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Fale com elas

19 de dezembro de 2012 0


Já viveu mais de meio século, mas meu marido ainda lembra do cuidado que tinha na hora de pendurar a lancheira para não se enganar. No jardim de infância, antes de conhecer as letras, cada criança tinha uma figura no cabide, a dele era um elefante, aquele era seu lugar. A creche é o primeiro espaço de existência pública, onde se pode ser alguém fora da família. Os adultos da família nos nomeiam, definem, rotulam, e com isso vão nos modulando, mas quando saímos “por conta”, quanto se tem um cabide de elefante para chamar de seu, é que passamos a ser alguém.

A Casa dos Cataventos, nome emprestado da poesia de Quintana, não é creche, nem escola, é um lugar para brincar e conversar. Lá também cada criança marca sua chegada de um jeito. Em vez do cabide, pois muitas não trazem uma mochila, ao chegar seu nome é registrado no quadro, num livro de presenças, no copinho que vai usar para tomar água. Ela é anunciada por escrito, mesmo que ainda não saiba ler. Os adultos desse lugar estranho estão lá para falar com ela e não sobre ela. Eles se interessam sinceramente por suas fantasias, que ali são grande coisa. É bom que seja assim, a infância é incompatível com a hipocrisia. Crianças farejam a mentira, brincam de faz de conta, nunca fazem de conta que brincam.

Situada na Vila São Pedro, a casa é um projeto comum de psicanalistas e universitários, mas ali os pequenos membros da comunidade é que são as estrelas. Inspirado na Casa Verde, criada na França por Françoise Dolto, e nas Casas da Árvore, instaladas nas favelas cariocas, esse trabalho provou-se uma importante ferramenta de saúde mental. Os profissionais se alternam: eles também devem colocar seu nome, brincar e conversar. As crianças entram e saem quando querem, seguem as regras combinadas entre todos, e brincam com dedicação. Por que adultos fazem das tripas coração para criar e manter um lugar aparentemente tão despretensioso?

A maior parte das crianças em situação de extrema pobreza cresce órfã de atenção. Em geral passam a vida sem jamais ter conversado com um adulto sobre seus sonhos e pesadelos. Ninguém fica sabendo do que cada uma tinha medo e raiva, e isso tudo elas compreendem e expressam brincando!

O que não vira brincadeira tende a entrar em confronto com a sociedade. Dar espaço à fantasia evita a marginalização de sentimentos, pensamentos e atos, simples assim. Por isso, no Natal que se aproxima, convém lembrar que o importante não é o brinquedo, o presente. Brinque, converse com seu filho, seu neto, seu sobrinho. Acolha sua imaginação e ele lhe dirá quem é!






Luto negado

05 de dezembro de 2012 0

Júlio Miguel Molina, coronel da reserva do exército, foi assassinado em Porto Alegre. Num lance surpreendente, a investigação desse crime abriu as portas para a elucidação de outro: o assassinato do deputado cassado Rubens Paiva, torturado até a morte e desaparecido durante a ditadura. Na casa do militar foram encontrados documentos, restos de arquivos do DOI-Codi. Nunca mais se teve notícia de Paiva depois do dia 20 de janeiro de 1971, embora sua tortura houvesse sido testemunhada por outras vítimas. Os cinco filhos e a esposa estavam em casa quando ele foi levado por militares da aeronáutica. Posteriormente, foram informados de que o preso havia fugido. Essa família conviveu por décadas com um desaparecimento, que é diferente de uma morte. Sem poder se despedir, tiveram que dizer adeus por dedução.

Os papéis encontrados devolvem simbolicamente partes do corpo de Paiva. Atestam sua prisão e arrolam os objetos recolhidos na ocasião: vestimentas, um lenço branco, um chaveiro com cinco chaves, papéis e documentos. Até agora não havia como provar a presença do deputado nas dependências do exército. Agora há. Além de anistiado, o crime estaria prescrito. Porém, ocultação de cadáver é um crime que não prescreve. Nem o luto.

