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A Charada do Coringa

06 de agosto de 2008 3

Por que tão sério?

 

            O demoníaco Coringa da derradeira atuação de Heath Ledger (em Batman – O Cavaleiro das Trevas, de Christopher Nolan) roubou a cena. O jovem ator australiano construiu um vilão cheio de tiques e olhares alucinados, representando uma encarnação do mal digna da linhagem do Hannibal de Hopkins e do Iluminado de Nicholson.

            Complementar a essa performance, está a brincadeira que o Coringa faz com a psicogênese do mal: cada vez que ameaça cortar ou matar uma de suas vítimas, compraz-se em narrar um trauma de infância, que teria dado origem às suas cicatrizes e à sua crueldade. Porém, ele mente ou distorce, pois ele sempre conta um episódio diferente. As versões giram em torno duma história familiar trágica e triste, conseqüência da qual teria ficado em seu rosto um corte em ambas comissuras labiais que lhe impõe um “sorriso” sinistro. Um trauma que justificaria o fato de que ele se divirta com o sofrimento alheio.

            A maldade gratuita do palhaço demoníaco de Ledger ridiculariza nosso desejo de controlá-la, como se ao lhe saber a origem pudéssemos também prevenir e, principalmente, garantir que ela não se expresse. Enigmaticamente, ninguém é alheio ao mal: todos nós retiramos algum prazer da evocação da violência e do assassinato em nossos sonhos e devaneios, na ficção, nos jogos.

            É no bordão usado pelo Coringa quando está subjugando suas vítimas, que talvez possamos encontrar um esboço de resposta sobre a origem da maldade. Ele lhes pergunta: “por que tão sério?”, enquanto tenta matá-las. A seriedade a que se refere é a de não estar rindo, como ele próprio, cuja cicatriz o força a uma boca sempre sorridente, tão artificial como a das mulheres excessivamente plastificadas. O patético riso do Coringa parodia a felicidade compulsiva e aparente, exibida nos comerciais e nas revistas de celebridades.   O Coringa é o monstro do império do gozo. Todos devemos ser ricos, ociosos, que alguém nos sirva e divirta o tempo todo, ter orgasmos múltiplos, não suportar contrariedades nem enfados. O problema é que na vida a chatice é regra e a felicidade exceção. Nesse simulacro de alegria, é preciso viver sempre como se estivéssemos a bordo de um iate, rodeados de amantes, lindos e jovens. Frente a isso, como suportar os enfados dos vínculos amorosos, familiares, do trabalho? O Coringa não tem essas mágoas, ele é louco de rasgar dinheiro, seu gozo desmedido não tem preço, está sempre a seu dispor. Esse vilão na sua plenitude é sob medida para nosso mundo imediatista: ele não quer, ele pega.

 

Postado por Diana, no Segundo Caderno de hoje

Da natureza do blog

05 de agosto de 2008 1

Fabricio, poeta, não blogueiro
Não acreditamos que se exerçam modos de escrita diferentes, por isso devem ser escutadas com atençaõ as palavras da escritora Clarah Averbuck no Donna deste domingo, quando ela insiste que não é “blogueira”, é escritora. Tampouco a dita “escrita feminina” nos convence. Assim como não há uma escrita negra, latina, oriental. Há culturas diferentes, épocas diversas, mas o que vemos são invenções artísticas, que são feitas por mulheres, chineses, noruegeses, peruanos, gays, adolescentes, enfim, tipos tão variadas como o são os homens. Depois de que um achado artístico, um novo modo de escrever, de narrar, de filmar, ocorre, ele se derramará entre as outras culturas, ele se estenderá por outras épocas, ele será canibalisticamente devorado por muitos outros e de muitos lugares. Oswald teria gostado disso, Borges nunca duvidou.

 A cada vez, escreve-se como se pode, como se consegue e conforme o tema nos toca. A idéia de que um blog nos exporia é falsa. Nem no divã, onde todos vão dispostos a desnudar-se, pois estão pagando para isso, as pessoas conseguem fazê-lo a a seu próprio contento! No máximo conseguimos um strip-tease, um desnudar-se estudado, rebolando entre cada peço, deixando-as cair estudadamente.

 Expõe-se o que se consegue, o que se precisa, todo texto é um exercício de ficção, mesmo uma mensagem instantânea, contando que se está indo ao super-mercado, à cama ou ao banheiro, contém alguma literatura em seu interior a lhe maquiar as verdades. Não precisa ser alta literatura, mas sempre será um texto, não uma verdade.

 Existe hoje uma paixão pela veracidade, pelo “reality”, na direta proporção de que sabemos como é fácil fingir, escamotear. Não sabemos nem se os corpos são de verdade, pois é impossivel desnudar-se das plásticas: o fingimento se interiorizou, por isso falamos tanto em realidade, porque estamos encharcados de ilusão.

