Dolto, Serge Leclaire, Maud e Octave Mannoni, François Perrier e Mostapha Safouan entre outros) fundar outro centro de referência, a Escola Freudiana de Paris. Essa questão não é mero folclore de uma personalidade rebelde. O que Lacan sempre quis nos transmitir era que a psicanálise para operar necessita de certa ruptura com o estabelecido, e as sessões de mesma duração poderiam acomodar o discurso. Os vários relatos dos seus inúmeros analisandos nos mostram sempre o desconcerto a que ele os submetia, contribuindo para que eles se reposicionassem frente ao que diziam. Arriscado, mas Lacan nunca fazia as escolhas fáceis.

Seu estilo de ensino tomava o mesmo caminho. Adorava frases bombásticas como: “a relação sexual não existe”. Só queria chamar a atenção para algo bem simples, que teimamos em esquecer: não nos relacionamos sexualmente com o outro; de fato estamos em presença do outro, mas cada um traz sua fantasia sexual para a cena. Quando as fantasias se alinham temos a ilusão dessa relação, mas de fato é um jogo ao mesmo tempo solitário e compartilhado. Por isso há tantos desentendimentos em relação à sexualidade.

A psicanálise nunca está pronta, por isso coube a Lacan dialogar com o saber do seu tempo, como Freud havia feito. As pessoas mudam, a família não é a mesma e, portanto, as formas de organização e sofrimento tampouco. Como Lacan acreditava que o inconsciente está estruturado como uma linguagem, os seus principais interlocutores teriam que ser os lingüistas da época, no caso, Saussure, Jacobson e Benveniste. Sua obra também foi bastante marcada pelo estruturalismo de Lévi-Strauss, com o qual insistiu na importância do registro do simbólico como determinante da nossa condição.

Fora da psicanálise Lacan foi um crítico duro do século XX, considerava, por exemplo, a ciência uma ideologia da supressão do sujeito. Não desprezava seus avanços práticos, mas apontava para ciladas, particularmente quando usada nas ciências humanas. Para ele, a neutralidade é impossível, acedemos ao objeto de um estudo permeados por nossos desejos e fantasmas, nossa subjetividade está sempre em jogo. Fica difícil, assim, assumir uma posição neutra frente aos problemas. Aliás a neutralidade foi uma atitude inexistente para esse homem, que imprimiu seu estilo irriquieto, personalista e criativo por onde passou. A melhor forma de homenageá-lo é herdar sua inquietude.

Memória da destruição

13 de abril de 2011 0



Depois de muito expor, o artista plástico Franz Krajcberg se exilou num sítio, em meio às árvores que cultivou e que são hoje tão velhas quanto ele, que completou 90 anos dia 12 de abril. Ele é dono de um trabalho ímpar: esculturas compostas de troncos, ramos e raízes recolhidos em queimadas ou zonas de desmatamento, que ganham vida, mas trazem cicatrizes do encontro com a onipotência dos homens (ver em: http://www.krajcberg.vertical.fr/). O homem não desistiu, aprofundou-se, foi escolhendo caminhos que o embrenhavam no interior da sua floresta particular. Deixou de fabricar Pinóquios, pedaços de pau que na sua mudez falam e reivindicam como o marionete de Collodi. Agora é ele que se lignifica lentamente, não vai morrer, vai virar árvore.

De origem judaico-polonesa, sobreviveu a vários momentos trágicos da Europa, lutou e viu seu mundo e família serem assassinados, queimados, ruírem. Saído da guerra, refugiou-se neste país tropical que somos. Muitos vieram apostando que a exuberância destas terras renderia eterna fartura aos que nelas se exilassem. Cantaram as matas verdejantes, seus frutos e gente morena, deitaram-se em redes, esquecidos do seu velho mundo hostil. Fazem isso desde que o Brasil foi descoberto. Krajcberg não aportou no Brasil para entrar em algum tipo de fantasia idílica, suas retinas continuaram constatando a destruição, mesmo quando ela ainda não era visível. Era inegável que a natureza estava queimando como as cidades que viu arderem na guerra, que a vida das florestas fenecia, como os corpos magros dos famintos, prisioneiros das misérias bélicas que testemunhara. Fugiu de um genocídio para esbarrar num massacre vegetal. Sua obra é por ele intitulada de “memória da destruição”.

