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Mickey Mouse octogenário

26 de novembro de 2008 2

           

    Conheci um senhor velho com olhar de guri. Visto com zoom, seu rosto apresenta manchas, saliências, uma cara com sinais de uso, mas os olhos, ignorando o peso das pálpebras, fitam com picardia. Na maturidade, as cartilagens continuam crescendo, tornando-nos caricaturas de nós mesmos. Viramos duendes, bruxas, narigudos e orelhudos. Apesar disso, fui fisgada pela vivacidade daqueles olhos, tão diferentes daqueles, arregalados através de cirurgias plásticas, ou apagados pela vida bovina que lhes desenvolve catarata na alma.
    Mas quero falar de outro velho orelhudo, 80 anos completados há uma semana: Mickey Mouse. Na essência ele pouco mudou, foi o mundo em volta que foi mostrando outra cara. Mickey continuou na ativa, é o membro mais popular da família Disney, mas foi ficando menos sapeca. Com o passar dos anos, seu bom mocismo foi se acirrando, enquanto sua imagem ia desenhando-se mais redondinha. Seu lugar na trama era o de ser uma referência em torno da qual iam articulando-se personagens mais interessantes, como Pateta, o gauche, Donald, o descontrolado. Particularmente nunca gostei dele, mas devemos-lhe o respeito de um patriarca
    Hoje exigimos mais complexidade das personagens, elas são ambíguas, conflitivas. Até mesmo nos desenhos dirigidos ás crianças pequenas os bichinhos vivem sentimentos fortes, medos, ciúme, egoismo, covardia, inquietações. O octogenário Mickey, assim como seu precursor o Gato Félix, nasceram num tempo de animais que estavam para mais palhaços. Eles constituíram a linguagem corporal própria do desenho animado: eram contorcionistas, mistura de Chaplin com o Gordo e o Magro, numa estética de pastelão. Depois de algumas décadas de trabalho como detetive, o ratinho que consagrou Walt Disney, sobrevive mais enquanto ícone.
    Histórias e personagens são como retratos de época: Shrek, uma personagem que hoje nos traduz, é um monstro bonachão, com problemas de sociabilidade e dificuldades para amadurecer, sarcástico e cético. As crianças e seus desenhos animados mudaram muito, novas fantasias para novos tempos. Como eles, alguns entre nós conseguem continuar evoluindo junto com seus narizes e orelhas. Nesse sentido, a passagem do tempo pode significar crescimento ao longo de toda a vida, espero conseguir essa proeza. Outros, apenas controlam as transformações físicas, vão cortando as arestas, ficando cada vez mais redondinhos. Estes, como Mickey, ficam datados, sobrevivem como estátuas, sem aquele olhar maroto do velho que me cativou. 

Postado por Diana Corso

que falta nos faz a filosofia

12 de novembro de 2008 3

 

 

            A minha geração (dos que hoje beiram os cinqüenta) pegou o desmonte do ensino no Brasil ou, a “Reforma”. Basicamente, retiraram do currículo as humanas, ou as reduziram ao mínimo, e intensificaram as exatas. Precisávamos de engenheiros e técnicos para construir o “Brasil Gigante”.

            Na minha escola, olhava com curiosidade os quadros com latim, francês e filosofia que os mais velhos estudavam, mas nunca cheguei lá. Quando chegou a minha vez, não tinha mais. Já os períodos de química e física e matemática aumentaram. Não me fiz de rogado, aprendi direitinho e fui fazer engenharia.

            Chegando à faculdade, a encontrei depenada. Os professores que acreditavam que a universidade é antes de tudo um lugar para pensar, já tinham sido banidos. Na academia pairava um ambiente de ginásio e eu esperava muito mais. Também não foi ali que encontrei alguém disposto a me ensinar a pensar. Idéias inteligentes só estavam disponíveis entre os colegas, talvez por isso a força do movimento estudantil da época. Os estudantes eram a reserva da inteligência universitária.