O luto é um processo lento, no qual vamos acreditando, a contra-gosto, que perdemos alguém para sempre. Inutilmente aguardamos sua volta, tecemos comentários que lhe interessariam, esperamos sua opinião, e a cada reiterado silêncio, nos convencemos um pouco. Mortes aniversariam por muito tempo, revemos repetidas vezes suas cenas. Por ser inexorável, a morte é sempre traumática. O trabalho do luto é a tentativa de lhe emprestar algum sentido.

Um corpo desaparecido, insepulto, é o seqüestro do direito ao luto. Sem ritos funerários, a morte fica parecendo uma ilusão, de tal modo que a própria vida do morto vai tornando-se imaginária. A crueldade com Paiva estendeu-se, portanto, à família. Seu filho, o escritor Marcelo Rubens Paiva, perguntou-se sobre Molina: “Por que guardava o documento? Era uma espécie de souvenir da guerra suja?” A resposta talvez seja que os algozes (com quem o coronel teve algum vínculo) também precisam materializar a morte para acreditar nela, mesmo que seja dos seus inimigos. A tragédia grega de Antígona, impedida de realizar os ritos funerários de seu irmão, se atualiza para os parentes de presos políticos desaparecidos. No fim desta tragédia brasileira, espero que estejam escritas cenas de restituição da dignidade do luto.


Alma animal

28 de novembro de 2012 0

Donos de animais de estimação costumam ser acusados de dedicar-lhes um amor excessivo, por tratá-los como filhos. Isso é considerado um obsceno deslocamento de afetos. Tendo a discordar, quem quer filhos tem filhos, cães e gatos geralmente ocupam outro lugar.

Talvez a melhor representação disso esteja na concepção de Dimons que encontramos em “Fronteiras do Universo”, uma trilogia de que se inicia com “A Bússola de Ouro”, do britânico Philip Pullman. Estes são uma duplicação das personagens, sua “alma de estimação”. Na história, cada humano tem um Dimon (ou Daemon), sua extensão animal, como se a alma caminhasse a seu lado e ainda fosse possível dialogar com ela. O de Lyra, a personagem principal, chama-se Pantalaimon e pode assumir várias formas, mariposa, gato do mato, arminho, morcego, mudará conforme a necessidade. Quando ela crescer, sua personalidade tendo atingido uma forma mais definida, o mesmo ocorrerá com ele que assumirá uma identidade estável, sua melhor tradução.

Oriundo da mágica Oxford, Pullman lecionou lá como seus mestres Carroll, Tolkien e Lewis, mas encontrou um nicho de fantasia próprio. Conseguiu dar corpo novo a um recorrente aspecto do mundo mítico: as nossas metamorfoses como animal. Em muitas sociedades antigas os animais eram pensados como seres de outra cultura, não como natureza, tais como nós os concebemos. Imputam-lhes linguagem e credos, assim como atributos mágicos específicos a cada espécie. Conservamos algo dessa visão mágica, por isso o animal se presta para metaforizar o caráter e predicados que supomos ter.

É dessa ordem a relação que estabelecemos com nossos animais de estimação, cujo maior mérito é estimar o dono. Se são tratados como filhos, o são somente num aspecto da parentalidade, aquele no qual o filho é uma extensão do narcisismo dos pais: “‘Sua Majestade o Bebê’, como outrora nós mesmos nos imaginávamos.” , já dizia Freud.

O excessos de zelo com os animais de estimação parece ridículo aos que estão fora da cena. Mas quando problemas de saúde os afetam, seus donos apresentam um genuíno sofrimento, que aprendi a jamais subestimar. Da mesma forma, a morte de um animal de estimação arrasta consigo uma parte de nós, afinal, não dizem que os animais se parecem aos donos?

Por essa função de duplo que o animal ocupa, comemoro quando um paciente passa a estimar um para chamar de seu. Dialogar com essa criatura, adivinhar seus desejos e necessidades, é uma experiência amorosa que funciona melhor que muitos anti-depressivos. Se necessário use, não tem contra-indicações, além de que sempre é bom descobrir a cara de nosso Dimon. O meu é um Bulldog Francês ancião, cujos olhos enormes e dóceis mascaram uma natureza insubordinada. Meu número.