Experiências traumáticas esterilizam o discurso, as guerras deixaram gerações de silenciosos, quem viveu o horror sente que contar é reviver, envergonha-se de sobreviver, seu passado é inefável, não espera ser compreendido. Poucos conseguiram tomar a palavra, mas ele o fez esculpindo com as raízes retorcidas de uma natureza que descobriu estar sendo também bombardeada. Para Krajcberg uma destruição é sempre metafórica de outra. Agora, somente fotografa. Como se estivesse coletando e preservando imagens de plantas: espécimes para uma Arca de Noé imaginária. Seus olhos substituem as imagens do que não gostaria de ter visto por outras, maravilhas vegetais que não quer que desapareçam. Fotografando envia-as para uma posteridade à qual não tem muita esperança de que chegarão. A destruição é inesquecível. Sua arte um modo de sobreviver.




Especialista acredita que bullying não é causa do massacre em escola do Rio Para o psicanalista Mario Corso, como a maioria das vítimas foram meninas, a intenção do criminoso não era atacar os valentões

09 de abril de 2011 0


Bruna Menegueço



 Shutterstock

Autor do massacre na escola Tasso da Silveira, que terminou com a morte de 12 adolescentes, no Rio de Janeiro, na quinta-feira (7), teria sofrido bullying (atos de violência física ou psíquica), segundo colegas. Wellington Menezes de Oliveira, de 23 anos, que cometeu o suicídio depois de trocar tiros com a polícia, sofria calado com as provocações dos colegas. Mas para Mario Corso, psicanalista, membro da APPOA (Associação Psicanalítica de Porto Alegre) e autor dos livros Fadas no Divã: psicanálise nas histórias infantis, em 2005, e Psicanálise na Terra do Nunca: ensaios sobre a fantasia, em 2010 (ambos pela Ed. Artmed), escritos em parceria com sua esposa Diana Corso, essa teoria não tem fundamento. Segundo o especialista, como a maioria das vítimas foram meninas, a intenção do criminoso não era atacar os valentões. Ele explica mais na entrevista a seguir.

CRESCER: Especula-se que Wellington tenha sido vítima de bullying naquele local por isso voltar para a escola para vingar-se? O que o senhor pensa disso?
MÁRIO CORSO: Para mim, isso é uma tese furada. As coisas nos levam a pensar por outro lado. Se ele sofresse bullying, por que iria matar meninas, e não os “valentões”? Na minha opinião, o assassinato de mulheres é uma afirmação viril. Pensando no simbolismo de Simone de Beauvoir, em seu livro O Segundo Sexo, a mulher está ligada ao nascimento porque dá à luz e o homem, como guerreiro, à morte. Wellington quis morrer como homem e encontrou o jeito mais absurdo de “penetrar” essas meninas.

C: A escola poderia ter evitado essa tragédia de alguma forma?
M.C.: Não, de jeito nenhum. Esses ataques psicóticos são casos isolados e o principal problema aqui no Brasil é o acesso fácil às armas. Em uma sociedade desarmada, ele provavelmente teria feito menos estrago, se estivesse usando apenas um canivete, por exemplo.

C: O que os pais têm de fazer se o filho for vítima ou autor de bullying?
M.C.:
Os pais não devem correr atrás de uma coisa que já aconteceu, eles devem estar conectados com seu filho sempre. Cumplicidade com uma criança não se constrói aos 10 ou aos 15 anos, se constrói desde o nascimento ao descer para chutar bola com o filho no prédio. São pequenas atitudes de confiança. Um pouco de sofrimento é inevitável para o crescimento, mas a criança que sofre bullying demonstra sinais. Ela emudece, muda os hábitos, o jeito de se vestir…

C: Existe uma polêmica sobre a obrigatoriedade de um psicólogo dentro de uma escola. O que você pensa sobre isso?
M.C.: Eu acho uma ótima ideia. Se tem alguém ali na escola circulando com o olhar mais atento vai detectar alguns casos como esse. Não todos, mas vai minimizar. Se existir uma política de buscar esses movimentos, detectar e cuidar, eles vão diminuir. Aliás, quanto mais adultos responsáveis dentro da escola, melhor.

C: Se fosse em uma escola particular, teria sido diferente?
M.C.:
Não, também é possível entrar em uma escola particular. Fazer ou sofrer bullying não tem classe social.

Avulsos

30 de março de 2011 0

Há ocasiões em que algo que os pacientes dizem interpela seu analista. Uma paciente contava uma história recorrente na vida de muitos: ela é solteira e falava de uma reunião familiar, na qual tentava sem sucesso encontrar lugar na conversa de seus pais e irmãos, cunhados e sobrinhos, todos legitimados pela condição de casal e entrosados na empreitada da reprodução. Embora não tenha constituído família, já havia comparecido acompanhada a esses eventos e sentia-se melhor, pelo menos não parecia ser uma extraterrestre. De repente ela repetiu uma frase minha, pinçada de uma entrevista, da qual eu não lembrava: “a sociedade trata muito mal os avulsos”. O que eu hipoteticamente já sabia, soou como se fosse a primeira vez.