            Como tantos, a minha formação humanista foi feita fora da universidade. Líamos o que se encontrava e o menos caolho puxava os cegos. Era uma época de grandes transformações, a geração precedente arrombou a porta da revolução dos costumes, e a nossa aproveitou. Tínhamos a mesma sede e muito para entender. Éramos uma multidão sem guias. Sempre uma formação é uma colcha de retalhos, mas a nossa era uma colcha esburacada, aliás, como ainda sinto a minha.

            Hoje leio um livro que gostaria de ter encontrado naquela época: Filosofia em Comum de Marcia Tiburi (Record, 2008). É um livro sobre filosofia atípico, ele é uma mão estendida que nos puxa para dentro do campo da filosofia e tenta nos ensinar a pensar. Um livro que fala com o leitor. Embora o encontro seja anacrônico, como eu tenho uns atrasados, uns quebra cabeças velhos dos quais nunca encontrei as peças, me serve e recomendo.

            Hoje o ensino de filosofia está sendo retomado, espero que no espírito do livro de Tiburi. O livro é desmistificador da filosofia, facilita o acesso e nos faz reconhecer os movimentos do nosso pensamento, as ferramentas que usamos. Não se perde na história da filosofia, vai direto aos temas filosóficos clássicos.

            Hannah Arendt estudando o nazismo encontrou, no que chamou a ausência de pensamento, as suas respostas para a origem do mal. O grande malfeitor do século XX foi o homem comum que dizia apenas cumprir ordens. Um homem incapaz de pensar por si próprio pode emprestar sua alma a qualquer projeto cretino. Pense nisso.

Postado por mario corso

Comendo livros

12 de novembro de 2008 1

Ainda guardo em mim alguns raciocínios infantis que me induzem a equívocos. Um deles é ler as coisas no seu sentido literal. É esse tipo de pensamento que pode levar uma criança a pensar que todas receitas contém chá e sopa entre seus ingredientes, já que colheres disso são sempre mencionadas, e que sapatos de salto são para saltar. Foi por isso que li enviesado uma manchete da capa da revista Claudia que dizia: “A dieta dos Best-sellers”.

 Imaginei um grupo de pessoas gordas reunidas discutindo sobre livros ao invés de terem que comunicar umas às outras o que comeram e quantos quilos perderam. Entre as histórias escolhidas, haveria também relatos de grandes comilanças, como A festa de Babette, de Karen Blixen, mas esse é alimento que não engorda. Minha fantasia foi longe: cada um poderia ser Sherazade por uma temporada, narrando seus livros de escolha alternadamente; ou talvez a cada semana um contasse aos outros partes do seu livro, assim todos acompanhariam vários livros ao mesmo tempo.

Mas no que isso as emagreceria? Provavelmente, em nada… Foi apenas um devaneio sobre uma sociedade mais sonhadora e menos voraz. Comendo mais literatura talvez não ficássemos entregues a prazeres de tiro tão curto e, conseqüências nefastas, como os excessos de comida e álcool. Isso nos livraria principalmente do consumo de drogas, que prometem um sonho protético para os carentes de imaginação, ao preço de virar pesadelo.

Impossível não evocar aqui o saudoso Bode Orelhana, personagem dos quadrinhos de Henfil que, em plena ditadura devorava tudo, inclusive livros e jornais. Esse regime lhe proporcionava momentos de sábia eloqüência, mas também grandes indigestões. Era uma época de dieta forçada de idéias, onde precisávamos catar o que ler como famintos na caatinga. Sugiro que aproveitemos a fartura.

Falando em dieta e livros, é fato que grandes contos podem vir em poucas palavras, numa quase poesia, como este magnífico exemplo escrito por Sergio Napp: Estava abatida por todos os dias passados naquela cama de hospital. Ele apanhou o potinho com gelatina e a colher. Nunca se imaginara em tal situação: alimentando a morte da própria mãe. É um dos minicontos do último lançamento da Série Lilliput da Editora Casa Verde. O livro é Contos Comprimidos (org. Fernando Neubarth).