 Nossa estréia no modo “blog” que aqui se realiza é na prática uma pesquisa. Não pretendemos escrever textos diferentes, porque como dissemos, não acreditamos ser capazes disso, mas talvez o meio mude nossa mensagem, veremos…

 Entre as suposições com as quais inauguramos este espaço e esta prática, aí vai uma hipótese: o Blog é um tipo de escrita que é em geral servida crua ou mal passada. É o exercício de uma angústia, de uma compulsão a comunicar-se, de uma brevidade. É a publicação de tudo o que teria ficado bem melhor se repousado em gavetas de carvalho, ou o que em vez de “send”, deveria ter recebido um “delete”. Eis-nos, no entanto, aqui. Não resistimos à tentação de sentir também esta forma de escrita, de conjugar-nos deste modo virtual e ver no que dá…

 Para começar, devido à inexperiência, porque não recorrer a um amigo mais sábio no assunto? Mais sábio porque é um escritor de verdade (somos amadores, ensaistas, brincando com as letras sempre que a clínica nos permite), mais sábio porque é mais jovem e portanto nada estrangeiro ao meio. Com a palavra Fabricio Carpinejar:

 “Blog traduz uma prova de resistência. Um big brother ao avesso dos gêneros literários. Ao invés de ser conhecido, corresponde a um mergulho adoidado no anonimato. Distinto da noção do senso comum de que se trata de um lugar para aparecer. O resultado final (a possível badalação de um endereço virtual) não expõe a realidade. Os exibidos foram antes tímidos, os extrovertidos foram antes introvertidos. É a mais dolorida experiência editorial. O mais severo teste vocacional. Uma ferramenta do diabo, capaz de sugar sua vida ou sua aspiração. (…)

  Você pensou que aquilo seria a glória instantânea. Caprichou na redação, no humor e nas perspectivas singulares de captura do cotidiano. Mas o único que entra no site é você. Trinta vezes ao dia. Chega a esbarrar consigo entre tantos acessos e atualizações. Uma miragem. Cada texto é um quarto vago. O demo do reconhecimento insiste em tomar seu lugar. Procura contornar o drama. Manda um aviso de postagens para os amigos. Prepara uma festa-surpresa de aniversário, com o atrativo de que é o aniversariante quem a organiza. Continua sendo surpresa; nenhuma alma comparece. Daí manda um aviso de postagens para os desconhecidos, catando endereços aleatórios. Nada mais o separa de um SPAM. Recebe avisos ásperos: “não o conheço” ou “favor me excluir da lista”. A humilhação não começou. O desespero o obriga a fazer atos impensáveis: entrar de computadores diversos para fazer com que o contador se mexa de alguma forma. Assim como um atacante chuta a bola para as redes alheio á marcação do impedimento. Para se livrar do azar. Ainda que esteja quebrando uma das regras básicas do jogo e leve um cartão amarelo. Não há nem juiz para lhe dar cartão amarelo.

 Percebe que lançou um texto com um erro gravíssimo de português. Estava na rua quando lembrou a indecisão ortográfica, longe de qualquer terminal. Foi observando um outdoor. Corre para uma lan house, consome seu suspiro sem sentir o gosto, arruma e conclui que tampouco alguém reparou.

 Decide escrever qualquer coisa que continuará sendo qualquer coisa. O isolamento do blog produz alucinações. O contador de visitas parece uma bomba-relógio: anda para trás.

 Mas tortura é quando finalmente recebe um comentário. Alegria aflita para abrir a janela, quem será? quem será?, descobre que partiu do pai ou da mãe, solidário com sua desgraça. Não pode comemorar, agora intui que seu pai ou sua mãe conhecem o fracasso de sua rotina.

 Sua personalidade passará a se dividir, e não multiplicar como desejava. Sede de laranjas. Laranjas! Sem pudor, cria pseudônimos para deixar comentários (o blog, pelo menos, obriga que seja seu próprio leitor). Diverte-se no sofrimento ao inventar formas de agradecimento pelos textos. Não economiza elogios ao estilo. Estará perto da internação quando se convence de que aqueles comentários não são seus e ainda responde aos e-mails falsos. Hora do soro! “

(excertos retirados de EPÍSTOLA AOS BLOGUEIROS)

Postado por Diana e Mário

A cadela e os tigrinhos

02 de agosto de 2008 1

AP


   

            A foto que apareceu nos jornais é dessas que nos dão descanso em meio ao angustiante chamado das linhas escritas e ao desagradável tom das outras imagens, não todas, mas muitas. No retrato, via-se uma cadela da raça labrador que adotou três tigrinhos órfãos e lhes dava de mamar com essa resignação alienada, própria das fêmeas animais, que entregam seus peitos sem a troca de olhares, que as mães humanas incluem na amamentação. O prazer e odescanso que a imagem nos provoca vem da evocação da única casa que tivemos que não cobrava taxas, não tinha infiltração, nem precisava de faxina, lá não havia que trabalhar, nem estudar, somente existir: a barriga da mamãe.      Toda evocação ao amor materno nos remete a esse paraiso idealizado a posteriori, que fica como as viagens e o amor: perfeito depois que acabou. (É claro que a mãe acaba guardando as contas numa pasta para enviar para o filho depois, nada nessa vida é grátis.)  Mas parecidos mesmos são os filhos com os trigrinhos. Nossos filhos, assim como nós mesmos, acabam revelando-se um dia grandes demais, meio assustadoramente diferentes das criaturinhas macias e graciosas que um dia aconchegamos, como se tivessem se tornado de outra espécie. Pensando bem, os filhos são sempre como os tigrinhos amamentados pela mãe canina da foto…

            De qualquer maneira, vale remeter-se à pesquisa, traçando o perfil dos jovens brasileiros de 16 a 21 anos, publicada pela Folha de São Paulo (27/07/2008), onde constata-se que os adolescentes são bastante conservadores e seus sonhos aproximam-se muito mais dos burgueses estáveis do que da imagem do jovem irreverente, tão celebrado nas comemorações do aniversário do maio de 68. Portanto, cada vez menos tigres

Postado por Diana