Publicado na Revista Vida Simples, edição de outubro

Do tempo das águas turvas

21 de novembro de 2012 0


“País de mestiços, onde branco não tem força para organizar um Ku-Klux-Klan é país perdido para altos destinos”. Publicado na revista Bravo, edição 165, o trecho acima faz parte de uma carta enviada por Monteiro Lobato para um destinatário tão entusiasta da eugenia quanto ele próprio. Antes de ser ventilado o racismo de Lobato, lembro de ter enfrentado um constrangimento pessoal por suas posições.

Tinha o hábito de ler suas histórias para minhas filhas pequenas. Nos deliciávamos ao vê-lo trazer para nosso quintal um exército de personagens clássicos. O ogro verde Shrek, nascido no século seguinte, foi muito elogiado por mixar e recriar os contos de fadas. Só que no Brasil já estávamos habituados a essas paródias graças à irreverência de Lobato. Peter Pan, o Gato Félix, anjos e seres mágicos da mitologia, da literatura e do folclore confraternizam no Sítio do Picapau Amarelo. Era empolgante essa mestiçagem na ficção, algo que aparentemente ele não aprovava na vida real.

Quando apareceram expressões inaceitáveis alusivas à Tia Nastácia, minhas filhas se revoltaram e perderam o entusiasmo pelo Sítio. Acabaram reincidindo, não há menina brasileira que tenha crescido alheia às reinações de Narizinho. Aliás, é bom lembrar que ela casou com o príncipe peixe do Reino das Águas Claras sem nenhum preconceito! Essa pequena crise doméstica deixou-me claro que hoje banhamo-nos em outras águas, bem menos turvas.

Nosso tempo não perdoa o racismo. Hoje é inaceitável a incoerência de valores entre vida pessoal e obra. A hipocrisia, embora eterna, perdeu espaço. Como valorizar algo feito por aqueles que a história condenou? É sempre bom lembrar que os campos de extermínio nazista derramavam sua fumaça fétida sobre as comunidades que viviam coladas a eles. Como era possível àquela gente conviver com esse horror? Condenando Lobato ao ostracismo, banindo suas obras, julgamos que nada se aproveita de alguém assim. Seria o mesmo que condenar todo o legado cultural da população da Alemanha e da Polônia pelo que promoveu. O julgamento é justo e necessário, mas separar o joio do trigo vale a pena. Principalmente por que as crianças precisam saber que o autor genial, assim como o cidadão vizinho ao campo, eram pessoas comuns como nós. Eles cometeram muitos erros e, mesmo hoje, nenhum de nós está livre de imitá-los. Covardia é furtar-se a esse debate com filhos e alunos. A propósito, ontem foi o Dia da Consciência Negra, data pensada para lembrar das atrocidades que somos capazes de cometer.

Charadas ambulantes

07 de novembro de 2012 0

Conheço um senhor para quem o essencial na vida se resume a um rádio de pilhas. Precisa acompanhar os noticiários para controlar as transmissões extraterrestres que falam a seu respeito. Isso é tudo o que quer da vida, não cobiça carro, apartamento de cobertura, TV com HD, Apple, Nike. Apreciaria ter com quem conversar sobre suas preocupações, isso basta.

Há aqueles cujos objetos preciosos cabem num saquinho de plástico que carregam sempre consigo. Dentro tem papéis rasgados, recortes de jornal, panos sujos, tiras, cadarços, alguma comida, pedaços de objetos. Cada uma dessas posses possui significado para seu dono, mas também pode ser descartada a qualquer momento. É gente sem nenhum apego.

Outrora ditos loucos de rua, hoje são considerados “portadores de sofrimento psíquico”. São também denominados de psicóticos e outras classificações científicas para os encarregados de sua saúde mental. Indiferentes à nomenclatura, andam por aí envoltos em sua nuvem. Gesticulam nas calçadas, discursam para seus fantasmas, o olhar nublado raramente pousa nos passantes. Sabem parecer zumbis: andando no meio dos carros sem notar o perigo. Seguido estão bêbados, o álcool lhes adormece o delírio, a fome, as dores.