Deixo os livros dessa série na sala de espera do meu consultório, lá ninguém espera muito, mas sempre dá tempo de meus pacientes iniciarem a consulta com um trecho de ficção, que em certas ocasiões alimenta nosso trabalho.

 

Postado por diana corso

a promessa das máquinas

12 de novembro de 2008 0

 

    Eu tinha duas famílias prediletas, ambas do futuro: Os Jetsons, um desenho animado, e os Robinsons, do seriado Perdidos no espaço. Achava-se que acabaríamos usando macacões prateados colados ao corpo e botinhas que finalizavam essa espécie de malha unissex. Era década de 60 e na televisão o porvir era representado igual ao presente, mudando só o figurino. Os homens ainda trabalhariam fora, enquanto as mulheres cuidariam do lar, mas haveria um atenuante: os robôs. Os Robinsons tinham um exemplar macho e os Jetsons tinham Rosie, uma eficiente empregada automática.

            Todos conhecemos a imagem clássica da dona de casa da época: cabelo duro de laquê, vestido acinturado, seios espetados e um sorriso no rosto enquanto segura, sem esforço nenhum, seu aspirador de pó. Representante de um novo tipo de nobreza ao alcance da classe média, ela tem suas máquinas. Não lida mais com trapos e vassouras, a sujeira é aspirada, ela não cozinha mais, aciona mixers, fritadeiras, grills, suores e outros detritos são problema de sua máquina de lavar e os calos no joelhos ficarão por conta da enceradeira.

             O cotidiano doméstico lembra o trabalho do pobre Sísifo, empurrando a pedra montanha acima para em seguida vê-la despencar, retomando a tarefa infinitas vezes. Lava-se e arruma-se o que, na seqüência, será sujo e esparramado, cozinha-se o que será imediatamente devorado. O sorriso na cara das senhoras das propagandas e dos meus seriados favoritos, seu inalterável humor de Noviças Rebeldes ficava por conta de um engano, seriam liberadas do trabalho doméstico. Lamento dizer: a promessa de Rosie não se cumpriu.

            Fornos não são verdadeiramente auto-limpantes, louça e roupas não são auto-guardantes, o ferro elétrico continua exigindo manobras humanas e, principalmente, filhos não são auto-criantes. Nem o produto químico mais incrível vai ajudar a sorridente moça do comercial a abstrair que ela está limpando uma patente. A formação de uma família inclui um sem número de atividades que tem que ser executadas pessoalmente, as quais sabemos que se não as desempenharmos pagaremos caro por isso, pelo menos com a culpa. A tarefa de convencer as mulheres dos encantos do lar incluiu um grande engano: vocês nunca mais se sujarão para limpar, nunca mais se cansarão. Balela, a fome e o caos não cansam de retornar.

            Não me venham exigir esse sorriso congelado de miss, de atleta de nado sincronizado enquanto corto cebola. Ser mulher continua dando um trabalho cotidiano sem glória nem memória, do qual saímos com a sensação de não ter feito mais que a obrigação. No dia seguinte, a sujeira, a bagunça e as incessantes necessidades dos filhos levarão tudo à estaca zero. Sísifo.

            Por isso, aos ainda poucos e maravilhosos homens que começaram a dividir conosco esse campo de trabalhos forçados a que chamamos lar, as boas vindas. A dois fica um pouco menos penoso. Pensando bem, isso é ainda melhor do que a Rosie.

Postado por diana corso, publicado na tpm de outubro

Amores Brutos

29 de outubro de 2008 0

 

            “Quem ama não mata”. Essa era a frase das feministas, décadas atrás, protestando contra a matança de mulheres pelos seus homens. A afirmação é convincente, mas será que se trata de amor nesses casos?

            O Brasil inteiro assistiu a jovem Eloá, 15 anos, ser seqüestrada e assassinada pelo seu ex-namorado Lindenberg, 22 anos. Sobre as trapalhadas policiais que redundaram no desastre só teria a opinar que a atuação sistemática de algum psi (psiquiatra, psicólogo, psicanalista) nas negociações teria melhores chances do que o telefonema da Ana Maria Braga.