A frase ressoava, desejosa de associações e de uma interpretação. Precisei entendê-la melhor para descobrir por que aqueles que não se apresentam pareados ou com seus descendentes pagam o preço da hostilidade ou da indiferença. Não só solteiros padecem, também viúvos e separados vivem essa sensação de que estão vivendo algo errado. A interpretação que me ocorreu foi a seguinte: identifiquei-me com a queixa da minha paciente porque, quando criança, nos anos anteriores ao segundo casamento, minha mãe também era avulsa. Vivemos ambas, ela viúva e eu órfã, essa condição de deslocadas. Fazia-me inveja a aparência superior das famílias completas, nós éramos tortas.

A família ainda guarda algum prestígio em nossos tempos incrédulos e sem esperança, impõe sua estrutura nuclear – casal com filhos – enquanto cânone, lugar certo para a transmissão de valores e construção da personalidade. Só isso já seria fonte provável de tal mal-estar, vivido pela paciente e na minha infância. Mas há um detalhe a mais: ela é gay e quando comparecia com uma companheira às reuniões todos lhe eram gentis, por mais reacionários que fossem. Então não se trata só de tradição, família e propriedade.

O que mexe com os pareados é uma inveja do avulso, sua possibilidade de estar só, livre para dispor do seu tempo, para escolher caminhos sem consultar ninguém. A solidão pode ser dolorida, mas aos avulsos raramente faltam amigos com quem dividir prazeres e dores, além de amores, que podem até não durar, mas emocionam. Fazer escolhas é perder as outras vidas possíveis e lembrar disso abala estruturas. Os avulsos representam liberdade perdida, vínculos desfeitos, morte, a labilidade do amor. Sua presença desperta desejos e fobias, por isso a sociedade os constrange. Toda diferença questiona.


Amadores do Sexo

30 de março de 2011 0


Perdoem-me o trocadilho infame, mas em poucas áreas somos mais amadores do que no sexo. Por isso, as palavras de uma expert, impactam. Raquel Pacheco, retratada no filme Bruna surfistinha, assistido por mais de dois milhões de espectadores, foi uma garota de programa. Sua história, narrada originalmente no livro O doce veneno do escorpião, serviu como elo entre os profissionais do sexo e a vasta legião de adultos, praticantes amadores. Moça de classe média, filha adotiva, acabou rompendo com a família para abrigar-se na identidade de prostituta. Os instrumentos de sua educação revelaram-se na escrita, num blog, batizado com seu nome de guerra, onde contava em detalhes seu cotidiano, incluindo sua avaliação sobre o desempenho dos clientes. Como profissional Bruna era apenas mais uma, foi ao escrever sobre o que todos desejam saber, que Raquel encontrou a celebridade.

Frente ao sexo nos sentimos da mesma forma do que em relação aos computadores: neles sempre há muito mais funções e possibilidades que não sabemos explorar. Mesmo aos mais ousados resta a idéia de estar sub-utilizando sua “máquina” e hoje não perdoamos à vida que não entregue todo o gozo que nos devia. Não faltam sexólogos para instruir sobre os caminhos que o prazer poderia trilhar e as palavras destes sempre encontram bom público, tanto maior quanto for a sinceridade dos autores. É justamente no item da sinceridade que Bruna derrota seus concorrentes teóricos, pois suas experiências são reais.

Gostamos de acreditar que as prostitutas não são de fato mercenárias, porque nos identificamos com elas. Afinal, todos julgam ser como elas: um de dia e outro de noite. O gozo fingido que elas praticam também não nos é estranho, se insinua nas ocasiões em que, no casal, um se consagra ao prazer do outro, numa cena que bajula seu desempenho ou dotes. Além disso, detestamos pensar que a relação sexual possa ser apenas um trabalho, uma tarefa, e não a expressão máxima do que se é, a verdade última do amor e do valor de cada um. Prima donna do nosso imaginário, a prostituta tem por clientela todos os que fantasiam com ela e através dela. Ela encarna a inflação de sentidos que em vão esperamos do sexo.

O texto de Raquel não tem excelência literária, mas estende uma ponte entre a mulher comum e a prostituta. Em suas palavras: “As mulheres tem de ser damas para a sociedade e putas na cama, sempre disse isso. Mas também sempre digo que temos que ser putas mulheres e mulheres putas. Muitas mulheres perdem seus homens não porque não os satisfazem sexualmente, mas porque não são ‘putas mulheres’”. Se multidões se interessaram pela sua história e pelo seu texto é graças ao prestígio que o gozo sexual tem entre nossos valores. Tentamos aprender com sua experiência, afinal, quem não gostaria de colocar no currículo que no sexo é fluente e diplomado?