Sempre queremos tantas coisas, temos desejos sempre maiores do que as posses, por isso não há nada mais incompreensível do que esses franciscanos sem fé. Até o trombadinha, o ladrão, parecem mais naturais do que o maluco indigente: com esses ao menos partilhamos os objetos de cobiça. Já o mendigo enlouquecido rouba-nos as certezas, indiferente ao que consideramos essencial. Ele é uma charada que nos assalta, uma provocação involuntária.

As vezes bate um desânimo, um cansaço de lutar tanto, até as vitórias ficam sem sentido. Não é raro, entre os ditos normais, que se fantasie com desistir de tudo, com uma vida minimalista. Temerosos dessa vacilação, exilamos os que nada têm, nada querem, nada guardam. Eles, fazendo parecer opcionais os caminhos que acreditávamos ser naturais, nos despertam angústia.

De que (não) necessita gente que veraneia na calçada? Que trama encenam suas vozes, as imagens do seu delírio? O que dizem esses que falam estranho na nossa língua? Pensamentos e atitudes inusuais estremecem o que consideramos óbvio. Toda diferença traz novos paradigmas: cegos ensinam a escutar, deficientes auditivos tornam os gestos mais eloqüentes. Loucos indigentes questionam nossa necessidade de acumular cacarecos. O encontro com diferentes formas de perceber e compreender é como viajar, sem avião, sem drogas. Recomendo.

Maduros, não caindo.

28 de outubro de 2012 0

Manchetes aleatórias de jornal: “idoso(a) é atacado por ladrões”, ou “idoso morre num acidente”, “idoso é suspeito de assassinato”. Para minha surpresa, lendo a matéria descubro que o idoso em questão tem ao redor de sessenta anos! Não estou pronta para me considerar uma idosa em dez anos.

Para um jovem repórter de vinte anos, tudo depois dos cinqüenta é a antecâmara do fim, então tanto faz. Não o recrimino, todos ficamos confusos para entender o que é mesmo um velho. Há o preconceito social, velhice é aquilo cujo nome não se deve mencionar, como se invocasse um mal. Mas também a confusão é propiciada porque a fase considerada “terceira idade” (quais são mesmo as duas primeiras, não há muito mais?) tornou-se muito longa e as pessoas amadurecem e fenecem de formas díspares.

É similar ao que ocorre na infância. Existem crianças de todos os tamanhos e diferentes graus de amadurecimento respondendo pela mesma idade. O crescimento passa por épocas de aceleração, outras de estagnação. Uns funcionam aos trancos, por arranques, outros numa linha contínua, há ainda os que desabrocham do dia para a noite. A juventude e a idade adulta são as épocas mais uniformes da vida em termos de imagem corporal. Desde que se “bota corpo” até que os “enta” começam a se empilhar somos muito parecidos. É difícil saber se alguém tem vinte ou trinta e tantos. Depois disso, ficamos desiguais como as crianças.

Existem sexagenários, septuagenários e octogenários de todos os matizes. Tirando um que outro achaque e alguns médicos a mais na rotina, há hoje nessa fase muita gente produtiva, independente, bonita. De mesma idade, há os que cedo se acovardam, se isolam, comem e dormem frente à televisão, vivem para a doença e esperam a morte.

Em respeito a esses cidadãos vividos e vivazes, e a nós mesmos, talvez devêssemos criar uma nomenclatura mais complexa para a dita terceira idade. Gostaria do direito às etapas. Começaria, aos sessenta, por “adultos tardios” (assim como existem os “jovens adultos”, em inglês usam “older adults”). “Maduros” também é bacana, dá idéia de finalmente estar no ponto. Depois, talvez “septuagenários”, ou “idosos principiantes”? Aos oitenta finalmente aceitaria ser considerada idosa, para que as limitações do meu corpo fossem respeitadas com direito à acessibilidade e uma rotina mais pausada. Os argentinos têm palavras simpáticas: “maduros” para os que recém começam a sentir o pior da idade, “gente grande” para os que já chegaram lá. Aceito sugestões.