            O amor não é desinteressado, só dizemos “eu te amo” para ouvir, no mínimo, “eu também”. Amamos para ser amados, mas as relações amorosas possibilitam também a construção e o reconhecimento da identidade sexual: só serei homem ou mulher de verdade se houver alguém que me deseje, que satisfaça seus anseios em mim e comigo.

            Na lógica masculina mais corrente, uma mulher que está satisfeita na relação confirma a virilidade do parceiro. Se ela o deixa, é como se lhe negasse a potência, se o substitui, é como se ele perdesse a disputa, comparado ao novo amor. Por isso os homens podem ficar bem violentos nos fins dos relacionamentos ou em uma simples cena de ciúme: está em jogo sua identidade. Para certos homens, fraquejar em sua potência não é um tropeço, pode ser vivido como uma ameaça de destruição. Por isso, muitas vezes, aquele que foi traído mata a mulher, eliminando aquela que deveria mantê-lo homem, mas fez o contrário. O fato de sua mulher gozar com outro seria, para esses machos, o mesmo que feminilizá-los, submetendo-os ao domínio do novo escolhido.

            A atitude de Lindenberg baseia-se nessa lógica. Ele promoveu uma encenação patológica, acompanhada pela audiência em tempo real, daquilo que deveria manter-se apenas na fantasia. Ele matou Eloá pelas razões acima: ela não devia seguir vivendo sem amá-lo e jamais deveria entregar seu coração para outro homem. Óbvio que uma menina de 15 anos sequer suspeita que sua vida amorosa possa tomar esse rumo. Quanto a nós, que vimos o rapaz demarcar seu território viril como um bicho furioso e acuado, podemos tentar compreender, sem jamais perdoar, a fonte dessa loucura.

            Além de perguntar-se sobre a segurança, o papel do estado, da polícia, da mídia, da família, vale no mínimo questionar-nos por que, para certos homens, sua identidade é algo que pode se decidir na ponta do cano do revólver. Esse nunca nega fogo, não brocha e, infelizmente, não há dúvida: Eloá nunca pertencerá a outro homem.

Postado por Diana Corso

Reflexões Tristes

27 de outubro de 2008 3

 Pensando na derrota

 

            Nunca fiz parte dos governos petistas, mas estava muito próximo de inúmeras pessoas que participaram dos 16 anos de gestão da prefeitura e dos 4 anos de gestão do governo do estado. Eram laços de amizade, de camaradagem, antigas amizades do movimento estudantil.

            Era natural que cruzasse com muitos protagonistas dessa experiência no governo. Uma coisa sempre me chamava a atenção: jamais conseguia dizer nada a eles a respeito do que eu via de fora do governo. Escutava atentamente meus amigos e na hora de lhes devolver algo isso não acontecia. Quando ia esboçar uma resposta, as vezes inclusive um elogio, outras vezes uma crítica, meus interlocutores antecipavam o que supunham que eu falaria e me respondiam.

            Claro que se eu insistisse veementemente seria escutado, mas isso não é muito meu feitio, pelo menos não nesses casos. Eram frustrantes essas conversas, menos por querer falar, e mais por constatar que o partido falava sozinho. Falava e escutava seu eco.

            Uma derrota não se explica por um fato isolado, mas acredito que as dificuldades de diálogo dos dirigentes do partido e dos militantes com o resto da população da cidade deva ser acrescido no balanço do por quê uma experiência de tantos anos, com tantas conquistas, ficou tão pouco marcada na memória da população. Mesmo com os mecanismos democráticos funcionando bem, talvez ela não fosse ou não se sentisse ouvida. A idéia do orçamento participativo, uma conquista petista que foi legada à cidade, parece ser um bom veículo para esse diálogo. Não tenho porque questionar sua eficácia, porém, talvez tenha sido insuficiente a empatia entre o partido e a cidade. Bons ecanismos ajudam, mas o entendimento depende da humildade de genuinamente escutar.

Postado por Mário Corso

Professora Simone

15 de outubro de 2008 0

ensinar é inscrever, mas também saber deixar em branco

O nome dela era Simone, professora de Português. Ela não me tinha em grande conta, eu a achava poderosa. Entre nós houve apenas um momento marcante: certa ocasião, envergonhada de ser tão sonsa, fingi que havia colado. Fingi para mim mesma, já que o nervosismo da pretensão de transgredir me enevoava a visão e, de fato, não consegui enxergar nada na prova da colega. Se o feito não tinha sido grande coisa, pelo menos tentei fazer valer a intenção, contando vantagem entre meus colegas na saída da prova. Não é preciso dizer que a professora ouviu e tomou as medidas que lhe cabiam. Inicio e fim da minha incipiente carreira criminal. Conto isso para que não se julgue que se tratava de relação de mútuo afeto ou camaradagem, que recubra ou mascare o caráter simplesmente pedagógico do que se segue.

            Durante aquele ano do primeiro grau do Grupo Escolar Daltro Filho, a professora Simone determinou que escrevêssemos uma composição (era assim que denominávamos as redações) por dia, logo, sete por semana. A cada segunda-feira, reunidos em pequenos grupos, escolhíamos as menos piores para serem lidas para o resto da classe. Obviamente, eu escrevia as sete no domingo à noite. Fora a vergonha de falar em público, o que lembro mesmo é da labuta de inventar assuntos variados e transformá-los em pequenos textos, misturada à tristeza de domingo. A música do Fantástico anunciava o fim dos tempos e eu ainda tinha que ter sete boas idéias. Nunca duvidei nem duvidarei que a pressão ativa a criatividade. Enfrento aqui, há sete anos, o dilema da pauta em aberto com menos medo, graças àquela experiência. Ainda escrevo aos domingos.

            Simone não era a Professora Maluquinha, alfabetizadora sensível do livro de Ziraldo, nem eu era uma aluna bacana de quem ela fosse lembrar. Inesquecível foi o desafio que ela orquestrou em nós. Vivências escolares definem destinos, professores tatuam almas com suas idéias, atitudes, propostas, atividades. São os pais que precisam prover a formação moral, as bases emocionais, mas são os professores os primeiros guias de viagem. É na escola que vamos lapidar a pedra bruta que trazemos de casa.

            Em nosso país, entra e sai governo e o Ensino Fundamental jamais é considerado tal, que dirá os que se seguem. Nas escolas públicas, os professores lutam contra todo tipo miséria, inclusive a do seu salário; nas privadas, contra a tirania dos clientes. Quadro triste, mas não irremediável. Pelo menos, hoje, Dia do Professor, gostaria de fazer algo que nunca tive oportunidade: agradecer à professora Simone.

 

           

Postado por Diana Corso

Tornar-se homem ou mulher, um filme, um livro

06 de outubro de 2008 0

a beleza das dúvidas

A propósito 1: Assisti, com imperdoável atraso ao filme argentino “XXY“. Imperdível lição do quanto nossa identidade sexual é uma questão em aberto, que passamos a vida tentando, inutilmente fechar. A intolerância com todo tipo de ambiguidade e ambivalência por parte da sexualidade alheia é a mesma que temos com as indefinições de cada um de nós. O preço das nossas  dúvidas inadmissíveis é pago por homossexuais, transexuais e todo tipo de questionador das obviedades de identidade e escolha amorosa. A pergunta da jovem do filme é “por que meu corpo tem que ser corrigido se eu nasci assim?”. A verdade é que quando chegamos berrando ao mundo, antes de dizer nosso nome, dizem nosso sexo (hoje em dia já nas primeiras ecografias estamos fadados às cores e emblemas de nosso sexo biológico), como ela poderia ser os dois, ou nenhum dos dois? Só que ser macho ou fêmea é uma questão de amores: o dos nossos pais entre si, conosco, com seus próprios pais, é fruto da história dos amores que tivemos e suscitamos, das identidades de todos aqueles nos quais nos inspiramos para ser alguém. Ser homem ou mulher é a ponta do iceberg de um conjunto de dilemas que leva-se uma vida e não se soluciona. E tudo isso, acredite-se ou não, está delicadamente sugerido na história de Alex, encarnada por uma jovem atriz impressionante em seu desempenho. Em seus gestos, olhares, a ambivalência não poderia parecer mais bela, como de fato poderia ser, se não fosse motivo de pânico em nossa cultura.