A infância, cuja valorização social tem poucas centenas de anos, já possui uma série de palavras para descrever seus processos. O mundo nunca esteve tão velho, mas a maturidade ainda não recebeu a mesma consideração. Viver mirando-se numa patética juventude eterna nos impede de usufruir da experiência. Nomear, classificar, estudar, servem para aceitar e, quem sabe, usufruir da sabedoria daqueles que talvez tenham aprendido algo com a vida.

Confissões de uma Centopéia

27 de outubro de 2012 0

Quando jovem adorava histórias de pioneiros americanos e sua vida difícil. A compra de um tecido, de uma fita, um instrumento, uma boneca, eram ocasiões raras e comemoradas. Aquela vida espartana, em cujas páginas gostava de me aninhar, parecia valorizar os objetos com os quais se convive, eles precisavam de muito menos coisas que nós. Sentia o aconchego da justa medida, de um tempo em que se era livre da necessidade de consumir. O vasto acesso a uma infinidade de objetos cansa: o que parecia possibilidade torna-se compulsão, é o feitiço que acaba dominando o feiticeiro.

Possuo muito mais sapatos do que necessito: fosse uma centopéia, estaria abastecida. Certa vez, discutindo o porquê dessa fascinação por calçados com uma amiga, ela observou: o sapato é a única peça do vestuário que mulheres de qualquer silhueta podem comprar! Serve para todas, sempre cai bem, sejamos mais ou menos afortunadas pela beleza. Se a democracia pédica é uma realidade, conclui-se que, mais do que de sapatos, gostamos é de poder comprar.

Homens trocam carros que ainda estão ótimos; os celulares são os sapatos dos adolescentes; crianças acumulam tantos bonecos ou carrinhos que se atrapalham para brincar; idosos são vítimas dos canais de compras. Uma amiga que vivia com os pais velhinhos tremia cada vez que soava o interfone, alguma encomenda estapafúrdia estava chegando!

Independente do número que se veste, idade ou sexo do consumidor, a publicidade sempre tem algo a nos oferecer. Sereias cujo canto nos fascina, comerciais e lojas parecem saber como traduzir nossos desejos, sempre tão difíceis de compreender, em objetos passíveis de comprar. Nunca sabemos bem o que queremos ser ou ter: a quem, como e quando amar, como trabalhar, como descansar, de quais prazeres usufruir, como fazer para ser admirados. A pergunta do gênio da lâmpada é sempre angustiante: quais seus desejos? Em termos de consumo, tudo isso fica fácil de definir: as crianças, os amigos secretos e parentes são instruídos a pedir algo em datas festivas, ocasiões em que felicidade e amor se materializam, parecem compráveis. Por isso nos frustramos tanto.

Consumir é uma satisfação que pede sempre mais. Como todas as ilusões, essa idéia de que, mesmo por um instante, é possível saber exatamente o que nos faz falta acaba sendo um alívio provisório. Mas como um vício, só funciona se não parar. Quando o objeto está em mãos, o vazio já se instala. Compras só adiam a insatisfação, que ruge mais forte quando provocada. O consumo é o ópio do desejo, entorpece o que realmente nos move. Enfeitiçados pelo canto das compras, ignoramos nossos verdadeiros desejos. Estes, só se expressam se tivermos coragem de enfrentar, com angústia, a pergunta verdadeiramente genial: afinal, o que você quer?

Publicado na Revista Vida Simples, edição de outubro

Moonrise Kingdom

24 de outubro de 2012 0

Desta vez não há bruxas, ogros, príncipes malvados, ajudantes mágicos, animais falantes, fadas madrinhas, malvados. Mesmo assim o clima de Moonrise Kingdom (de Wes Anderson, 2012) é de conto de fadas. Na falta de personagens fantásticos, há muita aventura: perseguições, lutas e perigos, mas o verdadeiro combate é contra os ressentimentos e frustrações que impedem as pessoas de se amarem e conectarem.