A propósito 2: Reproduzo abaixo a resenha, publicada na edição de outubro da revista TPM, onde tenho uma coluna, sobre o livro de Fabrício Carpinejar. Ei-lo às voltas com essas mesmas questões desde o ponto de vista de um homem que tem a coragem de expor a trabalheira que dá ser e manter-se homem nesta vida.

Quem é o novo macho?

 

            Imagine se nossos seios excitados ficassem eretos sob a blusa, alardeando que uma fantasia erótica atravessou o pensamento, numa reunião de trabalho! Como nos sentiríamos se a cada mínimo gesto suspeito as amigas gritassem “sapatona!”. Com os homens é assim. Não temos dúvidas de que ser mulher sempre foi difícil, mas achamos que ser homem é fácil. Errado. Na dúvida, pergunte ao Fabrício Carpinejar. As respostas virão sob forma de crônicas engraçadas e líricas, em seu livro “Canalha!” (Ed. Bertrand Brasil).

            Ele dirá que “dói ser homem, é cansativo ser homem. Sim os homens tem facilidades: mijar em pé. Falei facilidades?, retiro, o homem tem uma facilidade: mijar em pé”; explicará que a masculinidade é “um exame infindável de testosterona intelectual”. Performático e provocador, ele pinta as unhas (de uma das mãos), e com a manicure de sua mulher descobriu um dos segredos femininos: “ela quer ouvir de mim que simplesmente estou ouvindo”. Fabrício investiga as mulheres, quer descobrir-lhes a receita, aprender a se fazer amar por elas. Por isso, recomendo aos homens que abandonem todos os sites de conselhos sobre como conquistá-las e leiam o livro do Fabrício. Estamos lá, perigosa e respeitosamente reveladas. A leitura serve também às mulheres, boa ocasião de descobrir que os homens mudaram tanto quanto nós, e quanto. Eles ficaram diferentes, porque “uma mulher não se interessa (mais) por homens prontos, fechados, absolutamente perfeitos. Não se interessa por cadáveres”.

            Dizem que os machos são mais ativos, que a dependência é característica da fêmea humana, que mulheres são sensíveis, enquanto homens são rudes e narcisistas, mas longe dos clichês, nunca sabemos se estamos à altura da nossa identidade sexual. Ao preencher um formulário, assinalamos o sexo a que pertencemos, quem dera fosse tão simples! Na prática passamos a vida tentando validar o X colocado no “masculino” ou “feminino”. Pelo menos o amor é um alívio para os impasses erótico-existenciais: quando somos desejados nos sentimos homens ou mulheres de verdade. Por isso, para descrever o novo macho, Fabrício teve que falar de amor, mas não só disso: da amizade entre os homens revelou os segredos do vestiário, onde a intensa cumplicidade e o erotismo agressivo e lúdico compensam as olimpíadas de macheza, o exercício compulsório da bagaceirice.

              Colocadas na periferia da história, sob um manto de docilidade, as mulheres tornaram-se mordazes caçadoras de pontos fracos nos machos e suas instituições. Por hábito de bastidores, elas percebem demais, embora guardem os defeitos de seus maridos e filhos enquanto segredo pessoal. Por sorte ele nos encarou, olhou direto na nossa cara de esfinge, agüentou o frio na espinha, amou e foi amado, ganhou e perdeu, para no fim contar dos impasses do novo macho frente às mulheres liberadas. As melhores verdades não provêm de respostas, e sim das perguntas bem colocadas. As perguntas de Fabrício estão lá.

 

 

 

 

Postado por Diana Corso

Jerkish

04 de outubro de 2008 1

Em 1984, o livro, Orwel imaginou um mundo em que o totalitarismo venceria e uma das suas conseqüências seria a “novilingua”. Seria uma língua com um número mínimo de palavras, feita para diminuir a capacidade de pensar e, consequentemente, a de manifestar críticas ao governo. Em resumo, só corrompendo a linguagem era possível corromper o pensamento. Os fascismos e o stalinismo nos deram demonstrações práticas dum vocabulário oficial como esse. As ditaduras são muito atentas às palavras, mais do que as democracias.

            Mas a questão é: as sociedades democráticas são imunes à corrupção da linguagem? Será que nelas encontramos a plena expressão? Escutando os candidatos à prefeitura de Porto Alegre, eu me inclinaria a dizer que não: infelizmente estamos utilizando novas formas de “novilingua”, andamos falando “Jerkish”. Ivan Klima, um romancista tcheco, batizava assim a linguagem oficial da cortina de ferro.             Originalmente “Jerkish” quer dizer uma linguagem desenvolvida para falar com chipanzés, portanto sem possibilidade de metáfora, onde tudo é pão-pão, queijo-queijo, ou melhor, banana-banana. Enfim, um vocabulário oficial que, baseado em clichês, nos faz falar sem dizer nada além da informação mais banal e esperada. Quem fala com esse vocabulário dá voltas nas questões, diz o que é previsível e fica nisso. O “Jerkish” não pede a marca singular do falante. Dessa forma, todos ficam iguais, independente se enunciado por um ou por outro, o dito será a mesma coisa, essa linguagem não permite um estilo próprio. Não se trata de nada imposto, mas um empobrecimento da linguagem que pressupõe em esvaziamento do pensamento.

            Mas como pessoas tão diferentes, de intenções e práticas políticas distintas, frequentemente acabam falando a mesma coisa?

            O que leva ao clichê é a falta de sinceridade, ninguém diz o que realmente pensa e sim o que é certo dizer, e com o tempo, de tanto insistir no que seria correto dizer, convencemo-nos de que aquilo é o que realmente pensamos. Só que isso não é mais um pensamento: sendo uma repetição de fórmulas esquemáticas, é justamente a ausência de pensamento.

            Creio que esse esvaziamento da linguagem deve-se ao politicamente correto. Ele é a o que mais se aproxima de uma “novilingua” e certamente é um Jerkish. A utilização da linguagem politicamente correta, o policiamento do que é dito em busca de que a tolerância seja um enunciado universal, baseia-se justamente nessa premissa: de que o modo de falar dá forma ao modo de pensar, e não somente à inversa. A intenção é das melhores, mas o resultado foi a transformação desse saneamento da linguagem, visando expurga-la dos preconceitos, em uma esterilização do enunciado.

            Existem coisas que se pode dizer e coisas que não se pode dizer. Aplicado a questões raciais e sexistas isso pode ser muito bem vindo, mas chegando na discussão política dos temas amplos é um desastre. O politicamente correto na política já não é só uma escolha de palavras, mas é uma forma de não pensar. Ela pressupõe certos axiomas especialmente o coitadismo e a vitimização do cidadão e, como contrapartida, a responsabilidade total do estado: se as coisas chegaram onde chegaram é por que o estado em algum momento falhou. As pessoas, os cidadãos não falham, são sempre bons e oprimidos por forças superiores.

            Não existe para essa forma de pensar a responsabilização do sujeito. Todos são vítimas, o carroceiro, o mendigo, o morador de rua e todos nós que o estado não atenderia bem na saúde, na educação. Por exemplo, se alguém perguntar sobre a população de rua que não pára de crescer em Porto Alegre, todos vão dizer a mesma coisa: em princípio vão deixar claro, muito claro, que essas pessoas acampadas nos espaços públicos são vítimas genéricas da degradação da sociedade e que faremos todo possível para saber quem são e como tirá-las das ruas respeitando as suas particularidades. Resposta que seria mais verdadeira: não tenho nem idéia, a legislação brasileira é culposa e nos amarra, permite a privatização do espaço público pelas hordas de miseráveis. É difícil reintegrá-los especialmente por que eles nem sempre se interessam por isso. Não tenho nenhuma idéia nova para isso e, provavelmente, se eleito for, não vou fazer nada por isso, assim como o prefeito atual e os anteriores, próxima pergunta.