Os heróis são duas crianças apaixonadas. É um amor ainda alheio ao erotismo, o que os move é a mútua compreensão contrastante com a surdez dos que os rodeiam. Os adultos evidentemente não entendem, muito menos aceitam, o caso da menina revoltada com o escoteiro órfão e enjeitado, ambos com 12 anos. Por isso fogem numa jornada pela ilha onde vivem, arrastando atrás de si um exército de escoteiros, a família da menina, o policial secretamente apaixonado pela mãe dela, a assistente social que quer internar o garoto. O casal leva consigo o que considera essencial: ele sua parafernália de escoteiro, garantindo virilmente bem estar e orientação; ela uma mala de livros de fantasia e uma vitrola com discos, que sabe usar habilmente para tranqüilizá-los e animá-los sempre que necessário.

Nas crianças admiramos a autenticidade, são espíritos ainda frescos, a vida só lhes oferece possibilidades. É como se o crescimento nos condenasse a uma estreiteza hipócrita, o que não deixa de ser verdade. A trama do filme aposta nessa idealização da infância, mas também nesse amor de principiantes. O amor costuma ser um dos nossos maiores investimentos, é nele que depositamos as maiores expectativas de plenitude e satisfação, as ilusões mais vãs. Do amor só queremos tudo.

Não levamos fé em muita coisa neste tempo sem utopias. Afogados em desesperança, tememos como nunca a solidão, esfinge que faz perguntas irrespondíveis. Apaixonar-se ou refugiar-se em sonhos, como fazem os artistas e as crianças quando brincam, são alívios fundamentais. Síntese de tudo isso, ao fugir em nome do seu amor, esses protagonistas infantis carregam a todos nós em direção aos tesouros afetivos que ainda conservamos.

Como já ocorrera em outros filmes de Anderson (Tenenbauns, Sr. Raposo, Darjeeling), os adultos são muito neuróticos, mas guardam certa graça com suas excentricidades. São atrapalhados mas esperançosos e nunca desistem uns dos outros. Esta, que considero sua obra prima, não podia ser mais otimista nesse sentido. Concordo com ele: somos bem maluquinhos, mas se conseguirmos nos conectar tudo pode acabar num final feliz. Mesmo que não seja para sempre.




O Facebook e o cérebro (por Mário Corso)

17 de outubro de 2012 0

Esses tempos escutava as aventuras de um jovem médico voluntário no Xingu. A barreira da língua era um empecilho, a lógica das queixas, e as formas inusuais de expressar o sofrimento físico também. Mas o que realmente o desafiava era como manter uma ficha médica, como aproveitar as informações dos colegas que já haviam passado por lá. Por exemplo: a ficha indicava um senhor de aproximadamente 60 anos, mas lhe traziam uma criança. Como? Simples, lhe disse o intérprete, o avô tinha um nome muito respeitado, e como gosta muito do neto, deu o seu nome a ele. Logo, agora o fulano é essa criança. O avô tomou outro nome. Como que o intérprete sabe? Ora, todos sabem, responde o intérprete. Essa troca não era um caso isolado, portanto quem quiser fazer uma ficha médica dessa população vai ter que pensar numa outra lógica, e esqueça as referências espaciais, eles são nômades.

Para nós, a troca de nome beira o inconcebível pois acreditamos que devemos, de alguma forma, nos manter iguais a nós mesmos vida afora e nosso nome faz parte disso. Aliás, mudamos tanto durante a vida que é difícil saber qual é o núcleo que responde pela nossa identidade. Em outras palavras: o que é que muda e o que permanece inalterado em nós é uma pergunta sem resposta fácil.

O exemplo acima não é único, na maior parte das sociedades tradicionais os nomes variam ao longo da vida. Geralmente nos ritos de passagem o indivíduo ganha um novo nome, mas nem só: nascimentos e mortes também costumam também suscitar novas denominações nos parentes. Ou seja, um indivíduo pode se chamar de diferentes formas durante a vida. Quem vive entre eles sabe a lógica que preside a troca e acompanha as mudanças. Essas alterações constantes, aliadas às complicadas (em comparação às nossas) relações que regem os casamentos, de quem pode casar com quem e de quem não pode nem se aproximar, ou ainda quem pertence a cada clã ou sub-clã e a que linhagem o recém-nascido pertencerá, constituem um complexo enredo social que exige bastante do cérebro.