           

            Nosso presidente fala demais. Deve sentir saudades dos tempos de pessoa comum, quando podemos ser saudáveis palpiteiros. Seu cargo pede palavras medidas. Mas ele fala mesmo assim e diz uma série de coisas que viram folclore. As palavras do presidente furam o bloqueio do que deve se dizer e marcam nossos ouvidos por que finalmente alguém diz algo sincero. Pode não ser uma grande coisa, mas ao menos é verdadeiro e como há tão pouca verdade no discurso político que nos faz escutar de uma maneira diferente.

Postado por Mário Corso

Não mais que de repente

27 de setembro de 2008 4

a idade depende do ponto de vista...

 

            De repente, sem querer, eu me disse: agora é pra valer. Estava me referindo à vida, à vida adulta, aquela para a qual tenho passado os últimos 47 anos me preparando. Mesmo com duas filhas, um livro escrito e uma árvore plantada (não me lembro bem, devo ter plantado alguma…), parecia que nem tinha começado ainda. Sempre pensei que chegaria o dia em que deixaria de sentir-me intimidada frente àqueles que admiro, em que me consideraria uma mãe suficientemente boa e uma mulher de verdade, em que saberia administrar o dinheiro que ganho como se fosse meu. Isso ainda não aconteceu, mas sim outra coisa: comecei a olhar para o taxímetro e ver o quanto de vida já gastei.

            Desculpem o aparente negativismo, é só pra comentar que a gente passa a vida se preparando para a próxima etapa, para a qual só estamos prontos depois que ela já acabou. Por exemplo, agora estou aprendendo como é que é ser mãe de gente grande, trabalhar ficando mais cansada do que antes, e a dedicar tempo para escrever. A vida é espiralada, quando um circuito termina, já estamos empreendendo a íngreme escalada do próximo. Portanto, quando digo que agora é pra valer, não é porque ache que estou pronta para alguma coisa. Apenas sinto que é hora de renegociar com os ideais.

            Cada vez que começo a lamúria do “estou ficando velha”, uma das minhas filhas tem o hábito de cortar a cantilena com um sarcástico: “então deita e morre”. Tá, é cruel, mas efetivo. Na mesma hora eu paro e percebo que se começar com isso antes dos 50, aos 60 vou estar distribuindo os livros entre os herdeiros (já que os CDs não vão servir pra mais nada). Nesse ritmo, aos 70, talvez esteja escolhendo a casa geriátrica, e aos 80 já possa iniciar meu próprio velório.

            Essa sensação de que o período de estagiária estava no fim deveu-se a algo diferente: admiti que ainda serei muitas, mas nunca serei todas e, principalmente, jamais serei outra que não eu. É difícil andar pela vida preso dentro dessa criatura complicada, insuficiente e imatura que eu sou, mas é isso… Os psicanalistas chamam a essa experiência de “castração” e já tiveram que ouvir poucas e boas das feministas por usar essa metáfora peniana para designar a assumida insuficiência. Ser “castrado”, nesse sentido, seria equivalente a admitir-se irremediavelmente incompleto.

            Em defesa do Dr. Freud (que admitia não entender bem as mulheres), devo dizer que compreender a própria castração é um dilema tanto para os homens, quanto para as mulheres e é uma das conquistas de uma boa análise. Trata-se de uma conformidade consigo mesma mas que não equivale a resignar-se à mediocridade ou à tristeza. Pelo contrário, há o ganho da conquista de uma certa leveza. Quando a gente descobre que é pra valer é porque já é capaz de perdoar-se pelos ideais inatingíveis… e já não se corta os pulsos com os cacos dos sonhos partidos.

Postado por Diana Corso, publicado na revista TPM, setembro