Mas lembro essa questão a propósito duma recente pesquisa: os cientistas da University College de Londres divulgaram os resultados de uma investigação mostrando uma correlação entre certas áreas do cérebro e o número de amigos que as pessoas possuem nas redes de relacionamento virtuais. As pessoas com maior número de amigos possuem certas áreas cerebrais mais desenvolvidas. Certo, mas o que determina o que? Eles tem mais amigos por ter essa área mais desenvolvida, ou possuem essa área mais desenvolvida pelo exercício da amizade? Os pesquisadores pararam por aqui. Certamente uma nova pesquisa partirá dessa pergunta. Dada a plasticidade adaptativa do cérebro, apostaria no uso, mas isso é um palpite, teremos que esperar um outro estudo.

O que sim poderia ser considerado é um outro dado dessa questão. Do ponto de vista histórico o número de pessoas que conhecemos durante a vida mudou muito. Vivemos numa sociedade individualista, em contato com muita gente, mas com poucos deles temos laços significativos. Sabemos e temos informações sobre nossa família, que é cada vez menor, e de alguns amigos eleitos. Freqüentamos muitas pessoas, mas de poucas retemos informações como o nome, filiação e um trecho de sua vida. Já não gastamos muita energia arquivando nomes de pessoas aleatórias, suas qualidades, seus defeitos, sua história. Num passado não tão distante isso era ao avesso. As sociedades tradicionais tinham a vida social em grande conta e as informações sobre os indivíduos que delas faziam parte eram cruciais.

Acredita-se que, do ponto de vista evolutivo, a forma de funcionar em relação aos parentes, às amizades, às pessoas que conhecíamos e à importância que damos a elas, certamente sofreu mais influência desse momento histórico anterior ao nosso, pois somos – a sociedade moderna individualista – uma exceção recente no longo percurso do homem.

Nosso cérebro foi moldado, e assim funcionou durante a maior parte do tempo, em sociedades tradicionais, ou seja, conectado a uma extensa rede social, onde sabíamos tudo de todos. Mais ainda, se considerarmos que essas sociedades têm um funcionamento distinto em relação aos mortos, pois eles não são esquecidos, são honrados e lembrados em rituais, somam-se essas referências além do carrossel de nomes dos vivos. No passado, as gerações mortas também contavam no acervo da memória, das relações que precisavam manter-se articuladas, constantemente evocadas. Logo, nosso cérebro evoluiu guardando um grande número de nomes, agregados ao lugar social e à origem de cada indivíduo, pois as sociedades anteriores à nossa davam à trama da vida social suma importância.

Talvez possamos lembrar aos pesquisadores, que “escanearam” o cérebro para essa investigação, que do ponto de vista evolutivo nossa mente pode ser anômala em relação ao que fez a aventura humana. Nesse sentido, nossas capacidades sociais pareceriam atrofiadas se comparadas às sociedades anteriores. Somos introspectivos e solitários, dependemos menos do olhar coletivo, no sentido presencial, do convívio de fato, enfim, do que era a aprovação da aldeia. Esperamos nosso reconhecimento de determinados indivíduos particularmente valorizados, com quem desejamos nos identificar, raramente de todo um grupo.

As redes sociais geralmente despertam um temor difuso em pais e educadores, eles ficam sem saber se aprovam ou não ver seus jovens consumir tanto tempo conectados a ela. Queria contribuir a essa questão colocando um ingrediente: talvez o motivo pelo qual os jovens possuam uma extensa rede social nas comunidades virtuais, seja menos uma novidade, e mais um retorno a uma forma antiga de funcionamento, para a qual nosso cérebro sempre foi apto. Claro, não da mesma forma, mas usando uma capacidade de se situar e sentir-se à vontade numa ampla rede de pessoas com diferentes pesos de significação. Isso se considerarmos do ponto de vista evolutivo. Já do ponto de vista histórico, poderíamos ver algo semelhante: as redes sociais simulam a aldeia, uma comunidade onde todos se conhecem e partilham informações.

O fato de vivermos numa sociedade individualista não quer dizer que não tenhamos saudades das antigas formas de convívio. Quem sabe as redes sociais nos apontem o esgotamento, a pobreza, ou uma insuficiência das formas contemporâneas de estarmos (ou não estarmos) uns com os outros. Seria uma crítica espontânea e ingênua ao individualismo. Enquanto julgamos mal os jovens pelas suposta superficialidade da conexão com seus amigos virtuais, deixamos de ver a profundidade da intenção de criar algo novo, algo vivo, em termos de laço social.

Talvez a minha geração deva deixar a arrogância de lado e perceber que pode aprender com o que os jovens apontam, e que até mesmo possa haver uma sabedoria que nos escapa na troca de nomes dos índios do Xingu. A rapidez dos diálogos e fragilidade da imagem mutante daqueles que se expõem uns aos outros, deixando-se influenciar pelos pares e figuras de referência, reflete indivíduos em processo de transformação, permeáveis aos desafios sociais. Poderíamos supor que nossos jovens hiperconectados estejam buscando caminhos para o resgate dessa herança social, uma retomada da vida em comunidade. Com sorte e muita prática, talvez possamos ver triunfar o exercício da solidariedade e da interlocução que o convívio propicia.

Trilha sonora do passado

10 de outubro de 2012 0

No taxi, o rádio submete à vontade do motorista. Como o assunto era futebol, dissociei. Mas despertei do devaneio por força de um som inusual: a narrativa histérica, em espanhol, de um gol, reproduzida por um programa de comentários desportivos. Escutar um gol em minha língua mãe abriu um arquivo esquecido de lembranças e sentimentos ligados a esse som.

Vivia no Uruguai na década de 60. Seguido ia almoçar na casa de uma espécie de tio, cujo filho ao crescer tornou-se juiz de futebol. Eles acompanhavam as partidas com paixão, os gols eram praticamente uivados pelo locutor. Eu brincava por ali, à escuta dessa trilha sonora que mais de quarenta anos depois me tomou de assalto. O gol em espanhol reavivou a memória de todo um cenário: a imagem borrada da TV preto e branco, um maravilhoso aparelho de fazer soda, a detestável sopa fria de frutas, meu amigo Muki, o cachorro da casa.

São Paulo, para onde me levaram um tempo depois: devo aprender português. Repita: João perdeu o balão, João é um chorão. Lição impossível. Quem chorava era eu: – “nunca vou conseguir falar isso!”. Aprendi, crianças são permeáveis ao som das línguas, deixam-se colonizar. Agora, como canta Caetano em Língua, “adoro nomes, nomes em ã, de coisa como rã e ímã”. O português gaúcho que tive que falar depois me soava rude, hoje é meu tom. Minhas pátrias são os sons das minhas línguas.

Ao falar, letra e música são uma só. Ao ler, recitamos para nós mesmos com ritmo, emprestamos cadência ao texto. A memória auditiva é uma linha direta para o passado. Uma vez reencontrados, os acordes das palavras produzem arrebato, emoção, memórias, como naquele gol. Pelos ouvidos somos seqüestrados para um tempo que não pensávamos que ainda podíamos sentir. Mesmo que não se tenha mudado de país, de língua, possui-se uma “língua mãe”, constituída pelas vozes dos parentes, pelas propagandas antigas, as músicas da época. As expressões verbais da infância e da adolescência soam mais eloqüentes.

Somos datados: o som da língua é nosso carbono 14, só as vozes do passado são sentidas como próprias, autênticas. Essa é uma das dificuldades da longevidade de que nos beneficiamos hoje: como viver tantos novos tempos, que soam tão diferente, sem sentir-se estrangeiros?

Dias atrás, uma amiga falou ao telefone uma expressão em ídiche que não escutava desde que perdi minha avó. Outra avalanche de memórias, arrematadas por mais um som: a gargalhada gostosa daquela senhora que nunca terminava as piadas. Ríamos era dela, que ria às lágrimas e sufocava o final.